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A CONTAG e o regime de segurados especiais

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5.1. A Previdência Social dos Trabalhadores Rurais na Constituição de 1988

5.1.2. A CONTAG e o regime de segurados especiais

O 5º Congresso da CONTAG foi realizado em novembro de 1991, imediatamente após a criação das Leis 8.212 e 8.213 que garantia o regime de segurados especiais rurais previsto na Constituição Federal de 1988.

A fala de abertura do Congresso, feita pelo então presidente da CONTAG o Sr. Aloísio Carneiro, explicitava a leitura que a confederação tinha do momento político:

Muitos dos novos direitos conquistados ainda permanecem apenas no papel, não se traduzindo em melhorias concretas para os trabalhadores [...]

129 A política econômica recessiva do presidente Fernando Collor de Mello, a persistência do processo inflacionário, a desorganização do processo produtivo, a total desconsideração para com a sociedade organizada, o desrespeito sistemático à Constituição, a insensibilidade para com os problemas e as condições de vida dos trabalhadores, hoje exemplificada pelo vergonhoso desrespeito aos direitos dos aposentados [...]

CONTAG (1991, p.25)

Era clara a perspectiva da Confederação das dificuldades para a garantia dos direitos sociais prescritos na Constituição. Tal cenário nos lembra a luta durante os anos 1970 pela efetivação dos direitos que estavam inscritos no Estatuto do Trabalhador Rural.

Hobsbawm (2000) nos alerta que a luta pela efetivação prática dos direitos é tão complexa e árdua como a luta pela inscrição destes na lei. No caso brasileiro, Martins (1999, p.70) analisando as alianças das elites para a conservação de estruturas de dominação, nota que a questão não é a de aprovar leis avançadas, mas assegurar que elas não serão executadas, ou não serão executadas contra os interesses dos que as aprovaram . A Constituição de 1988 foi apelidada de Constituição Cidadã. Todavia, entre o que ali está escrito e a promoção da cidadania há uma grande distância. Em outras palavras, a efetivação do prescrito nas leis decorre de um processo social de disputas em torno de interpretações dos textos legais, bem como da engenharia de controle dos efeitos da lei.

O discurso de abertura do 5º Congresso da CONTAG também chama a atenção do legislativo, afirmando que esta instituição de fundamental importância na consolidação do processo democrático, tem se mostrado incapaz de responder aos anseios populares . (CONTAG, 1991, p.25).

Não obstante, as organizações de trabalhadores contavam com a simpatia e apoio de parcela importante dos parlamentares naquele período. Somente na abertura do 5º Congresso cinco deputados federais, representantes do PT, PSB, PDT, PCB e PC do B, fizeram o uso da fala. Essa articulação da CONTAG com parlamentares permitiu que se ecoassem na Câmara Federal as reivindicações dos trabalhadores rurais.

No 5oCongresso duas questões nortearam as discussões sobre a previdência. A primeira delas diz respeito à reivindicação quanto à efetivação da legislação, conforme trecho constante dos Anais do 5º Congresso, a seguir:

Manifesto pela Previdência Social

Ao Ministro do Trabalho e Previdência Social

Os delegados do 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais, que ora se realiza em Brasília [...] manifestam a Vossa Excelência o seu veemente repúdio diante da permanente omissão e descaso do Governo Federal com a área da Previdência Social.

A Constituição de outubro de 1988 garantiu direitos beneficiários iguais aos trabalhadores rurais e urbanos, incorporando um sistema único de Previdência Social.

É inaceitável e absolutamente injustificável que, transcorridos mais de três anos da conquista constitucional da ampliação dos benefícios previdenciários para o trabalhador rural e já vencido em dobro o prazo previsto de 60 dias para a regulamentação das Leis nos 8.212 e 8.213/91, ainda se identifique como obstáculo ao cumprimento da Lei a intolerável omissão do Governo [...]

