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A constituição da República e o contexto da República Velha

1. INTRODUÇÃO

3.1 A constituição da República e o contexto da República Velha

Nas décadas finais do século XIX, vivia-se no país um ambiente político-cultural de forte inquietação intelectual. Parte da intelectualidade brasileira passou a questionar a monarquia e os pilares que a sustentavam, como o catolicismo, a escravidão e um regime de privilégios. Aqueles que contestavam o regime monárquico entendiam que o mesmo mantinha o país numa condição de atraso diante da civilização. Este ambiente cultural foi propício para a recepção de novas idéias, como o positivismo de Augusto Comte e o evolucionismo (e a concepção organicista da sociedade) de Herbert Spencer. Conforme afirma Mello:

Sob a égide do cientificismo, a intelligentsia nacional quis valer-se da razão como guia único e seguro da reconstrução do Estado e da sociedade pátrios, deles expurgando a tradição de hierarquias fundadas sobre o privilégio e a caduca união trono-altar, para fundá-los sobre a ciência, a propulsora eficaz do progresso219.

Segundo a autora, o positivismo introduziu duas relevantes idéias no meio intelectual brasileiro na segunda metade do século XIX, que foram a “evolução escalonada da história e o cientificismo220”. Na década de 1880 houve um recrudescimento das críticas provenientes de setores da intelectualidade brasileira dirigidas ao regime monárquico. Nesta década multiplicaram-se os jornais no país e o público dos mesmos aumentou consideravelmente. De acordo com Mello, as novas idéias contribuíram para que se pensasse o país e que se propusessem reformas para que o mesmo se adequasse à civilização. Para isso, seria necessário suprimir as instituições monárquicas, atacando o sistema simbólico do mesmo através da cultura. “Foi nesse sentido que se deu o repúdio ao romantismo, ao ecletismo, ao clericalismo, ao ensino retórico e jesuítico. E que se criaram outras narrativas da nação. Nesse ambiente combativo em que se deu a ampliação da esfera pública, tudo foi submetido à crítica...221”. Celso Castro, ao falar sobre o cientificismo, que exerceu grande influência nos intelectuais da segunda metade do século XIX, considerou que o mesmo estivesse “encarnado

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MELLO, Maria Tereza Chaves de. A República Consentida. Rio de Janeiro: FGV/Edur, 2007, p. 94-95.

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Idem, p. 95.

em diversos ismos: materialismo, positivismo, darwinismo, evolucionismo222”. Para Celso Castro, as referidas interpretações cientificistas, usadas pela intelectualidade brasileira, apontavam para a seguinte perspectiva: “a história nacional era pensada como parte do movimento universal, e não como entidade distinta223”. Por isso a idéia de progresso e de adequação do país à civilização. Ao falar sobre o advento da República, Mello considera que a idéia de democracia deixou de ser confundida com liberalismo e passou a ter uma conotação social. “O termo democracia passou a estabelecer com ela [República] uma sinonímia224”.

No final do Império existiam vários grupos republicanos no Brasil, assim como clubes e jornais republicanos. A maioria desses grupos era de civis, os quais tinham propostas e idéias republicanas com diferentes perspectivas. Positivistas ortodoxos e positivistas heterodoxos, castilhistas, liberais. O jornalista e político Quintino Bocaiúva foi um propagandista das idéias republicanas e representou uma tendência de perfil mais liberal, mais próxima da república representativa dos norte-americanos. Silva Jardim foi um dos mais destacados personagens que combateram em favor do regime republicano. Embora fosse positivista, defendia um caminho revolucionário e não evolucionista para a implantação da república no país. Alberto Sales era positivista, embora não fosse favorável a um positivismo ortodoxo. A posição de Sales combinava aspectos do positivismo de Comte com aspectos do liberalismo. Era contrário à idéia de uma ditadura republicana. Teixeira Mendes foi um dos positivistas ortodoxos, um grupo de positivistas que defendia a idéia de uma ditadura republicana que devia ser dirigida pelos mais sábios. Estas são algumas das perspectivas republicanas de grupos civis no período final da monarquia225.

Durante o Império as condições sociais dos militares eram relativamente precárias, e os mesmos não tinham prestígio social. Os filhos da elite estudavam nas faculdades de direito e de medicina, enquanto que os filhos dos militares, assim como jovens de família menos abastadas ingressavam nas escolas militares. Ao entrar nas escolas militares, visavam tanto um meio de sobrevivência quanto alcançar uma ascensão social e até intelectual. Enquanto isso, os bacharéis em direito tinham todas as facilidades para ocupar cargos na administração

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CASTRO, Celso. Os Militares e a República: um estudo sobre cultura e ação política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995, p. 54.

223

Idem, p. 54.

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MELLO, Maria Tereza Chaves de. A República Consentida. Rio de Janeiro: FGV/Edur, 2007, p. 140.

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FORNAZIERI, Aldo. Brasil: A República sem Republicanismo. Dissertação de Mestrado. FFLCH-USP, 2000.

ALONSO, Ângela. Idéias em Movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

pública e se inserir nos quadros políticos. Até o período anterior à Guerra do Paraguai o processo de recrutamento militar era bastante rudimentar. No entanto, de acordo com Motta226, em alguns setores da organização militar foram tomadas medidas visando melhorar a estrutura da mesma, embora os avanços fossem lentos. Depois da guerra do Paraguai cresceu a insatisfação entre os militares. A guerra mostrou os problemas de um Exército mal equipado, mal treinado, com graves deficiências. Além disso, havia ainda o fortalecimento da Guarda Nacional, uma ameaça de substituição do Exército como força de defesa, e uma hostilidade, por parte da elite política, em relação a um exército permanente e profissional227. De acordo com Castro, no final do Império já era possível perceber algumas características do Exército que apontavam para uma melhor estruturação. “Adoção crescente de critérios burocráticos de promoção e do sistema de mérito, seus efeitos no sentido de abrir a carreira a pessoas não pertencentes à elite e, por fim, separação, em relação à formação acadêmica, entre armas „científicas‟ e „tarimbeiras‟228”. Seidl229

fez um estudo sobre a formação da elite do Exército brasileiro no período entre a segunda metade do século XIX e as três primeiras décadas do século XX. O autor mostra que naquele período os mecanismos de recrutamento e seleção da elite militar teve um caráter híbrido. Isso se explica, segundo o autor, devido à existência concomitante tanto de princípios meritocráticos, como títulos escolares, tempo de serviço, bravura; como de princípios extrameritocráticos, como relações personalísticas e notoriedade política. O autor analisa a trajetória de generais gaúchos e mostra que boa parte deles inicia suas carreiras militares ocupando “posições com acesso às esferas mais altas de comando – Ajudante de Ordens ou de Campo de generais, membro de comissão ou secretariado no Estado-Maior etc.230”. Seidl assinala também a existência de uma “constante utilização de relações pessoais baseadas na reciprocidade e o conseqüente acúmulo de capital simbólico personificado como recurso para a progressão na hierarquia231”. Outro aspecto relevante na trajetória dos generais analisados pelo autor se refere ao forte envolvimento daqueles militares com a política, particularmente suas relações com agentes da esfera do poder. Desta forma, pode-se observar que a formação da elite militar, no contexto analisado,

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MOTTA, Jehovah. Formação do Oficial do Exército: currículos e regimes na Academia Militar (1810-1944). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001.

227

COELHO, Edmundo Campos. Em busca da identidade: o exército e a política na sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Editora Forense-Universitária, 1976.

228

CASTRO, Celso. Os Militares e a República: um estudo sobre cultura e ação política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995, p. 29.

229

SEIDL, Ernesto. “Elites Militares, Trajetórias e Redefinições Político-Institucionais (1850-1930)”. Revista de Sociologia e Política. Curitiba, v. 16, nº 30, junho, 2008, pp. 199-220.

230

Idem, p. 201.

contrasta com a forma de recrutamento e seleção dos militares em geral, pelo menos até a década de 70 do século XIX. Como observa Motta,

a lei do recrutamento, de 1874, deu esperanças de que iríamos nos livrar do recrutamento forçado e de que até aos quartéis chegaria um recruta melhor como homem e como combatente. A lei, também daquele ano, mandando extinguir os castigos corporais, inspirou pensamentos nobres sobre o papel educativo da disciplina militar232.

Voltando à questão da República, observa-se que foram particularmente os jovens militares formados na Escola Militar do Rio de Janeiro que defendiam idéias republicanas, visto que estas idéias não estavam disseminadas por todo o Exército. Dentre os militares que adotaram as idéias positivistas, destacou-se Benjamin Constant, que foi professor na Escola Militar em 1872, e em 1873 foi nomeado professor por concurso. Membro da Sociedade Positivista desligou-se dela por ser contrário a um positivismo de cunho ortodoxo. Benjamin Constant teve contato com o positivismo desde sua passagem pela própria Escola Militar, na condição de aluno. Foi particularmente influenciado pelo cientificismo, que impregnava a intelectualidade brasileira da época. As idéias de Spencer, de Darwin e de Comte marcaram o pensamento de Benjamin Constant. A Escola Militar, uma escola de engenharia, tinha como característica ser pouco focada em questões militares, centrando-se em estudos de matemática, filosofia e letras. Benjamin Constant incorporou de Comte a idéia de uma ordem social racional com base em uma moral superior e no saber científico, além de também ter adotado idéias do liberalismo. Constant exerceu grande influência na formação dos jovens militares que cursaram a Escola Militar. Desde 1878, alunos da escola criaram clubes republicanos secretos. Esses jovens militares, formados na Escola Militar, tiveram forte participação na implantação da República no país. A partir da denominada “Questão Militar233” os militares começaram a ensaiar uma participação na cena política nacional. O

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MOTTA, Jehovah, 2001, p. 147-148.

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A Questão Militar teve início em 1885, a partir de um conflito entre o coronel Cunha Matos e um parlamentar. Em viagem de inspeção a uma província o coronel Cunha Matos, membro do Partido Liberal, notou irregularidades administrativas cometidas por um capitão ligado ao Partido Conservador. Em defesa do capitão, um parlamentar fez um discurso na Câmara acusando Cunha Matos de traição durante a Guerra do Paraguai. Cunha Matos reagiu publicando vários artigos em jornal, o que resultou em punição por parte do Ministro da Guerra, Alfredo Chaves, pois legalmente os oficiais eram proibidos de se manifestar em questões políticas ou militares na imprensa sem o consentimento do ministro da Guerra. O coronel foi punido pelo Ministro da Guerra por se manifestar publicamente. A partir daí houve uma polêmica sobre o direito de os oficiais se manifestarem. Após um manifesto público dirigido à Nação, feito pelo Marechal Deodoro, o governo imperial garantiu aos militares o direito de liberdade de expressão. In: CASTRO, Celso. Os Militares e a República: um estudo sobre cultura e ação política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

movimento militar que levou à implantação da República no Brasil contou com a participação do Marechal Deodoro e de mais alguns poucos militares de altas patentes234, assim como dos jovens militares de patentes inferiores do Exército. Jovens militares com formação na Escola Militar e que, segundo José Murilo de Carvalho235, eram considerados bacharéis fardados, devido ao tipo de formação que receberam na referida escola. José Murilo de Carvalho afirma que a Proclamação da República ocorreu a partir da união dos dois grupos, ou seja, dos militares bacharéis e dos militares mais velhos, os tarimbeiros. Portanto, o nascimento da República teve como protagonistas diretos alguns setores do Exército. As motivações que levaram o Exército a protagonizar a implantação da República foram os ideais republicanos e a necessidade de se preservar e fortalecer a própria instituição militar, diante da precária condição dos militares no período monárquico. Impregnados das idéias positivistas, dentre elas a do republicanismo e do cientificismo, os jovens militares também já tinham internalizado a tese do soldado cidadão, segundo a qual o soldado era, acima de tudo, um cidadão que devia participar do progresso do país e que tinha a responsabilidade de guardar a Pátria236. De acordo com Celso Castro, coube à jovem oficialidade (a “mocidade militar”), com estudos superiores ou “científicos”, “o papel de elemento iniciador e dinâmico da conspiração republicana no interior do Exército237”.

