No sistema de gestão dos acervos, todos os profissionais devem estar
envolvidos para alcançar o objetivo maior: a preservação dos bens culturais.
Gerenciar um acervo pressupõe uma série de práticas diversas, mas
interdependentes, que em suas especificidades devem refletir o todo, neste caso a
instituição de salvaguarda.
Partindo desses pressupostos, cada equipe responsável pelo
gerenciamento de coleções deve produzir um trabalho constante de
planejamento, por meio de projetos específicos, visando buscar recursos
que viabilizem o trabalho de preservação de seu acervo (FRONER &
SOUZA, 2008, p. 13).
Neste ponto, a gestão dos acervos de origem arqueológica não é diferente:
possui caráter interdisciplinar, necessitando do diálogo entre diferentes áreas para
que seja efetiva. Entretanto, as características dos acervos arqueológicos os tornam
um caso à parte, pois, além de estes incluírem não somente os artefatos, mas
também outros materiais e informações associadas, se caracterizam pela fragilidade
e acelerada degradação das coleções, causadas pela brusca mudança ambiental no
momento do resgate.
Como aponta Swain (2007), o desafio em gerenciar estas complexas
coleções abrange não somente a necessidade de metodologias específicas para
materiais específicos, mas, também, a de manter a relação entre os diferentes
elementos. Além disso, diferentemente de outras tipologias de coleções, os acervos
arqueológicos possuem a particularidade de se formarem ainda em campo. No
momento em que um objeto de origem arqueológica é selecionado e coletado, é
automaticamente patrimonializado, o que implica na obrigatoriedade, por lei, de sua
preservação.
Conforme referido no capítulo 1, grande parte dos acervos arqueológicos
têm sofrido as consequências do descaso e da desinformação a respeito das
práticas de preservação. Os materiais arqueológicos tem se degradado nas reservas
técnicas antes mesmo de cumprirem seus objetivos de pesquisa e divulgação.
Devido ao quadro atual, a necessidade de intervenções de conservação tem sido
cada vez mais sentida pelos profissionais da Arqueologia, e a presença do
conservador, consequentemente, cada vez mais requisitada.
Assim como cada vez mais os arqueólogos estão desenvolvendo uma
abordagem de conservação integrada em suas pesquisas de campo, [...], o
mesmo começa a ocorrer em relação à conservação preventiva em
„depósitos‟ e reservas técnicas. Pressão de múltiplas naturezas – interna e
externas à disciplina – deverão colocá-la, em futuro próximo, na condição
de prioridade máxima da investigação arqueológica, em todas as suas
etapas, do campo à exibição ao público. (LIMA & RABELLO, 2007, p.248).
Conforme afirma Alves (2010, p. 66) existe uma “latente necessidade de
conservação dos materiais arqueológicos, desde sua retirada do contexto
arqueológico”. Muitos profissionais da área, entretanto, não estão aptos a tratar dos
materiais de forma a evitar sua degradação. Lima e Rabello (2007) apontam que os
arqueólogos não possuem em sua formação aprendizados básicos sobre
conservação:
[...] por puro desconhecimento, dispensamos tratamento inadequado a
materiais sensíveis e armazenamos de forma incorreta as coleções sob
nossa responsabilidade, contribuindo – sem querer e sem saber – para
acelerar sua deterioração (LIMA & RABELLO, 2007, p. 246).
A participação do conservador, assim, tem sido buscada por muitos
arqueólogos e pesquisadores, que veem na figura do profissional da Conservação
mais um gestor deste patrimônio. A atuação deste profissional inicia ainda na
planificação do trabalho de campo: é neste momento que são definidas as
metodologias que serão aplicadas e os materiais que serão utilizados, em função da
tipologia do sítio e dos prováveis vestígios a serem resgatados.
No caso do sítio PS-03 Totó, a equipe de conservadores não participou de
forma efetiva na planificação da escavação. Este fato implicou em um despreparo da
equipe para a realização das ações de conservação. As tipologias e quantidade de
materiais a serem resgatados não puderam ser calculadas e, como consequência,
os produtos e instrumentos necessários não puderam pensados com antecedência,
sendo adquiridos no decorrer do trabalho de campo.
Outra questão importante referente à planificação e também à conservação
diz respeito aos critérios de coleta dos materiais. No sítio Totó, em função dos
objetivos da pesquisa do arqueólogo Aluísio Alves, a escavação foi de ampla
superfície, e praticamente todos os vestígios encontrados foram coletados. Esta
prática, entretanto, vai de encontro à recente perspectiva que instituições e
profissionais da área começam a compartilhar: a tendência de diminuição dos
materiais resgatados, a fim de evitar o número excessivo de objetos que vem
superlotando os espaços de salvaguarda dos bens arqueológicos.
