3.2 Papel dos princípios tributários: princípio da seletividade como instrumento da
3.2.2 Conflito de princípios: seletividade conforme a essencialidade versus igualdade,
3.2.2.2 A conformidade com o princípio da capacidade contributiva
Outro importante princípio a ser equacionado com o da seletividade conforme a
essencialidade e a política pública posta em debate é o da capacidade contributiva.
Assume-se, neste trabalho, posição semelhante à de Leonardo Buissa Freitas
198e Luís
Eduardo Schoueri,
199para quem a seletividade e a capacidade contributiva são critérios de
concretização do princípio maior da igualdade. Assim, consequência da isonomia, é por meio
do princípio da capacidade contributiva que se distribui isonomicamente a carga tributária.
200Ávila
201também contribui relembrando a importância do princípio no combate à
generalização da tributação, pois o dever de obediência à capacidade contributiva faz com que
a simplificação e a “planilhização” da tributação seja evitada, ou seja, evita-se a própria
desigualdade.
O ponto de ligação entre a capacidade contributiva e a política pública proposta está na
sua ação limitadora e garantidora do mínimo existencial, evitando a regressividade sobre as
classes menos abastadas. Essa percepção é reforçada no sentido de que a capacidade
contributiva será tanto pressuposto quanto limite da própria tributação. Por esse
entendimento, já seria possível identificar que a capacidade contributiva não contradiz a
198 FREITAS, 2019, p. 254. 199 SCHOUERI, 2015, p. 349. 200
RICCI, Henrique Cavalheiro. Direito Tributário Ambiental e isonomia fiscal: extrafiscalidade, limitações, capacidade contributiva, proporcionalidade seletividade. Curitiba: Juruá, 2015. p. 91.
201
política pública apresentada com a utilização do princípio da seletividade conforme a
essencialidade como sua base, mas sim atuará como balizadora.
202Seguindo a premissa afirmada durante esta seção, a capacidade contributiva poderá ser
revelada em uma tributação fiscal ou extrafiscal,
203contrariando parte da doutrina que não
corrobora essa ideia e que liga a capacidade contributiva à tributação fiscal.
204Dessa maneira, se retira o conceito de que a capacidade contributiva será revelada a
partir da capacidade econômica de suportar o maior ônus financeiro, seja sobre uma renda
auferida em maior quantidade, seja pelo montante pago pelo produto adquirido ser de maior
valor agregado.
205O princípio da capacidade contributiva e da seletividade não serão,
portanto, opostos e não entrarão em conflito na medida de diferenciação adotada por este
trabalho. Igualmente, há compatibilidade entre as normas indutoras e os princípios da
capacidade contributiva e da igualdade.
206A capacidade contributiva e a igualdade não serão simplesmente afastadas pelo
legislador, devendo ainda serem utilizadas como critérios para determinar a manifestação de
riqueza passível de ser tributada, bem como critério para mensurar a capacidade econômica
do contribuinte e tributá-lo dentro de uma justiça fiscal e social. Logo, o princípio da
capacidade contributiva é exteriorizado na política pública proposta ao se enfrentar um
problema grave: o encarecimento de produtos adquiridos por pessoas de mais baixa renda.
Isso se torna claro com os dados da última Pesquisa de Orçamento Familiar (POF)
2017-2018 realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE):
Tabela 1 – Distribuição das despesas monetária e não monetária mensal familiar, por classes
de rendimento total e variação patrimonial mensal familiar, segundo os tipos de
despesa, na área rural – Brasil – período 2017-2018
Tipos de despesa
Distribuição das despesas monetária e não monetária média mensal familiar (%)
Total
Classes de rendimento total e variação patrimonial mensal familiar (R$) (1) Até 1908 (2) Mais de 1908 a 2862 Mais de 2862 a 5724 Mais de 23850 Despesa total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Despesas correntes 91,7 95,2 93,0 92,2 80,7 Despesas de consumo 84,9 92,0 88,3 86,1 63,6 Alimentação 20,2 27,0 24,1 20,4 6,8 Habitação 26,2 31,2 28,6 26,0 19,3 Aluguel 12,7 15,4 13,5 12,9 9,1
202
RICCI, op. cit., p. 96.
203
FREITAS, 2019, p. 243.
204
BOMFIM, op. cit., p. 198.
205
FREITAS, 2019, p. 244.
206
Aluguel monetário 0,4 0,5 0,3 0,4 0,1 Aluguel não monetário 12,3 14,9 13,2 12,6 8,9
Condomínio 0,1 0,0 0,0 0,0 0,7
Serviços e taxas 6,4 7,9 7,2 6,2 3,1 Energia elétrica 2,7 3,4 3,0 2,5 1,1 Telefone fixo 0,1 0,1 0,1 0,1 0,1 Telefone Celular 1,0 0,9 1,0 1,1 0,6 Pacote de telefone, TV e Internet 0,2 0,1 0,2 0,2 0,5 Gás doméstico 1,4 2,3 1,8 1,2 0,2 Água e esgoto 0,4 0,5 0,5 0,3 0,2
Outros 0,6 0,5 0,6 0,6 0,4
Manutenção do lar 2,6 2,5 2,8 2,4 3,8 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018.207
Torna-se claro, no item “alimentação”, a necessidade de se atentar ao princípio da
capacidade contributiva em uma política de tributação sobre esse item, uma vez que uma
sobretaxação poderá levar a uma maior regressividade e desigualdade.
