3 Procedimentos Metodológicos
3.2 A construção do corpus
Com uma postura que se estrutura na semelhança e na diferença como formas de resistência a um sistema dominante e no resgate da identidade sem esquivar-se da modernidade urbana e dos problemas sociais, o cinema pernambucano é considerado uma iniciativa de êxito (FREITAS, 2005; GUERRA; PAIVA JÚNIOR, 2008).
Premiado nacional e internacionalmente, o cinema pernambucano faz parte da bagagem e do estímulo criativo propiciados por um ambiente cultural efervescente, ao qual se soma um bem-vindo incentivo financeiro. Por esse diferencial no cenário da produção de cinema nacional, as empresas produtoras de cinema no Recife foram escolhidas como objeto do estudo.
Para a escolha destas empresas foi utilizado o mapeamento realizado pelo grupo de Pesquisa Lócus de Investigação em Economia Criativa no ano de 2013, que evidenciou a existência de 54 empresas do setor no Estado. Após a análise do mapeamento existente, foram selecionadas três empresas localizadas na cidade do Recife.
Tomou-se como recorte analítico, as empresas que haviam sido formalizadas até o ano de 2011, ou seja, as registradas como pessoa jurídica há no mínimo cinco anos. A pesquisadora considerou importante entrevistar empreendedores que já estivessem formalizados, quando do surgimento da criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que aconteceu em 2011. Outro critério importante foi escolher produtoras que tivessem em seu portfolio de produtos, longas metragens produzidos nos últimos anos que tenham sido premiados nacional e/ou internacionalmente. Este recorte foi escolhido para facilitar o entendimento das transformações ocorridas, nos empreendimentos da área cinematográfica no Recife, a partir dos investimentos trazidos pelo fundo setorial do audiovisual.
O Quadro 2 indica as instituições que participaram desta pesquisa e os respectivos sujeitos que foram entrevistados.
Quadro 2: Entrevistas realizadas: relação de instituições e representantes.
Cod. Instituição Entrevistado Data da entrevista E1 REC Produções João Júnior 15.06.2015
E2 Plano 9 Manu Costa 15.06.2015
3.2.1 A REC Produções
A REC tem se dedicado à produção audiovisual desde 1998. Ficou conhecida com filmes como: “Cinema, Aspirinas e Urubus”, dirigido por Marcelo Gomes, selecionado para a Mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes 2005, onde recebeu o Prêmio do Ministério da Educação da França e mais de 50 prêmios no mundo.
Lançou “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, na Mostra Orizonti do Festival de Veneza/2009; “KFZ-1348”, documentário de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso (Prêmio Especial do Júri na Mostra Internacional de S. Paulo/2008); “Era uma vez eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, lançado no Toronto International Film Festival/2012; “Tatuagem”, de Hilton Lacerda (Prêmio de Melhor Filme do Júri Oficial e da Crítica no Festival de Gramado/2013); e, “O Homem das Multidões”, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, selecionado para a Mostra Panorama do Festival de Berlim e Grand Prix do Festival de Toulouse em 2014.
A referida produtora coproduziu “Baixio das Bestas” (International Film Festival Rotterdam) de Claudio Assis; “O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas” (Festival Internacional Del Nuevo Cine Latinoamericano de La Habana) de Paulo Caldas e Marcelo Luna; e “Boa Sorte, Meu Amor” (Festival de Locarno) de Daniel Aragão.
Em 2015, a produtora se dedica à pré-produção dos filmes de longa metragem “Joaquim”,de Marcelo Gomes e “Amores Líquidos”, de Jorane Castro (em coprodução com a Cabocla Filmes de Belém/PA); o documentário “O Nado de Joanna”, de Lucas Fitipaldi e a série de TV “Conto que Vejo”, de Hilton Lacerda.
O objetivo da REC é atrair projetos de produtoras nacionais ou internacionais para filmar no Nordeste do Brasil. A experiência da produtora em projetos de baixo orçamento e sua atestada contribuição com a formação de profissionais que agora tem constante atuação no mercado confirmam a vocação da empresa para possíveis coproduções e resulta em oportunidade de fazer novos negócios.
