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O contexto exposto explicita que a Lei nº 10.639/03 e suas diretrizes curriculares são políticas educacionais de ação afirmativa voltadas para a população negra, que com avanços e limites possibilitaram uma inflexão na educação brasileira. A forma como a política vem sendo implementada aponta que a construção e o enraizamento de práticas pedagógicas voltadas para esta temática constituem um processo longo, que apresenta limites e lida com contradições. Dessa compreensão emergem a questão central da investigação: quais são as práticas pedagógicas escolares que estão sendo desenvolvidas para a institucionalização do ensino de história e cultura afro-brasileira no Brasil e como elas são construídas no cotidiano das relações da comunidade escolar? Conhecer essas práticas, identificar características comuns entre elas, discutir suas possibilidades de socialização é a que nos propomos.

No sentido de encontrar respostas para a questão formulamos como objetivo geral analisar as práticas pedagógicas escolares de valorização da identidade, da memória e da cultura negras desenvolvidas institucionalmente em duas escolas públicas brasileiras. E como objetivos específicos buscamos: 1) caracterizar as práticas pedagógicas de valorização da identidade, da memória e da cultura negras desenvolvidas institucionalmente em duas escolas públicas brasileiras; 2) compreender o envolvimento da comunidade escolar na construção e vivência das práticas desenvolvidas; 3) sistematizar os conceitos e/ou as ideias que sustentam o desenvolvimento das práticas, evidenciando aproximações e distanciamentos das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana; e 4) identificar elementos comuns apresentados na vivência dessas práticas que possam ser caracterizados como mecanismos de enraizamento e permanência dessas práticas.

Nas escolhas teórico-metodológicas nos orientamos por duas ideias: que o racismo antinegro, como ideologia e como prática de dominação social, é elemento estruturador das relações sociais, étnico-raciais e pedagógicas vivenciadas na sociedade brasileira (CUNHA JR., 2013) e que raça, como discute Munanga (2000), é uma construção social forjada nas tensas relações de dominação e poder entre brancos e negros, europeus e não-europeus.

Desse modo, biológica e cientificamente, as raças não existem (MUNANGA, 2000). A biologia cumpriu o papel de fornecer os elementos para que a ideia de raça fosse transformada no racismo científico do século XIX (SANTOS, 2002). Assim, como realidade biológica a única raça que existe é a raça humana, mas como realidade social e política, a ideia de raça continua operando como construção social de dominação e de exclusão (MUNANGA, 2000).

Todavia, utilizada inicialmente para justificar, cientificamente, a supremacia branca, a categoria raça foi assumida pelo movimento negro como instrumento estratégico na luta contra o racismo e as desigualdades raciais11.

A partir dessa perspectiva nos aproximamos dos Estudos Pós-Coloniais Latino Americanos como abordagem teórica-metodológica em diálogo com a Afrocentricidade como posição epistemológica, compreendendo-os como possibilidades de produção de um conhecimento de ruptura com a hegemonia do pensamento eurocêntrico.

Os Estudos Pós-Coloniais Latino Americanos, como abordagem teórica profundamente enraizada na dimensão do locus de enunciação do sujeito que fala, possui como questão central o desvelamento da articulação entre modernidade/colonialidade e suas implicações na organização da dominação eurocentrada. Como eixo de luta e ferramenta de análise aponta e quer transformar a matriz colonial presente em todos os países da América do Sul, que estruturou e mantém as relações de poder no Estado-Nação por meio da dupla forma de dominação colonialismo/colonialidade. Para esta abordagem, raça é uma construção mental inventada para hierarquizar as populações mundiais, segundo a gradação da sua cor e “naturalizar” o padrão mundial do poder capitalista eurocentrado e colonial/moderno (QUIJANO, 2005).

A Afrocentricidade é “um tipo de pensamento, prática e perspectiva que percebe os africanos como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses humanos” (ASANTE, 2009, p. 93). Para este pensamento, longe de ser um termo essencialista, o “africano” trata-se de um construto do conhecimento: ser africano é ser uma pessoa que participou dos 500 anos de resistência à dominação europeia (ASANTE, 2009), e como essa atuação dos africanos vem acontecendo na margem da experiência europeia, a Afrocentricidade é portanto uma questão de localização: trata-se do movimento de corrigir esse deslocamento e posicionar o africano no centro de sua história.

Buscando evidenciar as vozes, o pensamento e a produção da população negra, adotamos a etnografia como possibilidade metodológica adequada para o trato das práticas pedagógicas de valorização da identidade, da memória e da cultura negras, por sua capacidade de amplificar as vozes dos sujeitos outrora silenciados.

Abordamos a categoria práticas pedagógicas a partir da conceituação que Souza (2009) lhe atribui como uma ação social coletiva, realizada institucionalmente, com

11 Neste trabalho utilizamos o termo raça para identificações baseadas em características físicas e o termo etnia

intencionalidades explícitas e assumidas pelo conjunto da comunidade escolar. E direcionamos o olhar para as práticas pedagógicas enraizadas: aquelas que resultam de uma reflexão crítica do grupo, não são repetidas mecanicamente, possuem fundamento, uma finalidade construída, explicada e argumentada pelas pessoas que protagonizam o trabalho pedagógico na escola. Para analisar as práticas pedagógicas de valorização da identidade, da memória e da cultura negras, nos apoiamos no pensamento negro em educação e no pensamento do educador Paulo Freire, como pilares orientadores do olhar pedagógico.

