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4 OCUPAR PARA RESISTIR: O ESTADO COMO O ESPAÇO DA LUTA DO

4.1 DOS FUNDAMENTOS DO ESTADO MODERNO, DA SOCIEDADE CIVIL E DA

4.1.1 A concepção de Estado ampliado de Antonio Gramsci

[…] ele teve que parar e dar valor pras ocupações. Não dar valor, mas ele teve que parar tudo o que ele tava fazendo pra se preocupar com isso, sabe!? Ele viu que não poderia decidir o nosso futuro sem a gente opinar. […] A gente não tinha a noção da força como estudante. A gente não tinha noção da força que a gente tinha. Foi mais do que mil colégios, universidades, foi muita coisa. A gente não tinha noção disso. Ele não podia só mandar uma cartinha… (G3P8F19 e G3P8F20 – Grupo Focal “Ocupação Fênix” - grifos nossos)

Após os elementos apresentados na teoria do Estado revolucionário, encontraremos em Gramsci as primeiras possibilidades de ação dentro do próprio

Estado moderno, sem que isso prescindisse de seu assalto ou de sua extinção. Isso não faz com que a teoria gramsciana seja não revolucionária. Pelo contrário, conhecendo, de modo breve, a biografia do pensador italiano, verificar-se-á com clareza sua luta junto à classe trabalhadora e em mostrar a ela a necessidade que tem de revolucionar, superando, inclusive, o entendimento majoritário de sua época, qual seja, aquele que fazia uma leitura positivista do marxismo e que julgava poder a classe trabalhadora, por assim dizer, “esperar sentada” pela revolução que, cedo ou tarde, viria. Contudo, Gramsci, em outra época, foi capaz de perceber um Estado que nem Marx, nem Engels viram. O próprio Lênin reconstruirá suas noções de Estado após a revolução socialista russa, ao perceber o fato de ela não ter se espelhado pela Europa. Por mais que os dois primeiros tenham observado a realidade mais avançada – a Inglaterra na economia e a França na política – em sua época, simplesmente não se haviam desenvolvido alguns atores, alguns novos elementos de relação com o poder e o Estado, como os grandes sindicatos, ou os grandes partidos de massa, por exemplo. Lênin, por seu turno, liderou a revolução num país atrasado, com desenvolvimento capitalista limitado se comparado com as potências da época e, principalmente, com uma sociedade civil demasiadamente frágil. Gramsci, por seu turno, via a Itália desigual entre o norte e o sul e isso o intrigou e guiou boa parte de sua reflexão. Mas, enxergava, também, uma sociedade civil complexificada e atuante que precisava ser entendida para que se compreendesse o Estado e, especificamente, o Estado e a política italianos. (COUTINHO, 1981; NOSELLA, 2010;

GRUPPI, 1980)

A relação entre Estado e classes sociais na tradição marxista (engelsiana e leninista) é aspecto inequívoco para a compreensão do Estado. Reafirmamos isso porque, mesmo Marx vendo, como afirmado anteriormente, a existência de uma sociedade civil, no seu pensamento, ela nunca se mostrou como uma massa amorfa, pois mesmo que no Estado moderno, juridicamente, a figura do cidadão confere ao sujeito uma igualdade jamais vista em qualquer modo de produção historicamente conhecido, jamais ficou inibida ou despercebida a cisão de classes sociais. Essa é uma chave importante tanto para entender o pensamento de Gramsci no que tange à sociedade civil, quanto ao que concerne à formulação histórica da hegemonia.

Ao reconhecer o Estado como algo maior do que, simplesmente, o elemento político, o “governo dos funcionários” ou, em seus próprios termos, a sociedade

política, Gramsci cria uma noção de Estado ampliado44. Vejamos a figura:

FIGURA 1 – Estado Ampliado.

Estado

Sociedade Política

O Estado em sentido estrito – o Estado político-militar coercitivo.

Sociedade Civil

As organizações sociais capazes de, na relação base

material-superestrutura, produzir ideologias e consensos no(s) grupo(s) social(is) (escola, igreja, partido político, etc.)

Vejamos que, entendendo o Estado como este amálgama muito mais complexo do que qualquer teoria anterior à sua, Gramsci cria uma teoria inteiramente nova que, por colocar a sociedade civil não somente no momento econômico da realização social, faz dela, também, partícipe do Estado. Ou seja, diferentemente da tradição leninista, por exemplo, a sua lógica revolucionária não implicaria em “matar uma fera que nos oprime”. O Estado aqui não é simplesmente uma estrutura coatora.

Teoria mais potente para entender a democracia burguesa, mas, sem sombra de dúvidas, mais complexa.

Deixemos que o próprio Gramsci nos explique:

[…] é necessário distinguir diversos momentos ou graus, que no fundamental são os seguintes: 1) […] com base no grau de desenvolvimento das forças materiais de produção, têm-se os agrupamentos sociais, cada um dos quais representa uma função e ocupa uma posição determinada na própria produção. […] 2) O momento seguinte é a relação das forças políticas, ou seja, a avaliação do grau de homogeneidade, de autoconsciência e de organização alcançado pelos vários grupos sociais. […] 3) O terceiro momento é o da relação das forças militares imediatamente decisivo em cada

44“Ele viu que não poderia decidir o nosso futuro sem a gente opinar.[…] Ele não podia só mandar uma cartinha…”. Neste excerto de transcrição de fala que, propositalmente, utilizamos como epígrafe de uma subseção eminentemente teórica, reside um conceito profundo que, intuitivamente, é percebido nos sujeitos pesquisados, qual seja, não se pode desprezar o papel da sociedade civil na composição de forças do Estado. Em nosso exercício de nos guiarmos sempre pela empiria, sempre pelas falas dos sujeitos, não há justificativa maior do que essa para nossa opção teórica, pois que, entendemos que ela não se impõe sobre as falas, mas adere a elas de modo a torná-las ainda mais eloquentes.

oportunidade concreta. […] nele podem-se distinguir dois graus: o militar em sentido estrito […] e o grau que pode ser chamado de político-militar.

(GRAMSCI, 2016, pp.40-2)

Percebamos que em Gramsci, deixa de existir uma antítese de simples compreensão entre Estado num sentido estrito (momento 3) e Base material (momento 1). Surge no meio dessa relação um outro momento que pertence à sociedade, mas sua ação já é propriamente no Estado. Por isso, a noção de Estado Ampliado.

Uma conhecida análise sobre o conceito de sociedade civil em Gramsci é a de Bobbio (1982), tornada pública originalmente em 1967. Conhecida e polêmica, porque naquele texto, Bobbio, com ineditismo, surpreende ao defender a tese de que em Gramsci, diferentemente de Marx, a sociedade civil é elemento superestrutural.

Bobbio cita trecho do Caderno do Cárcere “Os intelectuais e a organização da cultura”

para compor a sua argumentação. A saber:

Podem ser fixados, por enquanto, dois grandes planos superestruturais: o que pode ser chamado de “sociedade civil, ou seja, o conjunto de organismos habitualmente dito privados, e o da sociedade política ou Estado. E eles correspondem à função de hegemonia que o grupo dominante exerce em toda a sociedade; e à do domínio direto ou de comando, que se expressa no Estado e no governo jurídico. (GRAMSCI apud BOBBIO, 1982, pp. 32-3)

Na visão de Bobbio isso deslocaria, em última análise, a transformação social para algo muito mais complexo do que as relações materiais de produção. Assim, o que Marx dizia como sendo palco principal da história, não seria para Gramsci. Isso fez com que muitos acusassem Bobbio de, indevidamente, retirar Gramsci do plano materialista, colocando-o no plano idealista (neste grupo, pode-se citar o brasileiro COUTINHO, 1981). Também aqui não entraremos em pormenores desta discussão, até porque concordamos com a noção apresentada por Bobbio, desde que não se perca de vista que a configuração histórica da sociedade civil não é algo rápido e simples e, no seu estágio mais embrionário, tem-se um momento mais puramente econômico, enquanto que complexificada sua organização, sua consciência, ter-se-ia um momento ético-político, este sim de lastro eminentemente superestrutural.

Gramsci explica isso ao deduzir do segundo momento da relação de força (anteriormente apresentado), três momentos intermediários.

O primeiro e mais elementar é o econômico-corporativo. […] Um segundo

momento é aquele em que se atinge a consciência da solidariedade de interesses entre todos os membros do grupo social, mas ainda no campo meramente econômico. Já se põe neste momento a questão do Estado, mas apenas no terreno da obtenção de uma igualdade político-jurídica […]. Um terceiro momento é aquele em que se adquire a consciência de que os próprios interesses corporativos, em seu desenvolvimento atual e futuro, superam o círculo corporativo, de grupo meramente econômico, e podem e devem tornar-se os interesses dos grupos subordinados. Esta é a fase mais estritamente política, que assinala a passagem nítida da estrutura para a esfera das superestruturas complexas […] (GRAMSCI, 2016, p.41).

