A meta para desnaturalização da ideia de que a economia capitalista é a única realmente eficiente para a produção, ou que deve ser o “motor da história”, precisa ser questionada: a quem esse sistema beneficia realmente, se ao capital ou a sociedade? Dessa forma seria possível desnaturalizar, também, a divisão sexual do trabalho.
Hirata (2007) discute as implicações da divisão sexual do trabalho na França, apoiada em duas proposições: a sistematização dessa divisão e a hierarquização das atividades que resulta na criação de um sistema de gênero.
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Há mais de 30 anos discutida, a divisão sexual do trabalho constatou as desigualdades entre homens e mulheres no trabalho, o seu início e o agravamento dessas desigualdades ao longo da história. Porém, por mais que tenha havido mudanças através dos tempos, essa configuração permanece entre as relações de gênero.
A tradição funcionalista disseminou na sociedade, a ideia dos papeis complementares e a visão durkheiminiana especificou que homens e mulheres deveriam ter papeis distintos. Mas o tempo nos mostra o quanto essa ideia foi equivocada.
Um projeto iniciado pelo movimento feminista francês tinha como objetivo mostrar que o trabalho doméstico também deveria ser considerado uma forma de trabalho centrada na “produção do viver” (HIRATA, ZARIFTAN, 2000), não necessariamente, como uma atividade ligada ao acúmulo de capital. O trabalho doméstico, não reconhecido como um trabalho sempre foi considerado como um “acúmulo”, uma “conciliação de tarefas”, “dupla jornada” ou uma justaposição de tarefas infindáveis na vida das mulheres. Na conceituação patriarcal da divisão sexual do trabalho está arraigada uma construção histórica de que homens e mulheres teriam funções distintas dentro da sociedade, aos homens caberiam as funções superiores e às mulheres as inferiores.
Em contraponto a isso, durante a IV Conferência para Mulheres, que aconteceu em 1995 em Pequim, abordou-se a conciliação de tarefas como um princípio de igualdade.
O que prevaleceria, nesse caso, seria o modelo da “delegação” que se sobrepõe ao da conciliação na vida cotidiana. No caso do estudo de mulheres francesas, acontece a contratação de outras mulheres para desempenhar os serviços domésticos. O mesmo ocorre nos países semi industrializados, como o Brasil (HIRATA, 2007, p. 605).
Hirata cita também as mulheres japonesas, em outro contexto cultural e de convenções sociais, as quais são obrigadas a optar pelo trabalho ou pela maternidade, por se considerar impossível conciliar as duas responsabilidades.
E se observarmos essa situação sob o ponto de vista das empregadas domésticas, faxineiras, cuidadoras, babás, como ficaria essa perspectiva? As mulheres migrantes do norte da Europa “abandonam” seus próprios filhos para
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viverem no sul, cuidando dos filhos de outras mulheres. Situação semelhante a esta acontece no Brasil; os filhos são deixados com parentes em cidades do interior enquanto essas mulheres migram para os centros urbanos mais populosos, à procura de trabalho.
Há situações em que as mulheres deixam suas crianças menores com as mais velhas, com vizinhas ou em instituições – quando conseguem vaga. Nos casos das migrantes da França, assim como nas empregadas domésticas do Brasil, uma mulher (das camadas menos favorecidas) assume papeis no trabalho doméstico, enquanto outra mulher (a que consegue uma profissão com melhor salário) se coloca no mercado de trabalho com salário mais alto.
Um exemplo foi retratado no filme “Que horas ela volta” de 2015, dirigido por Anna Muylaert, premiado no Brasil e fora do país. Na história da pernambucana Val, que deixa a filha Jessica, ainda bem pequena, com o pai e vai para a capital paulista trabalhar como doméstica de uma família de classe alta, para cuidar de um menino (Fabinho) com a mesma idade de sua filha.
O filme aponta a visão particular e preconceituosa de grande parte da classe média brasileira para com as trabalhadoras domésticas, além disso, aborda as relações de poder e hipocrisia que permeiam essas relações.
Após assistirem ao filme, as mulheres do grupo falaram sobre o seu conteúdo e as suas percepções. Uma delas destacou que as pessoas rotulam as meninas, filhas de mulheres trabalhadoras domésticas como pessoas predestinadas a terem a mesma ocupação de suas mães, e citaram a hipocrisia nos discursos de que a trabalhadora doméstica “seria como alguém da família”, na intenção de burlar os direitos trabalhistas9 como já havia citado por outra mulher do grupo.
Segundo Hirata, a “conciliação” está diretamente ligada à perpetuação da mulher aos serviços domésticos, ao mesmo tempo em que, na “delegação” as mulheres seguem na gestão das tarefas, ou seja, nada muda.
Frente às conquistas das mulheres no campo profissional, é fato que para que uma mulher consiga ascender profissionalmente, há outra que permanece na situação de subalternidade, caracterizando-se uma
9 Lei Complementar nº 150, de 1º de junho de 2015. Brasília - 2015 - Ministério do Trabalho e Previdência Social
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consubstancialidade, conforme Kergoat (2010), e dentro de uma mobilidade social, ainda existe uma imobilidade permanente.
Isso porque, a mulher, ao alcançar uma posição de trabalho privilegiada passa a delegar a outra mulher, a função dos serviços domésticos, contribuindo para a imobilidade social das mulheres. Essa imobilidade é um resultado do sistema capitalista, que fortalece essas desigualdades para a sua manutenção e permite a algumas pessoas trabalharem em determinados postos de trabalho, por isso acontece a geração de demandas para diferentes segmentos de trabalho não ocupados, considerado de menor importância e remuneração, nesse caso, o subalternizado.
Para Kergoat existem duas razões para a manutenção dessa desigualdade, a questão intersubjetiva e a questão social. A questão intersubjetiva tem relação com cada indivíduo e entre os outros indivíduos com os quais se relaciona, podendo existir mudanças de comportamento, resultantes da alteração de práticas e da mobilidade de posições no que diz respeito ao aprendizado coletivo, constituindo-se a base transformadora.
Porém no que tange às relações sociais, existe maior complexidade, pois existe o que ela chama de três formas canônicas: exploração, dominação e opressão, não modificáveis facilmente. Por outro lado, a autora esclarece que os movimentos de resistência e o potencial de mudança surgem em meio às relações sociais.
Em correspondência ao modelo francês, pode-se observar a semelhança nas relações de consubstancialidade entre as mulheres, em diferentes contextos, os dois exemplos se fundem numa situação que parece não dar sinais de mobilidade no que diz respeito às relações com o trabalho doméstico e com as trabalhadoras do serviço doméstico.
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CAPÍTULO II
PERSPECTIVAS DE AUTONOMIA E EMANCIPAÇÃO DE MULHERES