1 A Gênesis da Armada Imperial: projeto de uma organização política
1.1 A construção da Armada nos momentos de tensão
No dia 7 de setembro de 1822, retornando de uma inspeção ao porto de Santos, cavalgando através de uma colina, às margens do riacho do Ipiranga, soou o brado retumbante “independência ou morte”. A atitude do jovem príncipe o consagrou como o primeiro Imperador do Brasil independente politicamente de Portugal. Essa atitude de D. Pedro cortaria os laços em definitivo com Portugal e, de
8 Esse termo é oriundo do direito Romano em que os portugueses se apropriaram para fazer
diplomacia nos tratados de definições de fronteiras no período colonial. Posteriormente o mesmo princípio foi adotado pela diplomacia imperial brasileira na resolução de pendências fronteiriças até o início do século XX.
35 certa forma, mudaria, em alguns aspectos, a história/rumo da Armada Imperial brasileira e, consequentemente, das instituições políticas e sociais daquele período. Outra atitude do Imperador para declarar o Brasil independente “foi coroar a si mesmo no dia 10 de outubro daquele ano como D. Pedro I” (DIDIONE, 2012, p.48).
A Armada foi alçada ao status, a partir daquele momento, em Marinha
imperial Nacional brasileira. Com isso, fazendo parte importante do aparato político e
administrativo do país recém-independente. Dias antes o próprio Imperador tomava conhecimento que Portugal estava em mobilização para evitar a emancipação do
Brasil. No ano seguinte à independência, foi convocada a reunião da quinta sessão
preparatória na sede da Côrte, o paço imperial conclama sua preocupação com os rumores vindos de algumas regiões do Império.
[…] Não estamos livres desses inimigos, quando poucos dias depois aportou outra expedição, que de Lisboa não era enviada para nos proteger: eu tomei sobre mim proteger este Império, e não a recebi. Pernambuco fez o mesmo, e a Bahia, que foi a primeira em aderir a Portugal, em prêmio da sua boa fé e de ter conhecido tarde qual era o verdadeiro trilho, que devia seguir, sofre hoje crua guerra dos vândalos, e sua cidade, só por eles ocupada, está a ponto de ser arrasada, como nela não se possão (sic) manter9.
As informações sobre as intenções dos lusitanos em manter as rédeas da nação chegavam a todo o momento, principalmente de Salvador, pois a situação daquela região era caótica. Com isso, manter as províncias sobre a autoridade imperial se tornava mais que uma obrigatoriedade, era uma missão árdua, pois não se tinha uma Armada forte e pronta para aquele momento. Em Salvador havia uma pequena unidade militar naval portuguesa capaz de combater a entrada na “Baía de todos os santos” da Esquadra vinda da Côrte. Destarte, era necessário, antes de qualquer coisa, que os portugueses tomassem a frente, que o governo imperial organizasse uma poderosa força que produzisse o efeito esperado naquele
momento, “era uma corrida contra o tempo”(BRIAN, 1971, p.8).
9 Sessão da Assembleia Legislativa e Constituinte de 3 de maio de 1823, p.38. A partir desse
36 No contexto da Armada, é oportuno destacar a atuação de dois personagens, de início, que foram importantes para o projeto de um novo nascedouro naval, Felisberto Caldeira Brant (Marquês de Barbacena) e o Ministro do Interior e dos Negócios Estrangeiros, o paulista José Bonifácio de Andrada e Silva, Patriarca da Independência. O trecho abaixo expõe quem eram esses homens e o que eles estavam pensando e fazendo sobre a questão da Armada:
[...]sem dúvida, os fundadores do Império eram homens de formação basicamente rural, como não podiam deixar de ser, mas a educação que muitos haviam recebido na Europa, principalmente na Inglaterra, deve ter influído preponderantemente na maneira desses homens abordarem determinados problemas nacionais. Eram eles contemporâneos da luta do poder marítimo britânico contra o poder continental da França e não poderiam ignorar ensinamentos providos de tal provação para o mundo. Talvez residisse aí a clara evidência com que previram a importância de uma Marinha para o Brasil. [...], o embaixador brasileiro em Londres, Caldeira Brant escrevia para D. Pedro I: “ persiste na opinião de depender a unidade nacional da existência de uma marinha eficaz.” José Bonifácio, por seu turno estava convicto da necessidade de criar uma Marinha de Guerra que seria instrumento capaz de dar remate à independência e de colocar o país a salvo de possíveis agressões” (CAMINHA,1975, p.282).
