5 O PERCURSO METODOLÓGICO
5.2 O TRABALHO DE CAMPO
5.2.3 A Análise das informações
5.2.3.1 A construção do DSC
Lefèvre e Lefèvre (2003, p.46-57) sugerem uma série de passos a serem seguidos na construção dos DSC:
1. Análisar isoladamente cada questão em todas as entrevistas, copiando integralmente todas as respostas referentes a cada pergunta no Instrumento de Análise de Discurso 1 – IAD1.
2. Identificar e sublinhar as expressões-chave das idéias centrais e das ancoragens.
3. A partir das expressões-chave, identificar as idéias centrais e as ancoragens, separando-as.
4. Identificar e agrupar as idéias centrais e ancoragens de sentido igual, equivalente ou complementar.
5. Criar uma idéia central ou ancoragem-síntese que expresse as idéias centrais e ancoragens de cada agrupamento de sentido igual, equivalente ou complementar.
6. Construir um DSC para cada agrupamento identificado anteriormente. Essa seqüência de passos sugere um papel mais diretivo do entrevistador na entrevista, de forma a obter respostas claramente direcionadas para cada pergunta do roteiro de entrevista. Nas entrevistas que realizei elaborei uma guia com perguntas que procuravam esmiuçar os temas relacionados com a questão e com os objetivos do estudo.
Esse guia serviu como instrumento de orientação para mim e, no decorrer da entrevista, deixei-a em local próximo a mim, ao alcance dos olhos, para avaliar se as questões de interesse central no estudo eram abordadas pelo entrevistado e não para dirigir a entrevista. Minha postura foi de escuta atenta e estímulo ao relato espontâneo através da introdução de questões constantes da guia de entrevista e selecionadas de acordo com o desenrolar da fala do entrevistado. Estive atenta em todos os momentos para que o relato não se desviasse do curso e para, se isso acontecesse, redirecioná-lo, cuidando para que todos os temas do roteiro e todas as perguntas da guia de entrevista fossem contemplados sem que eu introduzisse inúmeros questionamentos diretos.
Esse posicionamento pessoal com relação às entrevistas teve pelo menos dois efeitos. Em primeiro lugar, possibilitou aos entrevistados sentirem-se mais à vontade para se aprofundar nos seus depoimentos, nas suas lembranças, nas suas vivências, na avaliação de suas vidas, o que resultou em relatos riquíssimos. Em
segundo lugar, os assuntos se sobrepunham, interpenetravam-se, seguindo o curso
do pensamento do entrevistado, cheio de idas e vindas na fala, resultando em um texto ‘desordenado’, que impediu a separação clara de trechos de cada entrevista de acordo com cada uma das questões da guia.
Em virtude disso, tive dificuldades em seguir os passos sugeridos por Lefèvre e Lefèvre (2003) para a construção dos discursos, passos que supõem a existência de uma resposta para cada pergunta feita pelo entrevistador. Inicialmente, fiz várias tentativas de segui-los, mas as dificuldades eram grandes e o resultado duvidoso. Dessa forma, segui um percurso que apresento a seguir e ofereço um exemplo da maneira como construí os DSC no anexo 6.
1. Leitura exaustiva das transcrições das discussões de grupo e de cada entrevista, o que implicou um ‘mergulho’ nos textos de forma a conhecê-los profundamente.
2. Identificação de temas e agrupamento das expressões-chave relativas a cada um deles em todas as entrevistas, uma a uma. Isto foi feito para conferir uma melhor ordenação aos relatos individuais.
3. Identificação de grandes temas presentes nos textos, considerando os propostos no roteiro de temas e os emergentes das discussões de grupo e das entrevistas.
4. Identificação e agrupamento das expressões-chave por tema. 5. Leitura exaustiva das expressões-chave reunidas em cada tema. 6. Identificação das idéias centrais em cada tema.
7. Identificação das idéias centrais de sentido igual, semelhante ou complementar e agrupamento delas sob uma idéia central-síntese com suas respectivas expressões-chave.
8. Elaboração do DSC.
9. Análise do conjunto de DSCs relativos a cada tema e agrupamentos dos iguais, semelhantes ou complementares.
10. Reelaboração dos DSCs de forma a obter um painel de discursos coletivos coerentes, consistentes e condizentes com a questão norteadora e com os objetivos do estudo.
