TEXTO 2 – Sintonia genuína.
3.6 A COMUNIDADE DISCURSIVA
Ao analisar o discurso produzido em manuais escolares35, Maingueneau (1997b, p.62) percebeu que a enunciação permitia estabelecer uma relação de “retorno do discurso sobre o mundo em discurso sobre a escola”, fazendo com que a “enunciação remetesse a ela mesma no momento em que parecia apagar-se por trás de um uso referencial”. O autor é levado a afirmar que a cena enunciativa construída nos manuais, na qual um enunciador que se identifica com a França, a Pátria-Mãe, a República ... que se dirige a seus filhos, pequenos franceses, mais do que ser uma enunciação pedagógica “se constitui também em sua legitimação: a instituição escolar autoriza-se a si mesma através do que profere”. Ao analisar o tratamento dado ao tema da colonização nesses manuais, o autor explicita melhor a questão:
Ela [a colonização] tende a ser reabsorvida ao identificar a França colonizadora com um professor e o colonizado com uma criança que, graças a essa mediação, poderia chegar à racionalidade. É isto que é tematizado insistentemente pela figura da “escola para as colônias”, isto é, das escolas abertas nas colônias. Da mesma forma, referir que a entrada dos gauleses na civilização romana constitui “progresso”, consiste simplesmente em dizer que os romanos abriram escolas, o que é ilustrado, nos livros de história da França, com imagens de escolares gauleses indo à aula, de pasta na mão (MAINGUENEAU, 1997, p. 63-64).
A análise do autor supõe a existência de uma radicalidade, pois esta formação discursiva “destinada a assentar na população a recém-nascida III República” faz muito mais do que cumprir um papel instrumental. É preciso investigar o fato de que
Legitimar a República é, na realidade, legitimar sua escola e a República, [que] “por sua vez, retira sua legitimidade do fato de ter fundado a necessidade desta enunciação escolar. O discurso dos manuais se constrói sobre uma fronteira, a que separa os predicados “positivos” dos predicados “negativos”: na criança, no colonizado, no reacionário, etc., misturam-se a inércia, os preconceitos, a superstição, o ilogismo, etc., subsumidos sob a categoria da “obscuridade”, enquanto o espaço republicano destina traços opostos às figuras que dele participam, figuras afetadas pela “clareza” (da Razão): ora, a instância mediadora, o ponto de passagem de um registro para outro reside justamente na escola republicana: através dela o colonizado será civilizado, o camponês
rotineiro abrir-se-á ao progresso. (...) Em suma, nestas condições, compreende- se que a escola, não importa o que diga, só fala dela mesma já que, através de uma performatividade generalizada, sua enunciação realiza o que ela diz pelo simples fato de dizê-lo (MAINGUENEAU, 1987, p.63).
Partindo da idéia postulada pelo autor, de que a enunciação realiza o que diz pelo próprio fato de que diz, que acabo de referir, posso começar a propor um funcionamento enunciativo para a VOCÊ SA.. Assim como no discurso da Escola da República, o discurso levado a efeito na revista VOCÊ SA. também vai sendo construído sobre predicados positivos e negativos, que vão sendo agrupados em dois grandes blocos, a saber, flexibilidade e rigidez.
A partir deles é possível construir o antagonismo entre a formação discursiva assumida pela revista, cujas características principais são a flexibilidade, a mobilidade e a mudança constante, e uma outra em que essas características não eram valorizadas36. Ou, dito de
outro modo: é a forma pela qual duas formações discursivas se confrontam.
Nos textos divulgados pela revista, vê-se a evocação da individualidade, das particularidades de cada um, da marca do indivíduo, como aquele que faz a diferença porque fez o que ninguém fez, ou porque pensou o que ninguém pensou. Não importa se os indivíduos, ao final, saem vitoriosos ou se fracassam, importa é que não esperaram por ninguém e que têm iniciativa, coragem e ousadia para mudar a própria vida, ainda que isso implique, por exemplo, o abandono de uma situação profissional confortável ou um sentimento permanente de instabilidade. Exemplo disso é que os entrevistados, geralmente, são apresentados a partir de sua personalidade (determinados, descomplicados, teimosos etc.) ou pelo tipo de vida que levam (madrugadores, saudáveis, elegantes etc.). O modo como se relacionam na vida profissional e pessoal, o modo como encaram a vida de uma forma geral não são, assim, dados acessórios, mas participam ativamente na configuração do discurso.
Em suma, a revista divulga e massifica um discurso à sua própria maneira. Ela não se limita a dizer algo sobre, a descrever referencialmente o mundo das relações do trabalho, mas assume uma posição em relação ao discurso, à medida que submete a enunciação a um certo tratamento. Não são somente suas escolhas (do tema, do conteúdo, da argumentação), ou o fato
de tratar esparsamente de suas contradições, que contam na leitura a ser feita do discurso veiculado pela revista. O modo como ela intervém está também integralmente de acordo com a coesão semântica do discurso, já que o sistema de restrições semânticas próprias de um discurso não se limita ao domínio textual, mas determina igualmente o funcionamento dos elementos não- verbais que estão presentes numa prática intersemiótica. Na perspectiva de Maingueneau (2005a, p. 148), o enunciado, tanto quanto um quadro ou uma música “estão submetidos por uma prática discursiva a um certo número de condições que definem sua legitimidade”.
Na enunciação de VOCÊ SA., é relevante que essas características não se restrinjam somente àquilo que diria respeito, vou dizer assim, às condições objetivas de uma formação profissional, isto é, que, por exemplo, muito daquilo que se espera dos novos profissionais não se aprende na escola, e seja de difícil mensuração. A mudança esperada é interna (daqui para a frente você vai ter de escolher: ou mudanças profundas ou morte lenta. O problema é que essas mudanças profundas têm de acontecer dentro de você37), e, até onde sei, ainda não existem cursos que ensinem perseverança, ou que tornem alguém corajoso ou criativo.
Essa constatação é bastante significativa quando se avalia o funcionamento da revista como o de um “manual”, sempre mais preocupado em treinar seus leitores do que propriamente em divulgar as novas tendências do mercado de trabalho. Aliás, atuação que a revista não recusa, como se viu na análise dos editoriais no item 3.1, deste capítulo. Sob essa perspectiva, é preciso pensar nas estratégias utilizadas por VOCÊ SA. como mecanismos pedagógicos com os quais se estabelecem processos de subjetivação, o que farei mais adiante, no Capítulo 4.