CAPÍTULO 4 LAÇO TRANSFERENCIAL E CONTORNO INSTITUCIONAL: UMA
4.2 AS ESPECIFICIDADES DA TRANSFERÊNCIA NA ADOLESCÊNCIA E NA
4.2.2 A transferência e a enfermaria
4.2.2.3 A construção de um ponto de origem
José era um menino de 12 anos quando chegou para internação no SIAC, após um grave episódio de agressão à mãe. Fazia tratamento no CAPSi Monteiro Lobato38 desde os 6 anos de idade. Na sua chegada, o fato de ser tão novo já chamava a atenção dos profissionais daquele serviço. Não era comum, naquele tempo inicial de funcionamento da rede, crianças pequenas chegando para tratamento nos serviços de saúde mental. Em seus primeiros relatos, a mãe, Margarete, contava como, apesar de tão novo, José já havia sido impedido de continuar freqüentando duas escolas do município no qual residiam. Falava de sua agressividade, da impossibilidade de permanecer em grupo, sempre se colocando de maneira muito dispersa e sem interesse pelo que estava sendo trabalhado.
Margarete contava que, em casa, brincava sozinho, pois ela não autorizava seu contato com a vizinhança. Passava muito tempo brincando no quintal, em geral fazendo cruzes com todo o tipo de materiais, como barbantes, canudos, madeira, para, em seguida, fincá-las na grama. Determinado dia, a mãe descobriu que José também vinha enterrando brinquedos e bichos mortos na grama. Esse seu interesse por assuntos relacionados à morte causava estranhamento aos profissionais que dele tratavam. Gostava de filmes de terror, de histórias de zumbi, e freqüentemente fazia menção a sua própria morte. Indagava: “Quando eu morrer o mundo vai acabar? Depois de morrer vou virar morto-vivo?”. Essa fixação pelo tema da morte nos sugeria o quão mortificado ele se encontrava nessa relação dual e exclusiva com sua mãe.
José tinha uma irmã 4 anos mais velha que ele, com quem não tinha contato há muitos anos. Seu pai havia decidido, desde os 2 anos de idade da menina, que seria criada pela avó paterna, por considerar que Margarete não tinha condições psicológicas para se responsabilizar por uma criança. Desde então, Margarete mantivera contatos esporádicos com a filha e com o ex-marido. Em um desses encontros pontuais, engravidou de José. Quando o filho nasceu, ela decidiu se mudar sem comunicar ao pai da criança sobre seu paradeiro, pois temia que ele viesse lhe tirar também esse filho. Ela contou que sempre pensava: “esse filho será só meu”. Assim, José não teve contato com o pai até os 5 anos. Foi apenas por decisão judicial que o pai passou a ter direito a vê-lo, o que deixou Margarete muito alterada. Por indicação da escola, buscou tratamento para seu filho. E revelou, nos primeiros contatos com
38 Localizado em Niterói, município do estado do Rio de Janeiro
o CAPSi, sua esperança em conseguir um respaldo daquela instituição para provar como era uma mãe responsável e dedicada.
A intervenção que traremos, a seguir, aconteceu no contexto de sua primeira internação psiquiátrica, que levou um ano para ser viabilizada. A equipe do CAPSi, em especial o psiquiatra e a psicóloga que o acompanhavam, já haviam indicado a internação em função das constantes agressões físicas e verbais entre José e Margarete. Tratava-se de episódios nos quais ambos saíam fisicamente muito machucados. A mãe nunca aceitara a proposta da internação, apesar de ter recorrido algumas vezes à emergência do hospital, em situações em que não conseguira dar conta das tensões na relação com o filho. Ela relatava episódios em que ele a agredia no ônibus, por não querer acompanhá-la a determinado lugar, ou situações em que José pedira para desconhecidos na rua comprarem objetos que sua mãe não podia lhe dar.
A relação de dependência entre eles era de tal ordem que, até aquela idade de 12 anos, a mãe lhe dava banho, o alimentava, escovava seus dentes. O pai, apesar dos insistentes pedidos de José, continuava participando pouco da vida do filho, não apenas pelos obstáculos ainda impostos por Margarete, mas também pelas dificuldades que ele próprio demonstrava na condução de sua vida. Não trabalhava, passava os dias em casa, trancado no quarto. Era dependente financeiramente de sua mãe, que continuava cuidando da neta mais velha. Sua relação com Margarete era permeada por muita hostilidade, a ponto de não conseguirem estar juntos ou se cruzarem no espaço da enfermaria. Presenciamos episódios de discussão violenta, em que ambos se acusavam e se agrediam pela internação do filho.
Durante a internação, a presença da mãe era muito invasiva. Não aguentava ficar longe do filho e alegava que até aquele momento nunca tinha ficado um dia sequer longe dele.
“Estamos sempre juntos”. Pedia para dormir na mesma cama que o filho, entrava no banheiro quando ele ia tomar banho, e reagia muito mal as intervenções da equipe de enfermagem, que tentava incidir criando pequenas brechas entre eles. Aos poucos, e pela construção de um laço de confiança com Margarete, fomos conseguindo regular a sua presença na enfermaria, introduzindo escansões temporais, momentos em que estimulávamos que ela pudesse se ausentar do hospital e cuidar de seus afazeres domésticos, de suas consultas médicas. Ela dizia estar negligenciando esses compromissos em função da internação do filho, o que também alegava como impeditivo para manter José internado. A posição firme do psiquiatra, que tomou pra si a responsabilidade em relação à definição do momento da alta hospitalar, teve como efeito que ela pudesse se submeter sem tantas querelas à condução do trabalho.
