CAPÍTULO 3 – A COMUNIDADE DE FALA
3.6 A COMUNIDADE DA MATINHA
A Matinha está localizado a 14 quilômetros da sede do município de Feira de Santana. Como já se expôs anteriormente neste texto, apenas no ano de 2008, tornou- se distrito, pois, antes era um povoado do distrito de Maria Quitéria (antigo São José das Itapororocas). Atualmente, localiza-se na zona rural de Feira de Santana, sendo a sede do distrito de mesmo nome, já que o distrito conta com os povoados Olhos D`Água das Moças, Candeal, Santa Quitéria, Moita da Onça, Vila Menilha, Baixão, Tupi, Alto do Tanque, Tanquinho, Alto do Canudo, Alecrim Miúdo, Jacu, Capoeira do Rosário, Candeia Grossa, Jenipapo e Matinha, a sede do Distrito. 127 A figura seguinte mostra a localização do distrito:
Figura 3: Representação espacial do Distrito da Matinha.
Fonte: IBGE – Base Municipal
127 As entrevistas do Projeto A língua Portuguesa do Semiárido Baiano, que forneceram os dados
Uma primeira observação que deve ser feita acerca da dinâmica sociocultural do distrito é a que já foi feita por Almeida (2005, p.81), isto é, a do limite tênue entre o rural e o urbano nos dias atuais. A autora pronuncia-se acerca do povoado da Matinha da seguinte forma: “Assim, esse povoado mais parece uma área agrícola dentro dessa imensa zona urbana”.
Nesse sentido, cabe salientar que existem, na sede e na zona rural do distrito, escolas de ensino fundamental, postos de saúde, transporte regular que liga ao município sede e um contato muito grande com a cidade, pois os moradores vendem a sua produção agrícola nas feiras de Feira de Santana. Além disso, o distrito encontra-se em um evidente processo de urbanização.
Percebe-se, principalmente na fala de entrevistados jovens, um “conflito” entre o viver urbano e o rural, conforme pode ser visto no trecho seguinte:
A vida é... Fica naquela, né? Naquela dificuldade, você sabe que aqui não tem como você tirar um dinheiro, não tem uma empresa, não tem um... Não tem um meio... um meio de você sobreviver, ter uma vida estável, é naquela né, naquela dificuldade. Você sente falta de tanta coisa que... que num tem. Então é isso, as coisa aqui não é... é assim essa decadência aí, né. Não é brincadeira não. (inf. 1, masc., jovem, curso primário completo).
Indo na mesma linha do que se fez para o município de Feira de Santana nesta tese, ou seja, uma exposição sobre a sócio-história local e regional, convém fazer algumas observações sobre as origens do distrito da Matinha, a fim de se buscar elementos que venham a esclarecer os resultados linguísticos. Algo que se faz a seguir.
As origens da comunidade não é muita precisa. Há estudiosos que a focalizam como de origem quilombola, enquanto outros, como de origem natural, isto é, formado a partir de um agrupamento em torno de uma igreja, algo muito comum na formação de diversos povoados e cidades baianas/brasileiras.
Sé (2009), em seu trabalho monográfico de final de curso de História na UEFS, baseando-se na memória coletiva dos moradores da Matinha, defende que a comunidade é fruto de uma das principais formas de resistência à sociedade escravista no período pós-abolicionista128, o aquilobamento. Contudo, para o autor, seria um quilombo no sentido mais amplo (cf. REIS e GOMES, 1996), muito comum no sertão baiano, inclusive; que não o do exclusivamente modelo palmariano. Esses quilombos do
128 Para Sé (ibidem), mesmo após a abolição da escravatura, os africanos e afrodescendentes teriam
sertão da Bahia teriam sido formados por escravos que escapavam dos engenhos do Recôncavo. Nesse sentido, os pesquisadores que defendem a origem quilombola para a Matinha afirmam que a Fazenda Candeal, extensa propriedade localizada onde hoje é a Matinha, abrigou uma série de escravos fugidios no século XIX. Para esses estudiosos, a fazenda foi, paulatinamente, sendo dividida por seus herdeiros até que uma parte dela, denominada Matinha, deu origem ao Distrito. O nome Matinha faz referência a “Matinha dos Pretos”, a mata onde os escravos teriam se refugiado.
A outra versão para a origem do Distrito faz referência ao cruzeiro erguido na comunidade, por evocação a São Roque, feita por uma antiga moradora da região, a Dona Antônia (ou a Madame da Matinha, como é referenciada por antigos moradores da comunidade), a qual, com muitas posses, ergueu o cruzeiro, para pagar a promessa, no sítio onde seria construída a igreja matriz do Distrito129, a rua da Matinha, apresentada abaixo:
Figura 4: Foto de rua da Matinha
Fonte: http://porsimas.blogspot.com/2010/08/matinha-colbert-na-festa-de-sao-roque.html
129 Para Sé (2009), é a partir do cruzeiro que o povoado passa a ter um núcleo central, que se tornaria mais
O motivo para a promessa feita pela antiga moradora teria sido o surto que atingia a vizinhança no ano de 1920, a peste bubônica: Se a peste não atingisse a região, o cruzeiro seria erguido. Algo que aconteceu em vista da não incidência da peste na comunidade.
A respeito da polêmica acerca da origem do povoado, esclarece-se que, tomando como ponto de partida a dinâmica de vida atual observada na comunidade, os indícios são muito poucos a favor de um possível núcleo quilombola, pelo menos se pensando no sentido tradicional de núcleo de resistência negra.130
Nesse sentido, entende-se, nesta tese, que o distrito da Matinha exemplifica uma comunidade de fala rural não isolada, em que a fala de seus moradores é típica da norma popular brasileira. Entende-se, ainda, que por ser uma comunidade originada numa fase em que a língua portuguesa já estava mais consolidada no espaço brasileiro, as marcas de uma aquisição imperfeita do português, como a que se teve em Helvécia- Ba (cf. BAXTER, LUCCHESI e GUIMARÃES, 1997) são menos perceptíveis.
Assim, acredita-se que deve estar havendo na fala dos moradores da Matinha uma normatização no sentido de aproximar-se dos falares urbanos, como pode ser notado pela extrema valorização que os seus moradores dão aos valores urbanos na comunidade. A respeito disso, cita-se a forma saudosa com que a Missão Rural é lembrada por moradores antigos da Matinha. A Missão Rural foi uma iniciativa do governo federal do final da década de 1940, que levou, para algumas comunidades rurais, médicos, assistentes sociais, educadores em geral, os quais ajudaram a transformar o povoado em uma comunidade com maior organização urbana. Remete-se ao depoimento de Dona Joana, dado a Frederico Sé (cf. SÉ, 2009):
Antes da Missão Rural ninguém conhecia nada, antes da Missão Rural ninguém conhecia nada, o povo andava na Feira era que nem uma raposa amarrada chegava ali na pracinha vendia nas barraquinhas debaixo dos pés de árvore e depois voltava com os cestos de balaio na cabeça e a Missão Rural ensinou muitas coisas à gente.
130 Até hoje, a Matinha não se autoidentificou enquanto comunidade negra rural quilombola (CNRQ)
3.7 SÍNTESE: CONSIDERAÇÕES PARA UMA SOCIOLINGUÍSTICA HISTÓRICA