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A cristandade enfrentava a maior batalha ideológica e doutrinária de sempre: era preciso Contrarreformar. No seio deste movimento, encontramos o Concílio de Trento. Tido como o décimo nono concilio ecuménico da Igreja Católica, iniciou os seus trabalhos no dia 13 de Dezembro de 1545, encerrando-os apenas em 4 de Dezembro de 1563. Foi um processo muito conturbado. Ao longo destes 18 anos, as 25 sessões ocorreram em períodos intermitentes, sob o pontificado de três papas: o primeiro período (1545-47) contou com a autoridade de Paulo III, o segundo (1551-52), com a de Júlio III e o terceiro com a de Pio IV (1562-63). Celebrou-se desta forma, devido aos conflitos externos entre as potências políticas, às crises internas do próprio concílio e às diferenças de atitude dos diferentes papas91. As presenças nas várias sessões do Concílio nunca foram muitas, tendo a sessão de abertura reunido apenas quatro cardeais, quatro arcebispos, vinte e um bispos e cinco “gerais” de ordens religiosas; as sessões mais frequentadas, decorridas no ano de 1563, contaram apenas com duzentos padres, considerando-se este, bem como o ano anterior os mais afluentes no que respeita às presenças. Assim, no período de Pio IV, reuniram-se em Trento, nove cardeais, trinta e nove patriarcas e arcebispos, duzentos e trinta e seis bispos e dezassete abades ou “gerais” de ordens. Tendo em conta que a totalidade do episcopado católico, integrava cerca de setecentos membros, estes números ficam muito aquém da ecumenicidade desejada num período em que a homogeneidade da cristandade se encontrava ameaçada (Alberigo, 1993, p. 285).

Trento reuniu vários teólogos, essenciais para a discussão, visto que, normalmente, os bispos possuíam graus de direito canónico, sendo o seu conhecimento teológico, bem mais débil. Dentre os especialistas, quase todos pertencentes a ordens religiosas, os destaques vão para os dominicanos Domingo de Soto e Melchor Cano, o doutor flamengo (Lovania) Ruard Tapper, o teólogo francês (Paris) Claudio de Sainctes, e os jesuítas Santiago Laínez, Claudio Salmeron, Claudio Le Jay e Pedro Canisio. A sua função era a de preparar documentos teológicos para serem estudados, discutidos e rectificados nas várias comissões de prelados com vista a serem aprovados pelos padres nas reuniões solenes, ou sessões. Outros integrantes fundamentais foram o chefe de secretaria, Angel Massarelli e seus notários,

91 Alberigo, 1993, p.287. O autor lembra-nos o que ocorreu aquando da morte de Paulo III, e da eleição de Júlio III, cuja inclinação para a figura de Carlos V, não agradou ao rei francês Henrique II, atitude certamente influenciada pelo contexto das Guerras Italianas (1494-1559). Sucede que o monarca não só “proibiu” a presença dos seus bispos no concílio como também contestou qualquer decisão tomada nele, e isto por considerar a assembleia, uma orquestração do seu rival, o papado, com o qual disputava o domínio de Parma.

pelo trabalho de registo minucioso diário de todos os debates; os embaixadores dos poderes principescos representados, cujas funções consistiam em informar os seus senhores acerca do que estava a ocorrer e de influenciar o curso do concilio de acordo com os interesses políticos- as jogadas de bastidores foram várias-; ainda, os legados papais, que desempenhavam funções de planeamento dos trabalhos do concilio, aplicação das directivas pontificias e de zelar para que o avançar do concilio não prejudicasse a autoridade papal (Alberigo, 1993, p. 286). No plano material e económico, ficaram para a história os elevados custos do concilio, suportados pela Santa Sé e pelo cardeal Madruzzo, príncipe-bispo de Trento, que na sua qualidade de anfitrião foi obrigado a receber os participantes e a mudança temporária de Trento para Bolonha, devido a uma suposta ameaça de doença contagiosa, que na verdade, mascarava uma tentativa de aproximar o concilio de Roma (Alberigo, 1993, p.287).