Por insistência de José, e depois de reiterados convites, o pai começou a se aproximar mais do trabalho que vínhamos conduzindo com seu filho na enfermaria. Determinado dia, durante um dos atendimentos com José, lhe falamos que havíamos marcado uma entrevista com seu pai, e que naquele dia ele viria nos falar da história de quando ele, José, era pequeno.
Ao que o menino perguntou: “Será que posso participar dessa conversa? Eu também não conheço a minha história. Quero saber um pouco de cada vez, porque deve ser muita coisa. Já estou com 12 anos. Ia ser bom começar pelo começo, primeiro pela história do meu nome”.
E assim fizemos. Ao final de cada entrevista com o pai, nós chamávamos José e ele ia perguntando sobre sua vida. Quanto à história do nome, seu pai lhe disse que só soubera de seu nascimento dias depois, porque sua mãe havia sumido da casa onde morava. Contou para o filho que também não pôde registrá-lo no cartório, pois a mãe já o havia feito, deixando de fora o nome da família paterna. Revelou como havia levado muitos anos tentando regularizar na Justiça as visitas e a inclusão de seu nome de família no registro do filho. Em outro desses encontros José lhe perguntou: “Como foi que você gostou da minha mãe duas vezes? Na primeira vez que você gostou dela nasceu a minha irmã e depois na segunda vez, fui eu”.
O pai ficava muito embaraçado em como responder às perguntas, mas, sempre pedindo nossa presença nas conversas, ia atrapalhadamente tentando construir junto com o filho um começo para a história de vida dele, mas também algum fio que entrelaçasse a relação dos dois.
Durante essa internação, outro momento foi muito marcante. Uma das atividades das quais José mais gostava de participar era a oficinas com a terapeuta ocupacional. Gostava de recortar e colar, de jogar bingo e de brincar de escola. José dizia que sua relação com as letras e com os números era apenas uma brincadeira porque não sabia nem ler nem escrever.
Durante um atendimento conosco, ele disse: “Estou com um problema. A Alice39 descobriu meu segredo”. Ao que respondemos, com cara de espanto: “É mesmo? Mas o que você estava precisando esconder?”.
Contou-nos que, já havia algum tempo, descobrira que sabia ler. Que conhecia as letras pela escola, e que, um dia, percebera que estava conseguindo juntar e virar palavras.
Perguntamos por que isso precisava ficar escondido. José nos respondeu que, toda vez que falava para a mãe que estava conseguindo ler, ela dizia que aquilo era bobagem, porque ele tinha saído da escola há alguns anos justamente porque não conseguia aprender a ler. E concluiu: “Acho que ela não quer que eu cresça. Ela pensa que ainda sou criança”.
39 A terapeuta ocupacional da equipe.
Daí em diante, e aproveitando o que aparecia nas conversas com o pai, José começou a se dedicar, nas oficinas com a terapeuta ocupacional, a escrever o que ele batizou de “O diário da minha vida”. Tivemos notícias de que, quando retomou seu tratamento no CAPSi, após a alta da internação, José deu continuidade a esse trabalho de escrita com sua psicóloga.
A forma como essa internação terminou também foi muito curiosa. Na véspera de sua alta, José acordou com uma imensa espinha na ponta do nariz. Ele ficou horrorizado com aquela “bola branca que ele não tinha como esconder”. Na última entrevista com a mãe, antes da alta, ela nos disse: “Essa internação foi muito importante para o meu filho. Acho que ele precisava de um espaço longe de mim para crescer. Você viu a espinha que apareceu no nariz dele? Aqui ele virou um adolescente!”.
Pudemos ver, no relato desse fragmento clínico, que não era apenas a maneira como a mãe de José se relacionava com a pessoa do pai dele o que colocava problemas. O que acontecia de mais grave era a falta de lugar que dava à palavra dele enquanto autoridade paterna. O fato de não dar nenhuma importância ao lugar que o Nome- do- Pai poderia ocupar e à função que podia exercer se revelou quando lhe escondeu o filho, quando impediu o pai de lhe dar seu nome de família, excluindo o filho da linhagem paterna.
O que se destacou, nesse breve período em que acompanhamos José, foi como, a partir da palavra do pai, o paciente pode começar a construir a história de sua vida.Uma história que ele dizia desconhecer, talvez porque, para existir de fato, ela dependesse de uma fala endereçada a alguns que puderam escutá-lo. A partir da retomada dos elementos de sua origem, que lhe foram transmitidos agora com a marca da linhagem paterna, José passou a experimentar algum enlaçamento entre eles. Ao experimentar a função que seu pai podia representar, colocando algum limite entre ele e a mãe, José começou a pedir para passar mais tempo com seu pai. Propôs alternar seus finais de semana entre a casa do pai e da mãe, convidou o para que o levasse no tratamento do Capsi, enfim, o convocou a estar mais presente em sua vida.
Lacan (1999 [1957-1958]) nos advertiu de que a violência aparece quando a palavra perde o valor. Na situação de José, esse fenômeno era marcante. A falta de uma intervenção paterna que pudesse intervir na relação mãe-filho, barrando-os nessa relação “sempre juntos”, era o que fomentava a violência física como a linguagem que se habituaram a usar para se relacionar.