2 O JOVEM COMO PÚBLICO DE POLÍTICAS DE QUALIFICAÇÃO
2.1 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO CONCEITO DE JUVENTUDE
O conceito de juventude ou de “juventudes" 12 pode ser considerado um termo em construção, uma vez que muitos trabalhos buscam compreender esses novos atores, as mudanças nos comportamentos e no trato dos jovens, obtendo um novo destaque nas pesquisas, principalmente em políticas públicas.
Juventude é uma categoria sociohistórica, ou seja, construída socialmente e perpassada por diferentes compreensões (DAYRELL, 2007), deste modo, o conceito de juventude não teve o mesmo significado ao longo do tempo. A construção social da juventude se dá de maneira mais concreta a partir da emergência da modernidade, em um processo relacionado com a industrialização e enquanto produto das condições e demandas sociais impostas por estes dois contextos, tendo em vista a generalização do trabalho assalariado e o surgimento de novas instituições sociais (ROCHA, 2007). Também, e de forma associada, fatores como a mentalidade burguesa, a representação da família nuclear, entre outros, passaram a destinar diferentes funções sociais para cada fase da vida.
A juventude, enquanto uma fase vem sendo tratada como categoria que vai além dos critérios de idade, ou seja, como “uma etapa de transição que processa a passagem de uma condição social, mais recolhida e dependente, para uma mais ampla; um período de preparação para o ingresso social na vida adulta” (ABRAMO, 1994, p.75). Considerando os jovens como sujeitos de direitos, em condição
12 O termo juventude pode assumir significados distintos ao levar em conta as diversas condições, biológicas, sociais, culturais e demográficas, constituindo assim, diversas “juventudes”. Este tema é tratado por diversos autores como Touraine (1996), Abramo (1994), Bango (2003), Sallas (2008).
peculiar de desenvolvimento e levando em conta tanto os aspectos biológico, cognitivo e social, com vivências articuladas e múltiplas possibilidades, a juventude deixou de ser considerada apenas uma referência de idade,
A juventude deixa de ser uma condição biológica e se torna uma definição simbólica. As pessoas não são jovens apenas pela idade, mas porque assumem culturalmente a característica juvenil através da mudança e da transitoriedade. Revela-se pelo modelo da condição juvenil um apelo mais geral: o direito de fazer retroceder o relógio da vida, tornando provisórias decisões profissionais e existenciais, para dispor de um tempo que não se pode medir somente em termos de objetivos instrumentais. (MELUCCI, 1997, p.13).
O conceito não é definido concretamente, pois as características podem variar em diferentes sociedades de acordo com o modo de vida de cada uma.
Segundo Pierre Bourdieu as categorias de juventude, bem como de velhice não são “dadas”, mas “construídas socialmente”, extraindo as consequências decorrentes para dizer que a “idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável” e que falar dos jovens como se fossem uma “unidade social”
homogênea e com interesses comuns, constitui-se em uma “manipulação” (1983, p.113). Na mesma perspectiva Touraine afirma que “juventude não é uma categoria social, mas uma construção cultural e administrativa, uma parte da imagem que a sociedade tem de si mesma" (1996, p.2).
Porém, para que os jovens sejam caracterizados como público de políticas é importante criar a noção de pertencimento a uma categoria, e se tenham definidos aspectos que identifiquem e institucionalizem tal categoria, garantindo identidade a esses sujeitos. Segundo a UNESCO, a institucionalização visa respeitar esses diferentes modos de construção enquanto categoria social, que existe como representação sociocultural e situação social, com suas múltiplas determinações culturais, econômicas, de gênero e étnicas, assumindo significados distintos. (UNESCO, 2004).
No Brasil o documento Política Nacional da Juventude – Diretrizes e Perspectivas, publicado em 2006, afirma que
Ser jovem no Brasil contemporâneo é estar imerso – por opção ou por origem – em uma multiplicidade de identidades, posições e vivências. Daí a importância do reconhecimento da existência de diversas juventudes no país, compondo um complexo mosaico de experiências que precisam ser valorizadas no sentido de se promover os direitos dos/das jovens.
(BRASIL, 2006).
A Secretaria Nacional e o Conselho Nacional de Juventude – CONJUVE, adotam a faixa que compreende dos 15 aos 29 anos para designar a juventude (IPEA, 2008, p.12). Já na Europa, alguns indicadores trabalham com a idade máxima de 32 anos para determinados fins, reafirmando a maleabilidade desse conceito, pois é necessário levar em conta, além de questões culturais, a perspectiva de vida e mesmo questões do mundo do trabalho.
Em países emergentes, como o Brasil em que a expectativa de vida aumentou em 25,4 anos, de 1960 a 2010, ao passar de uma média de 48 anos para 73,4 anos13 gerou, consequentemente, o adiamento da aposentadoria bem como a extensão da juventude. Isto é, em muitos casos, um adulto com 30 anos de idade ainda está em fase de formação e sequer ingressou no mercado de trabalho.
Desse modo, questões como a expectativa de vida, condições de trabalho e também questões culturais influenciam para a construção e as mudanças no conceito de juventude.
Para além da categorização, no Brasil a juventude tem sido tratada como público de políticas de garantia de direitos que, através da representação dos movimentos sociais se fortaleceram muito nas últimas décadas. Segundo o CONJUVE, a noção de jovens como sujeitos de direito surge com o reconhecimento e a valorização da diferença e das identidades coletivas, portanto o reconhecimento dos direitos da juventude envolve seu desenvolvimento integral atendendo os direitos civis e sociais. Assim, a construção de políticas públicas contribui ativamente para novas formas de representação (SPOSITO e CARRANO, 2003).
De acordo com a institucionalização e o crescimento de políticas públicas voltadas para a juventude, que ajuda a definir essa construção social, iremos nos ater aos dados considerados pelos órgãos de pesquisa e gestão no Brasil - IPEA e CONJUVE -, que trabalham com a faixa etária de 15 a 29 anos, a mesma dos programas de qualificação profissional, e abordaremos a questão da construção social ao longo do próprio trabalho.
13 IBGE – Censo 2010
2.2 HISTÓRICO DOS PROGRAMAS DE QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL PARA