A outra questão refere-se ao significado atribuído à legislação previdenciária. Ainda que se constatasse a dificuldade em tornar reais os direitos já assegurados em lei, o 5º Congresso ressaltou a conquista. A extensão dos direitos previdenciários aos agricultores familiares, pescadores e garimpeiros artesanais, foi comemorada: Avanços significativos foram conquistados com a aprovação das Leis 8.212/91 e 8.213/91, que instituíram os Planos de Custeio e Benefícios da Previdência Social, com a equiparação dos direitos previdenciários rurais aos urbanos... (CONTAG, 1991:120).

De fato, um passo adiante importante estava assegurado com as leis 8.212 e 8.213. Entretanto, como já nos lembrou Martins (1999), somente leis inovadoras não são suficientes. É preciso estar atento à engenharia de controle da não aplicação do previsto que envolve o processo de efetivação prática dos direitos. Assistiremos nos anos subseqüentes a criação de mecanismos inibidores do acesso aos direitos.

Brumer (2002) sustenta que os anos entre 1995 e 1996 podem ser chamados de período de represamento de benefícios da previdência rural. Isso devido à mudanças nas exigências documentais para o acesso às aposentadorias e pensões. Até esse período era a declaração do sindicato, homologada na Promotoria Pública do Município o atestado de pertencimento à categoria agricultor em regime de economia familiar, condição necessária para o acesso ao regime de segurados especiais.

A partir de então o INSS passou a solicitar uma série de documentos, tais como, Cadastro de Propriedade do Imóvel no INCRA, o Contrato de Arrendamento e o Bloco de Notas11 de venda da produção. Como na maioria dos casos os agricultores não possuem esses documentos, essa mudança das exigências documentais funcionou como mecanismo de restrição de acesso aos direitos.

A partir de 1995 a CONTAG passou a organizar anualmente uma grande manifestação pública em Brasília/DF, com caravanas de agricultores e agricultoras de todos os Estados do país. Denominada Grito da Terra Brasil, desde então, essa mobilização sintetiza e apresenta anualmente ao governo brasileiro as reivindicações do movimento sindical de trabalhadores rurais.

Após o ano de 1996, como efeito das pressões sindicais (BRUMER, 2002), o INSS reviu o quadro restritivo imposto pelas exigências documentais e as declarações do sindicato voltaram a ter poder de conferir aptidão . Isto é, atribuir ao candidato(a) a beneficiário(a) da previdência o status de agricultor(a) em regime de economia familiar.

Esse fato reposicionou o sindicato de trabalhadores rurais, bem como toda a estrutura sindical, na teia de implementação da previdência social rural. Ele passou a ser ator chave no processo. (BARBOSA, 2002). É da segunda metade dos anos 1990 em diante que as aposentadorias e pensões produzirão um dos fenômenos socioeconômicos mais importantes para as populações rurais nas últimas décadas. (DELGADO, 2000).

Todavia, é importante observarmos que esse envolvimento dos sindicatos na teia de implementação de direitos sociais rurais não é algo novo. Tem origem na relação entre os sindicatos de trabalhadores rurais com o PRORURAL nos anos 1970.

9 Brumer (2002) também destaca que já nos anos 1980 nas lutas por previdência social rural no Rio Grande do Sul os sindicatos orientavam os agricultores à registrarem a venda dos produtos no Bloco de Notas, e mais ainda, anotar no Bloco além do nome do homem, o da mulher e dos filhos. Embora essa fosse uma questão importante no Sul, ela não se apresentava com igual intensidade no restante do país. Não há indícios nos documentos da CUT e da CONTAG de que essa questão nos anos 1980 fosse tão importante nos outros estados.

131 Entre 1991 e 1998, quando da realização do 7º Congresso mudou-se substancialmente o conteúdo da discussão realizada pelo sistema CONTAG sobre a previdência social. Anteriormente a tônica era a garantia e a efetivação dos direitos previdenciários para os trabalhadores rurais. Em 1998 o debate sobre a temática previdenciária foi fundado nas estratégias de garantia de autonomia financeira do movimento sindical. Verifica-se, a partir de então, um revigoramento do enlace dos sindicatos com a prática de efetivação do direito previdenciário (BARBOSA, 2002).

