CAPÍTULO II: O CAMPO DAS PRÁTICAS ESPORTIVAS
2.1 A constituição do campo segundo Pierre Bourdieu
Sob diversos ângulos, sobretudo o histórico e o social, pudemos acompanhar, no primeiro capítulo deste estudo, as evidências da transformação do esporte moderno em mercadoria de consumo da cultura de massa. No passado atividade essencialmente elaborada com fins distintivos de classe pelos aristocratas (é preciso lembrar que este caráter ainda permanece em alguns esportes, como o alpinismo e o golfe), hoje convertido em prática comum das classes populares, profissionalizado, difundido em todo mundo, o esporte tornou-se um dos fenômenos sociais mais marcantes na cultura do século XX, ganhando espaços consideráveis em todos os segmentos da sociedade moderna.
Atualmente, na forma como se apresenta — produzido por profissionais e destinado ao consumo de massa —, o espetáculo esportivo é correlativo ao desenvolvimento de uma indústria pública ou privada, que, com nova "roupagem", produz atrações esportivo-competitivas para determinadas demandas, num processo semelhante ao da folk music. (BOURDIEU, 1983)
Na análise da relação mídia-esporte, Marques (2005) sintetiza o pensamento de Pierre Bourdieu, que interpreta o atleta e o seu desempenho como parte de um espetáculo produzido, em primeira instância, pelos agentes esportivos, isto é, por indivíduos que estão diretamente envolvidos na sua promoção (atletas, juizes, treinadores, organizadores, platéia, etc.), e, em segunda instância, pela mídia, seja pelo discurso, seja pela edição de imagens. Opera-se assim uma "construção de dois níveis".
A produção do espetáculo esportivo passou a seguir princípios semelhantes aos de outras práticas culturais, como a música e o teatro. No seu escopo, além da mídia e dos agentes esportivos mencionados no parágrafo anterior, outros agentes sociais — anunciantes-patrocinadores (com destaque para as companhias transnacionais), promotores (federações, confederações e comitês olímpicos, entre outros), o próprio Estado e, em certa medida, os consumidores do
esporte — participam como "atores" do que Pierre Bourdieu denomina de "conjunto das práticas esportivas", estruturado com referência estreita e direta ao conceito de campo construído pelo próprio autor. Segundo Trigo (1998), Bourdieu define o conceito de campo como um espaço social, isto é, um sistema de posições diferenciais que confere aos agentes individuais ou coletivos papéis e status diversos e que possui leis de funcionamento próprias e, ao mesmo tempo, participa de mecanismos que são universais, comuns a todos os campos. O campo pode ser entendido como sistema específico de relações objetivas de aliança, de concorrência ou de cooperação entre posições diferenciadas, socialmente definidas, completamente independentes da existência física dos agentes que as ocupam.
Atrelado às leis de mercado e mergulhado na sociedade de consumo, o conjunto das práticas esportivas e dos consumos esportivos produzidos pelos agentes sociais é considerado por Bourdieu (1983) como uma oferta (novos esportes e equipamentos, por exemplo) que busca atender aos interesses de certa demanda social, cuja distribuição das práticas e consumos ocorre similarmente a quadros estatísticos segundo o nível de instrução, idade, sexo e profissão. No interior deste cenário socio-político-cultural, o esporte aparece como um campo de lutas em torno da distribuição de bens e serviços esportivos, dos valores corretos e dos padrões legítimos.
Bourdieu (1983) observa ainda que o campo das práticas esportivas é um espaço de lutas, dentre as quais se configura o embate entre amadorismo (prática da elite; nobres atributos do caráter humano) e profissionalismo (prática popular; vocação para o espetáculo, forma de ascensão social). "Tudo sugere que os interesses e valores que os praticantes saídos das classes populares e médias trazem consigo para o exercício do esporte se harmonizam com as exigências da profissionalização." (BOURDIEU, 1983, p. 147) Neste microcosmo de concorrência da disputa entre o esporte profissional e esporte amador, focalizaremos nossas atenções, direcionando os argumentos em torno do objetivo da pesquisa.
Eu me contentarei em mencionar, entre outras, uma conseqüência da constituição desse campo relativamente autônomo, a saber, o contínuo aumento da ruptura entre profissionais e amadores, que vai pari passu com o desenvolvimento de um esporte-espetáculo totalmente separado do esporte comum. (BOURDIEU, 1990, p. 217)
Pensando na idéia de ruptura entre esporte profissional e esporte amador, aliás, ainda hoje muito discutida entre especialistas do esporte (advogados, administradores, sindicatos de atletas, etc.), é preciso não perder de vista que a sistematização dos jogos, a complexidade e o rigor das regras, o estabelecimento de recordes fizeram da prática esportiva uma atividade cada vez mais séria. A seriedade decorrente desta sistematização provocou "a perda de uma parte das características lúdicas mais puras do esporte, que se manifesta, por exemplo, na distinção entre os amadores e os profissionais para quem o jogo já não é jogo". (BETTI, 1998, p. 87)
Por certo, o profissionalismo no esporte tomado como atividade séria rompeu definitivamente com a idéia de jogo. Neste estágio de desenvolvimento, já se pode afirmar que esporte não é jogo, principalmente se partirmos do conceito de jogo proposto por Johan Huizinga.
Atividade livre, conscientemente tomada como "não séria" e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total. É uma atividade desligada do todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter qualquer lucro, praticado dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo uma certa ordem de regras. Promove a formação de grupos sociais com tendência a rodearem-se de segredo e a sublinharem sua diferença em relação ao resto do mundo por meio de disfarces ou outros meios semelhantes. (HUIZINGA, 1971, p. 16)
Notamos também que o conceito assemelha-se com o caráter gratuito e desinteressado que as atividades esportivas ofereciam à classe dominante, formas disfarçadas até as primeiras décadas do século XX, de propósitos para o acúmulo de capital social. (BOURDIEU, 1983, p. 152) O esporte espetáculo é então o oposto do jogo. Eis o ponto de ruptura.