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3. ESTADO NOVO: AUTORITARISMO E MODERNIZAÇÃO

3.3 A conjuntura externa: os tempos de guerra

Conforme visto anteriormente, com o advento do Estado Novo e em face à crise no balanço de pagamentos, o Governo Vargas decidiu unilateralmente decretar a moratória da dívida externa, bem como reintroduzir aos moldes dos anos 1931-34 o monopólio cambial e o controle sobre as importações. Esta decisão incomodou inicialmente os credores internacionais, principalmente os americanos. Outra medida adotada por Vargas, na época considerada provocativa, foi o estreitamento das relações com a Alemanha através do comércio teuto-brasileiro de compensações. Mas, mesmo assim, não houveram represálias maiores, pois a política externa do governo americano no período ainda se baseava na estratégia de fortalecer os brasileiros em detrimento aos argentinos.

Segundo Fonseca (1989), grande parte do êxito do regime do Estado Novo no campo econômico e político deve-se ao contexto de guerra. Via “ideologia de guerra”, o Estado Novo conseguiu garantir a acumulação e assegurar a legitimidade ao capital industrial.

“A guerra [...] favoreceu a difusão de teses já abraçadas por Vargas bem antes de sua deflagração, criando ambiente propício à defesa da industrialização, da diversificação agrícola, do comércio externo bilateral e do fortalecimento do poder do Estado na economia e na política. A situação interna favorável – e no caso não só a Segunda Guerra, mas a mudança na divisão internacional do trabalho verificada a partir dos anos 30 – evidencia a conjugação dos fatores externos com internos para configurar um processo único de consolidação do capitalismo no Brasil” (FONSECA, 1995, p. 291).

É nesse contexto que a Missão Aranha (1939) se corporifica, dando ensejo ao desejo dos americanos em consolidar sua influência sobre a América do Sul e da mesma forma minorar o raio de atuação dos alemães sobre o continente latino.

“A agenda incluía questões relacionadas à defesa nacional, às relações comerciais, à dívida pública externa e ao tratamento recebido pelos investimentos diretos norte- americanos no Brasil – a serem discutidos com o Departamento de Estado – e assuntos ligados à política cambial, criação de banco central e planos de desenvolvimento de longo prazo na órbita do Tesouro norte-americano [...] Como contrapartida pela concessão de créditos, Aranha comprometeu o Brasil a adotar uma política cambial liberal, a opor obstáculos ao comércio de compensação teuto- brasileiro e a retomar, no curto prazo, o serviço da dívida pública externa” (ABREU, 1990, p. 93-94).

De maneira geral as consequências mais diretas deste acordo foram as seguintes: aumento da importância do mercado americano para o Brasil e aprofundamento da nossa dependência em relação a esse país, quer pela compra crescente das nossas exportações, quer fosse atendendo as nossas necessidades de produtos importados e, por último, e não menos importante, pelo fornecimento das bases financeiras que propiciariam as condições para a instalação da indústria siderúrgica no país.

"Em setembro de 1940, o governo brasileiro recebia dos EUA a oferta que desejava: os empréstimos de $20 milhões em dólares seriam feitos pelo Eximbank, instituição semi-oficial (Vargas queria evitar a dependência em relação a corporações estrangeiras privadas). Esta proposta incluía outros compromissos da parte dos americanos: incremento de transporte marítimo do carvão vindo do Sul para a usina de Volta Redonda, o equipamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, para transportar o ferro extraído de Minas Gerais. Um ano e meio depois da instalação de Volta Redonda, que se deu em 1941, o empréstimo do Eximbank subia a 45 milhões” (SOLA, 1990, p. 275).

No ano de 1942, aportou no Brasil, a missão Cooke, com o intuito de estudar as possibilidades de se impulsionar a industrialização brasileira através da colaboração americana. Esta missão foi o começo de uma longa e estreita colaboração entre os planejadores econômicos dos dois governos. A missão técnica americana auxiliou de maneira significativa o primeiro levantamento dos recursos brasileiros. Mas, mesmo assim, as recomendações da missão não foram seguidas, tendo em vista que o relatório final do projeto apontava para a existência de entraves econômicos e institucionais de grande envergadura, os quais desestimulavam a ampliação dos investimentos estrangeiros.

A partir de 1943, a política externa americana altera-se abruptamente, sendo o caso mais emblemático o revés da política estadunidense para o café. Inicialmente generosa, porém não destituída de interesse próprio, esta se tornou progressivamente menos altruísta, à medida que se diminuía a necessidade de recorrer a incentivos econômicos para garantir apoio político da América Latina. Dessa forma, os EUA recusaram-se a reajustar os preços de café e mostraram-se crescentemente hostis ao desenvolvimento das indústrias substitutivas de importações, chegando ao ponto de utilizaram-se do argumento de acúmulo excessivo de divisas estrangeiras, para reivindicar a abolição das medidas protecionistas. “Além disso, a violenta política antiargentina adotada pelos Estados Unidos começava a parecer extrema mesmo aos brasileiros, pois a Argentina não era apenas o “bom vizinho”, era o vizinho de fato, que não devia ser excessivamente provocado” (ABREU, 1990, p. 102).

evidenciou-se o desconforto do governo brasileiro em relação à intimidade das suas relações com os Estados Unidos, pois, continua o autor, verificou-se uma reorientação da política norte-americana relativa ao apoio a governos latino-americanos que não haviam sido eleitos por voto popular. Materializaram-se intenções no governo norte-americano, no sentido de apoiar uma solução “liberal” no Brasil que extraísse as incoerências entre o regime político autoritário e a política externa pró-aliada. Sendo assim, conclui o autor: “[...] o ostensivo apoio norte-americano foi importante elemento do processo de desestabilização da ditadura varguista que culminaria na sua deposição logo após a vitória no Pacífico” (ABREU, 1990, p. 103).

3.4 Entre o discurso e a práxis nacionalista: a retórica de