dife-renciadas no Rio Grande do Sul: a Metade Norte e a Metade Sul41. Para alguns de-les haveria, ainda, uma terceira região: a Nordeste, que detém a mais elevada parti-cipação no PIB estadual e a maior concentração de indústrias, principalmente no Eixo Porto Alegre-Caxias e áreas contíguas42.
As diferenças entre as duas macrorregiões (incluindo-se a Região Nordeste na Metade Norte) ultrapassam as características geográficas de seus territórios demar-cados pelos rios Jacuí e Ibicuí, incluindo também elementos históricos, econômicos, sociais e culturais43. Os pré-requisitos do desenvolvimento regional – integração so-cial, geração e distribuição de capital social e mobilidade social – “[...] estão histori-camente condicionados pelas configurações originais de ocupação dos territórios e relações sociais ali estabelecidas.” (RAMOS; MARIÑO, 2004, p. 79). Supõe-se que estes diferenciais – a seguir analisados - também influenciam os movimentos da criminalidade nestes territórios.
A) A Metade Sul
A Metade Sul do Rio Grande do Sul deteve uma hegemonia político-econômica até o século XIX. Povoada por portugueses, espanhóis, negros e mestiços, em seu apogeu a principal mercadoria regional era o charque, produzido com mão-de-obra escrava. A pecuária extensiva caracterizava os grandes latifúndios implantados nos séculos XVIII e XIX, momento em que, através da sua ocupação, a coroa portuguesa e o império brasileiro procuravam proteger o sul das investidas de outros países limí-trofes, uma vez que a área sempre foi litigiosa e com fronteiras frágeis. As principais
41 Estas áreas foram classificadas por Ramos e Marino (2004) como regiões do pequeno e do grande domínio, respectivamente.
42 A regionalização binária foi formulada por Fonseca, P. (1983), que estipulou: a) Norte – com duas zonas: Planalto e Serra e b) Campanha. A tríplice divisão foi proposta por Alonso e Bandeira (1994), com: Norte, Nordeste e Sul.
43 Ver Arend e Cário (2005) para uma atualizada revisão da literatura sobre a formação histórico-política do Rio Grande do Sul.
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cidades sul-rio-grandenses daquela época eram Pelotas e Rio Grande, sendo que a capital - Porto Alegre - desempenhava somente funções administrativas.
Essa situação começou a mudar no início do século XX, devido à colonização eu-ropéia e ao declínio da produção de charque e de derivados de gado. Nem mesmo a instalação dos frigoríficos e da indústria têxtil nas primeiras décadas do século pas-sado reverteu a crise da pecuária extensiva e do charque44, pois tais empreendimen-tos reproduziram a estrutura econômica (de extrema especialização produtiva) e a concentração fundiária da região.
Ainda hoje a Metade Sul abriga as maiores propriedades rurais e os municípios de maior extensão territorial. Caracterizada historicamente como sendo uma socie-dade patriarcal, hierárquica, subpovoada e desigual (JANSEN, 2004), ela representa a área economicamente mais atrasada do Estado, cuja crise é um desafio para as sociedades civil e política gaúchas. Recentemente, a orizicultura expandiu-se em alguns municípios sulinos, trazendo certo crescimento econômico, vis-à-vis o persis-tente declínio industrial da região.
B) A Metade Norte
Até meados do século XIX, a Metade Norte permaneceu pobre, subpovoada, com zonas de pecuária atrasada, de pinheirais inexplorados, de extrativismo ervateiro e de florestas virgens. Esta situação começou a mudar com a colonização européia, quando a região passou a se definir por: grande número de pequenas propriedades cujos proprietários acumularam renda relativamente expressiva, rede urbana com centros pequenos, diversificação industrial e agropecuária, várias identidades cultu-rais fortalecidas no interior de comunidades mais ou menos homogêneas, distribui-ção de renda menos concentrada, existência de mercado interno.
Em 1824 chegaram os primeiros alemães, estabelecendo-se na Colônia de São Leopoldo, situada ao norte de Porto Alegre, e nos vales dos rios próximos. Os pri-meiros imigrantes italianos chegaram em 1875, instalando-se na encosta superior da serra nordeste, onde ficaram isolados devido à difícil acessibilidade da região. Estes colonos italianos receberam áreas menores e de pior qualidade comparativamente
44A crise da indústria “saladeiril”, de acordo com Lima, A. (2004), foi provocada pelos seus altos cus-tos, pela competição com a produção capitalista da Argentina (enquanto que a daqui era escravista), pela inexistência de mercado interno e pelo enfraquecimento do protecionismo estatal com a instala-ção dos governos republicanos.
