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O preâmbulo do Ato Institucional 1 é claro na apresentação do novo modelo de administração que se instalara no Brasil:

A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constitucional. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como o Poder Constituinte, se legitima por si mesma.

Portanto, é de se admirar a engenharia jurídica feita pelo AI 1, de 09 de abril de 1964, no qual o Regime Militar, que por meio de um golpe de Estado assumiu o poder, avocou para si o poder constitucional originário, tendo como justificativa uma “vitoriosa revolução”, além de ser necessário um tempo para a consolidação do “poder revolucionário”, o que justificaria um ato com essa redação.

De fato, as primeiras palavras do trecho citado dão uma ideia da maneira pelo qual o movimento militar se consolidou no poder – pela via armada –, uma vez que este processo não se deu pela eleição popular. Neste sentido, houve a completa subversão da ordem constitucional vigente, afastando a participação popular do exercício do poder de 1964 em diante.

É concomitante à vigência da Carta de 1967, votada no Congresso Nacional em 24 de janeiro de 1967, a gradual de centralização político-administrativa e a ascensão do chamado “federalismo por integração143”. Sobre este tema anota Gilberto Bercovici anota:

A elaboração teórica do “federalismo de integracão” é de Alfredo Buzaid, então Ministro da Justiça do General Médici, que considerava o desenvolvimento e a segurança nacional como fundamentos do novo "federalismo". Sob o pretexto da “integração nacional”, todos os instrumentos de promoção do desenvolvimento econômico deveriam ser centralizados na esfera da União. Para Buzaid, o “federalismo de integração” iria além do federalismo cooperativo, atribuindo à União os poderes necessários para dirigir a política nacional, evitar conflitos com as unidades federadas e promover o desenvolvimento econômico com o máximo de “segurança coletiva”. Realmente, o “federalismo de integração” foi tão além do federalismo cooperativo que praticamente extinguiu o sistema federativo brasileiro, sempre com a justificativa da “segurança nacional”. Em síntese, sob a denominação “federalismo de integração”, procuraram os juristas ligados à ditadura militar esconder a supressão do federalismo naquele período144.

Celso Ribeiro Bastos assim comenta sobre os dispositivos da Carta de 1967:

Era, portanto, uma última tentativa de encerrar o ciclo revolucionário, liberalizando- se o País através da aprovação de uma nova Constituição. Para tanto, como visto acima, convoca-se o Congresso Nacional por ato institucional para a discussão e a aprovação de um novo texto enviado pelo governo.

Assim, era natural que o poder revolucionário desejasse à época um Texto Constitucional renovado, isto porque já houvera sido tão grande o número das Emendas sofridas pela Constituição de 1946, assim como os Atos Institucionais que a mutilaram em diversas partes, que o Texto Constitucional tornava- se caótico e desestruturado. O seu labor constituinte como o notado antes foi rápido, dando-se em poucos meses. As principais notas do Texto de 1967 eram as seguintes: em primeiro lugar uma enorme preocupação com a segurança nacional, conceito que se tornou abrangente de diversas situações, dotado de um grande vazio semântico que acabava por permitir a manipulação da Constituição em diversos de seus pontos. Foi uma Constituição centralizadora. Trouxe para o âmbito federal uma série de competências que antes pertenciam a Estados e Municípios.(...)

(...)

Os decretos-leis tornaram-se uma arma poderosíssima diante de expressões vagas tais como: urgência e interesse público relevante, assim como em matéria de segurança nacional. A conjugação desses conceitos permitia que se levasse a extremos insuspeitáveis a competência do Executivo para editar normas.

143 Tema brevemente analisado no item 1.4.3 do capítulo 1. 144 Cf. BERCOVICI, op. cit., p. 51, grifo nosso.

Sem embargo a Constituição de 1967 foi uma tentativa de agasalhar princípios de uma Constituição democrática, conferindo um rol de direitos individuais, liberdade de iniciativa, mas onde a todo instante se sente a mão do Estado autoritário que a editou145.

Por sua vez, a Constituição da República de 1967 teve como foco principal o enquadramento da ordem econômica no contexto da segurança nacional, concentrando-se no desenvolvimento nacional, com os seguintes princípios: liberdade de iniciativa, valorização do trabalho como condição da dignidade humana, função social da propriedade, harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção e de repressão ao abuso do poder econômico (art. 160, com redação dada pela EC 01/1969).

Em 1969, diante do contexto político que vivia o país naquele momento, com a edição do Ato Institucional 05 em 13 de dezembro de 1968, e a vacância na Presidência da República, os Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar outorgaram a EC 01, de 17 de outubro de 1969. Para José Afonso da Silva, a Emenda Constitucional 01/1969

Teórica e tecnicamente, não se tratou de emenda, mas de nova constituição. A emenda só serviu como mecanismo de outorga, uma vez que verdadeiramente se promulgou texto integralmente reformulado, a começar pela denominação que se lhe deu: Constituição da República Federativa do Brasil, enquanto a de 1967 se chamava apenas Constituição do Brasil.146

A Constituição de 1967 manteve o controle difuso por via de exceção e o controle abstrato instituído pela EC 16/1965, por meio da ação direta de inconstitucionalidade. A ação direta interventiva foi ampliada, mas a disposição da EC 16/1965, ao prever que a lei poderia estabelecer processo de competência originária dos Tribunais de Justiça dos Estados para declaração de inconstitucionalidade de lei ou ato municipal contrários à Constituição Estadual, não foi mantida na nova Carta.

A EC 01/1969 introduziu a ação direta interventiva, de competência do Tribunal de Justiça, para a defesa dos princípios consagrados na Constituição Estadual, a ser promovida pelo Chefe do Ministério Público estadual. Instituiu-se, assim, a ação direta, no âmbito dos Tribunais de Justiça dos Estados, para fins de intervenção no Município (art. 15, § 3.º, d)147.

145 BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de direito constitucional. São Paulo: Saraiva, 2000.p. 135, grifo nosso. 146 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 20. ed. São Paulo: Malheiros, 2002. p. 87. 147 Cf. VELLOSO, op. cit., p. 80.

Neste sentido, a Carta de 1967 previa diversas hipóteses de intervenção nos Municípios, inclusive no caso de serem “praticados, na administração municipal, atos subversivos ou de corrupção” (art. 15, § 3.º, e), que trouxe para o âmbito do controle de constitucionalidade, e do federalismo, hipótese absurda de intervenção nos municípios, debilitando sua a autonomia e levando a doutrina da segurança nacional a limites extremados.