2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.3. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE E AS CRIPTOMOEDAS
De acordo com Berger e Luckmann (1996), a sociedade resulta da construção social da realidade. O modo cotidiano pelo qual o homem define a sociedade e compreende as ações humanas, assim como interage com os outros, constrói o mundo social.
Quando se considera institucionalização como processo de criação de realidade, o argumento é que a ordem social se baseia em uma realidade social compartilhada que é construção humana, sendo gerada na interação social. O homem enfrenta poucos limites ou restrições na forma de padrões instintivos, embora as restrições se desenvolvam na forma de uma ordem social. Essa ordem é um produto humano ou uma produção humana em curso. A ordem social existe apenas como um produto da atividade humana e surge à medida que os indivíduos agem, interpretam essa ação e compartilham com os outros suas interpretações (BERGER; LUCKMANN, 1996).
As ações institucionalizadas abrangem papéis que atuam no processo de controle da institucionalização. Os papéis configuram a ordem institucional, que se efetua como a realização do papel representando a si mesma assim como os papéis caracterizando a necessidade institucional de conduta. Suas origens vinculam-se aos processos de formação dos hábitos e da objetivação, sendo que as condutas institucionalizadas envolvem papéis que participam do caráter controlador da institucionalização, representando a ordem institucional (BERGER; LUCKMANN, 1996).
Para Berger e Luckmann (1996), quanto mais intenso o compartilhamento das estruturas tidas como significativas em uma sociedade, mais abrangente será a esfera da institucionalização. Quando menor o âmbito da institucionalização, esta tenderá a ser estreita e fragmentada.
Scott (2001) explana que a pressão para a institucionalização pode ser diferente de acordo com o tamanho da organização. A existência de uma autoridade supervisora em sua área de competência pode contribuir para a institucionalização mais rápida de determinadas condutas. Além disso, aspectos como regulamentação do ramo de atividade, diferenças de tempo e de espaço entre as organizações, força das crenças cognitivas e controles normativos,
e quantidade ou qualidade das ligações com outros atores de ambientes diversos, podem influenciar a pressão para a institucionalização, que pode variar.
Segundo Scott (2001), a base da legitimação institucional pode ser compreendida com base em três pilares: o regulativo, o normativo e o cognitivo. Os diferentes pilares devem ser entendidos como alternativas analíticas, abrangendo diferentes facetas de um determinado fenômeno. A separação em pilares não deve ser reificada, de modo a se rejeitar sua interdependência e complementaridade.
O pilar regulativo caracteriza-se pela ênfase na elaboração de normas, sanções e coerções, sendo que a lógica da instrumentalidade contribui para sua fixação e legitimidade (SCOTT, 2001). Observa-se que o pilar regulativo apresenta tendência no sentido de gerar maior mimetismo entre organizações que procuram soluções para contextos específicos. Verifica-se ainda que o mimetismo normalmente é resultado de pressões normativas fortes (ANG; BENISCHKE; DOH, 2015).
O pilar normativo é refletido na forma como as estruturas assumidas pelas organizações são derivadas da pressão exercida pelas normas e valores. Os valores representam concepções do desejado e as normas especificam como devem ser realizadas as tarefas. Nesse sentido, os elementos normativos abrangem representações coletivas da realidade (SCOTT, 2001).
O pilar cognitivo enfatiza representações internas e do ambiente, sendo que a escolha dos atores é limitada pelos modos como o conhecimento é construído (SCOTT, 2001). Esse pilar propõe que sejam valorizadas também as interpretações subjetivas das ações, somando as representações que os indivíduos fazem de seus ambientes configuradores de suas ações.
Considera-se que os elementos institucionais do tipo cognitivos são menos suscetíveis à contestação visto que constituem os mapas cognitivos de lideranças, resultando em limitação do conjunto de soluções tidas como possíveis (ANG; BENISCHKE; DOH, 2015).
A figura 03 ilustra como o processo de institucionalização ocorre, iniciando-se com uma inovação, seguida da habitualização e objetivação, terminando com a sedimentação.
Figura 03: Processo de Institucionalização.
Fonte: Adaptado de TOLBERT; ZUCKER, 2007.
A necessidade de inovação pode decorrer de alterações de cunho tecnológico, legal e por força do mercado, levando o sistema vigente a um estado de crise, inicializando um processo de institucionalização.
A habitualização pode ser conceituada como a definição de padrões de comportamento para o tratamento dos problemas em questão. Criam-se estruturas independentes. Ações repetidas configuram-se como um parâmetro que será aceito pelos que vierem posteriormente. Os padrões de atuação podem ser adotados por outras organizações, gerando um isomorfismo mimético (TOLBERT; ZUCKER, 2007).
Verifica-se que as organizações estão mais homogêneas e menos orientadas para a concorrência e a necessidade de eficiência (DIMAGGIO e POWELL, 2005). Ou seja, organizações não se estruturam apenas em busca de eficiência em suas operações, mas também devido a aspectos simbólicos. Em busca de legitimidade, adotam linhas de ação outrora delineadas e racionalizadas na sociedade, mantendo considerável similitude entre si.
Selznick (1996) defende que o mimetismo pode ocorrer como um reflexo a situações marcadas por significativo grau de incerteza, nas quais frequentemente o objetivo central é sobreviver, e não resolver o problema de forma perdurável. A homogeneidade desenvolve-se com a repetição e transferência do conhecimento acerca da realização de determinadas ações para outros indivíduos ou organizações, fazendo com que essas ações se tornem hábitos.
Com a objetivação ou reificação, as ações começam a ter significados compartilhados pela sociedade. Quanto maior a disseminação da estrutura, maior é o entendimento desta como
uma escolha ótima, em razão de um suposto menor grau de incerteza. Destaca-se que a transformação dos pensamentos pela linguagem e comportamento dentro de parâmetros sociais e sua institucionalização nas artes, nas normas e nos hábitos.
Os grupos de interesses são os mantenedores da estrutura, que divulgam fracassos e insatisfações de certas organizações e fazem um diagnóstico, fornecendo uma solução ou tratamento para o problema em questão. As evidências podem ser obtidas de diversas fontes, incluindo noticiários e observações diretas.
A transmissão das tipificações a novos indivíduos ocorre na fase de sedimentação. Os atores envolvidos, não tendo conhecimento da origem das tipificações, tratam-nas como dados sociais, propiciando a perpetuação delas ao longo do tempo (TOLBERT; ZUCKER, 2007).
Considera-se que o processo se finaliza com a constituição de uma nova instituição, que só se extinguirá caso grupos tomadores de decisão forem impactados de forma negativa pela ausência recorrente de resultados decorrentes de sua adoção. Com o alcance de um grau de institucionalização total, a propensão dos atores para realizar avaliações independentes significativas da estrutura será reduzida.
Tolbert e Zucker (2007) argumentam que a institucionalização muitas vezes é tratada como um estado qualitativo, sendo as práticas organizacionais consideradas como institucionalizadas ou não. Ao se adotar esta tratativa, desconsidera-se a percepção de variações dos níveis de institucionalização, assim como o fato dessas variações poderem influenciar o grau de similaridade entre organizações.
Lawrence, Winn e Jennings (2001) apresentam um padrão dos eventos do processo de institucionalização, na qual podem ser observadas as fases: fase inicial de inovação envolvendo poucos atores; fase de rápida difusão; fase de saturação e legitimação completa; e fase de desinstitucionalização, como mostra o gráfico 04 a seguir.
Gráfico 04: Curva de Institucionalização.
Fonte: Adaptado de LAWRENCE; WINN; JENNINGS, 2001.
Considera-se que o processo contínuo de transmissão dos processos favorece o processo de institucionalização, e quanto maior o conhecimento sobre a historicidade do processo, maior é essa continuidade. Esse conhecimento contribui para o delineamento de um universo de senso comum compartilhado pelos indivíduos (ZUCKER, 1991).