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3.2 O corpo e a Igreja

3.2.3 A consagração e as coisas consagradas

A Bíblia fala de vocação e comissão. Todos nós fomos chamados para fazer

parte da grande comissão, que Jesus comissionou a Sua Igreja. E alguns foram vocacionados, foram chamados. De repente, Deus me chamou para o ministério, a Bíblia diz assim: foi chamado para a obra do ministério. Então a pessoa deixa os seus afazeres e se dedica integralmente ao trabalho de evangelização. Sou Pastor desde os 19 anos de idade, é porque eu fui chamado para isso por Deus, e depois que você é vocacionado e chamado, você é

capacitado (Entrevista, Pastor Roberto).

Além de a Igreja estar separada do que é pecaminoso, como visto no tópico anterior, o Pastor também está. O pastor é um membro da Igreja que já se encontra mais próximo ao mundo sagrado do que todos os outros membros, afinal ele foi chamado e vocacionado por Deus para o trabalho de pastorado. Ele “olha” pelos outros pois é um líder mandado por Deus para isso. Se o pastor exerce prestígio sobre o fiel é porque, de certa forma, ele é digno de ser um líder. E ele só se transforma num líder religioso porque foi “indicado por Deus” para este papel.

Quando o Pastor fala em ser capacitado, ele se refere, além da graça recebida, ao “curso” que fez para ser Pastor e, depois deste curso, ele passa por um ritual que confirma publicamente seu papel de líder religioso apontado por Deus. Apesar de o pastor representar a união dos dois mundos, ele está “naturalmente” mais próximo do mundo sagrado. A partir da consagração do pastor, ele se torna um líder religioso para os fiéis, conferindo a eles o contato com o sagrado mediante diversas cerimônias, cultos e liturgias.

Para concretizar este contato dos membros com Deus, além das participações nos cultos, das orações e evangelizações, Júlia, uma das mulheres da Igreja a quem entrevistei, disse-me que existe um ritual no qual duas “coisas” são consagradas. Isto acontece num culto que eles chamam de Santa Ceia. Nele é feita uma consagração do pão e do vinho que, após o ritual feito pelo pastor, passam a representar simbolicamente o corpo e o sangue de Jesus.

A Santa Ceia é a representação simbólica de quando Jesus comemorou a última Páscoa com os discípulos, que aí ele partiu o pão e tomou o vinho e ele falou: Fazei isso em memória de mim até que eu volte, que é o que a gente crê, que Jesus vai voltar. Então a gente faz essa cerimônia, lembrando que ele

morreu e que ressuscitou, e esta cerimônia é feita uma vez por mês (Entrevista

Júlia contou que após a consagração destes elementos, eles bebem o vinho e comem o pão. O Pastor enfatizou que este cerimonial simboliza e relembra o ato de Jesus partilhar o pão e o vinho com seus discípulos. Julia disse que participam deste ritual todos aqueles que são membros da Igreja, ou seja, não basta estar na Igreja para participar, tem que ser batizado.

Outro ritual, que é o mais importante na Assembléia de Deus, é o de batismo. É ele que define os papéis dentro da Igreja, ou melhor, proporciona algum papel ao fiel, pois sem ele o indivíduo é apenas um participante vislumbrando se tornar um membro. É a partir do batismo pelo Espírito Santo que os indivíduos se tornam realmente membros da Igreja Evangélica Assembléia de Deus.

Quando perguntei a Júlia sobre o que era o batismo, ela disse: eu considero ele

como característico da Igreja Evangélica. Assim como a hóstia é um ritual importante da Igreja Católica, porque é um momento de ritual que serve para demonstrar um sentimento da fé que cada um tem.

A representação do batismo é um exemplo de ritual que se dá no corpo do fiel, afinal é através do corpo que o fiel é perdoado por seus pecados.

Ele não é o batismo de nascimento como na Igreja Católica, é o batismo de conversão, lembra o batismo de João, na verdade representa o batismo de João Batista na Bíblia, que ele batizava por arrependimento, para remissão de pecados. Ele não batizava quem tivesse outros fins. Ele era primo de Jesus, veio primeiro. Foi ele quem começou a falar sobre o reino dos céus estar próximo e que todos deveriam vir e se arrepender de seus pecados para serem batizados na água do rio para o arrependimento. Em alguns lugares da Igreja Evangélica, no interior,em cidades mais pequenas ainda existe esta cerimônia feita no rio, inclusive no próprio Rio Amazonas tem muito. Então o que representa para a gente é que quando você mergulha nas águas você está sendo lavado, sua alma está sendo lavada e você está sendo perdoado de seus pecados. Aqui, como não dá para fazer no rio, é feito com água também, mas

nos chamados tanques batismais (Entrevista, Julia).

É como se o corpo estivesse sujo pelos pecados cometidos e precisasse ser lavado. Neste sentido, o corpo é o símbolo do pecado. Mas lavando-o, purifica-se a alma também. Portanto, para os indivíduos estudados, o corpo, no momento do batismo, representa ao mesmo tempo a matéria, a alma e o espírito. Um outro exemplo disso relato a seguir.

