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A CONCORRÊNCIA DOS CÔNJUGES COM DESCENDENTES E ASCENDENTES

No documento Sucessão dos companheiros (páginas 33-39)

3 O DIREITO SUCESSÓRIO DOS CÔNJUGES E DOS COMPANHEIROS NO CÓDIGO CIVIL

3.2 A CONCORRÊNCIA DOS CÔNJUGES COM DESCENDENTES E ASCENDENTES

Vale lembrar que a ordem de vocação hereditária, determinada pelo diploma civil, estabelece que sejam chamados a suceder “primeiro os descendentes, em segundo lugar, os ascendentes”, e o cônjuge; este, apesar de estar posicionado em terceiro lugar, concorre “tanto com os descendentes quanto com os ascendentes”.100

Assim é a disciplina do art. 1829, I e II, do CC.

Em rigor, o que determinou a concorrência do cônjuge sobrevivente com os descendentes foi principalmente a adoção do regime de comunhão parcial como o oficial no Brasil por meio da legislação civil.101

O Código Civil de 1916 estabelecia que o regime supletivo do casamento fosse o da comunhão universal de bens, o que no entendimento do legislador gerava

97

RIZZARDO, Arnaldo. Direito das sucessões, p. 198.

98

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito das sucessões, p. 50.

99

HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Ordem de vocação hereditária. In: _____; PEREIRA, Rodrigo da Cunha (Coords.). Direito das sucessões e o Novo Código Civil, p. 90.

100

VELOSO, Zeno. Direito hereditário do cônjuge e do companheiro, p. 35.

101

total garantia ao cônjuge, uma vez que receberia a metade de todo patrimônio do falecido a título de meação; hipótese esta em que o cônjuge supérstite era meeiro e não necessariamente herdeiro.102

A partir das alterações promovidas e gravadas no atual ordenamento civil, no silêncio das partes, o regime que prevalece é o da comunhão parcial. Essa disposição fez surgir a necessidade de dar um maior amparo ao cônjuge, que ficaria desprotegido e prejudicado com um eventual falecimento do outro, já que o recebimento da meação não mais era direito certo do cônjuge supérstite. Vem daí a justificativa para a sua inclusão no rol dos herdeiros necessários, estabelecido pelo art. 1.845, concedendo-lhe uma melhor posição.103

Assim, da leitura da segunda parte do inciso I do art. 1.829 do CC, denota-se que o legislador abre exceções à concorrência do cônjuge com os descendentes, em decorrência do regime de bens.

Nos casos dos casados pelo regime de separação obrigatória (previsto no art. 1.641 e não no art. 1.640, como indicado no texto civil), no regime da comunhão universal ou no regime da comunhão parcial de bens, na hipótese de o de cujus não ter deixado bens particulares, não há a participação do cônjuge sobrevivo na concorrência da primeira classe da ordem de vocação hereditária.104

Para Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka105, o raciocínio do legislador é o de que, no casamento constituído pelo regime da comunhão universal de bens, “a comunhão patrimonial já se operara desde a celebração das núpcias”, por isso a sua exclusão na concorrência com os descendentes. Esse entendimento também alude ao fato de que o cônjuge já é amplamente amparado pelo recebimento da meação, composta por metade dos bens comuns do casal. Assim, segundo Eduardo de Oliveira Leite106, deve-se partir do “pressuposto de que quem é meeiro não é herdeiro”.

102

WALD, Arnoldo. O novo direito das sucessões. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 20.

103

WALD, Arnoldo. O novo direito das sucessões, p. 20.

104

CAHALI, Francisco. Sucessão legítima. In: CAHALI, Francisco José; HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Direito das sucessões, p. 169.

105

HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Ordem de vocação hereditária. In: _____; PEREIRA, Rodrigo da Cunha (Coords.). Direito das sucessões e o Novo Código Civil, p. 94.

106

LEITE, Eduardo de Oliveira. Direito civil aplicado: direito das sucessões. 2.ed. São Paulo: RT, 2004. v. 6. p. 138.

Os cônjuges que constituíram união sob o regime da separação obrigatória são impedidos por lei de “estabelecer regime patrimonial diverso”107, portanto, não pode haver, de forma alguma, convocação para concorrência nesse primeiro momento, eis que existem causas específicas para tal vedação legal e sua admissão burlaria o sistema legal.

Com se vê, não houve qualquer exceção ou ressalva no que tange ao regime da separação convencional de bens, consequentemente é permitida a concorrência com os descendentes, bem como no casamento regido pela participação final dos aquestos.108

Objeto de grande controvérsia, entretanto, é a interpretação do final do inciso I do art. 1.829 do CC, cuja redação ambígua aborda a exclusão do cônjuge sobrevivente no caso de inexistência de bens particulares do falecido.

