1.2 O D ISCURSO F UNDADOR DO IPHAN
1.2.2 A CONSTRUÇÃO DO D ISCURSO F UNDADOR DO IPHAN
O discurso nada mais é do que o reflexo de uma verdade que está sempre a nascer diante dos seus olhos; e por fim, quando tudo pode tomar a forma do discurso, quando tudo se pode dizer e o discurso se pode dizer a propósito de tudo, é porque todas as coisas que manifestaram e ofereceram o seu sentido podem reentrar na interioridade silenciosa da consciência de si. (FOUCAULT, 2008, p, 49)
O que caracteriza um discurso fundador é que ele é reafirmado naqueles que vêm depois dele; nasce de um sentido anterior a ele mesmo, de uma manifestação do já estabelecido. Ele se constrói num campo de disputas e interesses, reflexo de sentidos reproduzidos que, ao se consolidarem, o legitimam. Assim também nasce o discurso fundador do IPHAN, anterior à própria criação da instituição.
A participação dos intelectuais, como vimos anteriormente, deu credibilidade e prestígio à criação da instituição do patrimônio e alguns desses intelectuais estiveram envolvidos no Movimento Modernista de 1922, que teve Mário de Andrade - idealizador e redator do Anteprojeto de criação do Sphan em 1936 - como um de seus principais líderes. A Semana de Arte Moderna foi uma ebulição de novas idéias em busca do nacionalismo, de uma identidade própria e do resgate de uma cultura que espelhasse as manifestações do povo brasileiro, em contraponto aos padrões até então adotados, oriundos da cultura européia.
A ligação do IPHAN com o Movimento Modernista é comumente ressaltada por diversos autores numa afirmação de que ambos buscavam a valorização de uma cultura brasileira e de uma identidade nacional, como observam Giovanaz e Motta:
No Brasil, embora as primeiras preocupações com a identidade nacional datem do século XIX, é a partir dos anos 20 e 30 deste século que estas assumem a forma de discursos oficiais sobre o chamado
„patrimônio histórico nacional‟. O movimento modernista tem papel importante nesse processo. (GIOVANAZ, 1979, p. 210, grifos nossos)
O Patrimônio teve sua criação ligada aos desdobramentos do Movimento Modernista, que foi um momento de grande reflexão, revisão de conceitos de cultura e tomada de posição frente aos problemas culturais do país. (MOTTA, 1987, p. 108, grifo nosso)
Celso Monteiro Furtado, Ministro da Cultura no Governo do Presidente José Sarney, no período de 1986 a 1988, será mais incisivo e desafiador ao afirmar que o movimento de 22
[...] foi um grito de alerta para a necessidade de afirmação de nossa identidade nacional. [...] E se fez mais lúcida a consciência de que havíamos vivido de costas para nossa herança cultural.” [...]
Ao Sphan, surgido quinze anos depois de abertas as comportas da Semana de Arte Moderna, caberia elaborar o “Documento de Identidade da Nação Brasileira” [...] (FURTADO, 1987, p. 35, grifos nossos)
Reafirmamos, então, que os intelectuais tiveram papel importante tanto na Semana de Arte Moderna quanto na criação do órgão de proteção do patrimônio brasileiro. No campo das artes, eles se propuseram a romper com os valores estéticos pré-estabelecidos, buscando novas formas de expressão artística; e no campo do patrimônio, buscaram resgatar através da valorização do passado, os valores nacionais, em contraposição aos oriundos de uma cultura européia. Oliveira define a importância do papel dos intelectuais no regime do Estado Novo na consolidação dos valores nacionais ao dizer:
Os intelectuais do Estado Novo constroem uma ponte entre o Movimento Modernista e o regime. Com o modernismo de 1922 houve uma conversão de valores [...] Os valores nacionais agora estariam recebendo a devida atenção por parte do governo [...]
(OLIVEIRA, 2000, p. 70, grifo nosso)
A importância da criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e a preocupação que os intelectuais tinham com os danos ao patrimônio brasileiro podem ser vistos nos primeiros parágrafos da exposição de motivos (Anexo IV) apresentada pelo Ministro Gustavo Capanema ao Presidente Getúlio Vargas por ocasião da promulgação do Decreto-Lei nº 25, conforme trechos abaixo:
A proteção do patrimônio histórico e artístico nacional é assunto que de longa data vem preocupando os homens de cultura de nosso país.
Nada, pelo menos de orgânico e sistemático se havia feito, porém, até 1936, quando foi por V. Exa. criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Trabalhava-se aqui e ali, com pequenos recursos para evitar um ou outro desastre irreparável.
