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4 COEXISTÊNCIA DOS IDEÁRIOS MODERNO E TRADICIONAL

4.7 A CONVERSÃO MATERNA E AS PRÁTICAS EDUCATIVAS

Ressaltamos ainda o fato de que a maior parte das mães entrevistadas, de ambos os grupos, afirmaram que a conversão religiosa gerou mudanças em suas práticas educativas.

Elas relataram alterações, sobretudo em seus temperamentos, afirmando terem se tornado mais calmas e pacientes com os filhos (antes se consideravam mais agressivas), mais voltadas ao diálogo (antes gritavam com os filhos) e mais compreensivas. Já as mudanças relatadas sobre as práticas educativas, tais como o aumento do controle ou dos limites impostos aos filhos, foram relacionadas sobretudo à visão negativa do “mundo”, encarado como “ambiente externo ao lar” e por isto considerado lugar inseguro, violento, perigoso, pernicioso e difusor de “contravalores”, sendo os valores do “mundo” e os do “evangelho” considerados opostos. Portanto, as mães vêem a necessidade de protegerem os filhos ou os isolarem do “mundo” a fim de que tenham um baixo envolvimento com este. É o que Foucault (1987) chama de “cordão sanitário”, como já foi apresentado.

Eu era liberal, então achava que eles próprios escolhiam o caminho deles e eu só estava ali para segurar na mão, se desse certo ou errado. [...] Depois da minha conversão que o Senhor Jesus começou a me falar, direcionar e me tratar foi que eu fui ver o quanto eu tinha errado com meus filhos. [...] Eu não coloquei limites e eu acho que eu deveria ter colocado, esse é o erro, eu não coloquei limites como mãe liberal e deveria, porque ser mãe liberal não é deixar fazer o que quer, ser mãe liberal é respeitar o direito deles decidirem a respeito da vida deles, mas não deixá-los irem de forma frouxa, fazendo o que quiserem sem antes eu dar a minha posição. [...] Mas enquanto estão dependentes, eu tenho que impor limites e eu não fiz isso, a hora do sim e a hora do não e o que mudou foi isso e isso foi a visão bíblica, a Bíblia nos ensinando essa postura de mãe e o relacionamento com os filhos e como criar os filhos. [...] Hoje eu faço a comparação e vejo que ela [Lívia, a filha mais velha] quebrou muito a cara, poderia ter sido mais feliz se fosse dentro de uma educação como eu dou a Sara hoje. (Valquíria - Disciplinadora)

Por outro lado, duas (uma disciplinadora e outra democrática) disseram que, após a conversão ficaram mais tranqüilas ou mais “descansadas em Deus” com relação aos filhos, uma vez que “Deus tem o controle de tudo” e que os seus filhos pertencem antes de tudo a Deus do que a elas.

Por meio da análise das entrevistas das mães evangélicas com maridos não crentes, podemos verificar a coexistência de práticas educativas pertencentes aos dois modelos de socialização estudados: o democrático e o disciplinador. Assim, estas práticas se apóiam por um lado em um ideário mais simétrico entre pais e filhos, e por outro em um paradigma que envolve a hierarquia nas posições intrafamiliares.

Constatamos também que estas mulheres por valorizarem a autoridade paterna e considerarem positiva a participação do marido no processo educativo do filho, não “fecham” ou “enfraquecem” essa relação, ao contrário do que poderia se pensar.

Ressaltamos ainda a incoerência por parte de algumas mães evangélicas que, não obstante afirmarem ser o marido a liderança doméstica, consideram a si mesmas como as principais responsáveis pelo cuidado e orientação dos filhos. Entretanto, as mães não atribuem ao marido a liderança espiritual da família, assumindo para si a responsabilidade também da orientação religiosa dos filhos. Pensamos que estas questões se relacionam ao não compartilhamento da fé pelo marido que, possuindo valores e visão de mundo diferentes, levam estas mulheres a assumir a tarefa da dupla orientação – temporal e espiritual.