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às dos alemães, e não contaram com a ajuda oficial prometida. Em 1920, o processo de ocupação das terras do Rio Grande do Sul já estava concluído45.
Atualmente, a Metade Norte carateriza-se, por um lado, pela economia baseada nas pequenas e médias propriedades de agropecuária diversificada e no agronegó-cio (especialmente no Planalto Médio); por outro, pela expansão do seu parque in-dustrial, com a criação de um conjunto de pequenas empresas voltadas para o mer-cado local e, a partir deste, projetando-se para outras regiões gaúchas e para fora do Estado e do País. Nela concentram-se a geração de empregos e de valor agre-gado, e as maiores rendas per capita do Rio Grande do Sul.
Alguns economistas formularam explicações para tal configuração dicotômica, entre as quais se citam:
O norte formou-se dentro de um ambiente institucional (relações de propriedade, cultura, ideologia, produtos e instituições) mais propício, versátil e adaptativo ao desenvolvimento industrial (AREND; CÁRIO, 2005).
No sul, a elevada concentração fundiária acarretou um crescimento de longo przo baseado na especialização produtiva de um reduzido número de produtos a-gropecuários. “A região Sul possui a concentração da riqueza como um dos prin-cipais fatores que inibem o seu crescimento.” (MARQUETTI; BÊRNI; MARQUES, 2005, p. 114)
O atraso industrial da Metade Sul deveu-se às características de grande porte das poucas unidades industriais, sem que tenha se formado um mercado consu-midor local. (LIMA, A., 2004)
Ao sul criou-se uma sociedade com baixos estoques de capital social (MONAS-TÉRIO, 2002, p. 194 apud LIMA, A., 2004, p. 1346).
Dentro do campo sociológico, Ramos e Marino (2004) destacam a importância do capital social47 para o desenvolvimento regional. Para estes autores, na campanha
45 A instalação de colonos europeus significou o desalojamento de grande parte de caboclos (possei-ros) fixados nos matos próximos aos campos e ervais. Eles ainda são encontrados em terras sem valor comercial e nas fronteiras agrícolas. (JANSEN, 2004)
46 MONASTERIO, Leonardo M. Capital social e crescimento econômico no Rio Grande do Sul. In:
BECKER, Dinizar; BANDEIRA, Pedro S. Respostas regionais aos desafios da globalização. Santa Cruz do Sul, EDUNISC, 2002 apud LIMA, A., 2004, p. 13.
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gaúcha consolidou-se um forte e mais antigo dualismo cultural entre os donos da terra e os chamados “pêlo duro” (frutos da miscigenação entre ibéricos e aborígines, da violência dos primeiros sobre as índias), com fortes aspectos de “dominação não-legítima”. Esta peculiaridade histórica inviabilizou o sentimento de pertencimento (de consciência comunitária), conduzindo a um fraco desenvolvimento do capital social e a uma baixa mobilidade social (RAMOS; MARINO, 2004, p. 96).
O norte do Estado, por sua vez, apresentou perfil diferenciado, com elevados ní-veis de cooperação e reciprocidade, componentes típicos de uma “comunidade cívi-ca” (PUTNAM, 1996). Para este autor, em áreas de grande desenvolvimento eco-nômico e tecnológico (que requerem maior cooperação impessoal), o capital social representa um antídoto para problemas advindos com o progresso, como, por e-xemplo, o oportunismo, a trapaça e a transgressão. Na parte norte, o eixo Porto Ale-gre-Caxias do Sul e alguns pólos regionais, como o Vale do Rio dos Sinos, o Vale do Caí, o Vale do Rio Pardo e o Vale do Taquari, vêm apresentando destacados dina-mismo e crescimento econômico, os dois últimos Vales em anos mais recentes.