No Brasil a República nasceu fortemente marcada pelo militarismo, apesar do apoio de grupos civis, inclusive de setores da cafeicultura paulista. E os primeiros anos da República foram governados pelos militares. O marechal Deodoro da Fonseca foi chefe do governo provisório, embora seu ministério fosse constituído também por civis, como Quintino Bocaiúva nas Relações Exteriores, Rui Barbosa na Fazenda, Campos Sales na Justiça e Benjamin na Guerra. As províncias passaram a ser Estados da federação e foi implementada a separação entre o Estado e Igreja. A Constituição de 1891 declarou ser o Brasil uma República Federativa, representativa e presidencialista. Eleito presidente do Brasil pelo

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Militares mais velhos, que tinham participado da Guerra do Paraguai e que não freqüentaram a Escola Militar.

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CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 24-25.

236

COSTA, Milene Ribas. A Implosão da Ordem: a crise final do Império e o movimento republicano paulista. Dissertação de Mestrado. São Paulo, USP, 2006.

MELLO, Maria Tereza Chaves de. A República Consentida. Rio de Janeiro: FGV/Edur, 2007.

CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

LEMOS, Renato Luís do Couto Neto e. “Benjamin Constant: biografia e explicação histórica”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 19, 1997.

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Congresso Nacional, o marechal Deodoro enfrentou forte oposição no Congresso, além da oposição de São Paulo e do Partido Republicano Paulista. Fechou o Congresso Nacional, mas encontrou forte resistência inclusive dentro das Forças Armadas, o que o levou a renunciar ao cargo. O vice-presidente, marechal Floriano Peixoto, assumiu a presidência da República. No entanto, apesar da lei constitucional determinar a convocação de novas eleições para a presidência, Floriano Peixoto manteve o propósito de governar todo o período do mandato iniciado por Deodoro. Alguns generais e almirantes se colocaram contra o propósito de Floriano e foram reformados pelo presidente. O almirante Custódio de Melo, que desejava chegar à presidência, liderou uma revolta da Marinha e recebeu o apoio do almirante Saldanha da Gama, que tinha posições monarquistas. Floriano recebeu o apoio do Exército e do Partido Republicano Paulista. Neste contexto surgiu também a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul. Os republicanos históricos, partidários de idéias positivistas, e reunidos no Partido Republicano Riograndense, entraram em confronto armado com os liberais, ligados ao Partido Federalista. Estes pretendiam revogar a Constituição estadual e implementar o sistema parlamentar. Defendiam mais autonomia estadual diante do controle exercido pelo poder federal. Os federalistas apoiaram a revolta do almirante Custódio de Melo, enquanto que os republicanos históricos receberam o apoio do presidente Floriano Peixoto. Jornalistas e políticos simpatizantes da monarquia, que contestavam o novo regime através da imprensa monarquista, apoiaram tanto a revolta armada quanto a revolução federalista. No entanto, com o apoio do Exército e do Partido Republicano Paulista, a revolta armada e a revolução federalista foram duramente combatidas pelo governo de Floriano Peixoto. Portanto, nos primeiros anos da república no Brasil, marcados pelo militarismo, a atuação dos militares e, particularmente do Exército, visou fortalecer o poder central e o governo republicano. Depois do mandato do marechal Floriano Peixoto foi eleito o primeiro presidente civil da República, Prudente de Morais, que tinha fortes vínculos com os grandes cafeicultores paulistas. A denominada política dos governadores foi definida no governo seguinte, o de Campos Sales. As oligarquias paulista e mineira controlavam o governo federal em aliança com as oligarquias regionais. Os militares não eram favoráveis à política dos estados e às oligarquias. Nesse período ocorreram várias revoltas tenentistas. Para os tenentes, as instituições republicanas eram desrespeitadas pelos políticos oligárquicos. Os tenentes entendiam que o Exército representava o povo e que tinha por missão salvar a pátria.

Pretendiam reformar a sociedade e a política nacional, desafiando os políticos civis e os oficiais superiores, os quais não aderiram às revoltas tenentistas238.

O exército brasileiro teve um papel central na derrubada da ordem oligárquica. De acordo com Carvalho, o movimento que levou à deposição de Washington Luis em 1930 destacou-se por ter sido planejado e executado pelos oficiais superiores do Exército e da Marinha. Além disso, com esse movimento o Exército ensaiou uma atuação com mais independência no cenário político. A Primeira República foi marcada por movimentos contestatórios no interior do Exército, particularmente os movimentos tenentistas, além de conflitos entre Exército e Marinha. Para Carvalho isso deu um caráter desestabilizador às Forças Armadas durante a Primeira República239.