2 A COLONIZAÇÃO ALEMÃ NO RIO GRANDE DO SUL
2.2 Dificuldades iniciais
2.2.4 A conquista da moradia
Na Alemanha, o camponês vivia em casa de material com uma indispensável lareira e reserva de lenha para enfrentar o frio do inverno. Um pequeno jardim, com algumas espécies determinadas de flores, era complemento necessário da casa. Possuía uma quinta, mais ou menos plana, que adubava com esterco, preparando a terra com arado e grade. Cultivava basicamente centeio, trigo e batatas. Na horta, plantava quantidades relativamente diminutas de repolho, beterraba e leguminosas. Ali também criava algumas macieiras, pereiras e
168 Mulhall, op. cit. p. 39.
ameixeiras, cujos frutos eram suas guloseimas.
Aqui, quando os colonos chegavam à sua área de destino, durante os primeiros dias as famílias trabalhavam no seu lote de terras e, à noite, se arranchavam no barracão da picada ou se hospedavam nos lares de amigos ou parentes que já se encontravam na localidade há mais tempo. Os barracões eram improvisados e rústicos galpões de pau a pique, ripados e cobertos de capim existentes em algumas das colônias, que serviam de pouso coletivo para imigrantes constituindo-se numa espécie de último estágio de viagem de colonos. Fröhlich dá uma boa noção da passagem de colonos pelo barracão existente na colônia particular de Santa Emília, Venâncio Aires:
Quando finalmente estavam diante do barracão de São Miguel, foram tomados pelos mais diversos sentimentos: de alegria, por terem finalmente chegado ao lugar onde sonhavam por um futuro promissor; de temor, por tudo que teriam de enfrentar; de saudade, por estarem tão longe de tudo que ficara para trás.
Estavam agora no rústico barracão, coberto por palmitos, sem portas e sem janelas, sem cadeiras e sem camas. Nele nenhum prego, nenhuma tábua, tudo armado com cipós.169
Josef Umann, um dos imigrantes pioneiros de Linha Cecília, relatou que o diretor da colônia de Monte Alverne, Sr. Richter, instruiu aos colonos a primeiramente desmatar uma pequena roça, queimar a vegetação, limpar o local e ali construir uma choupana provisória onde poderiam morar por algum tempo. Umann, entretanto, seguiu o conselho dos colonos já radicados e alojou-se na casa da família de Josef Reckziegel, de Linha Brasil. Precisava deslocar-se diariamente até seu lote por péssimos caminhos, o que lhe consumia, ida e volta, cerca de duas horas todo o dia.170 Já Johann Lenz, pioneiro de Linha 17 de Junho, enquanto limpava um pequeno terreno e construía sua choupana, ficou na casa da família de Miguel Alles, de Linha Cecília. Sua esposa e seus filhos abrigaram-se na casa do seu irmão Pedro, residente em Serro Alegre, Santa Cruz.171
O primeiro abrigo era construído com materiais existentes no próprio local. “Quatro paus fincados no chão; galhos de árvores trançando-se para formar as paredes, revestidos de folhas ou cobertas de barro amassado; outros galhos ou folhas de girivá formando o teto – e estava pronta a moradia dos primeiros tempos”.172
169 FRÖHLICH, Cláudio Carlos. A colônia de Santa Emília em capítulos (parte XVII). Gazeta do Chimarrão, Venâncio Aires, 14 set. 2002. Caderno de Variedades p. 2.
170 UMANN, op. cit. p.55
171 Linha Lenz, op. cit.
172 Truda, op. cit. P. 228.
Os ranchos iniciais eram geralmente muito primitivos. Contavam os primeiros habitantes de Isabel, Venâncio Aires, que postes de figueira utilizados na construção do primeiro abrigo chegavam a brotar e continuar crescendo.173
A cabana, que era de chão batido e que normalmente não possuía divisória, constitui-se na primeira conquista do colonizador alemão. Mais do que o sentimento de ter conseguido construir sua “casinha”, o imigrante sentia-se, enfim, acolhido por sua nova pátria. Sabia que esse era seu pedaço de chão e que isso ninguém lhe tiraria. Estava, entrementes, sozinho na mata com sua família:
Acostumados que estavam morando perto de parentes e amigos, e agora aqui sozinhos, eles Deus e os animais como companhia, com seus gritos, principalmente os macacos e os papagaios quebravam a monotonia da mata virgem.174
Umann relata que a sua primeira morada, apesar de pequena, não abrigava somente sua família, mas também seu cão, seu gato e um certo número de galináceos que se acocoravam nas vigas. Não obstante isso:
(...) acredito que nenhum rei em seu palácio possa se sentir mais feliz que eu outrora, em minha primeira choupana, a qual sabia ser minha, e mesmo que deixasse a desejar em todo o sentido, tínhamos a esperança que com o correr do tempo ela poderia ser melhorada, e sobretudo, sabíamos que ninguém podia nos obrigar a abandonar a nossa morada!175
A primeira mobília também era improvisada: tocos de árvores serviam de cadeira; o baú trazido da Alemanha ou um tronco de árvore mais grosso, de mesa; folhas de palmito, de colchão; uma vara deitada sobre duas forquilhas espetadas no chão servia como fogão.176 Avé-Lallemant, ao pousar na casa de um colono em Rio Pardinho, na colônia de Santa Cruz, fez o seguinte relato:
(...) foi cedida a cama, de tão boa vontade, que tudo se lhe perdoa, sobretudo os percevejos indo-germânicos, espalhados em toda a terra, com a imigração alemã.
