• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II TEORIA DA CONSTITUIÇÃO E A SOCIEDADE FRATERNA

2.1. A Constituição na busca da sociedade solidária

O termo Constituição é plurívoco e diacrônico, apresentando diversos significados ao longo da história. Como ensina Neves, originalmente, em Aristóreles, o conceito de Constituição é o que estabelece a relação de cargos do Estado em relação ao poder governamental e, também, estabelecer os fins de determinada

comunidade. Sendo ela que estabelecia os elementos estruturais e teleológicos da comunidade, havia certa equiparação entre Constituição e Estado. Portanto, na concepção aristotélica a constituição faz e mantém o Estado disciplinando a vida da comunidade política.

Com a chegada dos tempos modernos a constituição passa a conceituar a carta de liberdade ou o pacto de poder existente dentro de determinada comunidade. Na esteira deste novo conceito, as revoluções burguesas ocorridas no século XVIII, apontam “tanto para o sentido normativo quanto à função ‘constituinte de poder’, ‘abrangente’ e ‘universal’ da constituição” (NEVES, 2004, p. 55). Seguiu-se a pluralidade do conceito de constituição construindo Seguiu-seu significado em torno de quatro tendências fundamentais: sociológica, jurídico-normativa, ideal e cultural-dialética.

O conceito sociológico compreende a constituição a partir das “relações de poder realmente existentes em um país” (NEVES, 2004, p. 56). Dentro desta tendência, identifica-se compreensão da constituição considerando somente a dimensão socioeconômica. O ordenamento jurídico é um dos elementos constitutivos do Estado. O ordenamento jurídico não é uma abstração alheia à realidade daqueles que estão subordinados a determinadas regras.

Em oposição a tal conceito, de um lado encontra-se o esforço para entender a ordem constitucional do ponto de vista jurídico normativo encontrado na Teoria Pura do Direito, para a qual a ordem jurídica e o Estado se confundem. Neste caso, o Direito deve ser compreendido sem os demais elementos da realidade da vida. Ao mesmo tempo, o Estado é priorizado em relação à sociedade.

De outro lado, percebe-se o esforço para definir a constituição a partir de seus elementos ideais, portanto, para existir uma constituição são necessários princípios ideais norteadores. Por fim, apresentam-se as concepções dialéticas e culturais propondo uma relação entre o dever-ser constitucional e o ser constitucional. A constituição supõe a compreensão de um todo composto pelo real e o ideal com suas manifestações dialéticas. A Constituição é, portanto, ao mesmo tempo, norma e realidade.

A modernidade, aos poucos, foi estabelecendo a constitucionalização da ordem jurídica e política estatalmente organizada. Passa a supor uma ordem axiológica na base da organização do sistema estatal e do sistema jurídico. Ao mesmo tempo, pode-se entender a constituição como o mecanismo que permite a

diferenciação do sistema político e do jurídico. Através da constituição estabelece a ligação estrutural entre a política e o direito. Os mecanismos jurídicos passam a mediar a relação entre o Direito e o Estado.

Outra acepção possível é aquela que a concebe “sob o ponto de vista político sociológico, como instituto específico do próprio sistema político” (NEVES, 2004, p.

63). Ela se apresenta como ordem fundamental da coletividade que regula as expressões normativas de comportamento. Porém, ela se configura, do ponto de vista sistêmico-teórico, um subsistema do Direito. Em ambos os casos, a constituição regula a relação entre o Direito e a Política e lhes serve de base.

Ela não é qualquer subsistema do Direito, mas aquele que traz as orientações básicas para que todo o conjunto do sistema em ao redor do qual gira o ordenamento possa funcionar adequadamente. Com esta finalidade, a Constituição de 1988 trouxe:

O reconhecimento da dignidade da pessoa humana é o pilar de interpretação de todo o ordenamento jurídico e toda a Constituição Federativa do Brasil. (MAGALHÃES, 2012, p. 153).

Assim, a Constituição se apresenta como o mecanismo que garante a autonomia operacional do direito, transformando a relação entre o Direito e a Política em horizontal. Ela media dois sistemas independentes entre si garantindo o critério de legitimação interna da ordem jurídica e regulando a realidade da Política. Desta forma, ela se torna o elemento de fundamentação outrora representado pelo Direito Natural. Na complexidade moderna, na qual é impossível uma moral única e, portanto, legitimar os sistemas pela via dos valores, a Constituição ocupa o espaço legitimador, impedindo a “manipulação política arbitrária do Direito” (NEVES, 2004, p. 66).

