3.2 POLÍTICAS DE COTAS
3.2.7 A constitucionalidade das cotas
A Constituição Federal de 1988 assevera que podem existir critérios diferenciadores entre indivíduos e grupos, conquanto que os motivos alegados forem, de fato, justificáveis, são as chamadas discriminações positivas ou legítimas. Dessa forma, tais diferenciações não estariam violando o princípio de igualdade, visto que seria uma forma de tratar com igualdade os desiguais.
No entendimento de Martins (1996, p. 202)
O princípio da dignidade da pessoa humana, positivado pelo art. 1º, III e também no art. 3º da Constituição Federal serve de base para as ações afirmativas principalmente, quando traça os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos, de origem, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Dessa forma, o sistema de cotas nas universidades é constitucional, pois não fere o princípio constitucional da isonomia, sendo medidas diferenciadas com vistas a compensar as desigualdades existentes e justificam-se devido às discriminações.
Assim o Supremo Tribunal Federal (STF), em sessão realizada no dia 26 de abril de 2012, julgou a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n° 186, ajuizada pelo partido dos Democratas (DEM), na qual foi afirmada a constitucionalidade da reserva de vagas na Universidade de Brasília (UnB), por meio das cotas raciais e sociais. Confirmou, portanto, a possibilidade jurídica dessa espécie de política pública de ação afirmativa.
Contudo, inobstante tal decisão, ainda pairam dúvidas e controvérsias acerca da reserva de vagas. A população se divide em grupos e pessoas favoráveis e desfavoráveis a tal política nas universidades públicas, cujas justificativas são as mais variadas. Com posicionamento divergente, Kaufmann (2007) defende que a CF/88 não dá ensejo à implementação legal da discriminação positiva.
Em que pese a existência de posições conflitante sobre o tema, a Presidente Dilma Rousseff sancionou a chamada Lei das Cotas (Lei n° 12.711/12), que dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio. No sentido de dar cumprimento à Lei n° 12.711/12, foi publicado o Decreto n° 7.824, de 11 de outubro de 2012, que passou a regulamentá-la. Com essa normatização, aliada à sua questão constitucional, com vistas a promover a igualdade material, as cotas ganharam espaço no âmbito social, político e jurídico.
Sobre a política de cotas para o ingresso dos negros nas universidades, no que diz respeito à questão da cidadania, Gentili (2000, p. 247) destaca que, como direito social, a educação “remete inevitavelmente a um tipo de ação associada a um conjunto de direitos políticos e econômicos sem os quais a categoria de cidadania fica reduzida a uma mera formulação retórica sem conteúdo algum”.
Isso significa que não basta que todos tenham o mesmo direito de ir à escola, ou seja, não é suficiente apenas constar, nos documentos legais, o direito à educação; é preciso que tenham, também, condições e possibilidades para tanto. Sendo necessárias, ainda, medidas em conjunto entre Estado e sociedade, visando à efetiva implementação de políticas públicas que realmente garantam a democratização do direito à educação de qualidade a todos, sem distinções.
Almejando, portanto, promover a cidadania e a democratização quanto ao Ensino Superior, mas, também “democratizar o acesso a espaços sociais e culturais” (FONSECA, 2009, p. 111), as ações afirmativas estariam atendendo ao princípio da igualdade. A noção moderna do princípio da igualdade, além de não discriminar arbitrariamente, visa promover a igualdade de oportunidades, dentre as quais, o acesso à educação superior pública.
No entanto, para muitos estudiosos, esta medida deve ser usada com cautela, pois deve observar se não há outros meios de reparação.
Neste sentido, leciona Kaufmann (2007, p. 272):
As medidas precisam ser as mais limitadas possíveis. Por isso, é conveniente estabelecer prazos certos de duração para as ações afirmativas e elas devem prever um critério de qualificação mínima para os candidatos. Mesmo porque pessoas sem qualificação não teriam condições de acompanhar o ritmo dos demais colegas, ficariam desmotivadas e, consequentemente, abandonariam seus cargos e ou estudos.
Seguindo o raciocínio de Kaufmann (2007), deve-se analisar se, realmente, o sistema de cotas será eficaz, pois é inócuo aprovar o candidato, se este não tiver condições intelectuais de permanecer na universidade. Caso contrário, este candidato irá somente majorar a lista de desistentes da instituição, excluindo aqueles que, de fato, estariam preparados para concluir tal etapa com sucesso.
Assim, como afirma Silva (2005, p. 268):
Os critérios diferenciadores suficientes a caracterizar a legitimidade de determinado ato consistem, basicamente, nos seguintes elementos: os objetivos dos atos discriminatórios devem ser lícitos; a desigualdade deve possuir um nexo plausível com a finalidade da norma; e o estabelecimento da diferença ter um conteúdo de razoabilidade e proporcionalidade.
Segundo esses autores, deve-se observar a proporcionalidade entre a necessidade e o impacto que esta intervenção pode causar nos direitos fundamentais de igualdade. Cada fato que venha ter a necessidade de diferenciar os desiguais deve ter analisada a razoabilidade e a proporcionalidade do caso. Neste contexto Pedro Lenza (2010) assevera que a dificuldade neste caso consiste em saber em que média a desigualdade não geraria inconstitucionalidade. Inobstante essas ponderações prevaleceu o entendimento de que as cotas são totalmente constitucionais.
4 METODOLOGIA
Este capítulo explica, detalhadamente, a escolha da metodologia adotada, o procedimento de coleta e os utilizados para a análise dos dados. Em primeiro lugar, será apresentada a metodologia de pesquisa utilizada, destacando sua adequação ao presente estudo; em segundo lugar, expõe-se a população e amostra. Por fim, apresentam-se os procedimentos de coleta e análise dos dados e algumas limitações do presente estudo.