A Comunidade Andina é um bloco econômico de integração regional instituído pelo Acordo de Cartagena em 1969. Os cinco países que fundaram o bloco são a Bolívia, a Colômbia, o Chile, o Equador e o Peru. Os objetivos do então chamado Grupo Andino eram promover o desenvolvimento equilibrado e harmônico dos países membros em condições de equidade mediante a integração e a cooperação econômica e social, acelerar o crescimento econômico e a geração de empregos, além de promover a formação gradual de um mercado comum latinoamericano.122
A Venezuela entrou no bloco em 1973 e se retirou em 2006. O Chile, membro fundador, se retirou em 1976, sendo membro associado desde 2006.
Em 1996, os presidentes dos países membros firmaram o Protocolo de Trujillo, que reformou o Acordo de Cartagena. O Grupo Andino então passou a se chamar Comunidade Andina.
No plano judicial, o Acordo de Cartagena previa a instituição de um Tribunal de Justiça como órgão jurisdicional do bloco nos arts. 40 e 41. A sede do Tribunal é na cidade de Quito.
A norma do Acordo de Cartagena sobre a criação do Tribunal Andino foi materializada apenas em 1979, iniciando suas atividades em 02 de janeiro de 121
CAMPOS, João Mota de; CAMPOS, João Luiz de. Contencioso Comunitário. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2002. p. 118.
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É o que prescreve o artigo 1º do Acordo de Cartagena. COMUNIDADE ANDINA. Acordo de
Cartagena. Disponível em:
http://intranet.comunidadandina.org/IDocumentos/c_Newdocs.asp?GruDoc=14. Acesso em: 2 de março de 2012.
1984123. O Protocolo de Cochabamba, assinado em 1996, reformou o Tratado de Criação do Tribunal, alterando o nome da Corte para Tribunal de Justiça da Comunidade Andina (‘TJCA’).
Cinco magistrados integram o Tribunal Andino, os quais devem ser nacionais de origem dos países-membros, gozarem de alta consideração moral e reunir as condições requeridas em seu país para o exercício das mais altas funções judiciais ou ser jurisconsultos de notória competência (art. 6 do Tratado de Criação do TJCA, ‘TCTJCA’). Os magistrados são nomeados para um período de seis anos, podendo ser reeleitos apenas uma vez (art. 8/TCTJCA).
As decisões do Tribunal Andino obrigam aos Estados-membros, sendo diretamente aplicáveis a partir da data de sua publicação (arts. 2 e 3/TCTJCA). As sentenças não requerem homologação em nenhum dos membros da Comunidade Andina (art. 41/TCTJCA).
O Tribunal tem competência para decidir ações de nulidade (art. 17- 22/TCTJCA), ações de descumprimento (art. 23-31/TCTJCA), interpretações prejudiciais (art. 32-36/TCTJCA), recurso por omissão ou inatividade (art. 37/ TCTJCA) e lides laborais (art. 40/ TCTJCA), além de poder exercer função arbitral (art. 38 e 39/TCTJCA).
Tomando como referência o marco normativo comunitário do Velho Continente, a Comunidade Andina instituiu a interpretação prejudicial como ferramenta para articular a cooperação entre jurisdições nacionais e a jurisdição supranacional com o objetivo de atingir a uniformidade na aplicação do direito comunitário. A redação do art. 32 do Tratado de Criação do TJCA confirma esta descrição:
Artículo 32.- Corresponderá al Tribunal interpretar por vía prejudicial las
normas que conforman el ordenamiento jurídico de la Comunidad Andina, con el fin de asegurar su aplicación uniforme en el territorio de los Países Miembros.
A relação entre os magistrados nacionais e os do Tribunal Andino é regida pela cooperação e lealdade, não se configurando qualquer hierarquia entre os órgãos jurisdicionais. 124125
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VIGIL TOLEDO, Ricardo. “La consulta prejudicial en el Tribunal de Justicia de la Comunidad Andina”, em Anuario de Derecho Constitucional Latinoamericano 2004. Montevideo: Fundación Konrad Adenauer, 2004. p. 939.
A consulta prejudicial pelo juiz nacional divide-se em obrigatória e facultativa, segundo o art. 33 do TCTJCA. A primeira abrange todos os casos em que a decisão do tribunal nacional ao aplicar o direito comunitário andino não seja suscetível de recursos no sistema jurídico interno. Por outro lado, será facultativa sempre que contra a sentença existam vias recursais que permitam sua revisão. Neste caso haverá discricionariedade na consulta.
Ponto de alta relevância nesta seara é o posicionamento da corte comunitária a respeito das teorias do ato aclarado e do ato claro, desenvolvidas pela jurisprudência do Tribunal de Luxemburgo. A teoria do ato aclarado é aquela que permite ao juiz nacional decidir uma lide que envolve direito comunitário com base na jurisprudência da corte comunitária. Já a teoria do ato claro designa as situações em que a obrigação de consulta prejudicial desaparece em virtude de não haver dúvida razoável a respeito do sentido e alcance da norma comunitária em questão. 126
Alejandro Perotti afirma que ambas as teorias não foram recepcionadas pelo Tribunal Andino. O posicionamento do Tribunal em relação à doutrina do ato aclarado foi expresso no precedente Aktiebolaget Volvo, no qual pronunciou que suas sentenças regem tão somente o caso objeto da consulta, não eximindo o juiz nacional da obrigação de realizar a consulta mesmo em casos similares ou análogos. A doutrina do ato claro foi igualmente rechaçada no caso Kadoch pelo Tribunal e pela Secretaria Geral da Comunidade Andina em sua Resolução nº 210.127
Os filtros admitidos pelo Tribunal Andino são a exigência de uma dúvida razoável e de a consulta ter importância prática, não sendo fruto de meras especulações ou curiosidades teóricas. 128
Assim como ocorre no direito comunitário europeu, o Tribunal Andino não está autorizado a interpretar o conteúdo e o alcance do direito nacional nem qualificar os fatos do processo, apesar de poder referir-se aos fatos quando for estritamente necessário. A Corte Comunitária deverá pronunciar-se apenas sobre a 124
DUEÑAS MUÑOZ, Juan Carlos. “La interpretación prejudicial, ¿piedra angular de la integración andina?”, Anuario de Derecho Constitucional Latinoamericano 2011, Montevideo: Fundación Konrad Adenauer, 2011. p. 42.
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PEROTTI, Alejandro. Algunas consideraciones sobre la interpretación prejudicial obligatoria
en el derecho andino. Lima: Secretaría General de la CAN, Biblioteca Digital Andina, 2005. p. 3. 126 Ibidem. p. 3. 127 Ibidem. pp. 3-5. 128 Ibidem. pp. 5 e 9.
inteligência das normas que conformam o ordenamento jurídico da Comunidade Andina, consoante prevê o art. 34 do TCTJCA.
A sentença proferida pelo Tribunal Andino deverá ser adotada pelo juiz nacional em sua decisão. Nas palavras de Ricardo Vigil Toledo, ex-presidente do TJCA, “la sentencia que dicte el Tribunal es vinculante.”129
Pode-se observar que mesmo havendo divergências na aplicação do direito comunitário, o Tribunal Andino demonstra ser influenciado em grande escala pela jurisprudência comunitária européia. Assim como na prática da União Européia, o mecanismo da consulta prejudicial proporciona a colaboração entre os juízes nacionais e os magistrados do tribunal comunitário em favor da uniformização e integridade do direito comunitário.