Atualmente, a arqueologia tem procurado diminuir os procedimentos
exaustivos de escavação, levando-se em conta um grande número de
fragmentos e objetos “perdidos” em reservas ou salas, sem nenhum tipo de
estudo (FRONER & SOUZA, 2008, p. 4).
Por outro lado, preservar parte do sítio é uma estratégia importante para
possibilitar futuros estudos com eventuais técnicas analíticas mais avançadas e
menos destrutivas. Este é um dos motivos pelo qual a carta de Lausanne sugere,
como descrito no capítulo 1, que em um trabalho de campo sejam preservados
setores sem intervenção ou alteração.
Cabe ao arqueólogo determinar critérios de seleção e descarte para os
objetos encontrados, em função do projeto e objetivos, ainda na etapa de
planejamento do trabalho de campo. Assim como os profissionais da Arqueologia,
também as instituições de salvaguarda devem definir quais são os critérios para
aquisição destes acervos, devendo levar em consideração fatores como
identificação com a política institucional, tipologia e potencial informativo do objeto,
sua procedência e estado de conservação (VEGA et al, 2008).
Não é possível fugir da atribuição de valores no momento de priorizar esta
ou aquela obra, este ou aquele artefato a ser preservado, esta ou aquela
coleção a ser organizada. [...] Quando falamos de uma política de
preservação, estamos colocando no centro do problema as decisões
tomadas por pessoas e instituições: são estas decisões que determinam
quais são os bens materiais culturais que devem ser preservados ou não, a
quem interessam estes bens, qual o sentido deles para a cultura ou a
história da humanidade (FRONER & SOUZA, 2008, p.3-4).
Lima e Rabello (2007, p. 249) relembram que é dever ético dos profissionais
da Arqueologia assegurar a preservação dos acervos arqueológicos, em especial
“das coleções por eles produzidas ou que estão sob sua responsabilidade”. Neste
âmbito, é importante lembrar que esta obrigatoriedade diz respeito também aos
aspectos legais do fazer arqueológico. Desta forma, é fundamental para a gestão de
preservação dos acervos arqueológicos que as condições de conservação e
salvaguarda dos materiais resgatados sejam asseguradas ainda na fase do
planejamento.
Apesar não ter participado da etapa da planificação, o fato da equipe de
conservação ter atuado no sítio Totó ativamente desde o início do trabalho de
campo, possibilitou o aprendizado das técnicas de escavação, e, em um âmbito
maior, o conhecimento das necessidades e objetivos da práxis arqueológica. Para o
profissional da Conservação que deseja se especializar na área de conservação
arqueológica, os conhecimentos básic os a respeito da prática do arqueólogo são
indispensáveis, pois é a partir desta que o conservador poderá pensar a intervenção
in situ como um fator complementar ao trabalho de campo, que contribua e não
interfira no fazer arqueológico.
O profissional que vem surgindo deste contexto pode se configurar na figura
do conservador especializado em Arqueologia bem como na do arqueólogo
especializado em Conservação, que assim, como o conservador, deve se buscar o
aprendizado teórico e prático da área na qual esta se inserindo. A compreensão de
que o conservador não intervém somente no laboratório e de que o arqueólogo não
atua unicamente no campo torna ainda mais conveniente a união destes perfis em
um só profissional (RODGERS, 2004).
As ações de conservação in situ no sítio Totó também demonstraram a
importância dos testes e análises prévias antes de qualquer intervenção. Através
dos testes de consolidação, puderam ser escolhidos os produtos e técnicas mais
adequados a cada tipologia material. A análise do pH do solo, entretanto, deveria ter
sido executada anteriormente ao início das intervenções, pois a caracterização do
solo como meio ácido é uma informação importante para a escolha dos tratamentos
e das formas de acondicionamento e armazenagem.
As intervenções de consolidação in situ foram mais bem sucedidas nos
materiais ósseos do que nos cerâmicos, nos quais ocorreu o problema da não
penetração do consolidante em algumas peças, em função do clima e da
consequente evaporação quase que imediata do solvente, o que resultou na
ocorrência de manchas na superfície dos materiais (tab. 1).
A escolha do produto consolidante e de sua concentração, neste caso, não
foi adequada para as características ambientais do sítio Totó. Percebe-se aí a
problemática da utilização de bibliografia estrangeira, em grande parte europeia e
norte-americana, em função da parca bibliografia brasileira a respeito do tema, e que
muitas vezes não é condizente com os fatores ambientais que encontramos no país
ou, mais especificamente, em nossa região.
[...] os critérios da Conservação Preventiva têm sofrido uma série de
ajustes, em função das especificidades dos materiais existentes nos bens
patrimoniais, móveis e imóveis, e das áreas nas quais estes objetos
encontram-se lotados. Assim, os critérios adotados em países de clima
tropical não devem ser os mesmos daqueles adotados em clima temperado:
a realidade é distinta; os parâmetros são distintos; os mecanismos são
distintos, portanto, a maneira de controlar cada contexto também é diferente
(FRONER et al,1997,p.194).
Os produtos e materiais indicados pelos autores, por sua vez, nem sempre
estão disponíveis no mercado brasileiro, e quando se encontram disponíveis
possuem um alto custo. Como demonstrado na lista de materiais do anexo B, é
extenso e diversificado o rol de itens demandado pelas práticas de conservação
arqueológica. Quanto maior a heterogeneidade de tipologias, característica inata aos
Tabela 1 – Análise dos materiais cerâmicos
PEÇA N 10 PEÇA N 15 PEÇA N 34
N DE FRAGMENTOS 2 2 2
TRATAMENTO IN
SITU REINTEGRAÇÃO CONSOLIDAÇÃO CONSOLIDAÇÃO
PRODUTOS
UTILIZADOS
PARALOID
20%
NÃO
INFORMADO
PARALOID
10% E 20%
ACONDICIONAMENTO EM SACO
PLÁSTICO
EM SACO
PLÁSTICO
EM SACO
PLÁSTICO
ESTADO DE
CONSERVAÇÃO
BOM, COM
MANCHAS
BOM, COM
MANCHAS
BOM, COM
MANCHAS
acervos arqueológicos, maiores e mais diversos serão ainda os insumos
necessários à intervenção in situ. Neste sentido, o planejamento auxilia na questão
da captação e organização dos recursos, sejam estes humanos ou financeiros.
Ainda assim, conforme as análises posteriores em laboratório, as peças
consolidadas in situ se encontravam, de modo geral, estabilizadas e em bom estado
de conservação. Os materiais ósseos que sofreram intervenção, por exemplo,
estavam em melhor estado que o material que não foi consolidado, como pode ser
observado na tabela 2.
Tabela 2 – Análise dos materiais ósseos
PEÇA N
30 PEÇA N 59 PEÇA N 64 PEÇA N 78 PEÇA N 82 PEÇA N 90
N DE
FRAGMENTOS 1 6 2 3 3 1
TRATAMENTO
IN SITU NENHUM CONSOLIDAÇÃO CONSOLIDAÇÃO CONSOLIDAÇÃO CONSOLIDAÇÃO CONSOLIDAÇÃO
PRODUTOS
UTILIZADOS - PRIMAL 10% NÃO
INFORMADO PRIMAL 10% PRIMAL 10% PRIMAL 10%
ACONDICIONA-MENTO
EM SACO
PLÁSTICO EM SEDIMENTO EM SEDIMENTO EM SEDIMENTO EM SEDIMENTO EM SEDIMENTO
ESTADO DE
são impossibilitadas pela aplicação dos produtos consolidantes (CAMPILLO, 1987).
Neste caso – no qual se percebe mais uma vez a importância da planificação
conjunta – conservador e arqueólogo devem decidir previamente que tipos de
análises serão efetuadas, para que sejam aplicados os protocolos de conservação
que atendam aos parâmetros necessários.
Além dos procedimentos de consolidação in situ, o acondicionamento e
transporte adequados dos materiais resgatados em campo garantem a estabilidade
destes até a chegada e processamento em laboratório. Segundo Lacayo (2001), o
objetivo de um bom acondicionamento é proporcionar a proteção adequada em três
níveis: físico, químico e biológico, devendo ser preferida a utilização de suportes
inertes, que evitem ao máximo as variações climáticas e a manipulação direta dos
objetos.
As embalagens plásticas utilizadas no sítio Totó, apesar de não serem do
material ideal indicado pela bibliografia consultada
50, aparentemente, não afetaram a
estabilidade dos objetos. Medidas alternativas simples, como a perfuração dos
sacos para evitar a condensação interna, substituíram soluções que não estavam
disponíveis, como o acondicionamento com sílica gel. O acondicionamento em
sedimento dos materiais ósseos minimizou a variação climática causada pelo
resgate, auxiliando na conservação dos objetos.
