CAPÍTULO 3: A CONVERSÃO DA LIBERDADE E SUAS IMPLICAÇÕES MORAIS
3.3 A CONVERSÃO DO PROJETO FUNDAMENTAL EM O SER E O NADA
Para Sartre (SN, p. 590-ss), o projeto fundamental caracteriza o próprio ser da realidade humana, o qual consiste não na relação com objetos particulares, mas estabelece qual é a própria relação do Para-si com o ser e o seu próprio ser-no-mundo, os quais se desvelam sob a luz do fim ao qual tendem os projetos particulares. Contudo, esse projeto fundamental somente se realiza na temporalidade e a partir do mundo, pois se não há valores absolutos e nada que garanta a sua permanência, é preciso que a sua eleição seja refeita perpetuamente. Assim, a escolha do projeto temporaliza-se pela liberdade que pelo futuro constitui o presente, e ao ultrapassá-lo confere-lhe o caráter do Em-si como passado petrificado. Dessa forma, o projeto se funda na liberdade, pois se não há nada dado de antemão que possa qualificar o ser do Para-si, o seu projeto de ser necessita ser renovado a todo instante. Trata-se das escolhas perpétuas que o Para-si faz e que se identificam com a perseguição de seu próprio ser no presente, visto que a liberdade sendo um nada de ser, não se identifica com a inércia do passado.
Mas, precisamente por tratar-se de uma escolha, essa escolha na medida em que se opera, designa em geral como possíveis outras escolhas. A possibilidade dessas outras escolhas não é explicitada nem posicionada, mas vivida no sentimento de
injustificabilidade, e exprime-se pelo fato da absurdidade de minha escolha e, por conseguinte, de meu ser. Assim, minha liberdade corrói minha liberdade. Sendo livre, com efeito, projeto meu possível total, mas, com isso, posiciono o fato de que sou livre e de que posso sempre nadificar esse projeto primordial e preterificá-lo. (SN, p. 591)
Desse modo, a relação que o Para-si estabelece com o projeto consiste na reassunção contínua e sem interrupção de seu desenvolvimento nas possíveis escolhas injustificadas, pois entre elas não há uma que prevaleça sobre a outra valorativamente, o que remete à absurdidade do ser do Para-si ao eleger um fim. A reassunção contínua do projeto se liga diretamente à sua preterização, processo que se desdobra na continuidade do presente pelo porvir, no qual a consciência se ocupa de seus fins. Contudo, esse processo pode cessar, na medida em que o Para-si, sendo livre, tem a possibilidade de objetivar o seu passado, de toma- lo à distância e escolhê-lo como fim, pois “[...] o passado só é aquilo que é em relação ao fim escolhido” (SN, p. 612). Assim, apesar de o passado não ser determinante do presente, é possível modificar a significação de um fato passado em relação à totalidade do Para-si, e, portanto, este é totalmente dependente do presente. Pois como afirma Sartre, “[...] o projeto fundamental que sou decide absolutamente acerca da significação que possa ter para mim e para os outros o passado que tenho-de-ser” (SN, p. 612). Portanto, o passado somente adquire seu sentido através do Para-si ao eleger o fim de seu próprio projeto.
A todo instante é possível ao Para-si considerar a sua escolha fundamental como injustificada e na total contingência. Pois, é na experiência da angústia, como visto anteriormente, que o Para-si experimenta a vertigem diante da liberdade, e, além disso, compreende que todas as suas escolhas são injustificadas, ou seja, não dependem de qualquer realidade anterior e ao mesmo tempo devem constituir o fundamento das significações que constituem o mundo. Como afirma Sartre:
Daí a minha angústia, o temor que sinto de ser subitamente exorcizado, ou sejam de tornar-me radicalmente outro; mas daí também o frequente surgimento de “conversões”, que fazem-me metamorfosear totalmente meu projeto original. Não estudadas pelos filósofos, essas conversões, ao contrário, inspiraram amiúde os literatos. [...] Esses instantes extraordinários e maravilhosos, nos quais o projeto anterior desmorona no passado à luz de um projeto novo que surge sobre suas ruínas e que apenas ainda se esboça, [...] tais instantes em geral têm podido fornecer a imagem mais clara e comovedora de nossa liberdade. Mas constituem apenas uma entre outras de suas manifestações. (SN, p. 586)
O projeto fundamental para Sartre é o meio pelo qual a vontade preside as suas ações de forma paradoxal, pois, por um lado, é possível ao Para-si constituir-se voluntariamente e,
por outro, os seus atos voluntários operam através do projeto fundamental, que por sua vez é instável. Desse modo, o Para-si aparece sempre comprometido em sua escolha, que por ser injustificável, pode ser modificada a qualquer instante, pois escolher o seu modo de ser é eleger um porvir do qual não possui nenhuma determinação de seu resultado, e por isso, uma pura possibilidade.