Celebrado com o propósito de responder à dissidência dos Protestantismos, o Concilio de Trento seguiu um programa de cariz metódico. Na dimensão teológica-dogmática, as quatro preocupações foram a doutrina da Justificação, do Pecado Original, os Sacramentos e o Purgatório. Posto isto, Trento, contestando a doutrina da sola scriptura, preocupou-se desde logo com a definição da autoridade dos textos a seguir:

“ O Sacrosanto Ecuménico, e geral Concilio Tridentino, legitimamente congregado com a assistência do Espirito Santo, presidindo nelle os mesmos três Legados da Sé Apostólica, tendo continuamente diante dos olhos o desterrar os erros; para que se conserve na Igreja a pureza do Evangelho, prometido antigamente pelos Profetas nas santas Escrituras, e primeiramente promulgado pela propria boca de Nosso Senhor Jesus Christo Filho de Deos; e depois pelos seus Apostolos, como fonte de toda a verdade salutífera e doutrina dos costumes o mandou pregar a toda a creatura; e vendo que esta verdade, e disciplina se contém em livros escritos, e sem escritos, nas Tradições, que recebidas pelos Apóstolos da boca de Christo ou dictadas pelo Espirito Santo…” […] Além disto o mesmo Sacrosanto Concilio, considerando poder resultar não pequena utilidade à Igreja de Deos, de se manifestar qual entre todas as Edições, que correm dos Livros Sagrados, se deve ter por authentica; determina e declara: que esta mesma antiga, e vulgata Edição, que pelo uso de tantos séculos foi aprovada na Igreja, nas lições públicas, disputas, pregações, e exposições, seja havida por authentica…”92

Para além de adoptar a Vulgata de S. Jerónimo, o concilio enumerou todos os livros canónicos, incluindo os que os protestantes não consideravam: os livros de Tobias, de Baruc, Macabeus (1 e 2), e

92 Decretos I e II da Sessão IV (8 de Abril 1546), retirados da obra de João Baptista Reycend (1781). “O sacrosanto, e ecumenico Concilio de Trento em latim e portuguez”. Lisboa.

as Epistolas de S. Tiago e de Judas, excluindo do cânone os Nehemias 3 e 4 (Alberigo, 1993, p.294). Também reforçou a “verdade” das tradições rituais e das crenças que tinham vindo a ser adoptadas pela igreja ao longo dos séculos, visando directamente as concepções de Lutero.

Seguidamente, o concilio definiu a doutrina do pecado original:

“ Para que a nossa Fé Catholica, sem a qual he impossível agradar a Deos, livre de erros, se conserve

na sua sinceridade inteira, e sem mancha, e o povo Christão, não seja combatido com qualquer vento de doutrina; sendo hum dos muitos males, com que, a serpente antiga, perpétua inimiga do Genero Humano, perturba a Igreja de Deos, excitar não só novas, mas as antigas discórdias, sobre o pecado original, e seu remédio [..] querendo reduzir os que andão já errados, e confirmar os que vacillão, seguindo os testemunhos das Escrituras, dos Santos Padres, e dos mais aprovados Concilios, estabelece, confessa, e declara o seguinte acerca do mesmo pecado original…”93

Numa das sessões mais trabalhosas do concilio, a Igreja tratou da doutrina da Justificação:

“Como quer que no presente tempo, não sem damno de muitas almas, e grave detrimento da Unidade

Ecclesiastica, se tenha semeado certa doutrina errónea sobre a Justificação; para louvor, e gloria de Deos omnipotente, e tranquilidade da Igreja, e salvação das almas […] pretende expor a todos os Fiéis de Christo a verdadeira, e sã Doutrina acerca da mesma Justificação; a qual ensinou o Sol de Justiça Christo Jesus Author, e consumador da nossa Fé; os Apostolos nos entregarão, e a Igreja Catholica, inspirada pelo Espirito Santo, conservou, perpetuamente; prohibindo rigorosamente, que ninguém daqui em diante se atreva a crer, pregar ou

ensinar outra cousa diversa do que se estabelece no presente Decreto”94 .

Ao longo dos 16 capítulos deste decreto, os padres identificam e reafirmam os princípios doutrinários que estão na base dos cânones aprovados que anatematizam diametralmente as posições reformistas. Nas sessões seguintes Trento preocupou-se com os Sacramentos, e com o Purgatório, tratado na última sessão do concilio, sem descurar outras matérias

Se Trento não inovou sobremaneira nas questões da teologia e dos dogmas, também não o fez naquilo que à reforma disciplinar diz respeito. De facto, em vários aspectos, o concilio apenas se limitou a reforçar disposições antigas, como a importância dos bispos e pastores de pregarem aos seus fiéis e residirem no meio deles e a necessidade de se regulamentar o recrutamento, bem como a carreira e as condições de vida eclesiásticas (Alberigo, 1993, p. 296). Assim, o concilio reorientou toda a instituição eclesiástica em torno da salvação das almas, através da reafirmação das causas de o clero existir: o