No referente à documentação, a elaboração da ficha de intervenção também
não pode ser planejada, de forma que acabou por ser elaborada concomitantemente
ao trabalho de campo. Este fato resultou no “atraso” da aplicação das fichas em
campo, o que pode explicar o desaparecimento das fichas iniciais, que podem, ao
invés de terem sido extraviadas, não terem sido preenchidas. O extravio das outras
fichas se deve, provavelmente, à dificuldade de organizar e sistematizar os
documentos ainda em campo, lembrando que outras fichas e protocolos referentes à
pesquisa arqueológica também são parte da documentação, e tornam este
contingente ainda maior.
50
Sacos de polietileno com fechos herméticos (INSTITUT CANADIEN DE
CONSERVATION, 1991; SEASE, 1994; LORÊDO, 1994; ANTONIO J. WARING, JR.
ARCHAEOLOGICAL LABORATORY, 2010; dentre outros).
Ainda assim, a criação da ficha de intervenção uniformizou e organizou o
trabalho. O estabelecimento de um protocolo de conservação – neste caso, a
determinação dos produtos e técnicas aplicados a cada tipologia material - e a
elaboração de um diário de campo para a descrição das intervenções foram
importantes para a comunicação entre a equipe de conservação, uma vez que
diferentes equipes iam a campo em dias alternados.
Outra questão importante referente à documentação diz respeito ao registro
fotográfico. No sítio Totó, muitas das peças que sofreram intervenção não foram
fotografadas antes de serem submetidas ao tratamento in situ. Isto dificulta a análise
posterior em laboratório, pois impossibilita a comparação dos materiais antes e
depois da intervenção.
La fotografía de registro es indispensable en el proceso de documentación
de bienes patrimoniales para su identificación y reconocimiento en caso de
pérdida. Además, permite examinar los objetos fuera de su ambiente
controlado, aporta en el conocimiento de la historia de su alteración en el
plano material y estético y en un nivel de mayor especialización, sirve con
propósitos de publicación (ROUBILLARD ESCUDERO In: NAGEL VEGA et
al, 2008, p. 30).
Ainda segundo a autora, o registro fotográfico tem como objetivo
Permitir la identificación, obteniendo un registro tan preciso como sea
posible en cuanto a textura, color, brillo/opacidad/transparencia, descripción
morfológica, etc. Por tanto, en ellas lo importante no es la estética de la
toma, sino que proporcione una descripción exhaustiva y sistemática del
objeto, donde no se altere la descripción de sus materiales, proporción,
estado de conservación y marcas de identificación (ROUBILLARD
ESCUDERO op. cit., 2008, p. 30).
Percebeu-se também, neste caso, a dificuldade da realização de registro
fotográfico adequado em campo, pois este necessita de uma mínima estrutura –
base para apoio do objeto, tripé, escala de cores, fundo monocromático – para que
seja efetuado de forma correta.
Ainda que alguns procedimentos, como a escolha e aplicação dos
consolidantes e a organização da documentação, tenham que ser reavaliados, a
intervenção in situ no sítio Totó foi, de certa forma, bem sucedida. Os materiais que
sofreram intervenção chegaram ao laboratório estabilizados e em bom estado de
conservação, oferecendo ao pesquisador um tempo maior para o processamento
dos dados, sem que ocorra a deterioração dos objetos. Além disso, no futuro, a
preservação destes acervos permitirá que os dados sejam novamente examinados e
reinterpretados, na medida em que novos conhecimentos sejam construídos e novas
questões sejam elaboradas pelos pesquisadores (RODGERS, 2004).
Outro aspecto observado na prática realizada no sítio Totó foi a importância
da participação do museólogo a campo. Na medida em que este atua, assim como o
conservador, em todas as etapas do projeto arqueológico, obtém informações e
subsídios fundamentais à incorporação dos objetos ao acervo da instituição de
salvaguarda e à elaboração de uma exposição contextualizada.
A intervenção in situ no sítio Totó se configurou como uma iniciativa, inédita
na região e talvez no país, de aproximação entre as áreas da Conservação,
Museologia e Arqueologia, e, consequentemente, entre seus atores. Mais do que
isso, trouxe discussões que somente vêm à tona dentro do contexto da prática
conjunta, e que, de certo modo, podem ser resumidas no seguinte questionamento:
como integrar, de forma efetiva, participativa e produtiva, as atuações destas áreas?