Essa breve citação ilustra as preocupações dos grupos dirigentes em construir uma Armada Nacional capaz de garantir a liberdade política do Brasil perante a Côrte Lusitana. Convém ressaltar que esse grupo expoente, encabeçado por Bonifácio, teve a rápida percepção que formar uma combatente Armada Imperial nacional constituía na melhor maneira de transportar suprimentos para as áreas de guerra e concentrar tropas leais ao Império no combate contra os portugueses. Cabe aqui ressaltar que Caldeira Brant, naquele momento, já estava na Inglaterra
negociando um plano de recrutamento de Marinheiros ingleses10.
Uma das principais medidas de José Bonifácio foi trazer do Chile o Lord Thomas Cochrane, a convite de Sua Alteza, oferecendo-lhe uma proposta teoricamente irrecusável, enviada por meio de uma nota a Antônio Correa da Câmara, o agente brasileiro em Buenos Aires, que dizia: “[...] não o deixarei servir
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com vantagens menores que aqueles que ele tinha tido no Chile”11. Em 4 de
novembro, a Câmara transmitiu uma mensagem de forma eficaz e persuasiva:
Vinde Milord […], a honra o convida, a glória o chama [...]Vinde, Hércules renascido, e com seus honrosos esforços ajudai a domar a Hydra de cem cabeças de um despotismo medonho. Vinde e tornai nossas almas navais com a ordem maravilhosa e a disciplina incomparável da poderosa Albion […]12.
Cochrane foi um oficial da Real Marinha britânica, de muito prestígio e muito
competente. Depois de ter travado batalhas com as forças napoleônicas, foi um oficial comandante de Fragata, que tinha como seu ponto forte a estratégia e boa desenvoltura nas batalhas navais. Porém, seu passado foi manchado pela corrupção nas fraudes das bolsas de valores em 1814, acarretando, assim, sua prisão e
demissão da Marinha Inglesa. Militar de temperamento explosivo e de muita
arrogância, ele foi destacado pela historiografia brasileira como “policial naval, mercenário, caçador de butim, entre outros termos correndo riscos, servindo e, ao mesmo tempo, disputando proventos materiais” (FREYRE, 2000, p.70). Porém, para Gilberto Freyre ele era definido como um aventureiro, no bom e no mau sentido da palavra.
Sua competência e habilidade o tornaram contundente, e, quando chegou à América, por convite da Marinha do Chile, combateu as forças espanholas em 1817 ajudando Chile e Peru em sua independência. Seu passado obscuro e a sua personalidade geniosa não importavam para as autoridades brasileiras, mas sim sua capacidade de combate nos mares. Ele aceitou o convite e veio para o Brasil se incorporar ao projeto político brasileiro deixando seu posto no Chile ainda em
novembro de 182213.
11 Jornal Correio da Câmara, 13 de setembro de 1822, Arquivo Diplomático da Independência, Vol. IV.
Por questão de espaço não discutiremos amplamente o assunto da contratação de oficiais e praças estrangeiros, mas fica registrado três personagens que foram essenciais para formação da nossa Armada, Felisberto Caldeira Brant Pontes, depois Marquês de Barbacena, como já foi citado, representante brasileiro na Europa, sua missão era a contratação, tanto oficiais como praças estrangeiros, para completar o vácuo existentes nos efetivos, Capitão de Mar e Guerra Luís da Cunha Moreira e Joaquim Raymundo Delamare, ver VALE, 1971, p.10-20.
12 Jornal Correio da Câmara - Cochrane, 4 de novembro de 1822, Annais do Itamaraty, Vol.2, 1937,
p.39.
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Para completar as lacunas existentes nas tripulações14 foram contratados
praças e oficiais estrangeiros, sobretudo aqueles outrora mais experientes da Marinha inglesa. Brant, naquele mesmo mês, em novembro, em seu despacho sugeriu que seria importante ter uma marinhagem de confiança para combater os portugueses. Desta forma, pediu para Cochrane que trouxesse do Chile todos os Marinheiros que haviam lutado com ele: “Só seu nome levaria o susto e terror aos nossos inimigos, escreveu ele: os Marinheiros britânicos converteria uma força
portuguesa em um leal e efetivo esquadrão”15.