Em contrapartida, nos últimos 20 anos está se consolidando um novo dualismo nessas áreas pujantes, que divide os antigos e os novos moradores. Quando conse-guem se instalar nos municípios mais desenvolvidos, os migrantes que para lá acor-rem em busca de trabalho e de melhores oportunidades de vida não chegam a se integrar plenamente nas comunidades locais, culturalmente mais homogêneas, veri-ficando-se uma dicotomia entre “nós” (moradores mais antigos) e “eles” (os “de fo-ra”). Esta problemática foi estudada por Elias e Scotson (2000), no livro “Os estabe-lecidos e os outsiders”, através da comparação de três zonas de uma cidade inglesa – uma de classe média, outra de classe operária com famílias antigas e uma terceira de classe operária com habitantes recentes. Os autores constataram a existência de
47 O conceito de capital social vem sendo aprimorado desde a década de 1950 por diversos autores.
Para Coleman (1990), ele engloba os recursos produzidos através da interação social entre indiví-duos ou grupos, que resultam em obrigações mútuas, confiança e credibilidade. Quando estão dispo-níveis, eles facilitam a ação social individual, grupal ou comunitária, sendo que as organizações civis são fomentadoras de capital social. Conforme Putnam (1996), a cooperação depende diretamente do capital social, que envolve regras de reciprocidade, sistemas de participação cívica, confiança e ajuda mútua. A partir daí o autor distingue a comunidade cívica (com elevados níveis de cooperação, confi-ança, reciprocidade, civismo e bem-estar coletivo) da não cívica (com alto grau de desconficonfi-ança, o-missão, exploração, isolamento, desordem, estagnação, dependência), citando como exemplos o Norte e o Sul da Itália, respectivamente. Salienta-se que este conceito de “capital social” difere do de Bourdieu, pois tais redes de contatos, além de representarem recursos coletivos, não necessariamen-te implicam em poder ou prestígio (propriedades individuais), os quais, segundo o sociólogo francês, resultariam do convívio com pessoas ou grupos de destacada posição social.
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preconceito e de discriminação dos habitantes antigos das duas primeiras zonas so-bre os novatos, demonstrando que o estigma dos “estabelecidos” soso-bre os “intrusos”
não tem caráter classista, pois é encontrado dentro de uma mesma classe social (por exemplo, a zona 2 versus a zona 3 de Elias e Scotson, 2000).
No Rio Grande do Sul, o estudo de Bazan (1997) sobre a construção de identida-de nas relações industriais do município identida-de Dois Irmãos - identida-de colonização alemã e integrante do complexo coureiro-calçadista estadual -, também identificou a presen-ça do estigma dos moradores nativos sobre os de fora. Aquele e outros municípios pertencentes ao Vale do Rio dos Sinos receberam, por um longo período (até o final do século passado, com o advento da mais recente crise da produção coureiro-calçadista), grandes contingentes de pessoas oriundas de outras regiões estaduais.
Apesar de esta cidade integrar a Região Metropolitana desde 1989, o processo lá ocorrido exemplifica o dualismo encontrado em outras localidades da Metade Norte do Estado, mormente onde há atração populacional.
O comportamento discriminatório constatado em Dois Irmãos não se restringia a uma única classe social:
Adicionalmente, é importante notar que tanto para os empresá-rios quanto para os trabalhadores, a identidade étnica e corporativo-setorial estão sobrepostas ao senso de pertencimento à localidade, entendida esta como região (do Vale dos Sinos), ou, por outra, como associada à municipalidade. Essas outras duas variantes da identi-dade atuariam tanto no sentido de elevar a cooperação quanto, em outras situações, os conflitos entre os agentes em estudo. Isso ocor-re, por exemplo, quando empresários da região fortalecem o senti-mento corporativo ao se identificarem como empresários do setor calçadista do Vale dos Sinos, ou por outra, quando utilizam a condi-ção de ser da região ou do município como fator de protecondi-ção em re-lação ao empresário de fora. O mesmo ocorre com os trabalhadores originários de Dois Irmãos, que fortalecem sua identidade étnica com a idéia de pertencimento ao território, percebendo nos trabalhadores migrados uma ameaça externa à comunidade local. (BAZAN, 1997, p. 302)
No final da década de 1970, o município passou por um processo de reestrutura-ção urbana, com a implantareestrutura-ção de vários loteamentos, alguns destinados à instala-ção dos trabalhadores migrados. Esse parece ter exacerbado os conflitos, extrapo-lando a estigmatização sobre os recém-chegados, ao ponto de um dos informantes ter se referido a um destes locais como o “câncer da cidade” (BAZAN, 1997, p. 230).
65 Os bairros operários passaram a expressar e a corresponder, no nível geográfico, às fronteiras e distâncias existentes no plano e-conômico entre a população nativa e a população migrada. Embora essas distâncias residissem tanto no plano econômico quanto no cul-tural, foi especialmente sob este último, ou seja, como conflito inter-étnico, que os conflitos sociais eclodiram. Contribuía para isso o fato de muitos trabalhadores migrantes provirem de regiões bastante miscigenadas ou, por outra, nas quais os habitantes guardavam a-centuadas características culturais das populações lusa, espanhola, negra ou indígena. Tratavam-se, portanto, de trabalhadores que não compartilhavam dos códigos regulados de conduta da população teu-to-brasileira. Nesse sentido, passaram a ser socialmente estigmati-zados pelo acionamento de atributos negativos através dos quais apareciam socialmente como sujos e preguiçosos, dentre outros es-tereótipos. Este enquadramento social pela diferença não era distinto nem mesmo para o caso dos trabalhadores provenientes de áreas que, no passado, foram de colonização germânica. (BAZAN, 1997, p.
230-231)
Integrante da Metade Norte, mas com particularidades próprias, a Região Metro-politana de Porto Alegre, por sua vez, ainda se caracteriza como pólo concentrador das migrações intra-estaduais, atualmente menos intensas do que em décadas pas-sadas. A rápida industrialização e a atratividade do seu terciário sem a contrapartida de uma boa infra-estrutura urbana acarretaram aos municípios metropolitanos sérios problemas sociais, dentre os quais se citam: desemprego estrutural, custo de vida elevado, carência de serviços públicos, proliferação das favelas e dos moradores de rua, altas taxas criminais, etc.
A continuidade de um padrão de crescimento espacialmente concentrado implicará um aumento da pressão sobre a infra-estrutura de transporte, comunicações, energia, saneamento e habi-tação em áreas apresentando sinais de congestionamento. (ALON-SO; BANDEIRA, 1990, p. 109).
Na RMPA, houve um longo processo de incorporação seletiva dos migrantes de outras localidades estaduais, que resultou na formação das favelas, na constituição de um grande contingente de excluídos e na perda dos valores culturais originais.
Tais problemas agravaram-se com a concentração populacional, especialmente nos espaços periféricos metropolitanos. Entre 1980 e 1991, de acordo com levantamento das vilas irregulares dos municípios metropolitanos (exceto Porto Alegre) realizado pela METROPLAN, essas cresceram 179,6% e suas populações aumentaram 147,9%, quase três vezes mais do que a elevação da população metropolitana, de
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53,7% (RIO GRANDE DO SUL, 1992 apud MARTINS; MAMMARELLA, 1997)48. Em 1991, a densidade populacional média metropolitana foi de 2,78 hab/km², enquanto que nos assentamentos irregulares atingiu 171,59 hab/km2. (MARTINS; MAMMA-RELLA, 1997).
Um dos expoentes da Escola de Chicago, Robert Park (1994), menciona que as slum areas das grandes cidades - que crescem nas franjas das zonas de negócios ou às margens do centro -, são zonas deterioradas, pobres, abrigando amontoados de pessoas excluídas da industrialização. Para o autor, elas constituiriam a “hobo-hemia” (hobo = sem teto, pedintes, desempregados) de Nels Anderson.
Para Túlio Kahn, a criminalidade no Brasil não é resultado apenas da miséria, mas do desenvolvimento, ou:
[...] de um certo tipo de desenvolvimento que se fez rápida e desor-denadamente, inchando as periferias dos centros urbanos mais ricos.
Este desenvolvimento trouxe melhorias econômicas e sociais – dimi-nuição do analfabetismo, da mortalidade infantil, aumento da renda média. Mas à reboque, este processo de crescimento e desenvolvi-mento aglutinou no entorno dos grandes centros urbanos uma massa de população urbana que convive com a riqueza e a abundância, be-neficia-se parcialmente dela – em comparação com as periferias dos Estados menos desenvolvidos – mas não se integrou nem tem meios de se integrar aos mercados sofisticados de produção e consumo dos pólos desenvolvidos destas cidades. Este diagnóstico aplica-se especialmente a São Paulo, ao Distrito Federal e ao Rio Grande do Sul que, junto ao Amapá e Rondônia compõem o grupo de Estados de alta criminalidade. Este processo de desenvolvimento desigual e desorganizado ajuda a entender porque, no Brasil, o desenvolvimen-to trouxe o aumendesenvolvimen-to dos crimes contra o patrimônio, mas não sua contrapartida positiva, que é a diminuição dos homicídios. (KAHN, 2002, p. 61-62)
Enfim, o padrão discriminatório – do antigo e do novo dualismo – existente nas regiões socioculturais gaúchas impede a solidariedade, a cooperação e a confiança comunitárias, resultando em desintegração social. Atualmente existe dualismo (s) nos três espaços estudados, embora na Fronteira o seu tipo recente seja menos a-centuado. Tal fato influencia as tendências criminais regionais.
