Gráfico Povos Indígenas no Chile
CAPÍTULO 3 A comunidad indígenamapuche contemporânea Dinâmicas e sensibilidadesem Tranaman
3.8 A comunidade e o trabalho comunitário em Tranaman
Os trabalhos coletivos ou da comunidade, como são chamados pelas pessoas em Tranaman, são realizados nas terras de posse comum, quer dizer, naqueles pedaços de terras que foram recuperadas em 2000 e em 2005 e que têm sido destinadas pela comunidad indígenapara esses fins.O resto das terras de Tranaman, ou seja, aquelas provenientes dos títulos de merced estão como posse individual privada, depois de ter sido solicitada sua divisão em diferentes momentos ao longo dos últimos 100anos.
De que modo opera o trabalho nas terras comunitárias? De acordo com os ciclos agrícolas, o grupo decide qual será o produto a ser semeado. O que tenho observado é que o mais frequente é a presença de trigo, batata, grama para elaboração de fardos para alimentar os animais na temporada de inverno e, em certas ocasiões, a decisão tem sido deixar descansar as terras para uma próxima temporada com a finalidade de não esgotar seu rendimento.
A eleição e a decisão do que será feito acontecem sempre no espaço das reuniões da comunidad indígena, contudo, existem conversações sobre o tema também no nível familiar que serão relevantes para dar argumentos que orientem a decisão dos sócios. Os elementos que pesam na hora da decisão passam, em primeiro lugar, pelo que cada família tem plantado nos terrenos familiares, pela qualidade da semente de que dispõem, pelos resultados da colheita na temporada anterior e, em alguns casos, também pela orientação técnica de profissionais da área agrícola e pela existência de algum projeto governamental que, de acordo com os interesses do mercado, privilegie algum tipo especial de cultivo para esse ano em particular.
Porém, parece-me importante chamar a atenção para a ideia de que a decisão está orientada, em primeiro lugar, pela experiência prévia das famílias e pela lógica que privilegia a noção de diversidade dos cultivos, já que se as famílias têm batata em seus terrenos, optarão por um cultivo diferente nas terras comunitárias. Desse modo, garantem não duplicar os produtos, e sim ampliar sua gama para conseguir passar o ano sem faltas, isto é, sem ter que comprar nos mercados locais o produto faltante. Uma vez que este ponto tiver sido decidido, deve ser definida a data em que se realizarão os trabalhos. Segundo o observado, a data está habitualmente marcada tanto pelo tempo do ciclo agrícola quanto por fatores climáticos, assim como também pela disposição de maquinaria agrícola para executar os trabalhos38.
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Esse ponto é menos complicado, hoje, devido ao fato de que a comunidade conseguiu comprar maquinaria de primeira tecnologia para os trabalhos agrícolas com recursos provenientes de um programa gubernametal. Desse modo, eles têm à sua disposição máquinas agrícolas e outros acessórios específicos para a realização das tarefas no campo. Antes disso, eles deviam combinar com outras comunidades ou com particulares a contratação do aluguel de maquinaria e de um motorista por horas e por dias para realizar o plantio ou a colheita.
O presidente da comunidad indígena observa curioso a máquina agrícola adquirida na época, por meio de um projeto gubernamental.
Uma vez decidida a data, vem a distribuição das tarefas. É bom ressaltar, neste ponto, que toda essa discussão é guiada pelo presidente da diretoria, quem vai matizando com as intervenções, visões e comentários da assembleia presente.
A duração dos trabalhos coletivos é de dois a três dias para uma extensão de dois hectares, aproximadamente. Durante esses dias, o ritmo de vida das pessoas e suas famílias se vê alterado. Na verdade, a dinâmica de Tranaman muda, pois se suspendem, momentaneamente, as atividades da ordem familiar para colocar em primeiro lugar o trabalho do coletivo.
É um espaço de festividade social ampliada, no qual,além do trabalho propriamente dito, se conjuga o encontro social. Cada sócio, pagando uma quota para a compra de carne – que será o prato forte da comida durante esses dias –, tem a possibilidade de convidar uma pessoa mais da sua família, independentemente de que esta seja ou não-sócia da comunidad legal.
As tarefas nos trabalhos coletivos implicam a responsabilidade tanto de homens como de mulheres. Como acontece também por ocasião da celebração do ngillatun, as pessoas têm que se transladar até as terras
comunitárias que vão ser semeadas ou já prontas para a colheita. Esse é ponto de encontro durante o tempo que durarem os trabalhos. O lugar é preparado de forma que alguns bancos e mesas fiquem à sombra, como o fogo de chão, onde se preparam os alimentos.