93 Decreto I da V Sessão (17 de Junho de 1546). 94 Decreto I da VI Sessão (12 de Janeiro de 1547).

ensino do evangelho e a administração dos sacramentos. A missão pastoral foi incumbida aos bispos, que apesar de verem alguma da sua influência reduzida, em favorecimento do poder papal, viram reforçados os seus mecanismos de vigilância e de controlo, podendo inclusivamente, executar penas sobre laicos e eclesiásticos (Paiva, 2014, p.17). Quanto aos laicos:

“…procurou -se que as populações interiorizassem a ética cristã e adoptassem comportamentos individuais e sociais conciliáveis com os preceitos do cristianismo. Daí o combate a condutas como a da sexualidade extra -matrimonial, a blasfémia ou a inimizade entre vizinhos, isto é, os designados “pecados públicos

escandalosos” (Paiva, 2014, p.18).

Após a conclusão do concilio e a aprovação dos decretos pela bula Benedictus Deus, de Pio IV, estava na altura de proceder à transmissão e aplicação das normas tridentinas nos vários territórios católicos. Em Portugal, é de notar a acção preponderante do Cardeal Infante D. Henrique e do arcebispo de Braga, D, Frei Bartolomeu dos Mártires, na transmissão célere das determinações ecuménicas, que tornaram o reino num dos pioneiros na aceitação incondicional de Trento (Soares, 2004, p. 481). Com efeito a oficialização do concilio e suas determinações, ocorreu no dia 7 de Setembro de 1564, quando o Cardeal-regente mandou publicar a obra “Decretos e determinações do sagrado Concilio Tridentino” em vernáculo, juntamente com uma edição em latim, onde se institui o favorecimento, por parte do Estado, aos bispos e à Igreja na aplicação das disposições, sendo o mesmo decretado por alvará de 12 de Setembro, altura em que se mandou ao regedor da Casa da Suplicação, ao governador da Casa do Cível e a quaisquer outros oficiais de justiça do reino e senhorios de Portugal, que ajudassem no processo (Soares, 2004, p. 480). No dia 18 de Setembro, é publicada uma segunda edição, com acrescentos sobre as confrarias, hospitais e seus administradores. Diz-nos o Cardeal:

“Dom Henrique per mercê de Deos, & da sancta ygreja de Roma, Cardeal do Título dos sanctos quatro Coroados, Ifante de Portugal, Arcebispo de Lisboa, Legado de Latere &c. Fazemos saber a quantos esta nossa carta virem, que considerando nos a grande obrigação que temos, pera, nam somente como Prelado, inteiramente guardar & comprir em nossa prelazia, o que no sancto Concilio está ordenado & mandado: mas também, como Legado de latere do nosso muyto sancto Padre o Papa Pio quarto nosso senhor, ora na ygreja de Deos presidente, procurar que em todas as ygrejas destes Reynos & senhorios del Rey meu senhor se cumpra & gurarde tam perfeytamente, como convem ao bem das almas & bom regimento das ditas prelazias […] Pello que encomendamos a todos os Arcebispos, Bispos & Prelados

destes Reynos & senhorios del Rey meu senhor, que façam notificar ao povo o conteúdo nos ditos Decretos, que per nosso mandado forão verdadeiramente trasladados…”95.

No restante do livro o Cardeal, elenca aqueles que se devem transmitir:

«dos que usam mal das palavras da Sagrada Escritura, dos abusos acerca dos Sacerdotes que celebram e dos que ouvem Missa, que o Prelado visite os hospitais e confrarias ainda que sejam de leigos, que os administradores de fabricas, hospitais e confrarias dêem conta ao Prelado, decretos contra as Coroças96 e os que usurpam os bens das ygrejas sem titulo, da prima tonsura e ordens menores a quem se devem dar, que se denunciem três vezes na ygreja os que querem casar e que pera os casamentos valerem, sejam necessários pelo menos o Cura, ou outro sacerdote de sua licença, ou do Prelado e duas ou três testemunhas, dos impedimentos do Matrimónio, que os vadios se não casem sem licença do bispo, dos amancebados, que não obriguem a casar por força, das bodas solenes, das visitações das ygrejas e o que deve o povo contribuir aos que visitam, que não entrem em Mosteiros de Freyras, em que idade se farão as Profissões, que não valham as renunciações feytas pelas que querem ser freyras, se não dois meses antes da profissão e com licença do Bispo, que primeiro que a molher tome habito de noviça ou faça profissão, sayba o Prelado se tem vontade, excomunga aos que obrigam per força as molheres a serem religiosas e aos que dão a isto conselho, ajuda ou favor por qualquer modo : e assim aos que impedem sem justa causa a serem religiosas, que possa o bispo mudar o uso dos hospitais em outro, avendo causa e castigar os administradores se não fizerem bem seu officio, dos desafios, dos leigos que fazem contra a imunidade da ygreja e pessoas eclesiásticas, que se guardem os preceitos da igreja: principalmente em que defende, certos maniares em certos dias: e nos que manda jejuar e na guarda dos dias de festa»