Em 13 de março de 1823 chegam ao Brasil, a pedido de Cochrane, Marinheiros a bordo do brigue inglês Coronel Allen, vindo de Valparaíso, trazendo um grupo de oficiais ingleses que estava sob sua liderança. A vinda desses militares, justificadamente, dariam melhores condições ao seu comandante de receberem
ordens, sem a limitação da língua, que ocorria com os brasileiros, e em quem
Cochrane depositaria maior confiança. Assim, Freire relata que “no bloqueio ao
porto de Salvador, no comando da Nau Capitânia, exigiu que toda a tripulação estrangeira fosse transferida para essa embarcação, com a qual empreendeu o cerco à cidade” (FREIRE, 2014, p.29).
Na Inglaterra, a proposta de recrutamento deu certo. Mesmo de maneira secreta, o Vice-Cônsul em Londres, Antônio Meirelles Sobrinho junto com Caldeira Brant, conseguiram uma quantidade expressiva de militares para lutar a favor da causa do Império: em seis semanas tinham conseguido 265 marinheiros e 12 oficiais.
Dentre os oficiais contratados vieram, antes e depois de Cochrane, Thomas Crosbie, William Parker, John Taylor, James Norton, John Greenfell, James Shepard,
George Manson, William Eyre e mais algumas dezenas deles, inclusive oficiais da
14 Decisão de 25 de fevereiro de 1823, o governo imperial ordenava a admissão na Armada, como
marinheiros e grumetes, os escravos oferecidos pelos seus senhores, abonando-se a estes as competentes gratificações e, em julho do ano seguinte, mandava que o intendente de Marinha comprasse escravos que houvessem adquirido no exercício marítimo a necessária aptidão para servirem de grumetes no serviço dos navios de guerra. CAMINHA, Herick M. Op. Cit., p. 231 - 35. (ARIAS NETO)
15 Caldeira Brant e José Bonifácio, 4 de maio de 1822, Publicações do Arquivo Nacional Vol. VII,
1907, p. 24. Para entender como foi toda a articulação de como foi o recrutamento não só no quantitativo, mas também em todo processo de articulação política ver BRIAN, Vale. Estratégica, poder marítimo a criação da Marinha do Brasil, In: Navigator, 1971, p.6-21.
39 Marinha norte-americana. Muitos deles haviam lutado na guerra contra a França e posteriormente foram dispensados pela Real Coroa britânica. Também, muitos deles permaneceram no Brasil e se tornaram Almirantes na Armada Imperial. Alguns tiveram suas vidas ceifadas nos combates contra os portugueses, na Guerra da
Cisplatina (1825-28)16.
A questão não era somente incorporar oficiais para comandar aqueles precários, sucateados e defasados navios, mas também ter Marinheiros para aquele fim. Assim sendo, para internacionalizar e heterogeneizar mais ainda os vasos de guerra foram contratados praças lusitanas, conforme descrito por Vale:
[...]a Marinha brasileira herdou também de Portugal um corpo de marinheiros e de soldados da Artilharia da Marinha. Eram todos, infelizmente, portugueses de nascimento, e a falta de confiança neles era amplamente justificada pela sua ação na viagem de Delamare contra Bahia17. Não obstante, a Marinha precisava deles, e o governo esperava
que eles poderiam permanecer leais, se comandados por oficiais fiéis, e reforçados por um grupo de homens de confiança. Para manobrar os navios existentes, e também os novos navios em preparo, eram necessários 430 soldados e 1.700 marinheiros, dos quais 1.250 deveriam ser homens do mar bem adestrados. Os navios do Rio forneceram exatamente a metade deste número, isto é, 230 soldados e 900 marinheiros, dos quais somente 650 eram homens experimentados no mar e por isso, um rápido e bem sucedido recrutamento era uma necessidade vital (VALE, 1971, p.12).
A atitude de preencher as lacunas das tripulações com Marinheiros lusitanos se tornava um risco eminente, pois seriam portugueses combatendo portugueses, e isso causava certo desconforto e desconfiança entre as autoridades civis e militares.
As ações militares desencadeadas propiciavam as condições necessárias para defesa externa e o monopólio da violência. Além de preservarem a integridade
16 Foi um conflito armado entre as Províncias Unidas do Rio da Prata (futura Argentina) e o Império
do Brasil que disputavam a Província Cisplatina (futuro Uruguai), então parte do território brasileiro. Sua origem foi uma rebelião, nesta província, liderada pelo exército de Juan Antonio Lavalleja em 1825, apoiada pelas Províncias Unidas do Rio da Prata, que pretendiam anexá-la ao seu território. Referente a questão da atuação da Armada na Cisplatina ver: MARTINS, Hélio Leôncio. O corso...
Op. Cit. SOUZA, J. A. Soares de. O Brasil e o Prata até 1828. In: Holanda, Sérgio B. (Dir). História
geral da civilização brasileira: O Brasil monárquico. São Paulo: Bertand Brasil, 1993, t.2 v.1, p.300-28.
17 Diz respeito à insubordinação dos marinheiros portugueses sofrida pelo comandante Delamare na
guerra da independência. Ressalta-se que essa mesma armada lusitana também sofreu com a indisciplina militar, o que seria mais um elemento que concorreria para enfraquecer a sua as forças rebeldes. Ver SILVA, Marcelo Renato Siquara...Op. Cit, p. 124. Ofício encaminhado pelo capitão de mar e guerra Manoel de Vasconcelos Pereira de Melo ao Comandante das Armas Inácio Luiz Madeira de Melo. Bahia: 24 de maio de 1823. In: AMARAL, Braz Hermenegildo do. Op. Cit., p. 386- 388.
40 territorial, elas deram início ao fortalecimento da soberania nacional. Assim, para proeminente poder sobre terra era fundamental a manutenção e a obtenção do controle da imensa área marítima. A partir disso, através de uma campanha para
colher fundos recorrendo a comerciantes18 e de subscrição popular19, ocorreu a
formação da Armada Brasileira.
O evento precursor, que estreou o poder de fogo desta Força Naval, ocorreu na Guerra da Independência, marcada, principalmente, pela resistência nas regiões Sul, Nordeste e Norte. Para combater as ameaças à integridade territorial, em 10 de novembro de 1822, sob o comando do inglês e Almirante Thomaz Cochrane, o pavilhão nacional foi içado em navio de guerra brasileiro, na Nau Martim de Freitas, que era anteriormente o navio mais poderoso da Esquadra portuguesa e o primeiro capitânia, ponta de lança de futuras batalhas, com setenta e quatro canhões, e que veio para o Brasil com a família real, em 1807. Esta Nau, demonstrada na figura abaixo, fez parte da nascitura Esquadra Brasileira, que depois foi rebatizada de Pedro I.
18 Fazer empréstimos ao Império foi uma estratégia muito utilizada pelas elites coloniais para
conseguirem contratos lucrativos, títulos de nobreza, favores de toda ordem, cargos na burocracia e tudo aquilo que interessavam aos negociantes. Ver: SILVA, 2005 e FRAGOSO, 1992. As pessoas que não podiam contribuir em moeda corrente ofereciam escravos como marinheiros e, outros, ofertavam carne-seca, barris de vinagre ou de vinho, ou gado em pé (VALE, 1999, p. 104).
19 Devido às dificuldades financeiras em janeiro de 1823 foi lançada pela Marinha uma subscrição,
essas assinaturas obrigava aos oficiais portugueses lealdade a Côrte brasileira e a comprar mensalmente ações de 800 réis [...] pagáveis em 3 anos [...]Perto de junho de 1823 o fundo já tinha alcançado 300.000 réis” VALE, Brian. Estratégia, poder marítimo e a criação da Marinha do Brasil: 1822-23. In: Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil. Rio de janeiro, nº 4, dezembro de 1971, p.9-10. Para Juvenal Greenhlagh aconteceu a subscrição popular em setembro de 1822 propostas ao Secretário da Fazendo Martins Francisco Ribeiro de Andrade por Gonçalves Lêdo e Luiz Pereira de Andrade. Brasileiros de toda parte do país, acorrendo ao apelo que lhes foi feito apurado ou fizeram doações de todas espécie (GREENHALGH, 1965, p.5).
41 Figura 1- Navio capitânia da primeira Esquadra do Brasil independente
Navios da Marinha portuguesa que se encontravam no porto do Rio de Janeiro em mal estado de conservação e foram reparados pelo Arsenal de Marinha da Corte (Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro). Na Marinha Portuguesa era nomeada Martin de Freitas e fez parte da Esquadra que transportou a Família Real para o Brasil em 1808. Óleo sobre tela de Eduardo de Martino.
Fonte: DPHDM
Carvalho (1986, p.10) discorre brevemente como foi a estréia definitiva da Armada, isto é, parcialmente demonstrando como foi o combate na Bahia após o desmembramento com Portugal:
[...]quando da proclamação da Independência o principal foco de resistência à nova ordem concentrou-se na Bahia, onde o Governador das Armas, General Madeira de Melo, dispunha de consideráveis forças de terra e mar; contra esse poder levantaram-se os patriotas baianos. A reação, a princípio desarticulada e sem unidade aos poucos se organizou e alastrou-se por toda a Província. Dentro de alguns meses os portugueses estavam praticamente confinados a salvador e seus arredores; embora possuindo a superioridade no mar. A sorte da guerra dependia decisivamente do domínio da Baía de todos os santos e consequentemente controle do abastecimento e das comunicações entre as vilas [...] no dia 6 de dezembro era lançado ao mar o primeiro barco artilhado, denominado Pedro I. A flotilha foi aumentando ao longo da campanha, alcançando efetivo de quase 800 homens.20
20 Para saber como se desenvolveu toda estratégia referente ao cerco de Salvador pela Armada
42 A cidade de Salvador, estava sobre o poder do General Madeira de Melo e também estava sendo o ponto chave de toda situação. Sem dúvida, o Governo Imperial teria que organizar uma esquadrilha que pudesse combater a Força Naval portuguesa que lá estava e colocar as longínquas províncias acessíveis somente por mar, sob sua autoridade, e isso tudo antes que os portugueses pudessem enviar reforços consideráveis de além do mar. Ficava claro, na ótica de Monteiro (1982, p.550), que “a vitória na Bahia dependia do mar”.
Existia outro aspecto de grande relevância. Não se pode deixar de lembrar que o Brasil, na época com 7.680 quilômetros de costa e um continente de grande extensão territorial econômico-cultural, facilmente poderia perder parte de seus territórios para os movimentos separatistas que estavam acontecendo, conforme ocorreu com a América espanhola, fragmentar-se em várias unidades políticas, e sem dúvida, poderia causar a derrocada dos ideais de consolidação do Império. Pode-se sustentar a hipótese de que a guerra da independência, sustentada por uma Força Naval pequena, mas suficientemente corajosa, também foi considerada, verdadeiramente, como a guerra da unidade nacional. Como disse Carvalho de Moraes:
[...] durante a chamada Guerra de Independência, a Marinha tornou possível a ação do exército imperial em socorro aos patriotas locais e, o que talvez foi seu papel mais importante, demonstrou a essencialidade do país possuir um poder naval efetivo, assim como a estreita ligação entre a possibilidadede se possuir esse poder naval e a existência de um governo fortemente centralizado e bem organizado (MORAES, ano(?), p.5).
Os navios ajudavam o Exército nos transportes de materiais e suprimentos aos locais de combate, bem como transportavam os feridos de uma província para outra. Com os ataques constantes aos grupos insurgentes, as forças inimigas se enfraqueceram permitindo o avanço do Exército.
Com a ação na Bahia e a emancipação política do Brasil referente à Côrte, ficava clara a necessidade de reformular a Armada para garantir a independência
43 nacional e a centralização política. Convém lembrar que aquele ato no Ipiranga
significou de certa forma a criação de um Estado21.
Fazendo uma análise sobre a perspectiva dos diversos processos de
construção dos Estados Nacionais modernos, Charles Tilly (1996, p.78)22, muito
mais do que outras atividades, afirmou que “a guerra e a preparação da guerra
produziram os principais componentes dos Estados europeus”23 que, segundo o
autor, seriam “organizações que aplicam coerção, distintas das famílias e dos grupos de parentesco e que em alguns aspectos exercem prioridade manifesta sobre todas
as outras organizações dentro de extensos territórios”24.Portanto, a monopolização
das forças de violência, com o apoio da Armada Nacional Brasileira, tiveram como um dos motivos atuarem nas disputas pelo controle das províncias na questão de logística.
Desta forma, permitiu que, com toda esta estrutura, a manutenção de seus combatentes nas áreas de ação. Foi assim que se desenvolveu, pois o Estado Brasileiro, enquanto entidade política autônoma deu início às organizações e às construções do então nomeado Império do Brasil.
21 Conforme Norberto Bobbio o Estado só é Estado quando há “a máxima organização de um grupo
de indivíduos sobre um território em virtude de um poder de comando: civitas, que traduzia o grego
pólis" (Bobbio, 1987, p. 66). Nesse caso estamos nos referindo à territorialidade do Estado em que se
confrontam o território do soberano, isto é, do imperador ou monarca, com o território da nação em suas diversas manifestações, isso envolve governo e sociedade. É oportuno ressaltar, segundo Vale Brian no momento da formação do Estado brasileiro, a população em 1822 consistia de quatro milhões e meio de habitantes espalhados em uma estreita faixa ao longo de uma extensa costa que