Do Enunciado 270, da III Jornada de Direito Civil, organizada pelo Conselho da Justiça Federal, deriva a primeira corrente doutrinária:

Enunciado 270

Art. 1.829: O art. 1.829, inc. I, só assegura ao cônjuge sobrevivente o direito de concorrência com os descendentes do autor da herança quando casados no regime da separação convencional de bens ou, se casados nos regimes da comunhão parcial ou participação final nos aqüestos, o falecido possuísse bens particulares, hipóteses em que a concorrência se restringe a tais bens, devendo os bens comuns (meação) ser partilhados exclusivamente entre os descendentes.109

Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka110, acompanhando grande parte da doutrina, defende a interpretação que considera que o dispositivo limita a concorrência do cônjuge supérstite, que era casado sob o regime da comunhão parcial de bens, com os descendentes, exclusivamente aos bens particulares do de

cujus. Para a autora, o raciocínio do legislador estaria baseado no fato de que os

bens que pertenciam ao casal já são divididos em função da dissolução da sociedade conjugal em decorrência da morte. Já no que tange aos bens particulares do autor da herança, são eles partilhados pelos herdeiros a título de sucessão causa

mortis, inclusive o cônjuge já que é considerado herdeiro necessário.

107

HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Ordem de vocação hereditária. In: _____; PEREIRA, Rodrigo da Cunha (Coords.). Direito das sucessões e o Novo Código Civil. Belo Horizonte, p. 95.

108

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: direito das sucessões, p. 163.

109

BRASIL. Conselho de Justiça Federal. Enunciado 270. III Jornada de Direito Civil. Disponível em: <http://daleth.cjf.jus.br/revista/enunciados/IIIJornada.pdf>. Acesso em: 2 maio 2011.

110

HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Ordem de vocação hereditária. In: _____; PEREIRA, Rodrigo da Cunha (Coords.). Direito das sucessões e o Novo Código Civil, p. 92.

Maria Helena Diniz111 adota posicionamento diverso. A análise da doutrinadora, no que tange à concorrência do cônjuge sobrevivente com os descendentes, é que também deve ser observado se o falecido possuía bens particulares, se casado no regime comunhão parcial, “embora sua participação incida sobre todo o acervo hereditário” e não somente no patrimônio particular do de

cujus. A doutrinadora ainda alega que tal consideração deve ser adotada em função

do princípio da operabilidade, com o fim de facilitar o cálculo da partilha, bem como da indivisibilidade da herança. E, ainda, que o resguardo de parcela do acervo hereditário ao cônjuge supérstite que foi ascendente dos demais herdeiros não seria compatível com uma eventual exclusão da concorrência no que se refere à totalidade dos bens do autor da herança, além do que o cônjuge é considerado herdeiro necessário.

Para essa corrente, “a existência de tais bens é mera condição ou requisito legal para que o viúvo, casado sob o regime de comunhão parcial, tenha capacidade para herdar, concorrendo, como herdeiro, com o descendente, pois a lei o convoca à sucessão legítima”.112

Há, ainda, um terceiro entendimento, ao qual se filia Maria Berenice Dias113, que opina no sentido de que a sucessão do cônjuge fica excluída na hipótese de o falecido ter deixado bens particulares, concorrendo com os descendentes apenas com os bens comuns. O raciocínio da autora é o seguinte:

A interpretação desse intrincado e pouco claro dispositivo legal não pode ser outra, sob pena de se subverter o próprio regime de bens eleito pelas partes. Os nubentes, ao optar pelo regime da comunhão parcial (isto é, ao não firmar pacto antenupcial), quiseram garantir a propriedade exclusiva dos bens particulares havidos antes do casamento, assim como dos recebidos por doações ou herança.114

Dessa feita, deve ser respeitado o que foi pactuado pelos nubentes, mantendo a incomunicabilidade dos bens particulares ao cônjuge sobrevivente, como já era a forma vigente durante a união do casal, afirma Maria Berenice Dias.115

111

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito das sucessões, p. 126.

112

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito das sucessões, p. 126.

113

DIAS, Maria Berenice. Ponto final. Disponível em:

<http://www.mariaberenicedias.com.br/uploads/2_-_ponto_final.pdf>. Acesso em: 2 maio 2011.

114

DIAS, Maria Berenice. Ponto final. Disponível em:

<http://www.mariaberenicedias.com.br/uploads/2_-_ponto_final.pdf>. Acesso em: 2 maio 2011.

115

DIAS, Maria Berenice. Ponto final. Disponível em:

O STJ estabelece um quarto posicionamento baseado “na idéia de que a vontade do cônjuge, manifestada no casamento, deve ser tomada em consideração também no momento de interpretar as regras sucessórias”.116

Para elucidar a matéria, colhe-se parte de jurisprudência emanada da Corte Superior de Justiça:

Se em vida os cônjuges assumiram, por vontade própria, o regime da comunhão parcial de bens, na morte de um deles, deve essa vontade permanecer respeitada, sob pena de ocorrer, por ocasião do óbito, o retorno ao antigo regime legal: o da comunhão universal, em que todo acervo patrimonial, adquirido na constância ou anteriormente ao casamento, é considerado para efeitos de meação. [...] Não se pode ter, após a morte, o que não se queria em vida. A adoção do entendimento de que o cônjuge sobrevivente casado pelo regime da comunhão parcial de bens concorre com os descendentes do falecido a todo o acervo hereditário, viola, além do mais, a essência do próprio regime estipulado.117

Para o STJ, preserva-se “o regime da comunhão parcial de bens” no momento que é concedido ao cônjuge sobrevivente o direito à meação, “além da concorrência hereditária sobre os bens comuns, haja ou não bens particulares, partilháveis, estes unicamente entre os descendentes”.118

Ainda, no que tange à concorrência na primeira classe da ordem de vocação hereditária, impende ressaltar que com a morte, e havendo descendentes do falecido, a divisão patrimonial deverá ocorrer entre os filhos em concorrência com o cônjuge supérstite, cabendo a este “quinhão igual ao dos que sucederem por cabeça, não podendo a sua quota ser inferior à quarta parte da herança, se for ascendente dos herdeiros com que concorrer” (art. 1.832, CC).