Na igreja estudada são muito comuns “os testemunhos” nos cultos de domingo à noite, ou seja, os fiéis dão depoimentos sobre algo que aconteceu durante a semana. Numa de minhas observações, o Pastor chamou até o altar uma senhora chamada Vera, que poucas vezes eu tinha visto na Igreja. Vera discursou sobre a “benção maravilhosa” que havia recebido de Deus naquela semana. Ela contou que, na quarta-feira, seu filho mais velho tinha sofrido um acidente, mas que o fato de ela ser uma missionária da Igreja Evangélica Assembléia de Deus fez com que Deus se orgulhasse dela e desta forma protegesse seu filho de algo pior. Ela julga que por ser uma trabalhadora da Igreja tem direitos que outros não têm. “A prova de que Deus olha

por seus filhos que trabalham para Ele, é que nem o acidente nem as ferragens do carro atingiram o corpo do meu filho” (Vera, grifo meu). Em seu pensamento seu filho poderia ter morrido se ela não fosse uma “obreira do Senhor”.

O mais interessante deste discurso é quando ela fala sobre Deus ter protegido o corpo de seu filho porque, naquele momento, não bastava que Ele tivesse protegido e amparado apenas sua alma. Para os fiéis, a fé e a freqüência aos cultos não estão relacionadas somente à salvação da alma depois da morte, na verdade tem um fundo “material”, eles desejam viver bem agora, querem que o corpo também usufrua de alguns benefícios em vida.

Por isso a idéia de Mauss e Hubert sobre o ritual ser sempre uma forma de contrato ainda é válida, pois as religiões atuais são uma forma de compromisso do indivíduo para com Deus e vice-versa. O indivíduo religioso tem obrigações, mas cumprindo-as ele compromete a Deus, que também terá “obrigação” de cumprir a Sua parte. No caso de Vera, ela “dá” o seu trabalho e Deus “dá” a proteção para sua família, e, no caso do batismo, percebo que este é uma espécie de “contrato formalizado”.

Pensando nisso tudo, lembro-me da fala do Pastor Roberto que em conversa comigo e com outro fiel da Igreja disse que a fé precisa ser materializada, senão não há fé. O Pastor quis dizer que é preciso que algo se concretize materialmente (que os olhos possam ver) para que possamos crer naquilo. Mas, muitas vezes, a fé não pode ser submetida à prova e então nossa única opção é crer. E, como diz o Pastor, na falta da certeza, é melhor que pratiquemos o que a crença diz para não prejudicarmos nossa relação com Deus.

Este comércio com o “Ser Superior” se define no momento em que o fiel faz do seu corpo um objeto de troca com ele. Ou seja, o fiel se mantém longe do pecado, cuidando para

que o corpo não “profane a Deus”28. Ele vai até a Igreja para ser visto por Deus, (e ser visto principalmente pelos membros da Igreja, que estão sempre vigiando uns aos outros) e assim conseguir o que deseja. Ou seja, o intermediário entre o céu e a terra é o próprio corpo do homem religioso. A alma já é pura por “criação”, já o corpo:

O corpo é material. A inclinação do corpo é para o que os olhos vêem, pelo que os ouvidos ouvem, por tudo que entra no corpo pelos sentidos. Veja só, a Bíblia diz que tem duas partes do homem: o homem exterior e o homem interior. O homem interior, ele clama por Deus, o homem exterior clama pelas coisas fora, pelo que está no mundo. E nesta inclinação, aquele que for mais forte vai

dominar o outro (Entrevista, Pastor Roberto).

Ou seja, o homem interior a que o Pastor se refere é a alma e o homem exterior é o corpo. Como a alma já está mais próxima de Deus, é com o corpo que devemos tomar cuidado para mantê-lo puro. Mas o que fazem os fiéis para se manter puros? Ora, eles abdicam de uma coisa para conseguir outra. Na Igreja há sempre um ato de abnegação. O indivíduo se priva de diversas coisas porque “Deus exige”. No entanto, Mauss e Hubert já deixavam claro que esta abnegação não suprime um retorno egoísta.

Se ele dá, é em parte para receber. O sacrifício se apresenta assim sob um duplo aspecto. É um ato útil e é uma obrigação. O desprendimento mistura-se ao interesse. Eis porque ele foi freqüentemente concebido sob a forma de um contrato (MAUSS, HUBERT, 2005, p.106).

Para eles as duas partes envolvidas trocam serviços e ambas têm suas vantagens, pois Deus também tem necessidade dos pecadores. “Para que o sagrado subsista, é preciso dar- lhe sua parte, e é com a parte dos profanos que se faz essa reserva” (MAUSS, HUBERT, 2005, p.106). Ou seja, um não existiria sem o outro. O sagrado encontra a fonte da vida no profano e vice-versa. As condições mesmas para ambas as existências são estas tentativas dos homens em manter contato entre um e outro. Este é um dos conceitos de Mauss e Hubert ainda válidos para hoje. Mariano (1999) afirma que é por isso que a figura do Diabo exerce papel fundamental dentro das igrejas, pois ele é o principal inimigo de Deus e, sem ele, as lutas não precisariam acontecer. Mas, afinal, quem corre mais perigo ante as tentações do Diabo? O homem ou a mulher? É sobre a diferença entre ambos que falarei um pouco no último item deste capítulo.

3.3 A VISÃO SOBRE (E DAS) MULHERES NA IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLÉIA