• Nenhum resultado encontrado

4 A PROCESSUALÍSTICA DOS ATOS INTERNACIONAIS

4.2 Os Tratados Internacionais

4.3.2 A Constituição da República e o posicionamento do STF

O STF define a posição do país quanto à hierarquia entre tratados internacionais e a legislação ordinária, porque na Lei Maior brasileira só existe um rol de princípios que deve orientar a nação nas relações internacionais (artigo 4º, incisos I a X) e alguns aspectos procedimentais (artigo 102, inciso III, ―b‖; 105, inciso III, ―a‖ e 109, incisos III e V), mas não há nenhuma regra quanto à primazia do Direito Interno, do internacional ou da paridade entre ambos.

A Corte Constitucional do Poder Judiciário do Brasil, há bastante tempo, discute a postura a ser adotada em relação ao status dos tratados internacionais diante da legislação ordinária, tendo mudado de orientação em 1977, quando julgou o Recurso Extraordinário no 80.004-SE, em primeiro de junho de mil novecentos e setenta e sete (BRASIL, 1977), vencendo por maioria a tese de que a lei posterior teria a prevalência garantida em caso de conflito com algum Tratado Internacional.

No mesmo recurso extraordinário, o Ministro Leitão de Abreu, quanto à vigência dos tratados atingidos por leis posteriores, defendeu a tese que foi adotada pelo Supremo Tribunal Federal, verbis:

O tratado não se revoga com a edição de lei que contrarie norma nele contida. Rege-se pelo Direito Internacional e o Brasil a seus termos continuará

vinculado até que se desligue mediante os mecanismos próprios. Entretanto, perde a eficácia quanto ao ponto em que exista a antinomia. Internamente prevalecerá a norma legal que lhe seja posterior. (BRASIL, 1977).

Assim sendo, o E. STF adotou posição a tal ponto extremada que Rezek, na ocasião ministro, expressou a ríspida orientação do pretório excelso da nação, afirmando que o STF deve garantir

[...] prevalência à última palavra do Congresso Nacional, expressa no texto doméstico, não obstante isto importasse o reconhecimento da afronta, pelo país, de um compromisso internacional. Tal seria um fato resultante da culpa dos poderes políticos, a que o Judiciário não teria como dar remédio. (MAZZUOLI, 2001).

Tal posicionamento foi emitido em uma extradição, mas não se restringe a esta matéria ―aplicando-se sempre que uma lei conflitar com tratado anterior‖. (DOLINGER, 2003, p. 108). Da análise do julgamento do Recurso Extraordinário no 80.004-SE, de 1º/06/1977 (BRASIL, 1977), percebe-se que o STF situa os tratados internacionais e as leis ordinárias no mesmo plano e grau de eficácia.

Para Magalhães (1975-1979, p. 53), ao analisar a posição adotada no RE 80.004, o STF ―reconheceu [...] a equivalência do tratado à lei, o que vale dizer que tratado revoga a lei anterior e a que sucede ao tratado tem prevalência sobre este‖. Dolinger (2003) relata minuciosamente a evolução da jurisprudência nacional sobre o tema, posicionando-se favoravelmente a postura assumida pela Corte Constitucional do Brasil, pois, para ele, ―A posição do STF através dos tempos é de coerência e resume-se em dar o mesmo tratamento a lei e a tratado, sempre prevalecendo o diploma posterior, excepcionados os tratados fiscais e de extradição.‖ (DOLINGER, 2003, p. 114).

Resta incontroverso, portanto, que o STF mesmo ao privar - em 1977 - o tratado internacional da superioridade em relação à legislação ordinária, continua a considerar exigível, no mínimo, uma lei stricto sensu para não aplicar ou alterar algum tratado internacional vigente. Esta é, também, a inteligência do artigo 2o da Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro86, tendo em vista que o Pretório Excelso equipara o texto convencional ratificado (após incorporado ao ordenamento jurídico pátrio, pelo decreto presidencial) à própria lei stricto sensu, desde o julgamento do RE 80.004-SE.

86 DL 4.657/42, que dispõe: ―Não se destinando à vigência temporária, a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue.‖

4.3.2.1 O vigor da jurisprudência firmada no RE 80.004 – SE / 1977

Torna-se oportuno ressaltar a plena vigência da posição assumida pelo STF na década de 1970, ao julgar o RE 80.004, posto que continua a regular a aplicação dos tratados internacionais no Direito Interno pátrio, em especial quando contraria leis federais, mesmo já tendo sido prolatada há mais de trinta anos.

Na mesma palestra no Conselho Federal da OAB, Medeiros (2006) ensina que a melhor maneira de resolver o conflito entre a legislação ordinária e os tratados internacionais é através da inserção de dispositivo específico na Carta Magna de cada país. Cita artigos dos textos constitucionais de Portugal e da França, mas esclarece que isso não aconteceu no Brasil. Ressalta que, desta maneira, coube a jurisprudência do STF regular a questão.