Acredito que o percurso alternativo aqui delineado se adequou melhor à natureza dos dados que reuni, sem, contudo, ser infiel aos princípios que norteiam a proposta do discurso coletivo. Nele, optei por resgatar as idéias centrais por descrições indiretas ou mediatas, as quais revelam o tema do depoimento – sobre o que o sujeito fala ( LEFÈVRE, LEFÈVRE e TEIXEIRA, 2000, p.17).
Esse processo foi trabalhoso, exaustivo, apaixonante, com algumas dificuldades e nem sempre calmo. As dificuldades tiveram alguns motivos. Um deles foi meu encantamento pessoal com os relatos obtidos nas entrevistas e com as discussões de grupo, o que me levava a considerar todas as informações como essenciais. Um segundo motivo está relacionado diretamente com a leitura exaustiva que fiz dos encontros e entrevistas, tarefa que se iniciava já na escuta das gravações para transcrição e que me levou a conhecer profundamente cada relato, o que cada um tinha dito nas entrevistas, as colocações feitas nos encontros de grupo, as réplicas, as divergências, os posicionamentos pessoais, a maneira de falar de cada um. Dessa intimidade com os dados resultou a dificuldade de esquecer os indivíduos para pensar no coletivo, condição básica para a construção do DSC.
No que se refere à ancoragem de que falam Lefèvre e Lefèvre (2003), não a fiz no mesmo instrumento que utilizei para organizar progressivamente os discursos, mas também não a ignorei. Entendendo que ela se refere às articulações com o referencial teórico e com a literatura sugeridas pelos dados, fiz anotações no diário analítico e nelas descrevia também minhas impressões pessoais sobre o aspecto em foco.
A empatia que conseguimos estabelecer entre nós – entrevistados e eu – dificultou a tomada de distância necessária para a análise. Em certo momento, estava tão envolvida com o grupo, com as entrevistas, com os dados que chegava a acreditar que eles poderiam ser apresentados na íntegra, sem a mediação de uma análise teórico-filosófica. A riqueza dos dados me fez sentir desnecessária para interpretá-los, como se eles falassem por si sós.
Esse momento coincidiu com o término das entrevistas e, para superá-lo, não reli os dados por um curto período, até retomá-los para realizar a segunda entrevista com os homens. Esse afastamento me permitiu perceber pontos que anteriormente
não notara e que necessitavam ser retomados no segundo encontro. O resultado dos novos encontros demandou novas transcrições de fitas e gerou mais dados, exigindo novo aprofundamento na leitura dos mesmos e recomposição dos discursos.
Em certos momentos de grande imersão nos dados, solicitei a ajuda de alguns ‘olhares estranhos’, que certamente poderiam lê-los com um distanciamento maior do que o meu. Pessoas amigas ajudaram-me nessa tarefa e apontaram elementos que eu ainda não percebera.
Desde o início e durante o processo de análise dos dados, adotei um instrumento de registro sugerido por Castro (2000, p.484-85) e por ele denominado “diário analítico”. Castro (2000) relata o uso desse diário em suas pesquisas para registrar as inúmeras reflexões que a leitura completa e atenta de cada entrevista suscitava, anotando sistematicamente “todas as idéias, hipóteses, dúvidas e conjecturas que a leitura do material sugeria”.
Corbin (2004) fala do trabalho interpretativo feito na análise como uma interação entre o analista e os dados, de maneira que o resultado tem fundamento nos dados, mas incluem também elementos do pesquisador. Por essa razão, recomenda que o analista mantenha um diário para registro dos pensamentos que tem durante a análise dos dados e de suas reações a eles. Esses registros assemelham-se àqueles feitos no diário analítico proposto por Castro (2000).
Essa foi a maneira que encontrei de manter registradas as reflexões que fazia durante o processo de análise dos dados, no momento mesmo da leitura do material. A releitura freqüente dos registros possibilitava-me uma exploração progressivamente aprofundada dos dados, levando-me a repensar o que havia escrito, a analisar os relatos por outros ângulos, a aprofundar algumas reflexões, a descartar outras e, além de tudo isso, propiciou-me alguns bons insights. Percebo as anotações feitas neste diário como uma espécie de notas teóricas expandidas ou ampliadas, cujo conteúdo reflete os pensamentos que a leitura do material provocou, o que dá a elas uma característica não muito ordenada ou articulada. É, contudo, uma maneira rica de registrar os caminhos que o pensamento percorreu na análise
dos dados e que, no mais das vezes, não fica evidenciado no relatório final de um estudo. Apresento um exemplo de anotações do diário analítico no Anexo 7.