2.2 NOVAS CONCEPÇÕES DO ESPAÇO E DO TEMPO NA CIDADE
2.2.2. A concepção espaço-tempo - Massey, Bergson, Deleuze e
A geógrafa Doreen Massey (1944), em seu livro Pelo Espaço (2008), parece concordar com Lefebvre, sobre a necessidade de se enfrentar as questões da cidade sob uma nova ótica. Para ela, seria necessário, em primeiro lugar, não se separar as dimensões tempo e espaço, separação na qual se entende o espaço como algo estático, fixo, imóvel que contém os objetos e o tempo, como aquilo em que se realizam os movimentos, a sucessão. Da mesma forma, o tempo não pode ser fragmentado; a fragmentação do tempo não resulta no espaço (MASSEY, 2008, p. 47). Ainda, não deve haver uma prevalência de uma dimensão sobre a outra, mas ambos devem ser entendidos numa inter-relação.
Em sua obra, Massey propõe esta nova concepção do espaço, a partir de algumas linhas de investigação expressadas por Henri Bergson (1859-1941), sobre o tempo. Mas, quanto à totalidade de sua filosofia vitalista, Massey guarda muitas reservas, especialmente, às considerações que o filósofo teceu sobre o espaço.
Henri Bergson, filósofo do século XIX e início do século XX, dispôs-se a superar as dicotomias filosóficas de tempo e espaço, como possibilidade de se entender o “real” de uma forma diferente de sua época. Por isto, foi considerado um filósofo de proposições originais, que tentou combater, ao mesmo tempo, o positivismo (materialismo) e o idealismo do século XIX, com um discurso permeado por expressões poéticas. Em sua obra sobre a psicologia, Matéria e Memória (2006), formulou a tese de que a memória seria o elemento de ligação e superação entre as duas posições extremadas - do materialismo e do idealismo – representadas pelo que chamou de falsa oposição entre corpo e espírito, e consequentemente entre espaço (matéria, extensão, corpo) e tempo (memória, vida, história).
Para aquele que aborda sem ideia preconcebida, no terreno dos fatos, o antigo problema das relações da alma e do corpo, esse problema logo parece restringir-se em torno da questão da memória, e até mais particularmente da memória das palavras; é daí, sem dúvida nenhuma, que deverá partir a luz capaz de esclarecer os lados mais obscuros do problema (BERGSON, 2006, p. 6).
Segundo Bergson, “a matéria é um conjunto de imagens. E por ‘imagem’
entendemos uma certa existência que é mais do que aquilo que o idealista chama uma representação, porém menos do que aquilo que o realista chama uma coisa” (2006, p. 1),. Seguindo-se o seu raciocínio, o corpo também é uma imagem que se relaciona com outras imagens, por meio da ação. As ações, o movimento, a que o corpo está predestinado, servem de parâmetro para se investigar os diferentes tons da vida mental e psicológica: quanto mais perto ou mais distantes esses estados psicológicos estiverem da ação do corpo, tal será o grau que se dará “atenção à vida” (BERGSON, Op. cit., p. 7). Então, como
“matéria”, tem-se o conjunto das imagens; como “percepção da matéria”, a relação da imagem do corpo com o conjunto das imagens. Assim, a relação das imagens com a imagem do corpo é dialética para o indivíduo, e ater-se a uma dessas duas polaridades filosóficas mencionadas seria um equívoco.
Trata-se, plenamente, de um jogo de imagens, mas numa dialética entre o interior e o exterior, entre o indivíduo e a sociedade.
Toda imagem é interior a certas imagens e exterior a outras; mas do conjunto das imagens não é possível dizer que ele nos seja interior ou que nos seja exterior, já que a interioridade e a exterioridade não são mais que relações entre imagens. Perguntar se o universo existe apenas em nosso pensamento ou fora dele é, portanto, enunciar o problema em termos insolúveis, supondo-se que sejam inteligíveis; é condenar-se a uma discussão estéril, em que os termos pensamento, existência, universo serão necessariamente tomados, por uma parte e por outra, em sentidos completamente diferentes.
Para solucionar o debate, é preciso encontrar primeiro um terreno comum onde se trava a luta, e visto que, tanto para uns como para outros, só apreendemos as coisas em forma de imagens, é em função de imagens, e somente de imagens, que devemos colocar o problema (BERGSON, Op. cit., p. 21-22).
Com a “redução” da ‘matéria’ e ‘memória’ a imagens, Bergson conseguiu colocar ambos no mesmo plano de compreensão, e assim apontou uma solução para um dos maiores problemas filosóficos da modernidade, o intervalo entre alma e corpo, entre subjetividade e objetividade.
Ora, nenhuma doutrina filosófica contesta que as mesmas imagens possam entrar ao mesmo tempo em dois sistemas distintos, um que pertence à ciência, e onde cada imagem, estando relacionada apenas a ela mesma, guarda um valor absoluto, o outro que é o mundo da consciência, e onde todas as imagens regulam-se por
uma imagem central, nosso corpo, cujas variações elas acompanham (BERGSON, Op. cit., p. 21-22).
Nesta perspectiva, para Bergson, não há percepção que não se relacione com lembranças, com a memória, com a virtualização concreta da experiência corporal. Desta forma, ele estabeleceu, já no século XIX, uma discussão demarcatória do importante papel da memória para os processos de apreensão e vivência do real. Doreen Massey trouxe esta discussão para a geografia e, assim, o espaço ganhou uma nova conotação, que ultrapassa as conotações do conceito do espaço diferencial de Henri Lefebvre.
Bergson distinguiu, em geral, dois tipos de memória: a memória-hábito e a memória-lembrança. Ambos estão implicados na interseção do espaço com a duração, ou tempo, partindo de uma ideia nova do tempo que se refere à experiência - e não à conceituação filosófica e categorial, como em Kant - como duração. Neste contexto, uma dupla operação insere a memória como um passado no presente, ao mesmo tempo em que cria uma síntese em uma intuição única de muitos instantes da duração. Portanto, as imagens estão no interior da psique e, ao mesmo tempo, estão na matéria.
Na verdade, não há percepção que não esteja impregnada de lembranças. Aos dados imediatos e presentes de nossos sentidos misturamos milhares de detalhes de nossa experiência passada. Na maioria das vezes, estas lembranças deslocam nossas percepções reais, das quais não retemos então mais que algumas indicações, simples “signos” destinados a nos trazerem à memória antigas imagens (BERGSON, op. cit., p. 30).
A memória-hábito é desenvolvida ao longo da vida de um indivíduo e se refere às ações mecânicas e rotineiras que esta pessoa executa; esta memória é voltada à ação material. A memória-lembrança, entretanto, está próxima do sonho, da lembrança pura – são aquelas memórias que surgem sem que se possa controlá-las e requerem um grande esforço para evocá-las (BERGSON, Op. cit, p. 88-89). Bergson ligou as duas memórias através do conceito da imagem. Os corpos são atravessados tanto por imagens coletivas como por experiências individuais e carregam, em si próprios, esta interpenetração espaço-tempo. As suas relações se reúnem no “Eu”, onde elementos que são comuns, mas que também se diferenciam na memória, acabam por se manifestar nas ruas, nas casas, nos lugares urbanos, através de
comportamentos, códigos compartilhados, automatismos, encontros, percursos e fluxos no conjunto da cidade, tornando estas memórias da ação, elementos da ciência, superando, assim, a separação entre tempo e espaço.
Mas Bergson também atribuiu à consciência, um papel fundamental nesta superação da separação. “E contra essas duas doutrinas invocamos o mesmo testemunho, o da consciência, que nos mostra em nosso corpo uma imagem como as outras, e em nosso entendimento uma certa faculdade de dissociar, de distinguir e de opor logicamente, mas não de criar ou de construir”
(BERGSON, Op. cit., p. 211-212).
Esta ideia da “integração”, que no fundo é filosoficamente uma não-separação, tornou-se também ideia fundamental na obra de Maurice Halbwachs. Aluno de Bergson e admirador de Durkheim, este sociólogo tentou superar os mestres, relacionando as individualidades aos contextos sociais da memória. Em sua importante obra, de 1925, mostrou que “é impossível conceber o problema da recordação e da localização das lembranças quando não se toma como ponto de referência os contextos sociais reais que servem de baliza a essa reconstrução que chamamos de memória” (HALBWACHS, 2006, p. 7-8). Apesar de reconhecer que a memória individual existe, ela está relacionada com as redes sociais em que os indivíduos estão enredados. Para ele, as lembranças são traduzidas em linguagem e a linguagem é uma instância social. Nas suas afirmações subsistem todas as coerções a que os indivíduos estão sujeitos, pelo fato de serem seres sociais e históricos. A questão do tempo e do espaço ganha, aqui, uma nova conotação entre o indivíduo e o social.
Halbwachs, além de reconhecer que existe uma memória individual que é interna, pessoal e autobiográfica, estabeleceu uma clivagem entre dois tipos de memória que levam em conta os contextos sociais: a memória histórica e a memória coletiva.
A memória histórica pressupõe “a reconstrução dos dados fornecidos pelo presente da vida social e se projeta sobre o passado reinventado e a memória coletiva recompõe o passado magicamente” (HALBWACHS, Op. cit., p. 13). Desta maneira, a memória histórica cristaliza o passado, de acordo com a reconstrução de um grupo, e tende à homogeneização e à forma esquemática.
A memória coletiva se baseia na mudança e no relativismo, portanto, contém as memórias individuais, mas não se confunde com elas. Esta memória enfatiza a diferença e a diferenciação entre os indivíduos, como intercâmbio social.
Dessa forma, é necessário reconhecer que existem tantas memórias coletivas, quanto são os diferentes grupos, bem como são plurais os tempos coletivos. Contudo, para ele, “a memória não poderia ser o alicerce da consciência, pois é apenas uma de suas direções, uma perspectiva possível que o espírito racionaliza” (HALBWACHS, Op. cit., p. 14).
Diferentes interseções dos tempos sociais implicam-se, então, em diferentes interseções espaciais, o que no campo da Geografia poderia ser traduzido por multiterritorialidades (COSTA, 2004). Assim, o pensamento individual é tributário do pensamento coletivo. Mas, posto desta forma, o papel das individualidades nas relações sociais parece ficar enfraquecido ou mesmo subjugado “aos fatos sociais”, na expressão de Durkheim.
Esta observação traz, novamente, a questão do espaço que apresenta duas formas: a forma como produto e como produção (duração), ou, nas palavras de Bergson, o espaço e a espacialização.
Em Creative evolution (Bergson, 1911/1975), a distinção entre espacialização e espaço é levada a cabo. Embora mantendo a equiparação entre intelectualização e espacialização (“Quanto mais a consciência é intelectualizada, mais a matéria é espacializada”, p.
207), Bergson veio a reconhecer, também, a princípio sob a forma de pergunta, a duração em coisas externas e isso, por sua vez, apontava para uma mudança radical na potencial conceituação de espaço. Este reconhecimento da duração em coisas externas e assim a interpenetração, embora não a equivalência, entre espaço e tempo, é um aspecto importante do debate deste livro. É o que eu estou chamando de espaço como a dimensão de trajetórias múltiplas, uma simultaneidade de estórias-até-agora. O espaço como a dimensão de uma multiplicidade de durações. O problema tem sido que a velha cadeia de significado-espaço-representação-estase continua a exercer seu poder. O legado permanece. (MASSEY,Op.
cit., p. 49).
Aqui, Massey expressa sua aprovação a Bergson, por seu reconhecimento de que o espaço não está totalmente subordinado ao tempo, mas que existem múltiplas durações povoando o espaço que não é um sistema fechado. Ela apontou as limitações do filósofo, que, no final das contas, deu primazia ao tempo, em detrimento do espaço. Para Massey, na epistemologia
do espaço que propõe, identidades são relacionais e não essências fechadas em si mesmas. Isto traz uma ideia de uma política conectiva e não de uma política identitária. Segundo Massey, há um erro em se supor, por exemplo, o lugar como um “já-construído” que carrega um significado separado do espaço.
A insistência em se afirmar um lugar espacial separado, leva, em última análise, apenas aos sectarismos, às segregações, aos genocídios, às xenofobias. Contudo, na compreensão bergsoniana, lugar e espaço são construídos relacionalmente – ressalvando-se que o tempo, para o filósofo, tenha prevalência sobre o espaço - e, em Massey, isto é enfatizado: “Meu argumento não é o de que lugar não seja concreto, estabelecido, real, vivido, etc. É que o espaço também o é” (MASSEY, Op. cit., p. 261). Desta maneira, as duas dimensões do tempo e do espaço são indissociáveis, para o indivíduo e para o social.