Em suma, o que se percebe em Gramsci é uma relação de múltiplas interações entre a base material e a conjugação de sociedade civil e sociedade política, entendida como um Estado ampliado. Complexidade que também foi defendida por Poulantzas (1985, p.19), “[…] a imagem construtivista da 'base' e da 'superestrutura […] não somente não pode convir a uma representação correta da articulação da realidade social […] como revelou-se com o tempo desastrosa em vários sentidos. Tudo se tem a ganhar se nela não se confia” (grifo nosso). Desse modo, é necessário fugir do mecanicismo (a imagem construtivista grifada da frase de Poulantzas) que cria uma relação direta de prevalência da base material sobre a superestrutura, fazendo desta, mero apêndice daquela.

E é essa independência material – ao mesmo tempo base e resultado da autonomia relativa assumida agora pela figura social da hegemonia – que funda ontologicamente a sociedade civil como uma esfera própria, dotada de legalidade própria, e que funciona como uma mediação necessária entre e estrutura econômica e o Estado-coerção. (COUTINHO, 1981, p.93)

Ao percebermos que a sociedade pode estar organizada naquilo que Gramsci denomina de sociedade civil e, por esta organização, tensiona e se aloca em diferentes pontos do Estado, de modo a fazer valer interesses, às vezes, contra-dominantes, melhoramos a compreensão da dialética interna deste Estado. Temos um Estado que se amplia e, de acordo com o nível de democracia, representatividade e participação, permite mais ou menos movimentos dentro de si.

O problema é que, nos movimentos dentro do Estado, uma classe social dominante deverá querer compor hegemonia. Para além de uma dominação somente no momento econômico, ou somente no momento ético-político, estrutura-se uma conjugação desta dupla dominação. Tem-se a hegemonia de uma classe. Tem-se a configuração hegemônica de um “bloco-histórico, unidade entre a natureza e o espírito, […] unidade dos contrários e dos distintos”. (GRAMSCI, 2016, p.27). Por isso

que Gramsci entenderá que a revolução não passará, simplesmente, pela tomada do Estado em sentido estrito, nem somente pela dominação econômica. É preciso compor uma nova hegemonia. Isso nos remete ao que já foi exposto quanto ao fato de o Estado dissuadir, em forma de consenso, as entranhas da dominação.

[…] hegemonia pressupõe indubitavelmente que sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida, que se forme um certo equilíbrio de compromisso, isto é, que um grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa;

mas também é indubitável que tais sacrifícios e tal compromisso não podem envolver o essencial, dado que, se a hegemonia é ético-política, não pode deixar de ser também econômica, não pode deixar de ter seu fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica. (idem, p.49 – grifo nosso)

Gramsci ensina acerca do fato de que, para se ter hegemonia, a dominação não pode ser somente no momento ético-político, mas também e ao mesmo tempo, na esfera econômica. Ele está dizendo para redimensionar a própria luta revolucionária, e somente é capaz de fazê-lo porque, para além da experiência da revolução russa, Gramsci tentou entender porque as revoluções proletárias não se espalharam pela Europa como um todo. A chave estava no fato de que, diferentemente da Rússia, as potências ocidentais possuíam uma sociedade civil muito mais complexa e, consequentemente, a composição de hegemonia também não seria tão simples como naquele país (COUTINHO, 1981).

A percepção de Gramsci desta maior complexidade das sociedades civis ocidentais ganha forma pela análise de seu próprio país, a Itália. Intrigava Gramsci compreender porque o sul camponês e pobre não se unia aos trabalhadores do norte na configuração de uma frente contra-hegemônica que buscasse compor uma nova hegemonia. Que empecilhos existiam para a realização prática de tal intento? Esta inquietação, levará Gramsci a reafirmar, já ao final de sua vida, aquilo que durante toda ela ele defendeu, ou seja, há um elemento de direção cultural que perpassa a configuração de qualquer bloco hegemônico e, para este elemento, é decisivo o papel dos intelectuais.

Ao mostrar sua chegada à maturidade […] Gramsci agora está convencido de que para se tornar “classe dirigente”, para triunfar naquela estratégia mais complexa e de longo alcance, o proletariado não pode se limitar a controlar a produção econômica, mas deve também exercer a sua direção político-cultural sobre o conjunto de forças sociais que, por essa ou aquela razão, desse ou daquele modo, se opõem ao capitalismo (COUTINHO, 1981, p.53)

Dito de outro modo, Gramsci, em seus intentos revolucionários, percebe que, por parte do proletariado italiano, não se exerce direção político-cultural sobre outras classes oprimidas pelo capitalismo. Pelo contrário, a disposição dos intelectuais, das escolas que os formam serve, sobremaneira, para a composição e manutenção de hegemonia que interessa àquele bloco histórico. Por isso que “[…] Gramsci prioriza a questão da formação dos intelectuais (pequenos e grandes) que são os 'funcionários' da sociedade civil e os articuladores da direção cultural (hegemonia)”. (NOSELLA, 2010, p.141).