O arcebispo de Braga, Frei Bartolomeu dos Mártires97, uma das grandes figuras de Trento, tendo ficado célebres algumas frases proferidas como, “os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais precisam de uma ilustríssima e reverendíssima reforma” e “vossas senhorias são as fontes de onde todos os prelados bebem; necessário é, portanto, que a água seja limpa e pura”, rapidamente se dispôs a realizar sínodo no ano de 1564, com o objectivo de produzir o primeiro exemplo de legislação sinodal imbuído de espirito tridentino98. A oposição, protagonizada “pelos capitulares da Sé de Braga, cujo cabido tinha

95Igreja Catolica. Concílio de Trento, 1545-1563- “Decretos e determinacoes do sagrado Concilio Tridentino”.

96 Gorro de forma cónica, feito de papel ou cartão e pintado, que se punha aos condenados pela Inquisição espanhola e portuguesa. Este acessório servia de complemento a uma peça de vestuário (sambenito) utilizada pelos penitentes católicos com o intuito de mostrar arrependimento público pelos pecados cometidos.

97Para de talhes sobre a vida e obra, ver Machado,1741, pp.463-472.

nomeado quatro dentre si para se oporem frontalmente aos decretos disciplinares da reforma: o chantre, o mestre-escola e os doutores João Afonso e Belchior Limpo” (Soares, 2004, p.483), foi imediata. É preciso ter em consideração que algumas disposições tridentinas, por serem “chocantes”, certamente contaram com a oposição de uma parte da clerezia mais acomodada e menos disposta a mudar e com o já costumeiro relaxamento, como demonstram as conclusões do relatório do colector apostólico, Roberto Fontana, realizado em 1578/79. Aos seus olhos:

“…não se celebravam sínodos anualmente conforme prescrito; alguns decretos sinodais que se aprovavam e originavam constituições diocesanas careciam de revisão […]na maior parte das dioceses não havia examinadores para inquirir as qualidades dos providos em benefícios, segundo a forma do Concílio; concediam- se ordens sacras a quem não possuía formação competente nem património; permitia-se a celebração da Eucaristia em casas onde não havia oratórios decentes; o Catecismo Romano não era utilizado por ainda não ter sido traduzido; a maior parte dos bispos não tinham um penitenciário nas catedrais como se dispusera em Trento; a justiça secular, em particular a Mesa da Consciência e das Ordens, colocava sérias limitações à jurisdição eclesiástica. Além de tudo isto, sublinhava que o panorama de realização das visitas pastorais era desastroso: alguns bispos nunca tinham visitado a diocese pessoalmente, outros faziam-no de modo negligente, outros ainda “roubam” e impõem aos prevaricadores penas pecuniárias, sobrecarregando os fiéis com excomunhões, dando

azo a que os juízes seculares interviessem para pôr cobro a estes abusos” (Paiva, 2014, pp. 22-23).

Depreendemos que, comparativamente ao que ocorria no período medieval, se verificam em geral, os mesmos problemas, com as devidas ressalvas conjunturais. Contudo, há algumas diferenças, nomeadamente no mapa diocesano e na frequência da realização de sínodos, que mesmo assim ficou aquém do desejado99. O conteúdo das visitações também mudou ligeiramente, mas manteve grosso- modo a matriz medieval, como observa Isaías da Rosa Pereira, nas ocorridas entre o ano de 1594 e 1601, à igreja de Enxara do Bispo100. Quanto à legislação sinodal moderna, também se observam diferenças relativamente à medieva. Os temas em grande parte não diferem dos que aparecem nas constituições medievais, eles aparecem, sim, mais detalhados, e com algumas inovações, especialmente no período pós-tridentino, onde se denota uma preocupação maior com a administração e recebimento dos sacramentos, com as visitações, com a imunidade dos clérigos e da Igreja, dos beneficiados e suas residências entre outros assuntos. Trento foi impactante pois a partir daqui:

“… a “sua estrutura interna foi-se complexificando, deixando de ser conjuntos de medidas avulsas

destinados a resolver problemas pontuais, para se tornarem códigos normativos bastante abrangentes […]

99 Ver quadros informativos em Soares, 2004, pp. 492-498. 100 Ver Pereira, 1992, pp. 317-344; Soares, 2004, pp. 498-500.

principalmente no plano da difusão da doutrina. Acresce que deixaram de estar centradas sobre os eclesiásticos e sobre os bens da Igreja para, não descurando estes tópicos e introduzindo-lhes matérias até então pouco cuidadas ou inexistentes, passarem a tentar enquadrar todos os aspectos da vida da diocese. Assim começou a ser dado relevo aos fiéis (sua formação doutrinal, frequência dos sacramentos, comportamento nos locais de culto,

condutas morais - alargando a noção de pecado público)” (Paiva, 2000, p.13).

Não obstante, dentre a imensidão de assuntos abordados pelas constituições sinodais do período moderno, destacamos, por motivo de pertinência para o tema da nossa dissertação, as referências às instituições assistenciais e à esmola. Vejamos alguns exemplos:

Na const.3 (“Que se deêm à execução os legados pios, que se deixarem em algum testamento, posto que por defeito de alguma solenidade seja nulo”) do título XVII (“Dos Testamentos e Testamenteiros”), das constituições sinodais de Leiria, de 1598, ordenadas pelo bispo D. Pedro de Castilho, o mesmo institui:

“Os Testamentos feitos, ad pias causas, como he instituir nelles por herdeiros, alguma Igreja, Moesteiro, Hospital, ou outro lugar pio, posto que se faça com menos numero de testemunhas, do que por direito e leis do Reyno se requere: se contudo forem presentes duas ou mais testemunhas, são valiosos pelo Direito Canónico. Pelo que, conformando-nos com eles, mandamos que se deêm à execução. E o mesmo se guardará em os legados pios, e esmolas que se deixarem para pobres ou à misericórdia, ou outro lugar pio. E os testamentos que por defeito de alguma solenidade de direito forem julgados por nullos: porque só nesta parte será avido por bom e valioso”101.

Nas constituições sinodais do bispado de Portalegre de 1622, ordenadas pelo bispo D. Frei Lopo de Sequeira Pereira o dignitário tramita nos mesmos moldes, como verificamos na const. 2 (“Que os testamentos feitos em causas pias se cumprirão posto que, não sejao feitos com as solenidades que o dereito requere”) do titulo VI (“Dos Testamentos e Testamenteiros”)102; sendo que o mesmo se aplica a outros textos, uma vez que as normas são quase sempre similares. Vejam-se, a titulo de exemplo, nos textos da Guarda e de Elvas.

Nas constituições sinodais do bispado de Elvas de 1633, ordenadas por D. Sebastião de Matos de Noronha, o bispo na const.6 do titulo XIII (Dos Testamentos e testamenteiros”), ordena o seguinte:

101 Araújo, Manuel de. (1601). Constituições synodaes do bispado de Leiria/ feytas & ordenadas em synodo pelo Senhor Dom Pedro de Castilho bispo de Leiria & e por seu mandado impressas, Coimbra: por Manoel d'Araujo Impressor delRey N.S. na Vniuersidade de Coimbra.

102 Baptista, João. (1632). Constituições synodais do bispado de Portalegre / ordenadas e feitas pelo… Sr D. Fr. Lopo de Sequeira Pereira bispo de Portalegre do conselho de Sua Magestade, Portalegre: por Jorge Roiz.

“Posto que conforme a Direito Civil, se requeira certo número de testemunhas para a validade dos testamentos, contudo conformando-nos com o Direito Canónico, os testamentos feitos para obras pias, como seja ante duas testemunhas ficão válidos e se devem dar a sua execução. E em caso que se julgue algum testamento por inválido e nullo acerca da instituição de herdeiro ou por alguma outra causa se contudo nelle ouver algum legado pio se comprirá o dito testamento”103.

Também encontramos normas afectas ao assunto em constituições sobre os testamentos de clérigos:

No item 4 das const.1 (“Que os clérigos e Beneficiados podem testar livremente de seus bens ainda que acquiridos por razão de suas Igrejas e Beneficios e como se lhes sucederâ abintestado”) do

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