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3.1 Caracterização do filme H.O

3.1.4 A conduta como performance e as improvisações corporais

À medida que a câmera de H.O se concentra nas improvisações daqueles que incorporam os Parangolés, a filmagem explicita sua dependência das condutas filmadas. De acordo com Jean Galard198, a conduta pode ser entendida como uma arte, literalmente. Tal caráter do comportamento mostra-se na originalidade dos gestos, quando eles se encadeiam de modo inusitado. Entretanto, mesmo quando os gestos se mostram pouco usuais, incomuns, estranhos ou capazes de desconstruir significados preexistentes, permanecem os aspectos sociais e culturais da conduta, bem como a capacidade poética que a permeia.

Se é verdade que toda reação é socialmente modelada, que nossos gestos, inclusive os mais elementares são educados, a arte que se dedicasse a eles não contradiria o “natural”, substituiria uma arte anterior, uma estética implícita pouco consciente, que regula o porte e a atitude, a continência e as conveniências, que subentende a exigência da contenção, quando não do comedimento. Uma arte deliberada, associada às condutas, não teria como objetivo opor seus eventuais refinamentos aos extravasamentos dos instintos; ela experimentaria gestos inusitados, que a estética herdada exclui199

A significação do termo “improviso” aqui independe de qualquer juízo de valor, e caracteriza simplesmente um modo de conceber a imagem corporal. Mesmo que, por processos inconscientes, os corpos improvisadores dialoguem com elementos previamente construídos do comportamento, suas posturas caracterizam-se como performáticas, já que fogem a uma certa pragmática e se desprendem das continências e conveniências adotas em público.

“Cada performance é um mundo em si, uma cenografia única no decorrer da qual os gestos corporais serão eles próprios únicos” 200. Numa conduta performática, o corpo deixa de ser um “simples suporte das nossas representações”, transformando-se, necessariamente, num lugar

198 Ver: GALARD, J. A beleza do gesto. 199 GALARD, J. A beleza do gesto. p.21.

de “exacerbação dos possíveis” 201. A imagem que se orienta pela performance não só faz do corpo um protagonista, como também permite ao agente da conduta um certo empoderamento, que o possibilita interferir, à sua maneira, na realidade ou na ficção que o filme fabrica.

Um trecho que, ao nosso ver, ilustra o papel das performances corporais no filme H.O é o momento em que a câmera acompanha Hélio Oiticica, na direção de um lugar onde a luz penetra excessivamente no quadro, atrapalhando a visibilidade. Após o processo de edição, permaneceu essa imagem, que um cinema de atitude exclusivamente esteta talvez descartasse.

Numa performance, o corpo se mostra ao público generosamente. Entregando-se aos fluxos das improvisações corporais e da câmera, arriscando superar os limites culturais e sociais que tornam uma conduta conveniente e educada aos olhos alheios, o corpo também pede a generosidade daquele que o assiste. Ao incorporar os Parangolés, os participadores tornam-se tão expostos quanto um Serres202 alpinista que tenta chegar ao topo de uma montanha: sob a neve, o sol e o vento, “reduzido ao silêncio pela respiração curta” 203, equilibra-se sobre o paredão rochoso, ele sabe que qualquer passo pode ser em vão. “Esta rudeza leal ensina a verdade das coisas, dos outros e de si mesmo sem qualquer fingimento”204.

Numa imagem midiática, o corpo encontra-se no limite da possibilidade de apresentação performática e do risco de se transformar em tema de exibição. Tal fato pode ser tão perigoso e prazeroso quanto é para um alpinista alcançar o topo da montanha mais alta do mundo. De qualquer forma, para chegar lá, o alpinista se dispôs a superar muitas de suas limitações corporais. Entretanto, a obsessão com que alguns buscam “experimentar limites” pode também

201 JEUDY, H. P. O corpo como objeto de arte. p.109. 202 SERRES, M. Variações sobre o corpo pp.12-16. . 203 SERRES, M. Variações sobre o corpo. p.12 204 SERRES, M. Variações sobre o corpo. p.12

ser uma indicação de como “tornou-se difícil, mesmo impossível, estar de alguma forma em seus próprios corpos” 205, como afirma Hans Gumbrecht.

O efeito impactante das imagens do corpo de H.O, em certa medida, pode ser identificado com o estranhamento que a fuga das estratégias espetaculares provoca na atualidade. Os corpos que improvisam criando gestos e posturas originais, passam por pequenas situações limites, já que é por meio desses movimentos que as imagens (re) inventam as condutas e as colocam muito além das codificações dadas pelo sistema de comunicação vigente. Quando o participador executa a dança com o Parangolé, e também com a câmera de H.O, deixa nascer uma poesia dos gestos, que inspira liberdade e descontrole. Quanto menos pensada é a sua movimentação, menos um corpo se referenda por meio dos aspectos rituais e normatizados da conduta.

Do mesmo modo que a poesia verbal não é o simples acúmulo das unidades lingüísticas que a sensibilidade de uma época já sobrecarregou de sentido, a conduta determinada pela função poética não consiste em uma multiplicação dos gestos, entendendo-se com isso os movimentos já codificados pelo sistema de comunicação em vigor. Trata-se, antes, de uma criação de gestos, isto é, da liberação de movimentos ainda não percebidos, devido ao deslocamento da seqüência que os continha206.

Sabemos que, ao observarmos as performances corporais por meio dos quadros de H.O, lidamos com imagens residuais, com aquilo que foi um dia a incorporação real do Parangolé. Mais uma vez, destacamos que o corpo carece da generosidade do olhar. Se consideramos que a imagem possui a capacidade de (re) inventar o gesto e de fabricar o mundo à sua medida, observamos também que, mesmo aquela conduta loucamente subjugada ao valor do referente e desejosa da veracidade do significante, pode ter o seu sentido transformado pelo filme.

205 GUMBRECHT, H. “É apenas um jogo”: História da Mídia, Esporte e Público. In: GUMBRECHT, H. Corpo e forma, ensaios para uma crítica não-hermenêutica. p.135.

Devemos ainda lembrar que “é no corpo ou através dele que os processos de afirmação ou negação de normas regulatórias se realizam ou se expressam”207. Sendo assim, consideramos que, mesmo na conduta caracterizada como performance, não se anulam as sedimentações da sociedade no corpo, além das próprias interferências que a materialidade corporal exerce na conduta. Por sua vez, uma imagem que se concentra na conduta performática pode oferecer ao público comportamentos corporais e gestos (re) inventados. Isso ocorre à medida que as imagens contribuem para o surgimento de novas versões e leituras dos gestos, assim como das normas e rituais sociais que os orientam. Tal fato ocorre ainda que, aos olhos alheios, o comportamento da pessoa filmada não passe de aceitações ou de negações parciais dos modos educados do agir.