O grande acervo de preciosidades de valor histórico ou artístico ia-se perdendo, dispersando, arruinando, alterando. [...] (grifos nossos)
Destacamos na exposição de motivos a preocupação com a perda e a evasão do patrimônio brasileiro, um “acervo de preciosidades de valor histórico ou artístico”. realizar o tombamento geral dos monumentos e evitar a evasão das obras, objetos de arte e de história dignos das nossas tradições e do nosso apreço. [...]
Ninguém pode obscurecer a importância e oportunidade dessa iniciativa, amplíssima e abrangendo larga campanha que mobilizará os esforços e o patriotismo de estudiosos, historiadores e especialistas no sentido de salvaguardar o que pelo Brasil fora ainda possa restar merecedor de conhecimento, conservação e divulgação [...] (Diário da Noite de 19/05/1936 apud ANDRADE, 1987, p. 24, grifos nossos)
Não se trata de empreendimento inspirado em motivos sentimentais ou românticos. [...] O que o projeto governamental tem em vista é poupar à Nação o prejuízo irreparável do perecimento e da evasão do que há de mais precioso no seu patrimônio. Grande parte das obras de arte mais valiosas e dos bens de maior interesse histórico, de que a coletividade brasileira era depositária, tem desaparecido ou se arruinado irremediavelmente, em conseqüência da inércia dos poderes públicos e da ignorância, da condenará nossa desídia criminosa. (O Jornal de 30/10/1936 apud ANDRADE, 1987, p. 48, grifos nossos)
Na primeira matéria, destacamos a valorização da iniciativa de se criar um serviço de defesa do patrimônio cultural brasileiro que evitaria a evasão de seus objetos de arte. E ainda, “ninguém poderia obscurecer a importância” de tal iniciativa, que seria realizada com os “esforços e o patriotismo” de profissionais especialistas com o intuito de “salvaguardar” o patrimônio de seu povo. Não caberia, portanto, dúvidas quanto à criação de tal instituição, tamanha sua importância, que seria elevada mais ainda pela participação de especialistas.
Na segunda matéria, podemos perceber, a partir da construção negativa inicial, que esta se contrapõe a um discurso anterior, que destacava o projeto governamental como sendo sentimental ou romântico. Na matéria afirma-se que a iniciativa do governo, ao contrário, é um “empreendimento” que evitará um
“prejuízo irreparável” para a “coletividade brasileira”. E mais, caso tal iniciativa não seja colocada em prática, com suas “medidas enérgicas”, seremos condenados por tal “desídia criminosa” pelas gerações futuras e pelo “mundo civilizado”. Ao SPHAN caberia, então, não só salvar o patrimônio brasileiro, mas evitar um crime, fruto de negligência e ignorância. E dessa forma nos salvar das críticas internacionais.
Os discursos jornalísticos que destacamos apresentam uma preocupação com a
“perda” do patrimônio brasileiro e valorizam, portanto, a instituição que irá salvá-los e protegê-los. No entanto, esses discursos não são neutros, eles se alimentavam dos discursos em circulação, são, na verdade, paráfrases destes outros tantos discursos.
Neles podemos recuperar marcas que já se faziam presentes no Anteprojeto de criação do SPHAN (Anexo II), que inicia seu capítulo I propondo a criação de um órgão destinado a “organizar, conservar, defender e propagar o patrimônio artístico nacional” (grifo nosso). Marcas que por sua vez também aparecem na exposição de motivos de Capanema, quando este ressalta que “o grande acervo de preciosidades de valor histórico ou artístico ia-se perdendo, dispersando, arruinando, alterando”
(grifo nosso) pela inexistência desse órgão. Por fim, o Decreto Lei nº 25 de 30 de novembro de 1937 (Anexo III) veio regulamentar e criar esse órgão, visando
“organizar a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional”. Estas marcas se traduzem em um discurso nacionalista, de proteção e defesa do patrimônio da nação, e nas quais percebemos o discurso fundador da instituição.
Esse discurso nacionalista, ligado a uma construção de identidade nacional, por intermédio da valorização de uma cultura brasileira, se faz presente em todos os discursos aqui apresentados, ao mesmo tempo em que o percebemos na Semana de Arte Moderna. Nesse aspecto, o discurso nacionalista da Semana de 22 reaparece quinze anos depois, em 1937, reconstituído nos discursos de construção da instituição do patrimônio, que também tinha como discurso o desejo de uma afirmação nacionalista.