Na referida aula, esclarece de forma expressa e incontestável, que a jurisprudência do STF ―[...] ainda está regulando esta matéria, ainda está regendo

esta matéria, o famoso RE 80.004 de 1977 [...]‖ (MEDEIROS, 2006, grifo nosso).

Ressalta ainda que nesta decisão foi estabelecido que

tratados [internacionais] e leis federais ordinárias no Brasil têm a mesma hierarquia e aplica-se o princípio cronológico, vigora o que for mais recente, segundo o princípio de que a lei posterior revoga a lei anterior. Então se o tratado [internacional] for posterior a lei o tratado [internacional] é aplicado, se a lei for posterior ao tratado [internacional] a lei é aplicada. (MEDEIROS, 2006).

Em seguida, com a mesma ênfase, Medeiros (2006) assevera de forma bastante clara, ao responder questionamento específico sobre a hierarquia do texto convencional: ―no entendimento do Supremo Tribunal Federal, como eu disse, tratado internacional tem a mesma hierarquia de lei federal ordinária‖.

Dallari afirma que o RE 80.004 é uma decisão paradigmática de 1977, cuja

sentença da Suprema Corte do País, na essência mantida até os dias de

hoje, despertou grande controvérsia doutrinária, pois, em termos práticos,

consagrou a fragilidade da regra brasileira de incorporação de tratados na ordem jurídica nacional, a partir da admissibilidade do afastamento da eficácia das regras convencionais internacionais com a mera edição de ato normativo interno. (DALLARI, 2003, p. 55, grifo nosso).

Tendo em vista posição majoritária da doutrina considerar a plena vigência do RE 80.004, ilustrada por Medeiros e Dallari supra, resta oportuno mencionar decisões recentes do próprio STF confirmando sua posição, para que não pairem dúvidas sobre a força do referido posicionamento.

Na extradição 662-2, apesar de ter sido aprovada parcialmente por maioria, o foco da divergência entre os ministros referia-se ao mérito da própria extradição, mas foi unânime quanto à perda de eficácia do Código de Bustamante87 - apesar de considerá-lo obra fundamental da codificação do direito internacional privado. Esse Código exigia a instrução do pedido extradicional com peças do processo penal do país requerente, que comprovassem, ainda que mediante indícios razoáveis, a culpabilidade do estrangeiro reclamado. (BRASIL, 1996c). Contudo, o STF, prestigiando o RE 80.004, afirma que o texto convencional deixou de reger a matéria, diante da promulgação do Estatuto do Estrangeiro, que passou a regulá-la de forma diferente. Na sua ementa se destaca: ―PARIDADE NORMATIVA ENTRE LEIS ORDINÁRIAS BRASILEIRAS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS‖. (BRASIL, 1996c).

Além disso, a referida ementa prossegue com didática lição, sintetizadora dos argumentos expendidos até aqui sobre o conflito entre os tratados internacionais e o ordenamento jurídico pátrio, extraída do voto do ministro relator:

Tratados e convenções internacionais - tendo-se presente o sistema jurídico

existente no Brasil (RTJ 83/809) – guardam estrita relação de paridade

normativa com as leis ordinárias editadas pelo Estado brasileiro.

A normatividade emergente dos tratados internacionais, dentro do sistema jurídico brasileiro, permite situar esses atos de direito internacional público, no que concerne à hierarquia das fontes, no mesmo plano e no mesmo grau de eficácia em que se posicionam as leis internas do Brasil.

A eventual precedência dos atos internacionais sobre as normas infraconstitucionais de direito interno brasileiro somente ocorrerá – presente o contexto de eventual situação de antinomia com o ordenamento doméstico - , não em virtude de uma inexistente primazia hierárquica, mas, sempre, em face da aplicação do critério cronológico (lex posterior derogat priori) ou, quando cabível, do critério da especialidade. Precedentes. (BRASIL, 1996c, grifo nosso).

Desta maneira verifica-se o vigor da jurisprudência firmada no RE 80.004-SE, em comento, pois tanto a extradição mencionada, com pouco mais de dez anos, quanto o RE 297.901 RN, cujo julgamento, bem recente, ocorreu março de 2006, no qual, de forma clara, unânime e inequívoca, sobre a plena vigência da posição adotada na década de 1970, atesta, através do voto de sua relatora: ―o Plenário do Supremo Tribunal Federal entendeu que leis internas posteriores revogam os tratados internacionais‖ (BRASIL, 2006).

87 Como foi denominada a Convenção de Direito Internacional Privado dos Estados Americanos, subscrita em 20/02/1928, na Sexta