São muitas as explicações teóricas que justificam a edificação do Welfare State. Resumidamente, as teorias podem ser agrupadas, de um lado, pela atribuição da principalidade à ordem econômica, e de outro, pela busca de fontes explicativas nos fatores políticos (ARRETCHE apud MARQUES, 1997). No grupo de teóricos, cuja principalidade reside na ordem econômica, existe alguns, tais como Harold Wilensky, Richard Tiimuss e Thomas H. Marshall, que compreendem a construção do Estado de Bem-Estar como fruto das mudanças causadas pela sociedade industrial. Logo, para eles o Welfare State constituí uma forma de manter a coesão e integração social que não mais recai sobre a família. Outro grupo de autores para os quais a ordem econômica é fundamental entendem que a criação do Estado de Bem-Estar seria uma “resposta às demandas de acumulação e legitimação do sistema capitalista” (MARQUES, Op. Cit, p. 23). Aqui encontram-se expoentes tais como James O’Connor e Claus Offe.
Por fim, as explicações teóricas que vem fatores políticos como os principais elementos responsáveis pelo desenvolvimento deste tipo de Estado consideram que o que ocorreu, na prática, foi uma ampliação progressiva de direitos, que, por sua vez,
resultaram de determinado acordo entre capital e trabalho, ou ainda determinada conjectura histórica, com suas estruturas e instituições.
Independentemente da teoria que mais adequadamente explique o surgimento o Estado de Bem-Estar, é certo que sua “... construção [...] também serviu como anteparo para impedir o recrudescimento das lutas sociais, nos países ocidentais, após o fim da II Guerra Mundial.” (MARQUES, Op. Cit, p.41) Esta observação é notoriamente importante no caso alemão, onde ao longo a primeira metade do século XX, viveu-se os dois extremos do espectro político, isto é, a República de Weimar e, em momento imediatamente posterior, o nazismo26.
Como se verá, o início do último século, na Alemanha, foi marcado pelo conflito de classes e/ou por sua repressão. A Revolução de 1919, logo no começo da República de Weimar, foi um exemplo do movimento popular se rebelando contra a dominação das classes burguesas e da aristocracia tradicional. O próprio estabelecimento da República pode ser visto como uma conquista das classes mais desfavorecidas. Ademais, é ainda nesse período que diversas das Politicas Públicas de Emprego, dentre as quais podemos mencionar o próprio seguro-desemprego e o serviço de intermediação, são estabelecidos. Do outro lado, a repressão aos movimentos populares, com a proibição das associações e sindicatos de trabalhadores no período nazista, demonstra a inversão de forças na luta entre as classes. O período nazista impôs muitas derrotas à classe trabalhadora, não somente no que se refere as condições trabalhista, mas também fundamentalmente em termos de condição humana.
Portanto, na Alemanha, em especial, existia uma motivação intrínseca para o estabelecimento de um Estado de Bem-Estar, a qual advinha do temor de ser possível o restabelecimento de uma situação tão extremada quanto a vivida no pré-guerra. Partindo do forte crescimento e da grande produção de riqueza existente na nação, desde princípios da década de 1950, o Estado pode organizar-se de maneira a estabelecer um círculo virtuoso entre capital e trabalho. Na medida em que a mão-de-obra era escassa,
26 Ambos regimes políticos e períodos históricos serão pormenorizados no capítulo 3. Alguns aspectos são
mas ao mesmo tempo queria forte estabilidade27 no emprego, o governo conseguiu estipular medidas que contivessem o aumento salarial, agindo em favor do capital, enquanto garantia os postos de trabalho e a assistência ao trabalhador por meio das Políticas Públicas de Emprego, atuando, portanto, em prol dos trabalhadores.
A estrutura das Políticas Públicas de Emprego, a qual é minuciosamente descrita para o período após a Reunificação e brevemente apresentada para o período em questão em seção posterior, foi edificada exatamente no período de milagre econômico, criando um mecanismo de retro-alimentação bastante positivo. O Estado criava as condições de investimento a longo-prazo para as entidades privadas, ao mesmo tempo em que garantia os postos de trabalho, conforme já foi explicado em seção anterior. As empresas, seguras do arcabouço institucional legal, aumentavam, assim, seu investimento no futuro, o que, por sua vez, produzia um número ainda maior de postos de trabalho.
Como se pode perceber, este mecanismo, que garantiu cerca de duas décadas de prosperidade à Alemanha e a sua população, só era possível pelo fato de que a economia encontrava-se muito próxima do ponto de pleno-emprego. Aliás, durante essas mesmas décadas, existiu mais postos do trabalho do que trabalhadores, o que justificava a política de importação dos mesmos, também já mencionada na seção anterior. Dito de outra forma, devido ao forte crescimento econômico, o Estado tinha como garantir uma boa proteção social para os trabalhadores, já que sua arrecadação encontrava-se aumentada; e também dado esse crescimento, os gastos estatais com a proteção social era relativamente reduzidos, uma vez que grande parte da população encontrava-se empregada e não precisava recorrer aos cofres públicos.
Dentro dessa lógica, Offe (1994) aponta para o fato de que, especialmente nas Economias desenvolvidas, da qual a Alemanha é o exemplo mais claro para o autor, o Estado apresentou nos períodos de 1950-1970 um compromisso formal com o Pleno- Emprego. Esse compromisso, no entanto, era facilmente sustentado pelas finanças públicas, não somente devido a magnitude da arrecadação, como também devido ao baixo nível de desemprego e a não existência de uma massa excedente de trabalhadores,
27 Com as duas guerras e a crise da década de 1930, a população alemã experimentou pelo menos 30 anos
ou para seguir a linguagem utilizada por Offe, a (quase) inexistência de um exército industrial de reserva. Esse mesmo compromisso arrefeceu continuamente a partir de meados da década de 1970, com os dois choques do petróleo, e mais intensamente nas décadas de 1980/90, momento em que as finanças públicas se tornaram incapazes de sustentar todos os gastos necessários para prover os benefícios estabelecidos pelo Welfare State.