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A Constatação da Prescindibilidade da Existência de um Eu Transcendental

4.2 As Bases Antropológicas para uma Teoria Científica da Personalidade

4.2.1 A Constatação da Prescindibilidade da Existência de um Eu Transcendental

Com efeito, Sartre tem de ser lido e compreendido a partir do princípio da INTENCIONALIDADE: somente por ele toda a reflexão do nosso autor se sustenta. É que, o mesmo, depois de radicalizado por Sartre, converteu-se na expressão rigorosa da própria consistência ontológica da realidade objetiva de Sartre partiu sempre dela e a ela sempre retornou para verificar a coerência das suas teorizações. Pois, como já registramos, e vale a repetir, o propósito sartreano sempre foi, desde a juventude até hoje, compreender a realidade humana de modo que se respeitasse a plena autonomia da consciência por um lado, e, por outro, o total determinismo das coisas. Daí seu empolgamento pela Fenomenologia e por sua idéia fundamental: a INTENCIONALIDADE (BERTOLINO, 1979, p. 6).

A consciência irrefletida é condição de possibilidade para qualquer outra consciência, toda consciência ocorre, primeiramente como consciência irrefletida, (onde só tem je, não tem mói), conforme figura I. É a dimensão transfenomênica do sujeito.

C Crítica Consciência Cs Reflexiva R Espontânea P O Percipiente Cs Pré-reflexiva (Irrefletida) Imaginante

FIGURA I – Estrutura das Consciências

Fonte: Modelo proposto por Prof. Pedro Bertolino na aula de 22.04.1998 no Núcleo Castor.

A consciência pré-reflexiva não tem Eu, não há reflexão nesta consciência e ela só pode dar-se como percipiente, que seria uma consciência posicional de um objeto real, ou imaginante, que seria a consciência posicional de um objeto irreal, um objeto em imagem. Não entenda-se como uma consciência que se tornará reflexiva, mas sim como uma consciência que não tem a mediação da reflexão na sua relação com o objeto. Quando se está no plano do pré-reflexivo, ocorre de se atravessar a rua sem olhar, contudo, atenção, quando não se olha por se estar absorvido numa reflexão com outro objeto, já não é mais consciência pré-reflexiva, mas sim reflexiva espontânea. Neste plano, não se conduz a relação com o objeto, se é conduzido por ele.

Já a consciência reflexiva pode dar-se como reflexiva espontânea que é posicional do objeto, mas não posicional do Eu para si. Ex.: Qualquer pessoa que sabe dirigir e o faz com uma certa segurança, geralmente posiciona seu objeto (no caso dirigir o carro) espontaneamente, não está localizada de que é ela, fulana, que agora, tem que passar a marcha, apertar a embreagem e soltá-la a medida que acelera, etc., ela simplesmente dirige, como que automaticamente. Na reflexão espontânea se conduz a relação com o objeto, mas sem considerar a própria condição, ‘o eu que dirijo’, é não posicional do eu, então não se leva em cota critérios, as expectativas do outro, etc. Na reflexão espontânea você pensa e age sem levar em conta quem você é. Já a consciência reflexiva crítica é posicional do objeto e

posicional do eu para si, seria o caso de alguém que está aprendendo a dirigir. Comumente além de estar atento para cada procedimento, como deve prosseguir, preocupa-se em estar fazendo certo, teme fazer algo errado por não dominar tal conhecimento. Já na medida que o que apreende, o converte em saber de ser, melhor dizendo, a cada nova situação em que dirige e dirige adequadamente ao apropriar-se, estará gerando saberes de ser motorista, até constituir um estado, que é a certeza de ser motorista, sendo este um novo perfil de sua personalidade. A reflexão, percepção e imaginação são ‘fenômenos de ser’, mas não se reduzem a isso, são co-extensivas ao ‘ser do fenômeno’, o irrefletido, implica numa dimensão transfenomênica. A condição de possibilidade para que haja reflexão, percepção ou imaginação é ser corpo e consciência (irrefletida), estar no tempo e no espaço, é a condição ontológica que possibilita o antropológico, e, portanto, o psicológico.

Deste modo, a consciência irrefletida é a consciência que não foi ainda ou não está sendo tomada como objeto por outra consciência reflexiva. A consciência refletida é a consciência que já foi tomada como objeto, já foi apropriada, assim é uma consciência ‘minha’, enquanto que a consciência irrefletida não é ‘minha’, mas sim, impessoal, por não haver sido por mim totalizada. A consciência reflexionante é aquela que toma outra consciência como objeto.

Até Sartre tudo ficou reduzido ao cogito reflexivo, ignorava-se a consciência irrefletida, por aí é que havia o direcionamento a entendimentos da existência do inconsciente, assim a dimensão transfenomênica do sujeito foi perdida, não havendo então uma condição ontológica. Assim o homem era corpo e pensamento, passou então a ser redutível ao objeto e tudo virou pensamento. Com o cogito, Descartes reduziu a consciência ao pensamento, entretanto, há três possibilidades de consciência - reflexiva, imaginante e percipiente. Desta forma, a consciência reflexiva não se reduz à reflexão que ela executa, na ausência da reflexão resta ainda a consciência irrefletida. Na visão racionalista tentou-se esclarecer a consciência a

partir dela própria, esquecendo o corpo, se tentou esclarecer pensamento por ele próprio, sempre numa perspectiva idealista.