173 Festschrift, op. cit. p. 6.
174 Linha Lenz – 1881-1991. Centenário de Linha 17 de junho. Venâncio Aires: Empresa Jornalística Folha do Mate, 1981.
175 Umann, op. cit. p.56
176 Flores, op. cit. p.128; Umann, op.cit. p.66
O que mais me chamou a atenção é que não se fecha porta alguma. Tudo fica aberto. E por isso recebi de noite várias visitas zoológicas. Um bicho saltou sobre minha cama e diagnostiquei que era um gato. Quando veio um cão e quis expulsá-lo, reconheceu um estranho na cama do seu senhor e ladrou como um desesperado. Vieram também alguns porcos; ouvi ainda um morcego que por longo tempo esvoaçou, roçando o meu rosto.177
Passadas algumas colheitas, o desenvolvimento das colônias podia ser notado. As choupanas passavam a dar lugar a construções maiores e de maior durabilidade. Na colônia Santa Cruz, por exemplo, desde 1870 já havia serrarias a vapor, o que possibilitava a edificação de casas com paredes de tábuas de madeira serrada. As coberturas das casas passaram a ser feitas de tabuinhas rachadas em formato retangular e presas às ripas transversais, ou com telhas de barro pequenas e planas. Estrebarias e cercas também começavam a aparecer ao redor das casas.178
Mas serrar tábuas, fazer cercas, rachar ripas, construir cabanas, casas e galpões tinha que ser aprendido a muito custo e esforço. Mesmo os que na Europa haviam sido trabalhadores urbanos, como os imigrantes boêmios, tiveram que se habitar a esses novos serviços.
Os colonos de maiores recursos preferiram as construções de material. Aparece assim o enxaimel (Fachwerkbau) como técnica de construção. A edificação da casa era realizada a partir de um sistema formado por um tramado de madeira constituído de barrotes (peças horizontais), esteios (peças verticais), bem como vergas, peitoris e contraventamentos. Essa gaiola de madeiramento tinha suas superfícies vedadas por tramos constituídos de variados materiais como taipa, adobe, tijolos ou pedras.179 Nesse tipo de construção havia divisórias internas para separar as peças, erguidas com tábuas de madeira ou feitas no sistema enxaimel e preenchidas com taipa. Os telhados dessas casas podiam ser de tabuinhas superpostas ou de telhas de barro. Devido à durabilidade, as coberturas de tábua foram sendo substituídas posteriormente pelos telhados de zinco.
177 Avé-Lallemant, op. cit. p. 176-177..
178 MORAES, Carlos de Souza. O colono alemão – uma experiência vitoriosa a partir de São Leopoldo. Porto Alegre: EST, 1981. p.54
179 CAMPOS, Heleniza A., Schneider, Luís. Arquitetura civil rural da imigração alemã. In: CORREA, Sílvio M.
S., Etges, Virgínia E. (org.). Território & população: 150 anos de Rio Pardinho. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2001. p.75.
Para os colonos alemães180 – o mesmo se deu também entre os colonos italianos –, a cozinha era o principal ponto de reunião familiar, sobretudo nas noites frias de inverno. Em torno do fogo, tomava-se chimarrão, comia-se pinhão e fatias de batata doce assadas na chapa do fogão, planejavam-se as tarefas do dia seguinte e fazia-se a janta.
Antes que o moderno fogão de lenha substituísse o fogão de chapa colocado sobre duas bases de tijolos ou o de forquilha, por causa do risco de incêndio, a cozinha tinha de ser de chão batido. Precisava, também, estar separada das demais peças da casa, especialmente dos dormitórios, já que brasas eram mantidas acesas enquanto os moradores dormiam ou trabalhavam nas roças. Segundo Canstatt, o hábito de separar, nas construções, a cozinha das demais peças da casa, os colonos alemães haviam adquirido dos brasileiros.181 Com a disseminação do fogão a lenha de chapa veio o assoalho de madeira, o que passou a dar maior conforto, asseio e higiene para as cozinhas. Com isso, a cozinha passou a ser ligada ao edifício principal por um alpendre ou por um corredor coberto de ligação, chamado de Zwischenbau.182 Finalmente, a cozinha fundiu-se em uma só construção com a sala e os quartos de dormir.
As casas de pedra grês e de alvenaria constituem um estágio mais evoluído do partido arquitetônico, pressupondo conhecimento técnico mais sofisticado dos materiais e prosperidade dos colonos. De acordo com Roche,183 a evolução da casa rural nas antigas áreas de colonização alemã do RS é reveladora da recíproca influência do homem e do meio. A choupana de galhos, folhas e barro, o enxaimel, a casa de pedras, a casa de tijolos e cimento, cada uma a seu tempo, correspondem à utilização racional de recursos locais disponíveis em função das necessidades, das técnicas e das condições financeiras dos moradores. Já a existência de recursos naturais e o desenvolvimento do artesanato de telhas e de tijolos possibilitaram a edificação de antigas casas que demonstraram uma vitória de adaptação do homem ao meio.
180 Ver a respeito MAESTRI, Mário. Os senhores da serra: a colonização italiana do Rio Grande do Sul. (1875 - 1914). Passo Fundo: UPF, 2000. p. 65-66.
181 Canstatt, op. cit. p. 421.
182 Flores, op. cit. p.146
183 Roche, op. cit. p.206