Seguindo este raciocínio, Massey pressupôs três grandes orientações para se pensar o espaço: 1) como um produto de inter-relações, de interações, também entre o nível macro e micro; 2) como existência da multiplicidade, da pluralidade, da coexistência da heterogeneidade; 3) como algo que está sempre em construção. Massey foi além das ideias de Bergson, quando ela se contrapôs à tese bergsoniana da irreversibilidade e da continuidade da duração, se aproximando mais das teses das ciências da complexidade e da mecânica quântica.
Recapitulando, tanto Lefebvre como Massey rejeitam a ideia kantiana de que o espaço representa um a priori da consciência e da percepção, mas insistem que, não sendo diferente do tempo, ele se constrói como categoria, permanentemente, enquanto múltiplas coisas no espaço-tempo da cidade estão acontecendo e se encontram em relação. Entendidos desta forma, tempo e espaço não são estruturas fechadas, mas comportam o acaso, o devir, e a abertura para políticas efetivas, os “agenciamentos”. A multiplicidade de relações no espaço-tempo é que constrói o social.
Segundo Deleuze e Guattari (1995 (a) ), o agenciamento é a partícula mínima existente a ser considerada, na semiótica que propõem. Ele possui uma tetravalência, constituída por dois eixos: um horizontal e outro vertical.
Segundo um primeiro eixo, horizontal, um agenciamento comporta dois segmentos: um de conteúdo, o outro de expressão. Por um lado, ele é agenciamento maquínico de corpos, de ações e de paixões, mistura de corpos reagindo uns sobre os outros; por outro lado, agenciamento coletivo de enunciação, de atos e de enunciados, transformações incorpóreas sendo atribuídas aos corpos. Mas, segundo um eixo vertical orientado, o agenciamento tem, de uma parte, lados territoriais ou reterritorializados que o estabilizam e, de outra parte, picos de desterritorialização que o arrebatam. (DELEUZE; GUATTARI, 1995 (a), p. 29).
A aceitação e a compreensão destes pressupostos traz implicações importantes, na compreensão dos processos semióticos entre elementos dispostos relacionalmente no espaço-tempo. Assim, Deleuze e Guattari acolheram a teoria semiótica de Hjelmslev, para o desenvolvimento de sua semiótica dos agenciamentos. Da semiótica de Hjelmslev, reconheceram a importância que este deu à solidariedade entre expressão e conteúdo e a impossibilidade de haver algum tipo de prevalência de um ou de outro, nas funções semióticas. Desta forma, a teoria de Hjelmslev se afasta das teorias saussurianas, em que há relação de subordinação entre significante/significado.
A proposição teórica dos agenciamentos, de Deleuze e Guattari, foi colocada em contraste com a teoria dos enunciados de Foucault, no que se refere, especificamente, à força articuladora dos agenciamentos que, para Foucault, é constituída por relações de poder. Para Deleuze e Guattari, diferentemente, tal força é o desejo, “sendo o desejo sempre agenciado, e o poder, uma dimensão estratificada do agenciamento”. (Op. cit., p. 98).
O agenciamento deve ser compreendido por meio das linhas de fuga que ele gera, quando se tenta observar corpos, ações, eventos e representações em interação, em um dado tempo, em um dado espaço, mas que só podem ser mapeados precária ou transitoriamente, pelas condições intrínsecas e inexpressáveis dessas inter-relações. Os aspectos imateriais, invisíveis ou impalpáveis, mas reais, implicados nas relações, os incorporais (CAUQUELIN, 2008) devem ser vistos como atributos dos corpos, a eles ligados, inextricavelmente. As coordenadas envolvidas neste adensado, espaço e tempo, melhor dizendo, espaço-tempo, não deve ser entendidos como a prioris, mas aspectos constitutivos, indissociavelmente, destes centros de convergência que são os agenciamentos. Entendidos desta maneira, os
agenciamentos não constroem uma teleologia, uma linha evolutiva ou sucessória de fatos, e, frontalmente, opõem-se a esta concepção de História.