O trabalho de campo foi realizado em duas escolas públicas municipais, nas cidades de Campinas – São Paulo e Salvador – Bahia, indicadas como instituições que possuem práticas pedagógicas de enraizamento intenso no trabalho com a educação para as relações étnico- raciais e o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. E para o tratamento, a produção e a análise dos dados adotamos a Análise de Conteúdo (AC), na perspectiva de Laurence Bardin (2011). Por meio da análise temática buscamos evidenciar os sentidos dos núcleos de sentido e significação das informações.

O texto foi organizado em cinco capítulos sucedidos pelas considerações finais. Nessa introdução procuramos contextualizar o objeto de estudo apresentando a gênese de nossa curiosidade epistemológica, por meio da construção da política nacional de educação para as relações étnico-raciais, como uma política curricular de afirmação da população negra no Brasil e os embates e desafios gerados nesse processo de construção.

No segundo capítulo realizamos uma discussão teórica a respeito dos processos de construção da identidade, da memória e da cultura da população negra no Brasil, objetivando ressaltar as especificidades das relações étnico-raciais que se desenvolveram na sociedade brasileira e suas repercussões no campo da educação e nas práticas educativas. Evidenciamos que os conceitos não podem ser tomados desarticuladamente ou dissociados do processo histórico que os produziu. A partir dessa compreensão e dos pilares orientadores do olhar pedagógico aprofundamos os usos e sentidos do termo prática pedagógica na produção acadêmica da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), visualizando um panorama nacional sobre o que é denominado de prática pedagógica durante a década 2003-2013.

No terceiro capítulo, abordamos os aportes teórico-metodológicos da pesquisa. Situamos os Estudos Pós-Coloniais Latino Americanos como as lentes que orientam a pesquisa, a partir de uma posição afrocentrada e destacando a relação da educação com a perspectiva da interculturalidade crítica; discutimos a utilização da etnografia em pesquisas sobre aspectos singulares da vida e da cultura do povo negro, bem como sua adequação para a

discussão de práticas do cotidiano escolar; apresentamos o universo, o campo e os sujeitos da pesquisa, tratando minunciosamente o contexto e detalhando os caminhos percorridos na vivência do trabalho de campo.

No quarto capítulo, apresentamos as escolas que compuseram o campo empírico da pesquisa, e as nuances específicas que caracterizam a prática pedagógica de cada uma delas, no trato da educação para as relações étnico-raciais e do ensino de História e Cultura Afro- Brasileira e Africana. Abordamos o bairro onde as escolas estão situadas, a representação da escola para as comunidades às quais pertencem, a infra estruturação de cada instituição e as formas pelas quais cada unidade escolar constrói e vivencia suas práticas pedagógicas.

No quinto capítulo, aprofundamos a análise e interpretação das práticas pedagógicas de valorização da identidade, da memória e da cultura negras, a partir da descrição dos contextos, dos conteúdos e das situações que permeiam a construção e a vivência das práticas pedagógicas. Num segundo momento, discutimos os conceitos e as ideias que orientam o desenvolvimento das práticas e suas aproximações e seus distanciamentos das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e africana. Finalmente, identificamos elementos que podem ser caracterizados como mecanismos de enraizamento e permanência dessas práticas pedagógicas no espaço escolar.

Ressaltamos que a substancial descrição sobre as regiões/estados/municípios/escolas e salas de aula cumpre o papel de evidenciar os cuidados na construção do dado etnográfico, na sua relação com os diversos contextos que o possibilitam e as conexões com a dimensão identitária das pessoas envolvidas na pesquisa, como sugere Oliveira (2013). Portanto, se configura como um imperativo da perspectiva metodológica para situar a compreensão e análise do objeto.

Nas considerações finais, tecemos reflexões acerca das possibilidades, dos limites e dos desafios vivenciados no processo de construção das práticas pedagógicas de valorização da identidade, da memória e da cultura negras. Evidenciamos, a despeito dos limites e desafios enfrentados, que existem experiências educativas ocorrendo nas escolas que apresentam práticas enraizadas no trato da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e podem ser tomadas como referências inspiradoras no processo de consolidação da política educacional de educação das relações étnico-raciais.

2 LUGARES DE RESISTÊNCIA DO POVO NEGRO E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS

A chuva lava a pele do leopardo, mas não remove as pintas. Provérbio africano (LOPES, 2005)

O capítulo delimita as bases teóricas utilizadas na pesquisa. A partir da compreensão dos lugares de resistência, por meio dos quais a população negra construiu e vivenciou seus sentidos de identidade, memória e cultura negras, discutimos os conceitos associados aos processos históricos que os produziu. Apresentamos o Pensamento Negro em Educação e o Pensamento de Paulo Freire como pilares orientadores do olhar pedagógico, apontando pontos de convergência entre ambos. Aprofundamos a discussão sobre prática pedagógica, categoria teórica central da pesquisa, a partir da contribuição de João Francisco de Souza (2009) e da produção da ANPEd no período entre 2003-2013. E por fim, abordamos a prática compreendida como ritual pedagógico.

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