Assim, estamos perpetuamente submetidos à ameaça da nadificação de nossa atual escolha, perpetuamente submetidos à ameaça de nos escolhermos - e, em conseqüência, nos tornarmos - outros que não este que somos. Somente pelo fato de que nossa escolha é absoluta, ela é frágil; ou seja, estabelecendo nossa liberdade por meio dela, estabelecemos ao mesmo tempo a possibilidade perpétua de que nossa escolha converta-se em um aquém preterificado por um além que serei. (SN, p. 573)
Para Sartre, a “[...] conversão radical de meu ser-no-mundo, ou seja, por uma brusca metamorfose de meu projeto inicial [...] (SN, p. 572) se situa sobre a angústia diante da injustificabilidade de nossas escolhas futuras, pois estas não possuem nenhuma motivação senão a própria liberdade. Esse caráter injustificável se liga ao fato de que o projeto anterior adquiriu a consistência de um Em-si petrificado, isto é, incapaz de estabelecer qualquer relação necessária ou determinante com o presente ou com o projeto futuro, portanto, completamente exteriores em relação ao outro. E, assim, o Para-si se mostra como inconsistência de ser. Neste sentido, a constante possibilidade de uma nova escolha que altere o projeto fundamental é aqui considerada um tipo de conversão, pois seu fundamento é a própria liberdade e não algum tipo de motivação externa. Caso fosse assim, não seria possível a constituição de novos valores e a escolha de novos fins. Como afirma Sartre, “[...] captamos nossa escolha como algo não derivado de qualquer realidade anterior e, ao contrário, como algo que deve servir de fundamento ao conjunto das significações que constituem a realidade” (SN, p. 573). Dessa forma, a partir do modo como Sartre concebe a liberdade como gratuita e sem justificativas, é possível afirmar a possibilidade de constantes conversões que modificam o seu projeto, sem, no entanto, garantir-lhe nenhum tipo de permanência no ser, e, portanto, uma conversão sem motivos e operada sem nenhuma modificação significativa do modo de ser do Para-si que implique na esfera da moralidade. “Nenhuma lei de ser pode estipular o número a priori dos diferentes projetos que sou: a existência do Para-si, com efeito, condiciona sua essência” (SN, p. 592).
Apesar de Sartre referir-se em O ser e o nada (2005 [1943]) a uma “conversão radical”, esta mesma ideia não se vincula ao conceito de autenticidade, pois a conversão, como é tratada nessa obra, não modifica o modo de ser da liberdade, ela permanece em si
mesma disponível para modificar o seu projeto ou permanecer no mesmo e sem nenhuma motivação especial ou prática. Sendo assim, é possível afirmar que, nesse contexto, a ideia de conversão não adquire a tessitura moral que será apresentada já no início dos Cahiers por une
morale (1983):“A moralidade: conversão permanente. No sentido de Trotsky: revolução
permanente. Os bons hábitos: eles jamais são bons porque são hábitos” (CPM, p. 12, tradução nossa)58. Nesse sentido, é preciso concordar com o argumento de Córdua (1994, p 146), de que a conversão tratada em O ser e o nada (2005 [1943]) não modifica a liberdade, nem como progresso e nem como um aspecto da história do indivíduo, e assim, a simples conversão de um projeto em outro não poderia ser considerada uma verdadeira conversão. Aqui, trata-se apenas de uma relação de rompimento com o passado, que apesar de representar uma mudança no projeto original, não possui nenhum tipo de relação com algo exterior ao próprio projeto, ou mesmo com o novo projeto. Se para Sartre, não há uma consistência essencial que afirme a identidade do sujeito, valores ou fins objetivos que possam orientar as escolhas do Para-si enquanto liberdade, quando ocorre a conversão de um projeto em outro, nada subsiste, pois qualquer característica ou valor possíveis dizem respeito à própria unidade interna do projeto e, por essa razão, permanece a indiferença. Assim, qualquer projeto novo que se escolhe se torna equivalente a todos os outros, pois a substituição de um pelo outro é indiferente. Nisso consiste a liberdade sob a perspectiva da ontologia fenomenológica de Sartre, uma liberdade capaz de converter seu projeto fundamental, sem, no entanto, converter- se em autêntica.
Contudo, é preciso adiantar que em Sartre há uma outra perspectiva teórica sobre a conversão da liberdade, cujo alcance se desdobra no terreno da moralidade. Trata-se da teoria da conversão apresentada nos Cahiers pour une morale (1983), a qual descreve uma verdadeira assunção de um outro modo de ser da liberdade que se realiza pela reflexão pura: a autenticidade. De acordo com David Detmer (2008, p. 140), é somente nos Cahiers por une
morale (1983) que Sartre torna clara a relevância dos dois tipos de reflexão para uma
conversão radical da liberdade. A reflexão impura falha ao ocupar-se de questões fundamentais e limita-se a questões secundárias sobre os fins da ação, pois aparece como um mero acessório para a deliberação dos meios empregados para atingir esses fins. Nessa modalidade da reflexão, pressupõe-se que não há livre eleição dos fins, pois estes são tomados como dados e diante dos quais pouco pode ser feito, e, portanto, uma reflexão de má-fé. Já a
58“La moralité: conversion permanente. Au sens de Trotsky: révolution permanente. Les bonnes habitudes: elles
reflexão purificante, opera justamente ao contrário, pois se dirige aos fins fundamentais da ação tematizando-os e colocando-os em questão, revelando que não são necessários e muito menos determinados, mas sim, possibilidades puras. Desse modo, a reflexão purificante, ajuda a promover a autenticidade e a fuga da má-fé, pois se obtém a partir dela, uma compreensão lúcida da relação entre a consciência e seus fins, da possibilidade de aceitá-los ou rejeitá-los por uma escolha reconhecidamente livre.