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2 SINGULARIDADES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

2.2 Implicações da evasão escolar na Educação de Jovens e Adultos

2.2.1 A construção da Educação para jovens e adultos

A EJA parte do princípio de que a constituição de uma Educação Básica para jovens e adultos deve ser pautada na cidadania20. No entanto, a construção desse modelo de Educação

20 O conceito de cidadania constantemente se renova conforme as mudanças de paradigmas ideológicos

ocasionados pelas transformações sociais e os contextos históricos. Há tempos cidadania deixou de ser sinônimo de votar e ser votado e assumiu a luta não só pela participação na vida pública como também pela igualdade de oportunidades, direito à informação, saúde, Educação de qualidade etc. A Lei nº 13.632, de 6 de março de 2018, alterou o artigo 37 da LDBEN nº 9.394/96, conceituando a Educação de Jovens e Adultos como instrumento para a Educação e a aprendizagem ao longo da vida. O valor real da aprendizagem ao longo da vida, e em todas as esferas dela, é o protagonismo pessoal e social, permitindo que as pessoas se preparem para agir, refletir e

não se resolve garantindo apenas a viabilização de vagas, mas, sim, oferecendo-se um ensino de qualidade mediado por professores qualificados e capacitados a envolverem os estudantes, de modo que eles sejam conscientizados a refletir e a interferir sobre suas próprias realidades, estabelecendo a importância do sujeito histórico dentro da sociedade.

Embora se perpetue na EJA a ideia de Educação compensatória, ela tem como função a promoção da inclusão social, emancipatória e democrática de jovens e adultos na sociedade, que também proporcione qualificação para o mercado de trabalho, atribua aos estudantes o papel de sujeitos ativos, autônomos, críticos e criativos no processo de construção de conhecimentos, exercício de sua cidadania, conscientes de seus direitos e deveres. Entretanto, para que essas funções se efetivem, faz-se necessário que o educador conheça a diversidade cultural que abriga essa modalidade de ensino, a fim de saber quais são as vivências, demandas e expectativas de seus estudantes.

A escola também deve ser um local de trabalho, de ensino e de aprendizagem, propício à socialização e ao crescimento pessoal, de forma a permitir o desenvolvimento do senso crítico, a superação e o pensar. Para Vygotsky (1998),

É o grupo social que fornece o material (signos e instrumentos) que possibilita o desenvolvimento das atividades psicológicas. Isso significa que se deve analisar o reflexo do mundo exterior no mundo interior dos indivíduos a partir da interação destes com a realidade. Para que o indivíduo se constitua como pessoa, é fundamental que ele se insira num determinado ambiente cultural. As mudanças que ocorrem nele, ao longo de seu desenvolvimento, estão ligadas à interação dele com a cultura e a História da sociedade da qual faz parte. Por isso, o aprendizado envolve sempre a interação com outros indivíduos e a interferência direta ou indireta deles. (VYGOTSKY, 1998, p. 41).

Nesse aspecto a diversidade na EJA, marcada pelo próprio distanciamento etário, as questões de gênero, valores pessoais, culturais e outras particularidades diversas, contribuem para o aprendizado. A construção de novos conceitos significativos se dá também a partir da convivência com a diversidade sociocultural e tem como valores fundamentais a democracia e a igualdade; oportuniza aos sujeitos a participação livre, autônoma e consciente para com o meio (GADOTTI, 1995, p. 31).

A Educação é, sem dúvida, uma importante ferramenta de resgate da cidadania, pois nos torna menos desiguais. Educar jovens e adultos é incluí-los socialmente, é assegurar-lhes

responder adequadamente aos desafios sociais, políticos, econômicos, culturais e tecnológicas com os quais se deparam ao longo de suas vidas (MEDEL-AÑONUEVO et al., 2001). Dessa forma, a Educação de Jovens e Adultos entendida como sendo ao longo da vida pressupõe Educação para a transformação pessoal e social, ou seja, pautada na cidadania.

direitos, é devolver-lhes as oportunidades tolhidas. Nesse contexto, A EJA é um instrumento de mudança social, pois propicia a mudança pessoal, uma vez que pressupõe Educação ao longo da vida. De acordo com Freire (1993):

Aprender e ensinar fazem parte da existência humana, histórica e social, como dela fazem parte a criação, a invenção, a linguagem, o amor, o ódio, o espanto, o medo, o desejo, a atração pelo risco, a fé, a dúvida, a curiosidade, a arte, a magia, a ciência, a tecnologia. E ensinar e aprender cortando todas estas atividades […]. O ser humano jamais para de educar-se. (FREIRE, 1993, p. 19 e 21).

A construção de uma Educação para jovens e adultos alicerçada no exercício da cidadania oferece condição para a plena participação desses sujeitos na sociedade, mas, para tanto, exige compromisso da escola com o trabalho em equipe, com a inovação pedagógica, sensibilidade para com a diversidade humana daqueles estudantes, abertura ao diálogo e à convivência plural, requisitos fundamentais para a construção de um mundo em que a violência ceda lugar ao diálogo e à cultura de paz.

A Educação de adultos, nesse contexto, torna-se mais do que um direito: é a chave para o século XXI. É tanto consequência do exercício da cidadania como condição para uma plena participação na sociedade. É um poderoso conceito para a promoção do desenvolvimento ecológico sustentável, da democracia, da justiça, da equidade de gênero, do desenvolvimento socioeconômico e científico, além de ser um requisito fundamental para a construção de um mundo onde a violência cede lugar ao diálogo e à cultura de paz baseada na justiça. A aprendizagem de adultos pode modelar a identidade do cidadão e dar significado à sua vida. A aprendizagem ao longo da vida implica repensar um conteúdo que reflita certos fatores como idade, gênero, deficiências, idioma, cultura e disparidades econômicas. (DECLARAÇÃO DE HAMBURGO, 1997, p. 19).

Logo, a importância social da EJA não se restringe apenas ao domínio da escrita e da leitura, mas também à apropriação, por seus atores, de todos os bens simbólicos construídos pela humanidade, cujos limites e possibilidades também estão na participação cidadã na Educação.