Na consciência de 1º grau o sujeito e o objeto são ligados. Sempre que isso acontece, não tem como ignorar que aconteceu. A consciência de 1º grau é autônoma, não evolui para outra consciência, são independentes, não há passagem de uma para outra, uma desestrutura a outra ao apropriar-se dela.

A pessoa unifica suas experiências a partir de um processo de apropriação que se dá através de uma consciência de 2º grau que toma como objeto uma consciência de 1º grau (irrefletida) e, mediado por uma racionalidade se apropria, ou seja, realiza um arranjo racional de suas experimentações-de-ser no mundo. Esse arranjo racional poderá ser adequado ou não, isto é, pode corresponder com a realidade ou não, conforme as possibilidades do saber de ser desse sujeito em converter-se o sujeito de tais experimentações por ele vividas. Quando ocorre essa apropriação efetiva de ser, designada por Sartre por ‘compreensão psicológica’, ocorre a alteração do saber de ser do sujeito. Muito comumente, uma “reflexão moral” o impede de realizar esta apropriação por função da racionalidade dominante no seu sociológico e em sua personalidade, já que a reflexão moral se sustenta numa fundamentação empírico- metafísica, com vistas ao controle social e do comportamento.

É neste impasse que surge a possibilidade de uma divisão proveniente deste corte que se impõe entre o sujeito que realizou tais ações, e aquele que se reconhece sendo no sociológico, mantendo a pessoa aprisionada nessa divisão “esquizofrenizante”, e, claro, no desespero, restando-lhe somente a má-fé.

Na concepção existencialista de complicações psicológicas, a esquizofrenia é uma complicação do sujeito, resultante de sua vida de relações e não de processos mentais, que o leva a uma situação material, objetiva de divisão de seu ser, experimentando-se no mundo

frente a duas efetivas possibilidades de ser. Compreensão esta totalmente outra que a psiquiátrica, pois rompe com a noção de doença mental.

O termo má-fé, utilizado neste trabalho e sustentado na teoria existencialista sartreana constitui uma dinâmica psicofísica em que o homem busca mentir a si próprio, porém não como uma estratégia pensada, mas na cumplicidade com seu próprio saber-de-ser.. Diferente da mentira na perspectiva moral.

Sartre explica que a má-fé é um comportamento de “fé” e não uma mentira cínica. Isto significa que ela é um fenômeno de crença. A crença é uma adesão do ser ao seu objeto: quem crê está mergulhado na situação, sem conseguir tomar distância dos seus princípios religiosos, por isso mesmo não os põe em questão. Da mesma forma os católicos fervorosos, que acreditam que “Deus” está neles, não se questionam, nem questionam seu credo, pois não mantêm distância para tanto. A má-fé é, portanto, uma crença. Ela não

é, assim, uma decisão reflexiva do sujeito (do tipo ‘quero me enganar’), mas uma experiência espontânea de nosso ser, na qual estamos inteiramente mergulhados. Enquanto a vivenciamos, estamos “grudados” a

ela, sem distância para poder questioná-la. A má-fé não é, portanto, um estado de ser, mas sim um processo através do qual a consciência se afeta a si mesma de má-fé. Através dela o sujeito busca fugir do que não pode fugir, ou seja, fugir do que é. (SCHNEIDER, 2002, p. 108 – grifo da autora)

Este é um equívoco básico das outras psicologias, pois acabam trabalhando numa perspectiva subjetivista, assim não escapam à moral. O que a psicologia tem que proporcionar ao homem é que este ganhe condições de tomar sua história nas mãos, no sentido de fazer-se efetivamente sujeito no mundo, realizando o ser que deseja ser, mesmo num mundo em que há uma moral imposta e pré-estabelecida, a qual o homem vem sendo submetido e esvaziado, um mundo onde há múltiplas racionalidades e o homem precisa aprender a lidar com essa diversidade. A absolutização de um sistema de racionalidade promove a complicação psicológica. (Ver Anexo 19 –Leis Científicas: Sistemas de Racionalidades).

Um problema psicológico é sempre um problema de impasse de uma “apropriação psicofísica” de “experimentações de ser”. Nas situações mais extremas de problemas

psicológicos não há perda de consciência, há sim uma desestruturação da personalidade, sendo a personalidade um fenômeno objetivado de ser. Há um dinamismo psicofísico que não alteramos através da boa vontade ou um pensamento positivo é preciso um processo de alteração da personalidade.

A apropriação psicofísica é o que Sartre denomina como compreensão psicológica, que é a apreensão psicofísica, e não reflexiva, do sujeito relativamente as suas experimentações de ser, que são as afetações do sujeito sempre numa implicação noemático- noética, ou seja, a emoção que entra frente a determinado objeto, sempre inserido numa dada atmosfera humana, constituída por um conjunto de ocorrências sócio-históricas, portanto materiais e temporais.