• Nenhum resultado encontrado

A consistência das partículas elementares

2. Consistência real do cosmos: matéria e energia

2.6. A consistência das partículas elementares

Todas as partículas subatómicas têm uma certa duração que pode ser muito breve em alguns casos e muito longa noutros como, por exemplo, no caso do protão. Na sua existência temporal, breve ou longa, as partículas são entes reais e não construções da mente do físico. Ora, se são entes reais e não mentais, então, em que consiste a sua realidade? O que é, em rigor, uma partícula, o ente cuja existência real e cuja peculiaridade é evidenciada pelos seus próprios observáveis?

Laín Entralgo responderá a estas perguntas, como veremos, mas não sem antes acrescentar este pormenor do fenómeno das chamadas partículas virtuais. Lembra Laín Entralgo que determinados fenómenos microfísicos, como por exemplo, a interacção entre

270 Cf Ibidem. 271 Ibidem.

dois electrões que se aproximam um do outro, ou entre os electrões externos e os do núcleo, obrigam a admitir a existência de «partículas virtuais»272. Por isso, uma outra pergunta impõe-se neste domínio: qual é o modo de realidade da partícula virtual, nomeadamente a do fotão, uma vez que é precisamente pela existência de tais fotões virtuais que o átomo encontra a garantia da sua estabilidade?273

A resposta a este conjunto de questões, segundo o autor, encontra-se partindo de duas conquistas fundamentais da física do século XX. A célebre equação de Albert Einstein que estabelece a equivalência entre a massa e a energia, E = mc2, e o quase tão célebre

princípio da complementaridade de Bohr274. Segundo a equação de Einstein, a massa pode converter-se em energia e a energia em massa275. Laín Entralgo exemplifica com a trágica explosão de Hiroshima que efectivou a primeira dessas duas possibilidades. E, inequivocamente, o que postula a segunda foi o desenvolvimento da astrofísica imediatamente a seguir à teoria do big-bang. Segundo esse princípio, a partícula é uma realidade que pode manifestar-se ao observador como partícula de massa, um fermião, ou como uma radiação electromagnética, um jacto de fotões276.

A que conclusão chega o autor, depois do que até agora fica exposto, sobre a consistência das partículas elementares? Encontramos, imediatamente, uma clara distinção que há entre a física clássica e a física quântica na compreensão de massa. Escreve o autor:

272 Ibidem, 48. 273 Cf Ibidem. 274 Cf Ibidem. 275 Cf Ibidem. 276 Cf Ibidem.

“A física clássica não substancializou a noção de massa, convertendo-a em simples relação. Para o físico, a massa era, numa primeira aproximação, a quantidade de matéria que contém um corpo, mas, em definitivo, uma relação entre uma força e uma aceleração. Para o químico, a grandeza a que se refere a chamada «lei de acção de massas». Para um e para outro, massa é a propriedade da matéria que permanece constante nas suas transformações físicas e químicas, essa a que deu expressão ponderal a lei de Lavoisier”277.

Para a física quântica, como esclarece o autor, a condição de massa da matéria é muito distinta. Porquê? Pelos motivos que o autor enumera e que nós apresentamos em síntese: Agora, a massa é algo que se formou no curso da evolução do cosmos e se aniquila. A massa material tem realidade própria, não é simples relação. Mas essa realidade é profundamente enigmática, uma vez que pode manifestar-se em duas formas que, sendo complementares entre si, entre si se excluem: a partícula propriamente dita e a radiação electromagnética. E visto que da energia radiante procedem as partículas de massa e em energia radiante se transformam ao aniquilar-se, logo, a lei da conservação da energia é verdadeiramente fundamental na dinâmica do cosmos. Observe-se ainda que a grandeza física mais importante da física quântica, o quantum de Planck, é um quantum de acção e não de massa, e que há partículas, como o neutrino electrónico, cuja condição de massa não se afigura evidente278.

277 Ibidem. É conhecida, desde os bancos da escola, a famosa expressão de Antoine Lavoisier que diz «nada

se cria, nada se perde, tudo se transforma». De acordo com esta lei, em qualquer sistema, físico ou químico, nunca se cria nem se elimina matéria, apenas é possível transformá-la de uma forma em outra. Portanto, não se pode criar algo do nada nem transformar algo em nada. Logo, tudo que existe provém de matéria preexistente, só que toma uma outra forma, assim como tudo o que se consome apenas perde a forma original, passando a adoptar uma outra. Tudo isto se realiza com a matéria que existe no planeta, apenas sendo retirada do solo, do ar ou da água.

Como resolver este problema, ao mesmo tempo físico e metafísico, quando tratamos da consistência real das partículas elementares? Segundo o autor, este problema só pode ser resolvido na esteira de Werner Heisenberg. Por isso escreve:

“O problema físico e filosófico que coloca a consistência real das partículas elementares só pode ser resolvido, segundo Heisenberg, negando a possibilidade de uma interminável divisão física da matéria e aventurando uma hipótese ontológica acerca das partículas verdadeiramente elementares. A realidade última destas, que podem ser matéria ou energia, segundo as condições em que fisicamente existam, só poderia oferecer-se à mente do físico como uma formalidade matemática (…). A análise científica da matéria cósmica terminaria, segundo Heisenberg, no «algo» enigmático de uma realidade transmaterial e transenergética que pode fazer-se matéria ou energia; um «algo» só apreensível mentalmente mediante a formalização matemática”279. Então, o que podemos, sinteticamente, dizer sobre a consistência das partículas elementares? Onde conduz esta reflexão física sobre a consistência das partículas elementares senão à metafísica? A realidade das partículas elementares abre a física à metafísica e, por esta, ao fundamento dessa mesma realidade. Em conclusão, Laín Entralgo, unindo a síntese feita por Ernest Cassirer, em 1921, e a ideia de Werner Heisenberg, escreve: “ Cassirer distinguiu claramente o átomo da filosofia natural grega, o mínimo absoluto de ser, do átomo da física moderna, mínimo relativo de medida. Como que estendendo uma ponte ideal entre estas duas inquestionáveis proposições, Heisenberg vem afirmar que, desde o ponto de vista do físico, o ser é a medida; melhor dito, o mensurável”280.

279 Ibidem, 49. Acerca da dualidade onda-partícula, veja-se o título «Em busca da realidade física

transcendental» da obra seguinte: SCHÄFER, Lothar – Em busca da realidade divina…, pp. 47-77, onde o autor trata de explicar e expor, a seu modo, as componentes «não-materiais», «não-reais», «não-locais» da realidade física.

De facto a física quântica, o mergulho no infinitamente pequeno, vem modificar a nossa forma de pensar a realidade da matéria e a nossa relação com o fundamento do real. A consistência da matéria, enquanto conceito científico, apela para uma nova categoria que parece estar para além do conhecimento científico. O fundamento do real parece unificar- se e consubstanciar-se numa unidade física e metafísica. Pressuposto fundamental para compreendermos a intelecção da realidade humana em Laín Entralgo. O fundamento da realidade cósmica, que a física quântica nos dá a conhecer, exige um outro nível de inteligibilidade que só a metafísica e a ontologia podem oferecer ao homem de ciência. O que da realidade pode ser conhecido transcende o conhecimento científico na busca do seu real fundamento. Laín Entralgo tem consciência e é conhecedor de que a realidade da matéria tem sido entendida de modos muito diversos: como o que se vê e se toca, ou como o que cada coisa pode ser – a matéria, pura potência passiva –, ou como entidade positiva, concebida como extensão, como pura força ou como titular das distintas «forças» observáveis na natureza, mecânica, gravitatória, electromagnética e química281. Ao longo da história do pensamento ocidental, o termo matéria foi utilizado, admitindo as muitas formas que foi adquirindo na sua significação. Mas o desenvolvimento da teoria quântica e o da astrofísica conduziram Laín Entralgo a pensá-la, agora, como dinamismo diverso e evolutivamente estruturado. Como defende o autor, antes que qualquer outra coisa, a matéria é dinamismo282. Vejamos como.

281 Cf ACP, 193-194.