Segundo Fagan (2003), as respostas envolvem ações diretamente ligadas
ao meio acadêmico: renovação da prática arqueológica básica, tornando a
Conservação como estratégia central das pesquisas; desenvolvimento de novos
métodos não invasivos, que minimizem a ocorrência de escavações; publicações a
respeito do tema em todos os níveis acadêmicos, inclusive antes da realização dos
trabalhos de campos, indicando estratégias de preservação dos vestígios
resgatados e dos registros associados.
Lidando com dois conceitos – Arqueologia e Preservação – que se
sustentam na existência de produtos humanos em grande parte materiais
ou registrados por meios materiais, o resultado é uma necessária atitude em
relação às responsabilidades sobre este enorme acervo resultante dos
trabalhos de Arqueologia, se os quisermos perceber sob uma ótica
patrimonial (FORTUNA, POZZI & CÂNDIDO, 2001, p. 2).
Como demonstrado, as práticas de conservação in situ auxiliam diretamente
na gestão dos acervos arqueológicos, não somente em relação à preservação dos
vestígios, mas também nas questões referentes às etapas de aquisição e
documentação destes acervos. Em função do panorama atual destes acervos, a
presença do profissional da conservação também tem se tornado fundamental nas
reservas técnicas de laboratórios e museus de Arqueologia. O conservador vem se
configurando, portanto, como mais um gestor destes bens, em uma atuação que,
cada vez mais, se torna indispensável ao gerenciamento do patrimônio
arqueológico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estado atual de degradação de grande parte dos acervos arqueológicos,
em decorrência da complexidade e variedade tipológica destes materiais, da
intensificação das pesquisas em função dos trabalhos de arqueologia de salvamento
e das más condições das reservas técnicas de museus e laboratórios, tem
comprometido as pesquisas e a salvaguarda destes bens. Por esse motivo, a
Conservação tem, cada vez mais, figurado como protagonista no sistema de gestão
destes acervos.
Apesar de leis, cartas patrimoniais e outros documentos afins já
expressarem, há muito, a preocupação com o patrimônio arqueológico e com as
práticas de preservação destes acervos, a situação real vai de encontro a estas
formulações. As condições de salvaguarda dos acervos arqueológicos
configuram-se realmente, como tem chamado alguns pesquisadores, como uma criconfiguram-se, no
sentido grave e aflitivo expressado por esta palavra.
Esta conjuntura tem levado os profissionais envolvidos na preservação deste
patrimônio a desenvolver uma nova visão a respeito da gestão dos acervos
originados pelas pesquisas arqueológicas. É crescente, ainda que em pequena
escala, a busca por novas formas e sentidos nos fazeres arqueológicos,
principalmente pela interdisciplinaridade, tão incentivada na teoria mas pouco
executada na prática. O trabalho desenvolvido no sítio Guarani PS-03 Totó é um dos
exemplos destas incipientes iniciativas.
No sítio Totó, percebeu-se a importância da participação dos profissionais da
Conservação nos trabalhos de arqueologia. Entretanto, para que esta aconteça de
forma efetiva, é necessário que seja compreendida como parte do projeto
arqueológico, sendo incluída em todas as suas etapas, desde o planejamento do
trabalho de resgate até a publicação dos resultados da pesquisa. Além disso,
através do projeto, compreendeu-se a relevância da colaboração entre as outras
áreas participantes, como a Museologia, a Geografia, a História, a Antropologia e a
Biologia, para a gestão dos acervos arqueológicos.
A experiência de intervenção in situ demonstrou a importância do
estabelecimento de protocolos de conservação para as distintas tipologias materiais.
Após a descrição dos procedimentos e análise dos materiais em laboratório, foi visto
que as questões referentes à planificação do trabalho de campo, à documentação
dos procedimentos e à organização da informação se configuram como os principais
pontos a serem melhor elaborados e desenvolvidos.
No referente ao planejamento, percebeu-se o quão fundamental é a inclusão
do profissional da Conservação nesta etapa do projeto arqueológico. A exclusão do
conservador nesta fase influenciará diretamente todas as etapas conseguintes da
preservação dos acervos, como em um efeito cascata. Faltarão recursos para a
intervenção in situ, o que acarretará no aceleramento dos processos de deterioração
em determinados materiais, fato que futuramente ocasionará a destruição total de
alguns objetos e a consequente perda do potencial informativo e expositivo dos
No documento
O conservador na gestão de acervos arqueológicos: um estudo de caso do sítio Guarani PS-03 Totó (RS-Brasil)
(páginas 72-98)