Mas, quem são esses intelectuais? Primeiramente, Gramsci não entende os intelectuais como sendo somente aqueles homens que possuam grande formação acadêmica, ou grandes capacidades intelectivas. Estes, sim, podem compor um grupo de intelectuais – aqueles que, deliberadamente, exercem a função de intelectual junto à sociedade, mas não serão exclusivos.

Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais.

Quando se distingue entre intelectuais e não-intelectuais, faz-se referência, na realidade, tão-somente a imediata função social da categoria profissional dos intelectuais, isto é, leva-se em conta a direção sobre a qual incide o peso maior da atividade profissional específica, se na elaboração intelectual ou se no esforço muscular-nervoso. Isto significa que, se se pode falar de intelectuais, é impossível falar de intelectuais, porque não existem não-intelectuais. Mas a própria relação entre o esforço de elaboração intelectual-cerebral e o esforço' muscular-nervoso não é sempre igual; por isso, existem graus diversos de atividade específica intelectual. Não existe atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, não se pode separar o homo faber do homo sapiens. (GRAMSCI, 1982, p.7)

Ademais, para Gramsci não só não existem não-intelectuais, como os intelectuais podem ser de dois grupos de acordo com o grau de coesão com uma determinada classe: os intelectuais tradicionais são mais autônomos em relação à classe, perfazendo grupos que, muitas vezes, sobreviveram a grandes transformações sociais como o padre, o filósofo, o artista, etc.; e os intelectuais orgânicos que surgem no seio de uma classe social fundamental a um determinado modo de produção e, por isso, são mais ligados a ela, como o técnico de uma grande indústria em relação à burguesia, por exemplo.

Se os intelectuais de um determinado bloco histórico são fundamentais para a composição de sua hegemonia, será necessária a formação de novos intelectuais

orgânicos à classe trabalhadora, bem como a atração, aos interesses daquela classe, de grupos de intelectuais tradicionais. Por isso, Gramsci nega a possibilidade de que nas sociedades ocidentais, haja uma revolução imediata como aquela que ocorrera na Rússia e, por isso, se dedica, sempre que pode, à formação destes novos quadros que, na condição de trabalhadores, serão ao mesmo tempo músculos, nervos e, também, intelecto, compondo assim um sujeito de novo tipo, necessário a uma nova sociedade.

O problema da criação de uma nova camada intelectual, portanto, consiste em elaborar criticamente a atividade intelectual que existe em cada um em determinado grau de desenvolvimento, modificando sua relação com o esforço muscular-nervoso no sentido de um novo equilíbrio e conseguindo-se que o próprio esforço muscular-nervoso, enquanto elemento de uma atividade prática geral, que inova continuamente o mundo físico e social, torne-se o fundamento de uma nova e integral concepção do mundo.

(GRAMSCI, 1982, p.8)

Se a revolução não pode ser, portanto, imediata, no horizonte desta ação, deve estar a necessidade da composição de um novo bloco histórico, com uma nova hegemonia, na qual a relação de forças oriunda da vitória na guerra de posição, favoreceria a classe trabalhadora.

Ocorre na arte política o que ocorre na arte militar: a guerra de movimento torna-se cada vez mais guerra de posição; e pode-se dizer que um Estado vence uma guerra quando a prepara de modo minucioso e técnico no tempo de paz. A estrutura maciça das democracias modernas, seja como organizações estatais, seja como conjunto de associações na vida civil, constitui para a arte política algo similar às “trincheiras” e às fortificações permanentes da frente de combate na guerra de posição:

faz com que seja apenas “parcial” o elemento do movimento que antes constituía “toda” a guerra, etc. (GRAMSCI, 2016, p.24 – grifos nossos).

A chave da revolução em Gramsci, portanto, está na formulação, a partir da vitória na guerra de posição, de um novo bloco histórico. É preciso dominar as trincheiras da democracia moderna, dentre as quais aquelas que se organizam na sociedade civil como a escola, por exemplo, de modo a subvertê-las a uma nova hegemonia. Isso não fará criar um Estado ditatorial, mas um Estado democrático sob a direção hegemônica de uma outra classe.