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3.3 – A CONSTRUÇÃO DO PROCESSO DE AVALIAÇÃO:

O objetivo da avaliação que compõe esta pesquisa é o de compreender as formas de apreensão dos saberes de prevenção das DST/Aids, por parte das mulheres que participaram das atividades educativas do Projeto Colmeia, de modo a subsidiar reformulações nas atividades desenvolvidas, sobretudo no que diz respeito ao modo como as mulheres apreendem o conteúdo relacionado à prevenção.

Para esta pesquisa, procuramos problematizar o resultado da avaliação do Projeto Colmeia, partindo do princípio que este é um tipo de produção de uma cultura relativa à aids, que envolve valores relativos à conduta social, de modo a perceber como o objeto da avaliação (no caso os saberes das mulheres relacionados à prevenção) produz novos sujeitos (mulheres com saberes sobre prevenção e que podem atuar no cuidado de si e dos outros, como agentes multiplicadoras destes saberes para maridos, filhos, vizinhos etc.).

Inicialmente, no primeiro semestre de 2001, foi preciso uma discussão entre a pesquisadora e a Equipe Técnica de Educação do Centro Corsini, sobre o Projeto Colmeia, de modo a perceber o quê e como eram desenvolvidas as atividades. Em seguida foram elaborados, por esta pesquisadora, o Projeto de Avaliação (contendo o referencial teórico da avaliação e os objetivos, descritos oportunamente) e os instrumentos de

coleta de dados que, ao serem submetidos à análise da Equipe Técnica, foram testados em um pequeno grupo de três mulheres. Ao aprová-los, a Equipe passou a agendar os grupos de discussões nas creches com as mulheres, públicos alvo da pesquisa.

A elaboração dos instrumentos de coleta de dados tomou como pressuposto a dificuldade, por parte das mulheres de baixa renda e escolaridade (que compõem o público alvo) em verbalizar temáticas que envolvem corpo, sexualidade e prevenção de DST/Aids – objetivos do Projeto Colmeia – e que não raro estão permeadas de culpa, vergonha e medo.

Desta forma, como instrumento de coleta de dados, elaboramos um roteiro com questões abertas e acompanhadas de desenhos, os quais continham imagens relacionadas com as temáticas desenvolvidas no Projeto Colmeia (situações de risco, de preconceito, de possíveis doenças oportunistas, formas de prevenção, solidariedade, cidadania, etc.), e que aqui interessa avaliar os saberes relacionados.

Assim, a escolha do conteúdo do desenho, ou seja a imagem associada a uma situação enunciada na questão a ser discutida, foi feita pela pesquisadora em função dos conteúdos trabalhados nos objetivos do Projeto Colmeia. Porém, o traço e o acabamento estético, assim como o estilo e os personagens, foram criação do desenhista59, jovem adolescente que, certamente deixou em sua criação aspectos relacionados com a maneira com a qual percebe o fenômeno da aids, criando assim um “texto”, uma leitura própria sobre a aids. Os personagens por ele criados são generalizantes, contudo sem criar estereótipos, mas as situações são específicas e é sobre estas que pretendemos obter a reflexão das mulheres.

Neste processo criativo das imagens especificamente, a pesquisadora não interferiu, por acreditar que outros olhares poderiam enriquecer e ampliar o processo. Assim, quando a situação envolvia sujeitos, normalmente o desenhista optava por figuras muito jovens, talvez como resultado de um processo de identificação próprio. Embora estas imagens pouco tenham de relação específica com as mulheres que compõem o público alvo, acreditamos que tal fato não prejudicou a pesquisa, visto que possibilitou o distanciamento muitas vezes necessário para que se possa discutir determinadas temáticas.

Por outro lado, a liberdade que o desenhista teve para abordar o assunto trouxe alguns problemas de ordem conceitual-técnica que não foram previstos nem percebidos por esta pesquisadora. Alguns exemplos podem ser citados como a inexistência de luvas e máscaras para o médico ou enfermeiro cuidar do paciente, ou um médico excessivamente paramentado para entregar resultado de exame. Se isto se constituiu em um problema, também pôde trazer a concepção de uma pessoa leiga na temática da aids, exacerbando aspectos que possam ser para ela significativo quando se fala de aids. Em outras palavras, o médico excessivamente paramentado pode ser um indicativo para este desenhista de que a aids é um fenômeno circunscrito à medicina altamente especializada tecnicamente; e, a ausência de luvas e máscaras, um desconhecimento dos cuidados que todo profissional, ao tocar o corpo de outra pessoa, deve tomar medidas de higiene para proteger a si e ao paciente. Porém, as situações descritas não mediam um conhecimento técnico, mas sim procuravam despertar saberes, mobilizar as emoções para o objetivo proposto.

Nesta pesquisa o público alvo – dado suas características de baixa renda e baixa escolaridade – tem dificuldade em racionalizar e verbalizar sobre o tema pretendido. Acreditamos que tal dificuldade pode ser minimizada se adotamos imagens como mote para a discussão sobre o

tema, já que as imagens se conectam diretamente com a emotividade e, desta forma, tendem a se impor sobre a racionalização que poderia inibir a discussão.

