2 O CASO DA AGENDA 1 PARANÁ E SUAS ESTRATÉGIAS DE
3.3 A MOBILIZAÇÃO SOCIAL
3.3.2 A construção do bem público
Para a consolidação da democracia justa e a busca pelo que Toro e Werneck (1997) chamam de "objetivo comum", a mobilização social e a participação dos cidadãos são imprescindíveis. A participação, na visão dos autores, constitui meta e meio no processo de mobilização social, sendo que "ela cresce em abrangência e
profundidade ao longo do processo, o que faz dessas duas qualidades (abrangência e profundidade) um resultado desejado e esperado" (TORO; WERNECK, 1997, p.26).
Para que os cidadãos atores consigam definir um interesse e se sintam aptos a participar, a comunicação se apresenta como um ponto decisivo. Henriques (2004), autor que tem sua base teórica em conceitos de Bernardo Toro, lembra que a comunicação é importante para a tarefa mobilizadora, pois faz "criar condições para a participação e manter os atores engajados em suas causas" (HENRIQUES, 2004, p.33). A comunicação também deve ser planejada para estimular a participação da comunidade, a fim de que o projeto tenha continuidade e gere mais frutos:
A comunicação para a mobilização social, tendo este caráter dialógico, tenderá também a ser libertadora, já que o sujeito não tenta invadir ou manipular o outro, reduzindo-o a mero objeto ou recipiente, mas tenta, com o outro, problematizar um conhecimento sobre uma realidade concreta, para melhor compreender esta realidade, explica-la e transformá-la (HENRIQUES, 2004, p.27).
De acordo com Toro e Werneck (1997, p.5): "Mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados". Sendo assim, é preciso ressaltar que a mobilização parte da premissa da escolha do indivíduo em querer participar, fato que ocorre à medida que o cidadão se vê como responsável e capaz de promover transformações com determinadas atitudes e ações.
Os autores ainda reforçam essa ideia ao explicar a questão da atitude, apontando que:
A formação de uma nova mentalidade na sociedade civil, que se perceba a si mesma como fonte criadora da ordem social, pressupõe compreender que os "males" da sociedade são o resultado da ordem social que nós mesmos criamos e que, por isso mesmo, podemos modificar (TORO; WERNECK, 1997, p.8).
Toro (2005) trabalha, ademais, com o princípio da construção social do público para que uma democracia funcione:
A construção social do público requer passar da linguagem provada à linguagem coletiva, dos bens provados aos coletivos, das perspectivas privadas ou corporativas às perspectivas de nação e coletivas. Requer desenvolver nos cidadãos formas democráticas de pense, sentir e agir, isto é o que se conhece como cultura democrática (TORO, 2005, p.29).
E tudo o que convém a todos pode ser considerado público, bem como "bens ou serviços destinados à satisfação das necessidades comuns e indispensáveis, que possibilitam a vida digna da população" (TORO, 2005, p.30), como serviços de saúde, educação, moradia, vigilância de ruas e outros. Quando uma parte da população não tem acesso a esses bens públicos, há desigualdades. Outra forma de entender o público é por meio da comunicação, que remete à ideia de inclusão e do que não é secreto e que chega ao conhecimento do povo. "Essa concepção comunicativa de público é hoje fundamental para criar governabilidade, legitimar o Estado e as instituições públicas. É o que se conhece como transparência pública." (p.31).
Na conceituação de elites feita por Toro (2005), elas são vitais na construção do público, pois são pessoas que, por suas atuações, podem modificar o jeito de pensar e agir de uma sociedade, tornam-se assim um referencial em determinados assuntos. Essa elite pode ser formada por intelectuais, comunicadores, políticos, artistas, administradores públicos, diretores e líderes das organizações da sociedade civil, empresários, líderes comunitários e líderes religiosos.
O público é construído nos espaços para deliberação, debate e acordo. Os lugares onde se tomam decisões. Nos espaços educativos e de produção do saber, nos meios de comunicação e nas industrias culturais. O público, entendido como o que convém a todos de forma igualitária e para sua dignidade, se constrói no Estado e em espaços não-estatais (TORO, 2005, p.34).
Esses espaços podem ser de deliberação, de debate e discussões em assembleias públicas e de bairro, inclusive em fóruns e congressos nacionais e internacionais. Além disso, podem-se citar ainda ramificações do poder público, sindicatos, associações profissionais e organismos internacionais.
Para a construção do bem público em uma determinada sociedade, é apresentado o conceito de produtividade, ou seja, "capacidade que uma sociedade tem de usar, racional e adequadamente, os seus recursos para gerar bens e serviços que permitam uma vida digna a todos" (TORO, 2005, p.36).
Há, conforme o autor, diversas formas de produtividade, como econômica, política, social, cultural e ambiental. Tendo em vista os objetivos deste trabalho, as que mais interessam são a política e a social.
Produtividade política é a capacidade que as pessoas e as organizações de uma sociedade têm para fazer convergir os interesses até o alcance de bens públicos e coletivos que colaborem para a dignidade humana. O papel fundamental da política é a coletivização de interesses, a construção de interesses coletivos tomando-se por base os interesses individuais múltiplos. São os interesses coletivos que permitem o avanço de uma sociedade (TORO, 2005, p.37).
O autor define a produtividade social como:
A capacidade que uma sociedade tem de definir e criar organizações e instituições que façam transações com facilidade para aumentar a participação dos cidadãos e a inter-relação entre as instituições. A força e a importância de uma instituição depende da sua capacidade para incentivar e conseguir um maior número de transações positivas (que favoreçam a dignidade (TORO, 2005, p.37).
Portanto, para a construção de uma sociedade que garanta a todos a dignidade, é imprescindível a participação do cidadão e que ele se compreenda como um ator capaz de modificar a sociedade em que vive. "No público, tornam-se possíveis a equidade e a participação" (TORO, 2005, p.41). O público se constrói tomando-se por base a sociedade civil e ultrapassa a noção de estatal, deixando a cargo dos cidadãos delimitar e definir o que é necessário para a dignidade de todos. Tendo presente a questão da construção do que é público, pode-se pensar na constituição de um fórum para buscar esse bem comum, considerando o fórum como um ambiente de debate e de construção coletiva.