Foi deliberado no 7o Congresso da CONTAG, como atestam os Anais, a realização do 2o Congresso Extraordinário da CONTAG no ano de 1999, que trataria exclusivamente de questões relativas à organização sindical e a auto-sustentação do MSTR. (CONTAG, 2001). Nesse Congresso, o regime de segurados especiais foi visto como direito assegurado na lei e efetivado na prática em razão do envolvimento dos sindicatos.

Em 2001, foi realizado o 8o Congresso da CONTAG, que reafirma a importância econômica da previdência para as populações rurais, bem como, sua relação com o financiamento do movimento sindical de trabalhadores rurais. (CONTAG, 2001)

Existem dois fatores que estão na raiz do processo de captação de recursos pelos STRs por meio da contribuição dos aposentados, pensionistas e outros beneficiários do sistema previdenciário. O primeiro é o fato da necessidade do agricultor comprovar a situação de agricultor em regime de economia familiar, sem empregados permanentes. Esta comprovação é feita através de declaração comprobatória emitida pelos Sindicatos de Trabalhadores Rurais, que é a instituição reconhecida pelo Ministério da Previdência Social como competente para tal emissão.

O segundo fator é que o inciso V do Artigo 115 da lei 8.213/91 permite ao STR o desconto de mensalidades dos aposentados e pensionistas a título de contribuição como sócio da instituição. Ao agregar no quadro de sócios os aposentados em regime de economia familiar e ter aporte legal para propor a contribuição destes aos STRs, ocorre uma potencialização da arrecadação financeira dos Sindicatos. Seguramente, estes recursos têm se constituído como fonte importante de financiamento não somente para os Sindicatos, mas para todo o Movimento Sindical de Trabalhadores Rurais.

De fato, a orientação do 2o Congresso Extraordinário de 1999, foi o estabelecimento de convênio entre a CONTAG e o INSS para facilitação do desconto da contribuição ao STR, diretamente na fonte. Além disso, o oferecimento aos candidatos a beneficiários da previdência de uma Autorização de Desconto e ficha de filiação no ato do encaminhamento dos documentos/comprovantes ao STR.

Com isso, o processo de aposentadoria/pensão dos idoso(a)s rurais deixa de ser apenas um dos serviços prestados pelo STR, para assumir um caráter estratégico de sustentação financeira do MSTR como um todo. Na medida em que os aposentados passam a significar para os STRs a possibilidade de garantia mínima do financiamento do seu caixa, estes incrementam a burocracia administrativa para aposentar os agricultores de sua base e a partir daí, torná-los filiados-contribuintes.

Conforme CUT-CONTAG (1998), a mensalidade dos aposentados constituiu, em 1997, 26,5% dos recursos de sustentação financeira dos STRs. Junto a isso, está se desenvolvendo nos STRs um aparato burocrático-administrativo para o trato das questões previdenciárias.

Importa observar para os propósitos analíticos deste capítulo, independentemente de juízo de valor sobre a estratégia sindical, ou se esta estimulará uma prática sindical assistencialista nos moldes já vivenciados no período do FUNRURAL, a criação de um campo de possibilidades. A presença dos STRs no complexo sistema de acesso aos direitos sociais rurais no país, certificando a aptidão dos candidatos à previdência, faz com que se

simplifique a documentação comprobatória dos agricultores em regime de economia familiar, ampliando o grau de cobertura previdenciária. Nessa perspectiva, os sindicatos são imprescindíveis. Não obstante, essa participação sindical possibilita ao MSTR a ampliação de sua base de associados, que por sua característica aposentados e pensionistas fortalece significativamente o caixa dos sindicatos.

A despeito da estratégia de financiamento dos sindicatos e de suas implicações para a lógica da ação sindica, é importante perceber o deslocamento realizado da reivindicação de direitos, até meados dos anos 1990, para a luta pela manutenção do regime de segurados especiais em um cenário macro-político orientado pela redução dos gastos sociais do Estado12.

Na virada do século XX até o último ano do Governo Fernando Henrique Cardoso, nos esforços políticos da CONTAG, em suas manifestações públicas, bem como, em suas resoluções, havia uma preocupação clara com os riscos que a reforma da previdência poderia acarretar aos trabalhadores rurais.

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