Por isto, “a validade e o sentido do Direito Constitucional dependem da atividade legislativa e da aplicação concreta do Direito” (NEVES, 2004, p. 66).

Contudo, a Constituição garante o fechamento interno do sistema jurídico delimitando em leis o papel do legislativo e estabelecendo as formas de aplicação da lei. Tanto a legislação (atividade legislativa), quanto a administração (atividade executiva ou administrativa), ou a jurisdição (atividade do judiciário) pressupõe a diferenciação entre Constituição e lei. Através da constituição se assegura os processos de produção normativa imprescindíveis para a autodeterminação

operativa do Direito. Isto é, a relação entre os sistemas e dentro dos sistemas é mediatizada por leis fundadas na Constituição, mantendo assim a unidade dos sistemas.

Em sentido estrito, a função da constituição é a institucionalização dos direitos fundamentais e o estabelecimento do Estado de Bem-estar. “Mediante a institucionalização dos direitos constitucionais fundamentais, o direito positivo responde às exigências da sociedade moderna por diferenciação sistêmica”. Pela institucionalização dos Direitos Fundamentais garante-se o desenvolvimento da comunicação e da personalidade “conforme diversos códigos diferenciados”

(NEVES, 2004, p. 71). Pela garantia do Estado de Bem-estar concretiza-se o princípio sociológico da inclusão institucionalizando os direitos fundamentais sociais com função compensatória e distributiva.

O reconhecimento da centralidade da Constituição para a organização do Estado Democrático de Direito em todas as dimensões de poder assegura a aplicabilidade de seus objetivos, princípios de direitos fundamentais a toda ordem social. Através dela se alcançará a justiça social, o bem comum, a comunidade solidária e o fim das discriminações e desigualdades, como instrumentos intermediários da sociedade fraterna. Para manter o foco na meta, toda lei e todo instituto jurídico serão sempre monitorados e avaliados por estas referências.

No Estado preocupado com a centralidade da dignidade humana o bem comum destaca-se como elemento necessário para a consolidação das relações humanas. O objetivo da organização comunitária do ser humano é a busca de melhores condições de vida reconhecidas pela capacidade de produzir a felicidade para os membros da comunidade política. Há, portanto, uma estreita relação entre o bem comum, o respeito à dignidade humana, a justiça social e a cooperação e a solidariedade exigidas quando o referencial do ordenamento for a Fraternidade.

Toda a organização política e a vida social são instrumentos para que haja realização humana e as pessoas alcancem a suficiência dos bens necessários para a vida feliz. Seja pela eliminação da miséria, pela promoção da igualdade, a insistência com o bem comum, alcança cada membro da estrutura social e condena o seu abandono e privação das condições dignas de vida. Assim, na sociedade fraterna não há o que justifique amontoar crianças e adolescentes em casas de abandonados com a consequente privação de tudo que se refere à dignidade atual e seu pleno desenvolvimento como ser humano.

Exige-se portanto esferas de subsidiariedade do bem comum e de solidariedade entre os sujeitos que são partes do todo social. Estes dois elementos são os mecanismos para se alcançar o bem humano absoluto, isto é, aquele bem que serve como referência para se organizar e distribuir todos os bens intermediários: a felicidade. De um lado, o Estado, através da subsidiariedade, é responsável em organizar as estruturas para que não haja o abandono permitindo que cada cidadão tenha o instrumental para se preocupar com os demais; mas de outro cabe aos membros da comunidade, pela solidariedade, fazer o processo de acolhimento que leve todos à possibilidade da vida feliz.

É a felicidade o primeiro e o último fim da pessoa humana e da vida social. A vida feliz dos membros da sociedade e cidadãos do Estado de Solidariedade é o termômetro para verificar se a justiça está sendo implementada. Neste modelo, o próprio Estado promove as condições de cooperação em respeito ao princípio da Fraternidade. A vida infeliz, enquanto insuficiência de bens intermediários e hipossuficiência para a própria sobrevivência, mostra que há algo errado na organização do Estado e com o hábito das pessoas. A justiça que produz a felicidade efetiva decorre da virtude. E esta, por sua vez, depende de hábitos de solidariedade. Entre a mesa farta e a falta do pão move-se o pêndulo da justiça social entre os dois pratos da balança: a regulamentação e os programas de inclusão promovidos pelo Estado Democrático de Direito e a atuação dos membros da comunidade política movidos pela consciência da necessidade de solidariedade.