A distribuição das tarefas feitas durante asreuniões está bem demarcada. Os homens devem se encarregar dos trabalhos agrícolas, e as mulheres estarão a cargo de preparar a comida.
Fotografia tirada em 2005. Algumas mulheres da comunidad indígena troçam a carne para o preparo da comida das pessoas que participam da colheita de trigo nas terras comunitárias.
É uma exigência da comunidad indígenaque todas as pessoas envolvidas39 na semeadura ou na colheita (segundo corresponder)
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Falo de pessoas envolvidas nos trabalhos, pois pode acontecer que nem todos os sócios da comunidad indígena tenham decidido formar parte das tarefas agrícolas nas terras comunitárias. Explico-me. Realizar um plantio de qualquer alimento que for implica para os sócios e suas famílias um investimento em dinheiro, trabalho e produtos que não é pequeno. Geralmente, a diretoria, baseada em certos cálculos, define uma taxa com que cada sócio deve contribuir. Esse dinheiro é destinado ao pagamento do motorista da maquinaria, à compra de sementes e de fertilizantes para cuidar da semeadura e para comprar um ou dois animais, dos quais se obterá a carne da comida que seráconsumida durante os dias de trabalho. Ouvi de parte de várias pessoas que, às vezes, essa taxa é alta para as condições de uma família. Nesse caso, algumas
devem estar presentes no lugar durante o tempo dos trabalhos e ajudar nas tarefas. De fato, o secretário da comunidad indígena deve fazer registro de quem participou e quem não, quer dizer, de quem veio colaborar nos trabalhos e quem não. Essa medida é conhecida pelos comuneros (membros da comunidad indígena)e, muitas vezes, eles fazem umlembrete ao secretário para que não se esqueça de deixá-los presentes na atividade.
Segundo observei, trata-se de um mecanismo em uso faz um tempo, mas que, pelo menos nos últimos dois anos, vem se acentuando, e sua aplicaçãoestá sendo cada vez mais rigorosa. Não se trata apenas do fato de o secretário regulamentar, através do registro, a assistência aos trabalhos coletivos. Essa prática nos indica algumas questões interessantes de serem pensadas. De um lado, tem a ver com uma medida que é aplicada aos sócios da comunidad legal e que se une a um conjunto de outros mecanismos (que apresento em breve) mais ou menos do mesmotipo, que chamam a atenção pela sua aparente tendência controladora de parte da comunidad legal em relação à ação dos sujeitos. Ela constitui e faz parte da regulamentação interna que a comunidad indígenacriouna prática,ao longo do tempo, e que, embora não esteja inscrita ou registrada num regimento, é reconhecida pelos integrantes da comunidad legal.
De outro lado, o registro de assistência tem como consequência que quem não aparecer e participar dos trabalhos receberá uma sanção por parte da diretoria. Nesses casos, o ato de desaprovação ocasionará que, no momento em que a comunidad indígena fizer a distribuição da colheita, a pessoa que se ausentou dos trabalhos receberá um número menor ou quantidade inferior da produção. De alguma forma, a premissa que opera é que, se a pessoa trabalhou menos, deve também receber menos, ou seja, ganhar em proporção ao investimento do trabalho que fez. Em termos práticos e concretos, se o total da colheita nas terras comunitárias foi de 100 sacos de trigo e participaram dos trabalhos 50 sócios, cada um deve receber dois sacos. No entanto, se a pessoa não se apresentou de maneira regular na colaboração das tarefas, receberá menos, um saco ou meio saco, dependendo do tempo real destinado ao trabalho e da avaliação da diretoria.
Isso é sempre tema de conversa e discussão entre os sócios no momento de realização dos trabalhos e depois deles. Todos devem ter pessoas optam por não participar, nessa ocasião, dos trabalhos que implica a colheita ou a semeadura, ficando em aberto a possibilidade de participar num próximo ciclo agrícola.
mais ou menos as mesmas responsabilidades. Dito em outras palavras:é necessário que os trabalhos e os frutos que dele se obtenham sejam distribuídos conforme o envolvimento do sócio nas atividades que o trabalho coletivo implica, e na concepção das pessoas essa distribuição deveria ser igual para todos.