A meta da produtora é também realizar um projeto por ano em regime de coprodução, como os já realizados “Olhos Azuis” (longa de José Joffily) e “Doce Brasil Holandês” (documentário para TV de Mônica Schmidt) e o projeto programado para ser realizado no próximo ano: “Fazenda Tentativa”, de Susana Sousa Dias e Ansgar Schaefer (coprodução com a produtora portuguesa Ukbar).
3.2.2 A Plano 9
A Plano 9 está no mercado há quase 10 anos no mercado produzindo e distribuindo longas-metragens, curtas-metragens e produtos para TV. Trabalha com diversos realizadores e diretores de Pernambuco, produziu obras que já alcançaram vários países e prêmios. Entre os mais recentes, destacam-se: Eles Voltam – (Longa, ficção, Dir.: Marcelo Lordello, em coprodução com a Trincheira Filmes); Amores de Chumbo (longa, ficção, Dir.: Tuca Siqueira, em desenvolvimento); Entrenós (Dir.: Pablo Polo, produção, Série de Documentários para TV, estreia em 2014); Turno da Noite (2011, Curta/Ficção. Dir.: Henrique Spencer); Ofélia (curta, ficção, 2011. Dir.: Mannu Costa); Avenida Brasília Formosa (2010, Longa, Dir.: Gabriel Mascaro); Casa de Botão (Série de Programas, Programa de TV, 2012).
A produtora atua ainda na área de treinamento em audiovisual, promovendo e participando de cursos, palestras e workshops. E tem entre seus clientes grandes empresas, dentre elas: Petrobras; Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária de Pernambuco; Ambev; Galo da Madrugada; Claro; Grupo Pão de Açúcar; Hebron; e, Cyrela.
3.2.3 A Desvia
A produtora Desvia tem se dedicado a produção autoral e independente para cinema, TV e outros meios com foco em projetos especiais que investigam linguagem (documentário,
ficção, projetos, híbridos, experimental, web e fotografia), além de coproduções nacionais e internacionais. Também atua na promoção do intercâmbio entre indivíduos e grupos das áreas de audiovisual, artes e educação; e de projetos de arte-educação que usam imagem e som como ferramentas no processo de transformação social.
Produziu o documentário “Um lugar ao sol” em 2009. No ano seguinte participou do projeto sociocultural “Espelho d’água” e do Machinima “As aventuras de Paulo Bruscky”. Em 2012, o híbrido “A onda traz, o vento leva” e o documentário “Doméstica”. Dois anos depois produziu a ficção “Ventos de agosto” e coproduziu a ficção “Valeu boi!”.
3.2.4 As entrevistas com os sujeitos da pesquisa
O referencial teórico utilizado na pesquisa conduziu a escolha dos métodos de coleta e análise de dados. Primeiramente, foi realizado um levantamento de documentos com o intuito de obter informações sobre os conceitos de empreendedorismo cultural, indústria criativa e expertise, além de verificar o cenário do cinema em Pernambuco, com o intuito de melhor compreender o arcabouço teórico em que a pesquisa está inserida. O levantamento documental foi obtido por meio de sites da internet, publicações técnicas e textos científicos no período de fevereiro de 2014 e junho de 2015.
A segunda etapa da coleta de dados contou com a concentração nas entrevistas realizadas com as empresas participantes. A entrevista semiestruturada foi escolhida como instrumento de coleta de dados, por possibilitar a comparação posterior das respostas (DUARTE, 2005). Este tipo de entrevista foi selecionado pela compreensão da pesquisadora de que tal método possibilitaria aos sujeitos entrevistados expor melhor seus pontos de vista, uma vez que o planejamento ficou aberto a modificações pertinentes, além de permitir o surgimento de novas perspectivas para pesquisa (FLICK, 2009; GODOI et al, 2006).
A partir da vasta abrangência do empreendedorismo na indústria criativa e a expertise dos produtores da indústria cinematográfica de Pernambuco, buscou-se, por meio das
questões descritas no protocolo exposto no Apêndice A, responder a questão de pesquisa aqui proposta: Como ocorre a expertise em meio à ação empreendedora de dirigentes de empresas da indústria cinematográfica domiciliadas na cidade do Recife?