Ferrés (1998), ao discorrer sobre aspectos relativos à imagem, aponta também para as suas formas de atuação, qual seja a de mobilizar sentimentos e emoções, ao mesmo tempo em que ela possui um caráter socializador, ao incidir nas crenças e nos comportamentos. Desta forma, as imagens são reguladoras de conduta, veículos privilegiados para a implantação de modelos de vida. Além disso, as imagens, ao se conectarem com forças motoras tais como emoções, desejos, temores e paixões, oferecem implícita ou explicitamente, uma saída para a tensão que geram, uma proposta de solução do conflito:

“Quer dizer, se por um lado a imagem reflete ou ativa o conflito, por outro o concretiza e, a partir daí, o canaliza, dá-lhe um sentido, uma direção. Uma imagem que se conecta como o sentimento do temor, não apenas ativa este sentimento. Ao encarnar o medo, o define, o concretiza. Conseqüentemente, indica o que há que temer. Uma imagem que se conecta com o sentimento de admiração, não apenas excita este sentimento. Além do mais, dá-lhe um sentido, sugerindo o que é que há que admirar. Enfim, cada vez que a imagem tem conexão com uma realidade, está conferindo sentido a esta realidade.” (Ferrés, 1998:42).

A estratégia dos desenhos – tanto para sensibilizar como para gerar frases, por parte das entrevistadas – além de contemplar as dificuldades já citadas, também serviu para oportunizar a manifestação de saberes muitas vezes difíceis de serem enquadrados segundo a perspectiva de quem avalia, mas carentes de reconhecimento – necessário à avaliação e necessário às entrevistadas, que precisam se tornar sujeitos neste processo de enfrentamento da epidemia em todas as suas dimensões.

A aplicação desses instrumentos de coleta de dados se deu em três grupos agendados em creches da FEAC, onde nós nos apresentávamos e procurávamos explicitar o caráter daquela atividade de avaliação. Não pretendíamos quantificar o saber daquelas mulheres em relação ao apreendido no Projeto Colmeia, mas sim compreender o quê e como elas tinham apreendido: quais os temas mais lembrados e porquê; o quê era mais lembrado naquele tema; como elas associavam tais temas com seu cotidiano, com sua vida.

As questões eram enunciadas pela pesquisadora e as entrevistadas tinham a oportunidade de também desenhar ou escrever (em folhas sulfites) o que elas sentiam ou sabiam acerca do tema discutido. Se elas não quisessem ou não pudessem escrever (algumas não sabiam mesmo, ou tinham vergonha ou até mesmo estavam com crianças pequenas no colo) as auxiliares de pesquisa anotavam o que estas queriam dizer. Muito embora a participação não fosse obrigatória, o desejo de mostrar o que tinham aprendido – talvez como forma de recompensar o trabalho da Equipe do Colmeia – elas demonstravam grande interesse em participar e mostrar os seus saberes.

A estratégia das frases foi utilizada como forma de captar a expressividade humana. Berger & Luckmann (2002), ao discorrer sobre a linguagem e o conhecimento na vida cotidiana, enfatizam que a compreensão da realidade da vida cotidiana se faz através da linguagem, e: “Deste modo, a linguagem é capaz de se tornar o repositório objetivo de vastas acumulações de significados e experiências, que pode então preservar no e transmitir às gerações seguintes.” (Berger & Luckmann, 2002:57).

Sendo assim, acreditamos que a linguagem, como expressão primária da vida cotidiana, expressa também o conteúdo apreendido no Projeto Colmeia, desde que não haja critérios que encapsulem a linguagem em formalidades pré-determinadas. O que era solicitado na avaliação era

qualquer frase ou palavra que as mulheres lembrassem ou julgassem importante para aquele tema discutido. Desta forma, em algumas frases registradas ou faladas por elas, encontramos não “respostas”, mas perguntas, interpelações ou situações vivenciadas, mas que nos remetem ao jogo relacional no qual elas constroem o saber sobre a aids, sobre a própria experiência de vida.

Para a realização desta avaliação, foram contatadas vinte e uma mulheres/mães que participaram das atividades do Projeto Colmeia até o ano de 2001 e que se mostraram interessadas em participar do estudo de caso, realizado em três creches alvo do Projeto, após o final das suas atividades diárias. A aceitação foi quase unânime, sendo negada apenas por aquelas que não tinham disponibilidade de tempo. Participaram dez mulheres na primeira creche, três na segunda creche, e oito na terceira creche. Evidentemente os nomes verdadeiros das creches e das mulheres não serão aqui revelados, confirmando o que havíamos acordado com elas de não ser necessária a identificação, já que não estávamos avaliando-as, e sim ao Projeto.

Os grupos de discussão (com aplicação dos instrumentos), foram realizados entre outubro e novembro de 2001, com a participação desta pesquisadora e de duas auxiliares de pesquisa da Equipe Técnica do Centro Corsini.