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4. METODOLOGIA

4.3. A descrição das variáveis

4.3.1. A variável dependente

4.3.1.1. A concepção de complexo verbal

Seguindo a orientação de outros estudos desenvolvidos sobre a caracterização de estruturas verbais complexas no PB, optou-se, nesta pesquisa, por considerar não só os complexos verbais formados pelos auxiliares de uso mais freqüente, como ter, haver, ser, ir e estar – normalmente apresentados em compêndios gramaticais –, mas também aqueles formados por verbos considerados por alguns estudiosos semi-auxiliares e outros que atendam a poucos requisitos de auxiliaridade, também descritos em estudos sobre o tema.

De acordo com Cunha & Cintra (2001), Bechara (1999) e Lima (2006), os complexos verbais mais comuns são aqueles formados por estar + gerúndio, ter + particípio, haver + particípio, haver + de/ a + infinitivo, vir e ir + gerúndio e infinitivo. Cunha & Cintra (2001) e Lima (2006) apresentam diversos exemplos que servem a

demonstrar a grande diversidade de estruturas verbais complexas que se verificam no português do Brasil; no entanto, não propõem a caracterização dessas estruturas em termos sintáticos ou semânticos; os autores expõem, apenas, que são consideradas como “locuções verbais” as estruturas formadas por verbo auxiliar mais verbo principal em uma das formas nominais, havendo a possibilidade de figurar entre eles as preposições de, em, para, por e a. Bechara (1999), atribuindo às locuções verbais a mesma definição dada por Cunha & Cintra (2001) e Lima (2006), divide tais estruturas em quatro diferentes grupos: (i) ter/ haver e ser + particípio – formação de tempos compostos (tenho cantado); (iii) ser, estar, ficar + particípio – formação de voz passiva (é amado); (iii) auxiliares acurativos + infinitivo ou gerúndio (começar a escrever); (iv) auxiliares modais (incluindo entre estes alguns verbos volitivos) + infinitivo ou gerúndio (devo escrever). A respeito dos auxiliares causativos e sensitivos, Bechara (1999) propõe que, “(...) juntando-se a infinitivo ou gerúndio, não formam locução verbal, mas, muitas vezes, se comportam sintaticamente como tal...” (BECHARA, 1999: 233).

Para Perini (2001), o verbo auxiliar é aquele que, em um complexo verbal, não é responsável pela seleção de complementos e, portanto, não é responsável pela formação de predicados. De acordo com o autor, estruturas como está escrevendo correspondem a um único predicado, uma vez que o verbo estar não possui atributos referentes à transitividade. A transitividade do predicado corresponde àquela que o verbo principal apresentaria em contextos nos quais figura sozinho, ocorre que estruturas como a demonstrada configuram duas formas verbais que representam um único verbo. Afirmando que são poucos os verbos que podem se comportar como auxiliares no PB, Perini (2001) elenca as possíveis estruturas de complexos verbais: (i) ir +infinitivo; (ii) ter e haver + particípio; (iii) estar, vir, ir e andar + gerúndio; construção passiva com o verbo ser e estar + particípio; verbos tradicionalmente chamados modais” e “aspectuais” + infinitivo: poder, dever, acabar de, deixar de, começar a, continuar a, ter de/ que, haver de/ que + infinitivo.

Não se pode deixar de mencionar os critérios expostos por Barroso (apud Vieira, 2002) para identificação dos verbos auxiliares em português; dos oito critérios estabelecidos, observem-se, a seguir os três considerados pelo próprio autor como essenciais:

(i) Atribuição da perda sêmica do auxiliar: perda de significado léxico do verbo auxiliar, mantendo-se apenas seu valor instrumental (Eu voltei a dormir – verbo voltar com perda do sema ‘movimento no espaço’)

(ii) Unidade significativa: verbo auxiliar desempenhando função gramatical e verbo principal a função lexical; o conjunto configura uma única unidade significativa (está escrevendo) (iii) Sujeito do verbo: os dois verbos compartilham o mesmo sujeito

(começou a descansar).