Além disto, a maior parte das mulheres evangélicas afirma possuir autonomia no processo de socialização dos filhos e se consideram como a parte mais forte do casal, no sentido da tomada das decisões na família e do exercício do disciplinamento dos filhos. Visto isto, podemos entender porque afirmam que seus maridos têm uma participação marginal na educação dos filhos, apesar da literatura afirmar que isto tende a ser diferente nas camadas médias. Segundo elas esta baixa interferência do marido acontece por uma decisão dele. Assim, mesmo sem compartilhar de sua religião, as mulheres entrevistadas não tendem a afastar o marido dos filhos, pelo contrário, vêem como benéfica para a integridade psíquica do filho o contato mais próximo com seu pai.

Observamos também que, sobretudo, as mães disciplinadoras valorizam recursos e ideários ligados também à Moralidade Religiosa caracterizada pelos seguintes aspectos: crenças e atitudes a respeito da criação de filhos vêm basicamente da religião, valorização da autoridade paterna (assumindo o homem o papel de comando e a mulher de submissão) e a preocupação com a formação moral dos filhos. Mediante tais concepções podemos compreender a utilização das regras, dos limites e do controle exercido pelas mães na tentativa de diminuir as influências das concepções do “mundo” no conteúdo educativo que buscam transmitir aos filhos. Seguindo este raciocínio, podemos entender porque as mães evangélicas se consideram mais exigentes e controladoras que seus maridos.

Além disto, apesar das mães evangélicas afirmarem que a conversão do filho se dá por seu livre-consentimento ou livre-arbítrio, observa-se que elas criam condições que facilitam este aceite durante o processo de formação do filho, tal como o “fechamento” deste para o “mundo”. Este e outros fatores são reforçados pelas igrejas e cooperam para a reprodução dos evangélicos, como grupo social.

Nesta análise vimos ainda que, apesar das mulheres entrevistadas pertencerem às camadas médias e serem casadas com um homem que não compartilha da mesma fé, os modelos educativos que assumem possuem características sobretudo do ideário protestante, considerado por nós como disciplinador. Deste modo, as mulheres entrevistadas têm suas

formas de pensar e ver o mundo articuladas com os preceitos religiosos. Além disto, os princípios pregados pelos evangélicos, tais como postura regrada, opção por dizer a verdade, negação de vícios, bom senso e equilíbrio, cooperam para a ordem social. A este respeito, Bittencourt Filho (1994) afirma que esta escala de valores não traz nenhuma novidade. São os velhos princípios socialmente aceitáveis e engendrados pela ordem estabelecida e que adestram as pessoas para cumprirem fielmente seus papéis sociais. Como registra Machado (1996), a religião se afirma, aliada à família tradicional, como uma entidade contramodernizante. Assim, as concepções religiosas nas práticas educativas das mães pesquisadas, revelam uma moralidade conservadora e disciplinadora no processo de criação dos filhos, confirmada e fortalecida pelas lideranças evangélicas.

Neste sentido, observamos que as mães disciplinadoras criticaram por vezes alguns aspectos da educação contemporânea, tal com a questão da falta dos limites e o enfraquecimento da autoridade parental. A estas questões atribuem a desordem social e a “desestruturação” familiar. Então, relacionam o processo educativo à necessidade de um retorno a princípios que se perderam ou estão em vias de degradação.

Além disto, no esforço dos evangélicos por conciliarem duas exigências que se contrapõem - a reprodução do grupo e o livre-arbítrio - pensamos que este último princípio pode dificultar a realização do primeiro. Assim, percebemos pela análise das entrevistas das mães evangélicas que há um enorme esforço de seus membros para tentar conciliar estes dois fatores. Por esta razão, entendemos que este grupo social busca criar um meio homogêneo com vistas à formação de novos membros, meio, que para ser fortalecido, precisar ser permeado da doutrina religiosa das mães.

Entretanto, como foi visto, o ideário democrático também está presente nas concepções educativas das mães entrevistadas, o que revela as influências dos paradigmas contemporâneos na área de socialização de filhos.

Por fim, embora os relatos de algumas mães evidenciem o caráter democratizante, estas ainda guardam muitos aspectos do modelo disciplinador. Da mesma forma, as mães mais disciplinadoras, também apresentaram vários pensamentos de caráter democrático, uma vez influenciadas pelo ideário moderno. Assim, constamos os dois modelos no relato de uma mesma mãe, um fato já registrado por diversos autores: a coexistência do tradicional e do moderno.