A família romana cresce e se divide, obedecendo à lei natural da existência. No entorno do pater organiza-se um núcleo social e político, por ele chefiado. A cisão da família, que poderia ocorrer com a morte do pater, pela perda da condição de cidadã ou mesmo pela mudança de núcleo familiar dá origem a outras que se ligam pelo laço do parentesco e pelo nome: nomen gentilicium.
Esse grupo, menos coeso e mais numeroso, dá origem à gens, que corresponde, em termos espaciais, ao pagus, com seu centro ² vicus ², integrado pelas diversas habitações familiares ² domus118. O crescimento espacial e humano é
acompanhado pelo plano institucional, dando origem à Cidade ² Civitas, que irá absorver, em suas estruturas públicas, as instâncias políticas privadas.
Dentro do escopo deste trabalho, não se cuidará da divisão espacial da Roma antiga, em montes e seus diversos pagi, conquanto possa ser de grande interesse mesmo para o estudo do Direito público romano, uma vez que semelhantes divisões tinham repercussões obre o universo sacral, pertinente que era ao Direito público. Neste passo, importa é analisar a organização institucional e política da Roma antiga, na medida em que repercute sobre seu universo normativo.
A forma de organização da Roma antiga, em especial no período da Realeza, guarda estreita conexão com o conceito de Estado, pois é reflexo da organização e distribuição do poder, essencialmente da GLVWULEXLomR GR SRGHU GH ´MXUtJHQRµ R TXH modernamente chamaríamos competências legislativas.
68 A divisão original e mais duradoura da Roma antiga é a cúria119, comum a
todos os povos latinos, denominação correspondente ao termo quiris, que representava, no plano do discurso, o cidadão. A segmentação em cúrias supunha a divisão do populus em famílias, de modo que a cúria é também, em sua dimensão social, uma reunião familiar. Característica singular das cúrias é sua projeção espacial: uma cúria, enquanto segmentação do corpus político que é o populus, tem vinculação ao território, configurando- se, em seu estágio primitivo, uma união territorial. Ocorre, contudo, que, ainda no período da Realeza, as cúrias perdem seu vínculo direto com a propriedade do solo, trasladando-se a outro plano, mais abstrato, de congregação, que tem como elo o patronímico120.
O princípio decimal latino, que remonta a tempos imemoriais, orientou a divisão das cúrias, atribuída a Rômulo, em número de dez. As três comunidades latinas primitivas ² Titienses, Ramnes e Luceres ² conservaram, cada uma delas, dez cúrias. A junção de todas as comunidades, dando origem ao Estado Romano, resultou em uma comunidade geral de trinta cúrias.
A cúria era, assim, uma unidade componente da totalidade que é representada pelo populus. A identidade antropológica de cada uma das cúrias deu origem, e mesmo sustenta, a divisão que se encontra com recorrência na literatura latina entre populus e tribus. Guardando conexão com seus vínculos ancestrais de cunho antropológico, a categoria da tribus servia para designar um terceiro intermediário entre todo e parte, na
119 Cf. TITO-LÍVIO. Ab urbe condita. Op. cit., I-3, 36, 43, e IX-46. Ainda, DIONÍSIO DE
HALICARNASSO. Rhomaike Archaiologia.Op. cit. II, 7, 33, 65 e IV, 4 et seq.
120Para uma completa referência ao termo cúria, cf. CREUZER, Friedrich. Abriss der Römischen Antiquitäten.
69 medida em que a tribo, a cidadania e a terra representavam a totalidade incindível do populus, que é, em última análise, o exército romano.
Se, em princípio, cada uma das etnias conservou certa medida de independência, o veio convectivo da totalidade do Estado veio a cristalizar o populus enquanto unidade abstrata das partes e do todo. Conquanto se possa apontar alguma hierarquização entre as tribos, impõe-se observar que, regra geral, a origem (origo) não foi utilizada como critério de organização social e política. O populus romano trilhou um caminho em que a unidade foi assumida como princípio reitor da organização social. As comunidades que, com o alargamento dos horizontes populacionais romanos, vieram a se agregar ao populus não foram tratadas como particularidades, mas, antes, como o próprio populus.
Mommsen121 relata-nos que, em um período posterior, uma outra
comunidade, sediada no monte Quirinal, jungiu-se à comunidade palatino-capitolina, sem que, contudo, essa junção viesse a representar uma fusão perfeita, uma vez que seus membros foram tratados como gentes minores, para os distinguir dos povos originais.
Essa tendência centralizadora e assimiladora do Estado, ao apontar o caminho para a totalidade, não permitiu que houvesse distinções, sob um prisma jurídico, entre as comunidades originárias e aquelas que, apenas posteriormente, vieram a integrar o populus. Deriva desse princípio a concepção geral de que uma comunidade não se pode
121 MOMMSEN, Teodoro. Compendio del Derecho Publico Romano. Buenos Aires: Editorial Albatroz, 1942. p.
70 formar por comunidades, mas apenas e tão-somente por pessoas, que prevaleceu até a decadência de Roma enquanto Estado livre122.
Cada cúria mantém uma organização religiosa, assim como a família permanece patrona do culto familiar aos manes;; é certo, porém, que o culto privado foi substituído por uma religião pública e geral, que mantém apenas sua organização arrimada nas cúrias. Cada tribo, contudo, exigiu a manutenção de um sacerdote máximo e, por isso, existiam em número de três. Cada pontífice não é, entretanto, tratado como líder de uma tribo, mas, em verdade, como pontífice de toda a comunidade.
No aspecto político, a cúria é despida de qualquer capacidade ou iniciativa, não se podendo falar sequer de uma equiparação a qualquer magistratura. O tribunus militum é o chefe dos exércitos de infantaria de todas as cúrias, ao passo que o tribunus celerum é o chefe dos regimentos de cavalaria detoda a comunidade. Cada cúria estabelece dez decúrias, ou uma centúria, para o serviço militar123 de infantaria, e uma decúria para o
serviço militar da cavalaria, de modo que cada tribo detém dez centúrias de soldados de infantaria e uma centúria de cavaleiros124. Na perspectiva da capacidade política impende,
outrossim, observar que as cúrias tampouco detém capacidade para celebrar acordos com outros povos, capacidade reservada à comunidade total. Nota-se, pois, que a cúria não se
122Id. Ibid.
1236REUHDLPSRUWkQFLDGRVHUYLoRPLOLWDUQD5RPDDQWLJD´Sin embargo, es de un valor inapreciable que un pueblo
que quiere cumplir grandes cosas deba recibir una educación militar. La guerra les enseñó el precio del órden, la paz el de la libertad;; y la juventud romana, educada en la rígida estructura de la obediencia, que comienza desde el techo paterno con la patria potestas, se hizo digna y capaz de mandar a su vezµIHERING, Rudolf von. El espíritu del derecho romano en las diversas fases de su desarrollo. Trad. Enrique Principe y Satores. Tomo I. Madrid: Casa Editorial Bailly- Bailliere, s. d. p. 304.
71 sobrepõe à totalidade romana, servindo como estratégia de divisão125 das gentes, que pauta
toda a vida política romana.
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