Na hipótese de filiação híbrida, ou seja, a existência de descendentes exclusivos do autor da herança e comuns com o cônjuge supérstite, a doutrina majoritária entende que a regra estabelecida pelo art. 1.832 do CC, reservando uma quarta parte da herança ao cônjuge sobrevivente, não é aplicável. O patrimônio é dividido igualmente, como se todos fossem herdeiros exclusivos do falecido.119

116

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1117563/SP. Relatora Min. Nancy Andrighi. Brasília,DF. Julgado em: 17-12-2009. Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 28 abr. 2011.

117

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1117563/SP. Relatora Min. Nancy Andrighi. Brasília,DF. Julgado em: 17-12-2009. Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 28 abr. 2011.

118

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1117563/SP. Relatora Min. Nancy Andrighi. Brasília,DF. Julgado em: 17-12-2009. Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 28 abr. 2011.

119

O cônjuge sobrevivente, no entanto, só irá concorrer com os descendentes se preenchidos os requisitos presentes no inciso I do art. 1.829 do CC, como explicitado anteriormente, e no art. 1.830 do mesmo diploma legal, ou seja, “se ao tempo da morte do outro, não estavam separados judicialmente, nem separados de fato há mais de dois anos”.

Com relação ao casamento putativo, qual seja aquele que, considerado nulo ou anulável, de acordo com Arnoldo Wald120, será aplicada a lei sucessória como se esta união válida fosse, se este foi contraído de boa-fé pelo casal. Mas, se apenas um dos cônjuges estava de boa-fé e o casamento não foi anulado durante o período em que ambos eram vivos, os direitos hereditários serão válidos somente para o cônjuge sobrevivente que estava de boa-fé.

Questão igualmente importante se refere à inexistência de herdeiros na classe dos descendentes. Nesta hipótese, são chamados a suceder os ascendentes do falecido em concorrência com o cônjuge sobrevivente (art. 1.836 do CC). Todavia, na concorrência com os ascendentes não mais se apresentam as restrições decorrentes do regime de bens, ou seja, independentemente do regime patrimonial em que o viúvo ou viúva era casado com o de cujus, mesmo que já tenha recebido sua meação.121

Ora, de acordo com o art. 1.837 do CC, caberá ao cônjuge sobrevivente um terço da herança se concorrer com os ascendentes em primeiro grau e metade se concorrer com apenas um ascendente ou se for maior o grau de parentesco entre o falecido e os ascendentes.

A herança, assevera Silvio de Salvo Venosa122, “será dividida em três partes iguais se o cônjuge sobrevivente concorrer com sogro e sogra”, e em duas partes se existentes as hipóteses finais previstas pelo mencionado artigo.

É importante salientar que não há direito de representação na linha ascendente, razão pela qual, “havendo um único genitor vivo, não se devem convocar os avós, pais do genitor falecido, para representar seu filho na sucessão”.123

120

WALD, Arnoldo. O novo direito das sucessões. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 25.

121

VELOSO, Zeno. Direito hereditário do cônjuge e do companheiro, p. 41.

122

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: direito das sucessões, p. 131.

123

HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Ordem de vocação hereditária. In: _____; PEREIRA, Rodrigo da Cunha (Coords.). Direito das sucessões e o Novo Código Civil, p. 97.

A título de exemplo, se “o de cujus tem ascendentes em igualdade de graus e diversidade de linhas, ou seja, avós maternos e paternos”, cada linha recebe o quinhão que lhe for de direito. Na hipótese de, em uma das linhas, apenas um dos avós estiver vivo, este receberá sozinho a sua parte, enquanto os da outra linha dividirão a sua.124

No caso de o de cujus possuir os quatro avós vivos, a eles tocará metade do acervo, sendo que cada um receberá uma oitava parte da universalidade da herança, eis que a outra metade é herdada pelo cônjuge, de acordo com a segunda parte do art. 1.837 do CC.125

Logo, segundo a disciplina do art. 1.829 do CC, o cônjuge sobrevivente concorre com os ascendentes e descendentes do falecido e herda todo o patrimônio no caso de não existirem as classes supramencionadas, uma vez que é considerado herdeiro necessário pelo art. 1.845 do CC.

3.3 O PATRIMÔNIO EXCLUSIVO CONFERIDO AO CÔNJUGE SOBREVIVENTE E

No documento Sucessão dos companheiros (páginas 33-39)