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2 FUNDAMENTOS DA AUTORIA NO DIREITO PENAL E FORMAS DE

3.2 OS REQUISITOS PARA A AUTORIA MEDIATA EM VIRTUDE DO DOMÍNIO DE

3.2.4 A consideravelmente elevada disposição do executor ao fato

O elemento da “consideravelmente elevada disposição do executor” à prática

do ilícito penal, como fundamento do domínio do fato do autor mediato que controla

349

AMBOS, Kai. Transfondos políticos y jurídicos de la sentencia… Op. cit. p. 83.

350

AMBOS, Kai. Loc. cit.

351

AMBOS, Kai. Loc. cit.

352

PERU. Corte Suprema de Justicia de La Republica Op. cit. p. 646.

353

CARO CORIA, Dino Carlos. Sobre la punición del ex presidente Alberto Fujimori… Op. cit. p. 175;

PERU. Op. cit. p. 645.

354

CARO CORIA, Dino Carlos. Op. cit. p. 176; PERU. Op. cit. p. 646.

um aparato de poder, foi estipulado, primeiramente, por Schroeder, em sua tese

doutoral de 1965

356

e, na visão dos autores em geral, foi utilizado pelo Judiciário

alemão no caso dos atiradores do muro de Berlim

357

. Schroeder recusava a

fungibilidade como pressuposto do domínio da organização e colocava o elemento da

elevada disposição ao fato como essencial

358

.

Roxin, quando elaborou sua monografia Autoría y dominio del hecho en

derecho penal em 1963, não havia inserido esse requisito entre aqueles necessários

para se verificar o domínio do fato pelo autor mediato, em uma estrutura de poder.

Apenas posteriormente, o jurista integrou à sua teoria o critério da predisposição à

realização do fato, promovendo, assim, uma aproximação com a teoria de

Schroeder

359

e estabelecendo uma junção parcial também com a concepção de seu

discípulo Manfred Heinrich e com as teses de doutorado de Schlösser e Urban

360

. Tal

integração, junto à consideração de que a fungibilidade não seria um componente

fulcral na realização de crimes por aparatos de poder, levou a uma forte restrição da

autoria mediata

361

.

Não obstante Roxin tenha adotado a proposta de Schroeder como um

pressuposto necessário para a constituição da autoria mediata pelo domínio da

organização, posteriormente passou a entender que não seria um fundamento

autônomo dessa modalidade de autoria, mas, que deveria ser derivado dos demais

elementos

362

. No seu recente entender, portanto, os três requisitos para a autoria

mediata já tratados neste texto “ensejam uma elevada propensão ao cometimento do

fato pelo autor direto”

363

.

Roxin denomina tal elemento de “consideravelmente elevada disponibilidade

ao fato por parte do executor”

364

e define essa concepção como a ideia de que, em

uma estrutura de poder organizada desligada do Direito, o indivíduo que realiza o

356

ROTSCH, Thomas. De Eichmann hasta Fujimori… Op. cit. p. 36.

357

AMBOS, Kai. Transfondos políticos y jurídicos de la sentencia… Op. cit. p. 87; SCHROEDER,

Friedrich-Christian. Disposición al hecho versus fungibilidad. In: AMBOS, Kai; MEINI, Iván (Ed.). La

autoría mediata: el caso Fujimori. Lima: Ara, 2010. p. 115-124. p. 120.

358

ROTSCH, Thomas. Op. cit. p. 36. Schroeder refere-se ao elemento como o “critério” de uso da

“resolución de cometer el hecho” ou da “disposición al hecho” (SCHROEDER, Friedrich-Christian. Op.

cit. p. 117).

359

ROTSCH, Thomas. Op. cit. p. 39.

360

ROXIN, Claus. Apuntes sobre la Sentencia-Fujimori de la Corte Suprema del Perú. Op. cit. p. 99.

361

SCHROEDER, Friedrich-Christian. Op. cit. p. 122.

362

ROXIN, Claus. Apuntes sobre la Sentencia-Fujimori de la Corte Suprema del Perú. Op. cit. p. 100.

363

ROXIN, Claus. Sobre a mais recente discussão acerca do “domínio da organização”… Op. cit. p.

311.

último ato típico estaria subordinado a inúmeras influências do aparato, as quais,

embora não retirem sua responsabilidade penal, tornam-no mais predisposto à

execução do fato do que outros potenciais criminosos

365

. Assim, devido a tais

influências, a probabilidade de sucesso de uma determinação delitiva superior

aumenta e contribui para a configuração do domínio do fato e da autoria dos homens

dos níveis elevados

366

.

Existem algumas circunstâncias que desempenham um papel aqui

367

. O

pertencimento a uma organização suscita uma “tendência à adaptação” e integração

dos membros, o que pode levar a atuações sem reflexão em acontecimentos que

jamais se passariam com um indivíduo não integrado em tal meio

368

. Além disso, em

tais contextos, a participação dos membros muitas vezes se pauta na ideia de que se

ele próprio não fizer algo, então, de todo modo, outro irá fazer

369

. Ainda, em tais

situações, encontram-se pressupostos que se aproximam da autoria mediata pelo

domínio da coação ou do erro por parte dos homens de trás, pois, o executor direto

pode possuir medo de alguma represália interna na organização caso não atue ou,

por ter recebido “ordens de cima”, crê na sua impunidade, embora tenha grandes

dúvidas sobre o caráter ilícito de seu comportamento

370

. Todos esses aspectos – os

quais não excluem a culpabilidade nem a responsabilidade do autor direto – levam à

propensão do executor imediato à realização do fato, o que, juntamente com a sua

fungibilidade, constitui elemento essencial da segurança a partir da qual os homens

de trás podem confiar na realização de suas ordens

371

.