Quando uma pessoa da comunidad legal, comprometida com os trabalhos coletivos, tem consciência de que, por outros compromissos adquiridos, não poderá participar desses trabalhos, pode enviar um substituto, uma pessoa que possa assumir as tarefas nos trabalhos da comunidad indígena. Geralmente, essa pessoa é um parente, filho, neto, sobrinho, esposo ou alguém com que a pessoa e sua família mantinha relações sociais ou econômicas anteriores. Constatei, neste último caso, que, dependendo do grau de proximidade da relação, a pessoa pode pedir um pagamento, e esse pagamento pode ser em dinheiro, mas, ao se tratar de colheita ou semeadura, o que prevalece é a troca do trabalho pela troca do produto. O parente também recebe algo em troca, porém,o sentido da troca, nesse caso, é diferente, pois a medida do pagamento pode não ter relação com o tempo e os esforços investidos na realização das tarefas. No caso de não haver parentesco entre as pessoas, deve existir uma equivalência ou uma proporção entre o trabalho realizado e o recebido comopagamento.
É relevante destacar que essa prática funciona, também, para outro tipo de atividades organizadas pelacomunidad legal. Algumas são as próprias reuniões mensais e extraordinárias. Observei que sempre existe uma grande preocupação, assim como interesse dos sócios,por assistir a esta atividade. Com chuva e com frio, sob 30 graus de calor, caminhando vários quilômetros, às vezes com muita dificuldade, em especial as pessoas mais velhas, mesmo assim, sob essas condicionantes, os sócios e as sócias fazem o esforço por cumprir o compromisso de estar presentes e participar ativamente das reuniões. O que os motiva? Parecia-me simplório demais pensar que fossem os benefícios e dividendos econômicos que podem receber da sua inclusão na comunidad legal o que os fez se inscrever como sócio e que os faz participar sistematicamente das atividades, que, diga-se de passagem, não são poucas.
Como indicado, observei que a diretoria tem um registro de assistência dos comunerosnas reuniões. Quando eu quis indagar sobre estas questões tanto às lideranças quanto aos sócios da comunidad legal, percebi que existia todo um esquema montado para regulamentar a continuidade e a regularidade da participação das pessoas nas atividades da comunidad indígena. Reitero, quem quisesse ser parte da comunidad
indígena devia, de alguma forma, estar permanentemente lutando por manter seu lugar, em outras palavras, construindo sua categoria de sócio através da realização de certas atividades. Ser sócio não é, nesse sentido, uma qualidade fixa que se ganha e se mantém. Ser parte da comunidad legal requer também ser alimentado com o cumprimento de certas exigências que outorgam sentido e projeção à organização.
Situações que os sócios iam relatando davam conta da existência de um conjunto de medidas, normas, regras e condicionantes bastante exigentes. Faltar ou se ausentar das reuniões da comunidad legal não é permitido pela diretoria, e, dependendo da quantidade de vezes que uma pessoa não assiste, é punida com o pagamento de uma multa. Da mesma forma, a normativa indica que pode ficarde fora dos benefícios que chegam através de projetos produtivos do governo local quem não participar regularmente das atividades organizadas no âmbito da comunidad indígena. No entanto, algumas estratégias e certos arranjos têm sido criados pelos sócios para contornar essa e outras medidas. Como no caso dos trabalhos coletivos, é possível ter um substituto quando um sócio ativo não pode estar presente no dia da reunião.
É comum, em especial entre aquelas pessoas que não são residentes em Tranaman, pedir para algum parente representá-las nos encontros. O curioso dessa medida, para os fins de nossa pesquisa, é que esse parente que age como o substituto não é sócio da comunidad legal, porém,acaba “participando” ou virando sócio dos espaços das reuniões e, provavelmente, de outros eventos que a comunidad legal demandar. Assim, o grupo que compõe a própria comunidad legal consegue permear suas fronteiras e fazer ingressar por uma via alternativa aqueles que compõem a unidade mais ampla da comunidadcosmográfica.
Nas palavras de alguns dos sócios, na eventualidade de se ausentar três vezes seguidas e não ter se justificado perante a diretoria, a pessoa pode até ser expulsa para sempre da comunidad legal. No tempo em que estive em Tranaman, não soube de ninguém que tivesse passado por essa situação, mas, sim, escutei reclamações por causa das cobranças de multas e, ao mesmo tempo, ouvi referências ao conjunto de medidas que, para minha estranheza, não expressavam desconformidade, ao contrário, algumas pessoas pareciam justificar, compartilhar e avaliar positivamente esse fato. Nesse cenário, como pensar nos caminhos que vem sendo traçados em termos das novas maneiras de se relacionar geradas a partir do vínculo com acomunidad legal? O que esta por trás desse conjunto de medidas?