1. SOBRE A TRAJETÓRIA DA LÍNGUA E DO SUJEITO
2.4 O sujeito e o sentido
2.4.2 A constituição do eu sob/pelo olhar do outro
O sujeito da AD é concebido como um sujeito histórico, porque fala de um determinado tempo e lugar. Essa noção de sujeito histórico une-se à noção de sujeito ideológico, por representar em seu discurso um tempo histórico e um espaço social.
Nessa perspectiva da AD, a linguagem deixa de ser evidente, deixa de ter sentido transparente e produzido por um sujeito uno. O sujeito passa a dividir o espaço discursivo com o outro. A psicanálise lacaniana entende que o sujeito é um efeito de linguagem e busca sua constituição numa fala heterogênea, que é consequência de um sujeito dividido. As concepções de sujeito da AD e da psicanálise lacaniana aproximam-se, pois buscam refletir o sujeito ligado à linguagem.
Tanto a teoria da AD quanto a da psicanálise concebem que é o outro que constitui o sujeito, assim como é o outro que constitui o discurso. (CORACINI, 2007, p. 59). “Não há outro modo de se dizer que não seja através do olhar e da voz do outro.” (p. 60). A imagem que o sujeito constrói de si mesmo provém do outro. É o discurso que ao perpassar o sujeito o constitui; ao constituí-lo, cria em seu imaginário a verdade sobre o sujeito, com a qual ele se identifica. “Sabemos que o imaginário é o responsável pelo que se pode denominar
sentimento de identidade, ao qual se atribui a ilusão de unidade, de completude do sujeito.” (CORACINI, 2007, p. 225). É via imaginário que se constitui a subjetividade, a qual é sempre heterogênea, atravessada pelo outro, por outro discurso que constitui o interdiscurso.
Ainda, segundo o olhar de Coracini (2007, p. 60), o sentimento de identidade do sujeito constrói-se socialmente por aqueles a quem se atribui maior poder, ou seja, a quem se concede autoridade para dizer verdades ou a verdade sobre os fatos. São essas verdades internalizadas que garantem a possibilidade de o ser humano se constituir como sujeito da linguagem e do discurso. O sujeito do discurso também é alteridade, porque carrega em si o
outro que o transforma e é transformado por ele. Concebendo o sujeito como um lugar no discurso, é este heterogêneo na sua própria constituição e, por isso, fragmentado, cindido.
Sujeito e discurso são heterogêneos porque há forte relação entre heterogeneidade e interdiscurso. O interdiscurso é o que se constitui no exterior e dá as condições para a construção de qualquer discurso, num processo de reelaboração ininterrupta pelos sujeitos, que comporta a historicidade tanto na linguagem quanto nos processos discursivos. Assim, como observa Coracini (2007, p. 59), o que somos e o que pensamos estão carregados do dizer do outro, dizer que herdamos de nossos antepassados, daqueles que parecem não deixar rastros. O que somos e o que vemos estão carregados dos discursos que silenciam em nossa memória discursiva.
Refletindo sobre o dizer do sujeito e que não há um outro modo de se dizer que não seja através do outro, Coracini (2007, p. 60), citando Lacan (1966 [1998]), afirma que basta lembrar o estádio do espelho, pois a criança que ainda não tem uma autoimagem formada vê- se ou imagina-se refletida no espelho do olhar do outro, que nomeia a imagem de espelho e, assim, confere-lhe uma identidade a partir dessa identificação. A formação do eu no olhar do
outro inicia a relação da criança com a representação simbólica, incluindo a língua, que passa a constituí-la de modo inconsciente. Os sentimentos de contradição vividos na sua formação inconsciente deixam o sujeito dividido e permanecem com ele por toda a vida. Embora partido, o sujeito vivencia a própria identidade, como se estivesse reunida, resultado da fantasia de si mesmo como uma pessoa unificada, formada na fase do espelho.
Esse sujeito “é fruto de múltiplas identificações – imaginárias e/ou simbólicas – com traços do outro que, como fios que se tecem e se entrecruzam para formar outros fios vão se entrelaçando e construindo a rede complexa e híbrida do inconsciente e, portanto, da subjetividade”. (CORACINI, 2007, p. 61). A subjetividade apresentada pela autora é o resultado da falta constitutiva do sujeito que em vão deseja preenchê-la com o outro, objeto do seu desejo. “Mas como o seu desejo é preencher a sua falta e o desejo do outro é também
preencher a sua falta, o que o sujeito deseja é o desejo do outro, ou seja, que o outro o deseje.” (CORACINI, 2007, p. 61 – grifo da autora).
A existência da identidade só pode ser concebida no imaginário do sujeito, que se constrói nos e pelos discursos imbricados que o vão constituindo, dentre os quais o discurso pedagógico, responsável pela simplificação da realidade, transformando-a numa narrativa que a torna verdade inquestionável, a qual contribui na constituição da identidade.
A escrita, aqui tomada como constituinte do discurso pedagógico, não se limita ao ato mecânico de escrever; não significa repetir sem nada acrescentar, mas exteriorizar o que está dentro, o que constitui o sujeito. Significa exteriorizar o que foi digerido, deixando aí as marcas da singularidade, inscrições que poderão ser lidas por si ou pelo outro numa rede de identificações subjetivas. É a palavra que, ao passar pelo sujeito da linguagem, o constitui. É a escola que, sem reduzir tudo a regras e modelos, mas a partir do outro que sou eu e do eu que sou o outro, pode se abrir para acolher e aprender com o outro. Nesse movimento em direção ao outro, formam-se laços, tecem-se redes e transformam-se um e outro.
A escola é um espaço considerado de configurações identitárias diferentes, que questionam verdades pré-estabelecidas e desestabilizam a identidade, “sentimento ilusório de unidade, de ser completo e inteiro, mostrando-a como ela é: em movimento, fragmentada, híbrida, constituída pelo outro, por todos os outros com quem criamos laços e que vão nos modificando no percurso da vida.” (CORACINI, 2007, p. 112).
3 SOBRE A ESCRITA E A IDENTIDADE
A história de cada um se constrói por marcas e identificações e determinados conteúdos surpreendem. Coisas acontecem
“por acaso” outras “tenta-se e não se consegue”, até que em certo momento cada um se vê como falta. A falta representando a própria subjetividade. O. M. C. de A. Pacheco Nosso objetivo neste capítulo é apresentar a interligação existente entre a escrita e a identidade. A escrita é concebida como escritura, como possibilidade de exteriorizar o que constitui o sujeito. Na escritura, o sujeito-aluno fala de si, movimenta-se no processo de identificação.