Gonçalves (apud VIEIRA, 2002) defende que os verbos ter e haver são os verbos auxiliares prototípicos. O autor estabelece uma hierarquia que, numa escala decrescente, de acordo com as propriedades de auxiliaridade que possuam, pode caracterizar os demais verbos também considerados auxiliares: (i) ser + particípio, andar, ficar, estar, ir e vir + gerúndio; (ii) haver (de), chegar (a), andar (a), chegar (a), começar (a), continuar (a), estar (a), ficar (a), ir (a), tornar (a), vir (a), estar (por), ficar (por), costumar; (iii) poder, dever e ter (de).

Machado Vieira (2008) apresenta diversos critérios de acordo com os quais se podem caracterizar os verbos auxiliares; com base em tais critérios, são considerados auxiliares prototípicos os verbos ter e haver12, destacando-se a unanimidade, entre pesquisadores do tema, referente ao caráter auxiliar desses dois verbos. Para os verbos que não atendem a todas as características de um verbo prototipicamente auxiliar, a autora estabelece uma escala de auxiliaridade; tal escala é traçada de acordo com o grau de afastamento dos verbos ‘semi-auxiliares’ da categoria de verbo predicador e o grau de aproximação da categoria de verbo auxiliar. Observem-se a seguir as cinco subclasses de verbos semi-auxiliares estabelecidas por Machado Vieira (2008):

(i) 1º grau de afastamento do pólo de auxiliaridade: ser, estar e ficar + particípio (construções de voz passiva).

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De acordo com Machado Vieira, “os verbos têm um papel auxiliar, uma vez que servem de reforço ao sentido definido principalmente pelo elemento não verbal da estrutura perifrástica e de suporte ou apoio para a expressão das categorias gramaticais de tempo, modo, número e pessoa” (MACHADO VIEIRA, 2008:2)

(ii) 2º grau de afastamento do pólo de auxiliaridade: estar, vir, ir, ficar, andar (verbos aspectuais) + gerúndio; ir, vir, haver de verbos temporais + infinitivo.

(iii) 3º grau de afastamento do pólo de auxiliaridade: poder, dever (verbos modais) + infinitivo; estar, ficar, andar, voltar, tornar, costumar, continuar, permanecer, começar, passar, pôr-se, manter-se, chegar, pegar (verbos aspectuais) + a + infinitivo.

(iv) 4º grau de afastamento do pólo de auxiliaridade: ter (de/que) (verbo modal) + infinitivo; estar, ficar, deixar, acabar, parar, terminar, cessar, dar (verbos aspectuais) + de, para ou por + infinitivo.

(v) 5º grau de afastamento do polo de auxiliaridade: tentar, querer, esperar, desejar, gostar (de), lograr, conseguir, ousar, atrever-se, parecer, pretender, tencionar + infinitivo; mandar, fazer, deixar, levar (verbos causativos) + infinitivo; ver, olhar, ouvir, sentir, saber (verbos perceptivos/sensitivos) + infinitivo.

A partir dos estudos citados, compreende-se que diversas estruturas, além das frequentemente consideradas pela tradição gramatical, podem ser reunidas dentro do conceito de complexos verbais, de acordo com as diversas características que se observem no âmbito da auxiliaridade. Com isso, nesta pesquisa, optou-se por considerar entre as estruturas verbais complexas não somente construções tipicamente reconhecidas, como aquelas formadas com os verbos ter e haver, mas também todas aquelas nas quais se observou qualquer grau de auxiliaridade. As diferentes estruturas contempladas foram controladas nesta investigação por meio da variável independente linguística tipo de complexo verbal, apresentada posteriormente.

Cabe destacar que se optou por não considerar, nesta investigação, estruturas formadas com verbos causativos/ sensitivos, em virtude de tais estruturas apresentarem comportamento bastante diferenciado das outras contempladas. Além do baixo grau de auxiliaridade de tais verbos, o que termina por configurar, nos enunciados em que se manifestam, duas orações distintas, estruturas formadas por essas formas verbais não admitem a colocação do clítico pronominal nas quatro posições consideradas fatores da variável dependente em estudo. Salienta-se que, em a deixei comprar, deixei-a comprar, deixei a comprar e deixei comprá-la, não se observam formas sinonímicas, ou seja, o

valor de verdade que deve ser mantido entre as formas variantes não se verifica com estruturas desse tipo.