Desta forma, o bem comum é ao mesmo tempo a finalidade do Estado e o meio de viver e agir das pessoas. Há uma relação entre o todo e as partes. O bem comum encontra-se na felicidade do todo e ao mesmo tempo em cada uma das partes. Não é só o Estado que proporciona esta condição de felicidade, mas os próprios concidadãos o fazem, especialmente ao colocar em prática a regra de ouro de cada um fazer ao outro exatamente as coisas boas que também deseja para si.

Cada um deve ser solidário com todos. Estruturas de solidariedade não têm sentido se não se transformarem em práticas nas condutas das pessoas que compõem uma determinada realidade.

O norte que direciona a organização do Estado e a existência da sociedade é a vida humana. De modo especial, serve como fundamento de toda existência política e social a dignidade da vida. Por isto que se entende que “a vida não é objeto de um direito, mas o fundamento de todos os direitos” (NEVES, 2014, p. 65).

Alcançar a dignidade corresponde a encontrar a felicidade, isto é, a autossuficiência dos bens necessários para a vida digna, incluindo entre estes bens a família.

Neves (2014, p. 65 – 66) apresenta algumas noções para que se possa entender melhor o bem comum. Alguns recortes da literatura indicam a centralidade do bem humano, do bem comum enquanto felicidade absoluta dos homens. Para Aristóteles, o homem caracteriza-se como animal comunitário e na vida comunitária está sua realização. Para ele, o fim último de tudo é o bem humano, “aquilo a que todas as coisas tendem”.

Alem disto, Neves (2014) destaca, ainda, que somente considerando a pessoa humana é possível entender o bem comum, isto é, só a partir da pessoa humana o bem comum pode ser compreendido. Portanto, o bem comum coresponde à boa vida das pessoas individualmente falando e da coletividade, tomada em seu sentido cooperativo, aparecendo como exigência a ser cultivada pelo todo e pelas partes da comunidade política. Trata-se do direito que todos têm de viver bem, ter o suficiente para viver com dignidade.

Outro referencial, na concepção de Neves, é que o bem comum deve prevalecer sobre o bem privado, pois há uma correlação direta entre o bem da pessoa e a realização do bem comum. Quando se destaca o privado em detrimento do bem comum corre-se o risco de se estimular as desigualdades e se instalar a infelicidade na vida das pessoas. E uma sociedade de infelizes pode indicar que se trata de uma sociedade injusta.

É possível, como propõe Lorenzo (2010), identificar três esferas de bem comum: o doméstico, o social e o político. Estas esferas se relacionam para proporcionar o bem estar das pessoas e da vida social. A relação destas esferas é orientada por três princípios: subsidiariedade, competência e solidariedade. Pela subsidiariedade cada esfera assume para si a responsabilidade de construir o bem estar, sendo este o objetivo último da ordem política que tem com fim a felicidade.

Pela competência, cada esfera possui suas próprias responsabilidades sem perder de vista que não há bem comum, se o mal comum ou pessoal prevalecer no político, no social ou no doméstico.

Neste contexto adverte Lorenzo:

De todos os campos que exigem a atuação do princípio da solidariedade, a questão social é, historicamente, a mais relevante. As condições subumanas em que vivem mais de um bilhão de pessoas em nosso tempo

são um desafio à solidariedade tanto política, quanto universal. (LORENZO, 2010, p. 143)

Como consequência, conclui-se que pela solidariedade se entende que a comunidade política é o espaço originado pela necessidade de se viver bem. O melhor espaço para cultivar esta solidariedade é no nível doméstico no qual a Fraternidade prevalece sobre os demais princípios e as obrigações decorrem do afeto e do cuidado e não da coerção. Desta comunidade básica para a vida social poderá transbordar nas demais esferas a preocupação com o bem comum. Portanto, a família configura como base da sociedade pois nela é possível fazer a primeira experiência de preocupação afetiva com o outro, cujo aprendizado é condição para reproduzir na comunidade social e na política condutas baseadas na Fraternidade.