Roxin, ademais, afirma ter algumas razões a favor da elevada predisposição

ao fato pelo executor direto no seio de uma organização criminal: a estruturação

hierárquica conduz, por si só, a uma propensão à adaptação; o poder de mando dos

sujeitos de trás aproxima-se de uma coação – embora não alcance tal nível – pois, o

executor terá o temor de negar uma ordem devido à possibilidade de perda da sua

365

ROTSCH, Thomas. De Eichmann hasta Fujimori… Op. cit. p. 39; ROXIN, Claus. El dominio de

organización como forma independiente de autoría mediata. Op. cit. p. 20.

366

ROTSCH, Thomas. Op. cit. p. 39; ROXIN, Claus. Op. cit. p. 20.

367

ROXIN, Claus. Op. cit. p. 20.

368

ROXIN, Claus. Loc. cit.

369

ROXIN, Claus. Loc. cit. Essa ideia de uma causalidade adiantada, porém, é criticada e não é capaz

de eximir os indivíduos de responsabilidade, como se pode verificar no argumento de Roxin com

relação às alegações da defesa de Eichmann (ROXIN, Claus. Autoría y dominio del hecho en

derecho penal. Op. cit. p. 274).

370

ROXIN, Claus. El dominio de organización como forma independiente de autoría mediata. Op. cit.

p. 20.

posição, de rejeição de colegas, etc., o que o conduz a possuir uma alta disposição à

realização do fato; a desvinculação do Direito pela organização pode aumentar a

determinação à prática do fato, pois, nesse meio criminal, o indivíduo tem maiores

chances de realizar o delito, seja por desejo de reconhecimento, por necessidades

profissionais, motivos sádicos, dentre outros; a própria fungibilidade do indivíduo pode

conduzir à disposição na prática do ilícito, pois, mesmo alguém que não praticaria

determinados fatos acaba direcionando-se à sua realização por poder entender que,

se ele não fizer, de todo modo outro o fará

372

. Assim, em suma, pode-se afirmar que,

embora o aspecto da elevada disposição ao fato seja definido, para Roxin, a partir dos

outros 3 (três) elementos que fundamentam o domínio da organização, ele reforça a

fundamentação para a confirmação do domínio do fato dos superiores

373

. Visto que o

domínio do fato do homem de trás depende da segurança com a qual sua ordem será

executada, ela aumenta se tais autores puderem dispor de uma alta determinação ao

fato por parte de seus executores

374

.

A Corte Suprema de Justiça Peruana, no caso Fujimori, incorporando tal visão

do professor Roxin, considerou a elevada predisposição ao fato como um elemento

fundante da autoria mediata pelo controle de aparatos de poder (classificando-o como

o segundo pressuposto específico subjetivo

375

, ao lado da fungibilidade). Tal

apreciação traz como consequência o fato de que, se este elemento não for verificado

na situação concreta, então não estará configurada a autoria mediata pelo domínio da

organização

376

.

Deve-se ainda ressaltar que este requisito está vinculado à “predisposição

psicológica” do executor à realização do plano do aparato de poder

377

. Desta feita,

seria um “internalizado interesse e convencimento do executor” para a realização do

fato que garante o cumprimento da ordem, e não a fungibilidade

378

. São aspectos,

portanto, “eminentemente subjetivos”

379

. Devido a tais pontos, o elemento da elevada

disposição ao fato reivindicaria uma “base fática de caráter psicológico”, distintamente

do pressuposto da fungibilidade, o qual não poderia ser provado faticamente, dado

372

ROXIN, Claus. Apuntes sobre la Sentencia-Fujimori de la Corte Suprema del Perú. Op. cit. p. 100.

373

ROXIN, Claus. Ibidem. p. 101.

374

ROXIN, Claus. Loc. cit.

375

CARO CORIA, Dino Carlos. Sobre la punición del ex presidente Alberto… Op. cit. p. 177.

376

PARIONA ARANA, Raúl. La autoría mediata por organización en la sentencia contra Fujimori. Op.

cit. p. 246.

377

CARO CORIA, Dino Carlos. Op. cit. p. 177, tradução nossa.

378

PERU. Corte Suprema de Justicia de La Republica. Op. cit. p. 649.

que envolveria um juízo valorativo e hipotético para sua aferição

380

. O elemento aqui

analisado traz a concepção de que a predisposição de um indivíduo é uma condição

interna que precisa ser provada de forma indireta, a partir das circunstâncias

exteriores do fato, como a concessão de recompensas de elevação de posto,

gratificações, garantia de impunidade, dentre outras

381

.

Por fim, na visão de Schroeder, essa determinação à realização do fato existe

independentemente de uma influência do superior

382

.

Assim, com esse elemento, fecham-se os pressupostos que são exigidos,

pela teoria do domínio da organização, para a configuração de uma autoria mediata

dos indivíduos que controlam aparatos de poder. No entanto, almejando o naufrágio

da tese de Roxin, algumas vertentes doutrinárias erigiram-se, cada qual com olhares

próprios. Embora aparentem não terem logrado êxito na sua empreitada, o debate que

engendraram é notável e contribui para um reforço da defesa da autonomia da teoria,

como se verá adiante.