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4. COMO SE ENSINA A SER PRINCESA

4.3. A construção dos corpos e da beleza feminina

Na cultura da mídia e do consumo, a identidade está diretamente relacionada ao corpo, ou seja, a aparência física, em muitos casos, determina a identidade dos sujeitos. As mídias e outros setores do mercado, como o da moda e da estética, lançam no mercado de consumo a melhor forma de se exibir socialmente. Isso faz com que homens e mulheres se sintam obrigados/as a se engajarem em práticas para se sentirem pertencentes ao grupo estereotipado que é comercializado. Já os/as que não se dedicam afinco a tais práticas, são taxados como descuidados/as e preguiçosos/as (MESQUITA; CASTILHO, 2011; SAPOZNIK et al, 2011).

A moda evidencia um determinado estereótipo de corpo que induz à domesticação dos indivíduos. O cuidado com o corpo deixa de ser um assunto individual e pessoal, passa a “[...] se inscrever como comportamento social, que regula normas de convívio. Corpos saudáveis, jovens e produtivos afastam da luz corpos que não se encaixam nos modelos divulgados” (KATZ, 2011, p. 21).

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Não se encaixar aos padrões, exige argumentos que justifiquem essa situação, por exemplo, ser gordo/a e assumir o cabelo crespo são situações que fogem à regra e, por isso, precisam de explicações. Novaes e Vilhena (2003) argumentam que, na cultura atual, um dos meios pelos quais os sujeitos se sentem pertencentes a grupos é por meio do corpo. O modelo de saúde atrelado ao de beleza possui base em um corpo esbelto, magro e saudável.

Os padrões corporais, difundidos pelas mídias, são visualizados e pensados pelos sujeitos como „normais‟, fazendo com que os próprios indivíduos se transformem em avaliadores que aprovam ou não o corpo dos/as colegas. “Os gordos são mantidos excluídos, feito párias sociais, pois já não participam das regras do jogo social” (NOVAES; VILHENA, 2003, p. 21).

No que se refere ao gênero feminino, as autoras apontam que a ideia de beleza está atrelada a de corpo magro. Para ser bela e aceita socialmente, basta ser magra e isso é simples, força de vontade e perseverança são as palavras- chave para essa conquista. Barbie ensina suas seguidoras por meio dos filmes, livretos, acessórios, materiais escolares, roupas e sapatos, uma fórmula simples de se sentir bela e dentro dos padrões.

Para as meninas, no período da infância, e para as mulheres, na fase adulta, o “cuidar do corpo” tornou-se uma busca frenética a um estereótipo de corpo idealizado pela sociedade, especialmente com a propagação nas mídias. Por isso vale qualquer estratégia para se atingir esse corpo, sem limites de idade.

Ser magra significa ser saudável, ser bem aceita socialmente e ser mais feminina. “Ser magra, nos dias atuais, é um adjetivo da beleza” (NOVAES; VILHENA, 2003, p. 30). A mulher que não se preocupa com cuidados da aparência é considerada menos feminina.

A propagação do modelo de beleza com relação ao corpo está em constante mudança. Katz (2011) ressalta que um dos princípios capitalistas é a não saciedade dos desejos. Isso é perceptível na mídia, na publicidade e na estética com lançamentos de produtos no mercado que provocam a busca constante pelo novo. O sujeito pode adquirir um produto ou fazer um tratamento estético, mas logo surgem outros tratamentos, outros produtos, para que a busca e o consumo se tornem constante.

[...] o corpo é, também, um capital simbólico, um capital econômico e um capital social. No entanto, é preciso ressaltar que esse corpo capital não é um corpo qualquer. É um corpo que deve ser sempre sexy, jovem, magro e em boa forma. Um corpo conquistado por meio de um enorme investimento financeiro, muito trabalho e uma boa dose de sacrifício (GOLLDENBERG, 2011, p. 59).

O corpo é o espetáculo. Ele deve ser mostrado, preservado, cuidado, estar em forma e estar na moda. Para tanto, esse corpo precisa ser conquistado por meio de exercícios, cirurgias estéticas e pela moda, cabe a cada um “cuidar” de seu corpo.

Vigarello (2006) salienta que no século XVI a beleza foi marcada pela divindade, a mulher era a mais bela criação, o ponto mais próximo da perfeição divina. Mas as relações de gênero que perpassavam esse período colocavam a mulher como objeto de satisfação do homem, que era considerado racional e forte.

Já no século XVII até o século XIX, outras partes do corpo da mulher foram valorizadas, como o busto, cintura e o rosto – que deveriam ser angelicais. O autor enfatiza que a partir do século XIX, quando as mulheres se viram livres dos espartilhos, desenvolveram-se os cosméticos, para os cuidados com a beleza e com o corpo, e técnicas de emagrecimento, que passou a ser o ideal de beleza almejado, visto que o corpo todo poderia ser evidenciado.

Com os avanços tecnológicos, o século XX marcou o desenvolvimento de uma profissão que objetivava o cuidado com a beleza. A profissão de esteticista assinalou a frenética busca pela perfeição da beleza (VIGARELLO, 2006). Salões de beleza, clínicas estéticas e lojas de cosméticos passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas.

Destacamos a busca de um corpo padrão diferente para cada período histórico citado acima. Cuidados com a pele e com o corpo são construções históricas, sociais e culturais, ou seja, historicamente, o modelo de beleza difundido no século XXI, não é o mesmo que os de períodos anteriores.

Vigarello (2006) aponta que, na contemporaneidade, as práticas de embelezamento começam cada vez mais cedo. Conforme o autor, no ano de 2001, nos Estados Unidos, mais de 40 milhões de pré-adolescentes e adolescentes fizeram uso de produtos de beleza.

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Como destacamos nos itens anteriores, o mercado de consumo infantil cresce constantemente e conta com grandes aliadas como a mídia, a publicidade endereçada ao público infantil e as personagens infantis, que ensinam qual o padrão corporal aceito socialmente, como a boneca Barbie. Objetivamos ao longo deste capítulo problematizar as relações de gênero e a construção da feminilidade da menina. Para tanto, destacamos o papel da mídia, do consumo e as representações dos corpos ao longo dos séculos na construção de gênero.

No capítulo seguinte, refletimos acerca da atuação docente sobre as construções das identidades de gênero e da feminilidade das meninas, frente aos artefatos culturais que contribuem com essa construção. Além de pensarmos como o currículo oculta e sinaliza determinadas concepções hegemônicas de ser homem e ser mulher.

5. GÊNERO, CONSUMO E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA