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3. Sobre encerramentos de interações via telefone

3.1. A contribuição de Schegloff e Sacks (1973)

Um dos textos básicos sobre encerramentos de conversa cotidiana foi escrito por

Schegloff e Sacks (1973), quando o texto sobre a sistemática elementar para a organização

da tomada de turno (Sacks, Schegloff e Jefferson, 1974) ainda não tinha sido publicado. O

objetivo do trabalho de Schegloff e Sacks (1973) é relatar de uma maneira preliminar as

análises que desenvolveram sobre encerramentos de conversas. A tarefa inicial dos autores

foi desenvolver uma base técnica para o problema do encerramento, a partir de

considerações feitas acerca da organização dos turnos de fala. Tendo desenvolvido uma

solução parcial para o problema, por meio do sistema de organização da tomada de turno,

ainda em construção, a insuficiência dessa solução leva à elaboração de um novo problema,

que exige referência à organização do tópico de fala e da organização estrutural global da

conversa como uma unidade.

14 Além do texto de Ostermann (2002), que aborda a questão dos encerramentos de interações, porém em

alguns ambientes face-a-face, institucionalmente orientados, temos conhecimento também de um trabalho sendo desenvolvido pelo pesquisador português Tiago Freitas sobre o mesmo tema com dados do português europeu, ao qual ainda não tivemos acesso.

48 3.1.1. A suspensão da relevância da transição de turnos

A respeito do encerramento de interações cotidianas, dois problemas podem ser

formulados, quais sejam: (1) como organizar a chegada simultânea dos co-participantes a

um ponto em que a finalização do turno de um falante não ocasionará a fala de um outro

falante, e isso não será ouvido como silêncio do falante e (2) como coordenar a suspensão

da relevância de transição em um possível término da elocução.

A partir dessas questões, uma solução aproximada envolveria o uso de uma “troca terminal” composta de partes convencionais, como, por exemplo, uma troca de “tchaus”

(cf. Schegloff e Sacks, 1973). Uma troca terminal pode servir para suspender a relevancia

de transição em possíveis finalizações de seqüências porque se configura como um par

adjacente 15.

Os pares adjacentes são apresentados como solução para o problema dos

encerramentos de interações porque, ao fornecerem uma relevância de transição depois da

ocorrência de uma SPP, os falantes podem então revelar sua orientação para o

encerramento no agora da interação. A não-orientação recíproca para o término da conversa pode sinalizar alguns “desajustes” interacionais entre os participantes. Por

exemplo, se uma pessoa diz “tchau” e não deixa espaço para o outro responder, isso

expressaria algo como raiva, rispidez ou outro sentimentos semelhantes.

15 Mais detalhes na subseção 2.1. “O par adjacente como unidade para a construção de seqüências”, em que

49 3.1.2. A localização das seqüências terminais na conversa

A localização das PPPpré-terminais não ocorre livremente. De acordo com Schegloff e

Sacks (1973), “uma questão (para os participantes) sobre as elocuções na conversa é ‘por

que isso agora’, uma questão cuja análise pode também ser relevante para se descobrir que

‘isso’ é esse.” (p. 241). Se, por exemplo, o que determina uma resposta como tal não é o

seu traço fonológico, sintático, semântico ou lógico, então o que o faz é a sua localização

seqüencial depois de uma pergunta. O mesmo ocorre com as trocas terminais, que só são

vistas como tal quando localizadas no final de uma conversa, a menos que possuam certas

características (como os traços apresentados acima) que as identifiquem independentemente

de seu posicionamento no curso da interação.

Perguntas do tipo “eu te acordei?” ou “você tava ocupado(a)?” no início da

interação funcionam como “ofertas pré-tópicas de encerramento” (ibidem, p. 254). Uma

conseqüência disso é que a possibilidade central nesse caso é a continuação da conversa, e

não o encerramento. Se a resposta for uma negação a essas perguntas, então a conversa

continua, mas se o questionamento obtiver uma resposta afirmativa, segue-se uma seção de encerramento, incluindo combinações do tipo “então depois eu te ligo” e a interação pode

chegar ao fim. Teríamos então as assim chamadas “ofertas de encerramento pré-primeiro

tópico” (ibidem, p. 255), pois essas perguntas podem ser feitas antes do ponto onde

geralmente se localiza o primeiro tópico da conversa16 e podem ser “aproveitadas” pelos

participantes no final do encontro. No entanto, se essas perguntas impedirem a inserção de

um novo tópico na interação, os participantes tendem a interpretar que “não houve

50 conversa”, já que não houve a inserção de algo que seria tido como o primeiro tópico do

encontro.

Diferentemente do início, que tem um ponto exato de localização, isto é, somos

capazes de demarcar exatamente onde começa uma conversa17, os momentos finais do evento conversacional não são facilmente pré-determinados. Para tanto, é preciso olhar para

toda a organização estrutural da conversa, no que se refere à organização dos tópicos de fala presentes na unidade que eles denominam “uma conversa única”. Com isso, conceder a

um tópico o status de “primeiro tópico” na conversa pode lhe atribuir, também, o status de

motivo da conversa, na perspectiva dos participantes, isto é, os próprios envolvidos na

conversa, pelo princípio etnometodológico da justificabilidade, seriam capazes de prestar contas do fato em uma conversa posterior, dizendo algo como “ele (ela) me ligou para...”,

referindo-se ao que se considerou o “primeiro tópico” da conversa. Isso gera um outro

problema para as partes, que podem não querer dar uma especial importância concedida a

algo dito como primeiro tópico e que podem não querer preservá-lo como motivo da

conversa, pois parece que uma forma de fazer surgir um primeiro tópico é construir

recursos de organização local de elocuções no decorrer da conversa, de modo que isso

ocorra naturalmente.

3.1.3. Os pré-encerramentos

As considerações sobre estrutura de tópicos remetem às considerações sobre a

localização dos encerramentos. A primeira forma de se iniciar uma seção de encerramento é

17 Em conversas telefônicas, é ainda mais fácil identificar esse ponto, pois o início se dá com o toque do

telefone, seguido do primeiro “alô” em resposta a esse toque – seqüência de chamamento-resposta (cf. Schegloff, 1972).

51 por meio do pré-encerramento, que se dá por meio das seguintes formas, em inglês: “we-

ell...”, “O.K. ...”, “So-oo” etc (com contorno de entonação descendente, constituindo toda a elocução). Em nosso corpus, encontramos, como componentes sonoros de pré- encerramento, os termos: “então tá”, “tá”, “tá bom”, “falou então”. Esses pré-

encerramentos devem ser considerados, de acordo com Schegloff e Sacks (1973), “possíveis pré-encerramentos” (p. 246-248), porque têm a função de destacar a relevância

do início de uma seção de encerramento. Eles ocupam o turno do falante para produzir

tanto uma elocução topicamente coerente quanto a iniciação de um novo tópico. Com eles,

o falante toma o turno com a tarefa de indicar que não tem mais nada a falar e, assim, cede

um turno livre ao outro. Este, sem violar a coerência tópica, tem a oportunidade de

prosseguir com a seção de encerramento ou de continuar a conversa, inserindo um novo

tópico.

Possíveis pré-encerramentos, portanto, podem não conduzir ao encerramento e dar

margem à ocorrência de um novo tópico na conversa, configurando-se como o ponto exato em que se dá a “ocorrência natural de tópicos mencionáveis” (p. 248) de uma forma

adequada ou, ainda, sinalizar colaboração para a seção de encerramento, constituindo-se,

nessa circunstância, como a primeira parte da seção terminal da interação.

Entretanto, as formas apresentadas acima como possíveis pré-encerramentos podem

possuir outras funções. É o caso, por exemplo, dos termos que se destacam, em certos

momentos, como elementos presentes em turnos que foram considerados por Schegloff

(1995) terceiros turnos de encerramento de seqüência (como vimos anteriormente), em que

uma seqüência conversacional pode ser encerrada, mas não necessariamente indicar o fim da conversa. Desse modo, elocuções do tipo “então tá”, “tá”, “tá bom”, “falou então”

52 podem operar, mas não necessariamente, como possíveis pré-encerramentos quando

localizados no final de um tópico.

3.1.4. Outros pré-encerramentos

Uma outra forma de encerrar a conversa, segundo Schegloff e Sacks (1973), é fazer

referência a materiais já desenvolvidos conversacionalmente pelas partes. Tais materiais

podem ser coletados em qualquer lugar em uma interação e são bem preservados para um

possível uso no encerramento da conversa. Um lugar em que eles sistematicamente podem

ocorrer é no início da conversa (não só em inícios de conversas telefônicas, mas também

em interações face-a-face). Perguntas empregadas no início de interações, como por exemplo, “O que você está fazendo?”, “Onde você está indo?”, “Como você está se

sentindo?” etc. podem oportunizar aqueles tipos de materiais que serão usados na seção

terminal, garantindo o encerramento, por exemplo: “Bom, eu vou deixar você voltar pros

seus livros” ou “Por que você não deita e tira um cochilo”.

Vimos que Schegloff e Sacks (1973), por um lado, classificam os materiais “então

tá”, “tá bom” e outros como possíveis pré-encerramentos, ou seja, são praticamente uma

garantia de encerramento. Por outro lado, anúncios de que a conversa deve se encerrar, seja

por parte do chamador, seja por parte do atendente, podem ser usados, segundo os autores,

para se interromper o tópico:

“Enquanto trocas como OK-OK respeitam sua localização em certas ordens locais de organização, tal como a organização da fala em um tópico ou pares adjacentes (...), o anúncio aberto “eu tenho que ir” não precisa respeitar tais limites e pode mesmo interromper elocuções possivelmente ainda não completas.” (ibidem, p. 251)

53 Expressões do tipo “eu tenho que ir” (e variantes) parecem ter menos força de

encerramento que o “então tá” (e variantes). Geralmente, ao iniciar uma seção de

encerramento, o “eu tenho que ir” é mais propenso a permitir a ocorrência de mais

conversa, enquanto o “então tá” parece ser mais eficaz na condução de seções de

encerramento.

Além disso, é importante notar que perguntas implicativas de encerramento do tipo “Por que você não deita e tira um cochilo?” não estão posicionadas na conversa de modo a

exigir uma resposta do tipo “porque...”, mas sim, para encaminhar a interação para o final.

Nenhuma análise – gramatical, semântica, pragmática etc. – de elocuções desse tipo,

estudadas individualmente, fora de seqüências discursivas, produzirá significado que

mostre o que os participantes podem fazer com elas. Essas ações, embora, por um lado,

implicativas de encerramento, podem, por outro lado, conduzir a conversa para fora do

encerramento, demandando das partes um novo trabalho interacional de forma a reconduzir

a interação para o fim (cf. Button 1987 e 1990), como veremos a seguir.

A contribuição de Schegloff e Sacks (1973) para este trabalho é importante na

medida em que discute a questão da suspensão da relevância da transição de turno, através

dos pares adjacentes pré-terminais e terminais, e considera também que quaisquer outros

elementos que se disponham a ser vistos como sinalizações de encerramento só o serão se

estiverem localizados sequencialmente na conversa de modo a serem assim interpretados na

perspectiva dos participantes.