Dados fornecidos pelo IBGE demonstram, também, que grande parcela das pessoas já
acometidas pela doença obesidade e potencialmente ligadas a ela estão nas classes mais
baixas.
Isso se confirma com a pesquisa de Monteiro, Conde e Popkin,
208que realizaram um
estudo sobre as mudanças na frequência de obesidade conforme o nível de renda. Foi
verificado que a obesidade vem aumentando consideravelmente desde 1975 e que esse
aumento é ainda maior naqueles de baixa renda. A pesquisa teve como metodologia a análise
dos dados derivados de três pesquisas nacionais: a) Estudo Nacional sobre Despesa Familiar –
realizado de agosto de 1974 a agosto de 1975; b) Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição –
feita de junho a setembro de 1989; e c) Pesquisa de Orçamentos Familiares – realizada de
julho de 2002 a junho de 2003, todas elaboradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, órgão federal encarregado das estatísticas nacionais no Brasil.
Passada essa primeira fase, os pesquisadores puderam realizar uma divisão entre cinco
grupos econômicos, qualificando-os em renda. Também há, no trabalho, uma divisão por
idade e por sexo. Os resultados foram:
Tabela 2 – Renda familiar – Obesidade – Masculina e feminina
Renda Familiar Obesidade – Masculina
Ano 1975 1989 2003 Evolução do período 1975-1989 Evolução do período 1989-2003
207
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de Orçamento Familiar 2017 -2018:
primeiros resultados. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. p. 46.
208
MONTEIRO, Carlos A.; CONDE, Wolney L.; POPKIN, Barry M. Income-specific trends in obesity in Brazil: 1975-2003. American Journal of Public Health, v. 97, p. 1808-1812, 2007.
Primeiro Quintil 0.5 1.7 4.1 3.19* (1.98, 5.15) 2.50* (1.68, 3.72) Segundo Quintil 1.4 3.3 8 2.37 (1.64, 3.42) 2.45 (1.76, 3.42) Terceiro Quintil 2.2 4.6 8.6 2.10 (1.55, 2.84) 1.83 (1.36, 2.45) Quarto Quintil 3.7 7.7 10.5 2.10 (1.70, 2.56) 1.31 (1.06, 1.62) Quinto Quintil 5.5 8.5 12.8 1.53 (1.28, 1.82) 1.45 (1.21, 1.74) TOTAL 2.7 5.1 8.8 1.92 (1.62, 2.27) 1.70 (1.48, 1.95)
Renda Familiar Obesidade – Feminina
Ano 1975 1989 2003 Evolução do período 1975-1989 Evolução do período 1989-2003 Primeiro Quintil 2.6 8.9 11.2 3.27(2.64,4.06) 1.36(1.14,1.62) Segundo Quintil 5.7 11.7 13.5 1.97(1.65,2.34) 1.17(0.99,1.39) Terceiro Quintil 8.8 14.8 13.5 1.65(1.40,1.94) 0.87(0.73,1.03) Quarto Quintil 11 14.3 114.1 1.30(1,23,1.65) 0.92(0.77,1.10) Quinto Quintil 8.6 12.7 11.5 1,42 (1,23, 1.65) 0.90(0.76,1,07) TOTAL 7.4 12.4 13 1.63(1.47,1.8 1.03(0.95,1.12)
Fonte: Monteiro, Conde e Popkin.209
As taxas de prevalência no risco de obesidade diferiram de acordo com a renda
familiar nos dois períodos avaliados e entre homens e mulheres. Entre os homens, o estudo
revela que a obesidade aumentou mais entre os quintis de baixa renda do que entre os de alta,
com razões de prevalência de 3,19 versus 1,53 no primeiro período e 2,50 versus 1,45 no
segundo período. Já no das mulheres, a obesidade também tendia a aumentar mais no quintil
de baixa renda do que no de alta durante o período anterior. No período recente, os aumentos
nas taxas de prevalência de obesidade foram restritos às mulheres dos 2 quintis de baixa
renda, enquanto foram observadas pequenas quedas nas taxas de obesidade nos 3 quintis de
renda mais alta.
Em outro estudo, Anelise Rízzolo de Oliveira Pinheiro, Sérgio Fernando Torres de
Freitas e Arlete Catarina Tittoni Corso realizaram uma abordagem epidemiológica da
obesidade. Nele, puderam constatar que estudos realizados no Reino Unido da Grã-Bretanha
confirmaram que as condições socioeconômicas são determinantes para o nível de obesidade
da população, concluindo que:
Relação da CSE (condição socioeconômica) com a obesidade, bastante complexa e multifatorial, vem se demonstrando bidirecional: a baixa CSE determinaria o aumento da prevalência da obesidade, enquanto a alta prevalência de obesidade contribuiria para uma diminuição da CSE, por limitações funcionais, estéticas e culturais. Stunkard destaca que em países desenvolvidos, diferentemente do que ocorre entre homens e crianças, entre as mulheres ocorre uma relação inversa da CSE com a obesidade; ou seja, as mulheres de baixa CSE apresentam maior prevalência de obesidade.
Em países em desenvolvimento, a relação direta da obesidade com as classes de melhor CSE ainda é predominante. No Brasil, Sichieri et al. concluíram que a complexidade da associação entre renda e prevalência de obesidade, principalmente quando considerada a sua evolução temporal, mostra “quão tênue é a divisão entre
209
as chamadas doenças da afluência e doenças da pobreza”. A obesidade, que inicialmente
predominava nas classes econômicas de maior renda, vem apresentando uma evolução temporal com predominância nas populações mais pobres, principalmente entre as mulheres.210