48 RIO GRANDE DO SUL. Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional (METRO-PLAN). II Inventário das vilas irregulares na Região Metropolitana de Porto Alegre. Porto Alegre:
1992 apud Martins e Mammarella, 1997.
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Por outro lado, a nova criminalidade organizada e grupal de rua (MARINO et al., 2002b) origina-se na Região Metropolitana, onde os grupos formam-se, articulam-se e se desenvolvem, em especial, nos grandes complexos prisionais metropolitanos49.
Esta nova criminalidade difunde-se para a região de Caxias do Sul (integrante da Colônia Velha), de certa forma acompanhando os resultados do processo de conur-bação urbana e integração industrial do eixo Porto Alegre-Caxias. Este movimento relaciona-se com a conformação serrana recente, decorrente do impacto de outros locais e da transformação tecnológica que reduziu drasticamente os postos de traba-lho, paralelamente com a permanência de sua atratividade populacional. Por exem-plo, diretora de escola do município de Flores da Cunha (município da região serra-na) associou o crescimento recente das gangues de crianças e de adolescentes no município ao incremento populacional decorrente do fluxo migratório para aquela cidade: “Houve uma migração muito grande para a cidade. Não tem oportunidade de emprego para quem não tem especialização.” De fato, a população da cidade cres-ceu 19% de 1991 para 2000 – mesmo com a emancipação do seu distrito, Nova Pá-dua, em 1992 -, e o efeito da migração residual sobre a sua população observada foi de 10% (em 1991) e 16% (em 2000).
Todavia, pressionada pela maior vigilância das agências de segurança, a nova criminalidade também se expande para outras áreas, em um movimento de interiori-zação através de surtos efêmeros. Assim, através de ações intermitentes (roubos a carros-fortes e de cargas em várias rodovias estaduais, roubos a bancos e outras agências financeiras em pequenas cidades, seqüestros-relâmpago em municípios de porte médio, assaltos a postos de pedágio em rodovias) e sem se fixar nas localida-des, a criminalidade grupal e organizada atinge, em anos recentes, os pequenos municípios da Colônia Velha, até então pacatos e sem forte controle policial.
49 Por exemplo, no Presídio Central de Porto Alegre, com mais de 3.000 apenados, algumas facções disputam o poder, mantendo, por vezes, conexões com outras prisões e com as ruas: os “manos”, os
“brasas”, os “abertos”, os “duques” (FRAGA, 2000). “Ali os presos ditam as regras, aplicam seus pró-prios métodos de justiça e flertam com a ilegalidade ao determinar leis e castigos para quem des-cumprir as normas internas. Os criminosos condenados têm sua própria hierarquia dentro do presídio:
escolhem seus representantes para interlocução com as autoridades de direito e dividem o poder por área, onde cada uma das nove galerias de detenção tem prefeito, secretário, assessor jurídico e ou-tros cargos adjacentes. As formas de conquistar uma dessas posições, sinônimo de bem-estar, privi-légios e respeito, nem sempre são democráticas. Ainda vale a lei do mais forte”. (A CIDADE DO CRIME, 2006, p. 7). Este fato foi confirmado por oficial da Força-Tarefa da Brigada Militar, responsá-vel pela segurança do Presídio Central, ao comentar a existência de duas facções organizadas liti-gantes naquela prisão: os “brasas” x os “manos”. (Visita realizada pela autora e uma turma de alunos do Curso Superior de Formação de Inspetores de Polícia da ACADEPOL, no dia 31/08/2003). O crime organizado é discutido no capítulo 7 da Tese.
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Por outro lado, na Fronteira, até por sua localização estratégica limítrofe com o território uruguaio e argentino, a nova criminalidade organizada (e principalmente o tráfico de entorpecentes e de armas) convive com um tipo mais antigo e tradicional, simbolizado pelos abigeatos e pelo contrabando e descaminho50. Estes não são delitos novos na Fronteira, pois desde o século XIX registrava-se a atuação de ban-dos de ladrões de gado, bem como a existência de contrabando de gado e de char-que platinos de melhor qualidade. (AREND; CÁRIO, 2005, p. 70 e 86).
3.3 As tendências históricas dos crimes violentos nos espaços estudados