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3 Rádio Debate em contexto

4 A greve e as estratégias discursivas do debate radiofônico

4.5 Análise da conversação no debate sobre a greve

4.5.2 A conversação no 2º programa

Neste programa, o mediador concedeu o turno 10 vezes aos locutores: quatro para a secretária de Educação Básica do Estado do Ceará (L3); três ao membro da direção do sindicato (L2); e três à professora autônoma (L4). Neste programa, há menos intervenções e tomadas de turno. Os locutores falam em grandes blocos sem serem interrompidos com muita frequência. Os trechos apresentados a seguir irão mostrar um pouco da interação entre os locutores e a participação do mediador na concessão e interrupção das falas.

No próximo trecho, L3 (secretária de educação) fala sobre a sustentação do orçamento do estado, quando L1 (mediador) interrompe e passa a palavra para L2 (representante do sindicato).

(22) L3: /.../ então (+) pela proposta (+) eh: esse esse percentual (+) ele era calculado em cima do vencimento’ do do do nível 1’ e não do nível que o professor tava

L1: [certo (+) agora L331

L3: então tinha esse questionamento que ESTÃO aí que o governo já tem afirmado’ ah ah ah assim’ estão À MESA novamente, pra que nós possamos fazer’ né’ os devido (+) as contas’ né’ sempre’ porque nós lidamos com a sustentabilidade de um orçamento’ isso aí a gente não pode (+) né’ infelizmente

L1: fugir

L3: é (+) fugir disso (+) orçamento de pessoal, quem conhece um pouco de orçamento público sabe o que que é né’ então

L1: [hein L232 cê qué falar’’

L2: quero (+) eu gostaria de falar um pouquinho

L3: [[bem questionável esse ponto

L1: eu tenho umas perguntas aqui

L2: [eu eu

31 Fala o nome da secretária de educação. 32 Fala o nome do representante do sindicato.

L1: depois da fala do L233 eu vou fazer’ pra dar atenção ao ouvinte aqui

L2: eu acho que é necessário a gente esclarecer à sociedade (+) até porque estão ouvindo agora (+) fazer um breve histórico (+) porque chegamos até esse momento /.../

No momento da interrupção, L3 já dava sinais de que estaria concluindo sua fala. Para Marcuschi (1998), a conclusão de um enunciado, entonação baixa, pausa e hesitação são marcadores relevantes que indicam a conclusão do turno, entretanto, não são absolutos. Ainda que a fala de L3 (secretária de educação) no momento da interrupção apresentasse esses sinais, o uso do “então” marcava que o turno ainda não tinha se completado, resultando numa tomada de turno e em sobreposição de vozes provocada por L1 (mediador).

No momento da interrupção por L1, a secretária de educação já vinha falando durante cerca de 8 minutos em respostas a questionamentos lançados pelo mediador. Então, a interrupção teve o caráter de fazer a conversa seguir com outras opiniões. Ao conceder a palavra a L2 (representante do sindicato), o mediador não lançou um tema, o que fez com que o tópico sobre orçamento público mudasse para outro totalmente diferente, sobre o histórico que explicava a greve.

Em (23), L2 fala sobre a tabela salarial proposta pelo governo.

(23) L2: /.../ se outro nível é 2 mil reais (+) era 200 reais, né’ fica fixa (+) (+) era um valor fixo (+) era como se fosse do primeiro nível (+) 100’ se o primeiro nível

L1: [não seria mais percentual’’

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L2: não seria mais percentual’ seria algo fixo (+) então isso é uma perda pra gente (+) então por isso é que nós somos contra isso (+) né’’ (+) (+) o:::

L1: porque de todo jeito percentualmente você tem uma indexação’

L2: clã:::ro claro (+) então a gente não (+) mhm mhm essa tabela não tinha isso.

L3: [era percentual’ mas sempre ao nível 1 (+) né’’

L2: é (+) sempre ao nível UM

L3: se o nível (+) (+) quando aumentasse o o o:: a revisão de salário’ o aumento de salário’ teria também o aumento’ mas sempre no nível 1 e não no nível que a pessoa tá

L2: [mas isso causaria uma perda enorme (+) né’’ porque a gente não tem aqui’ isso era algo absurdo’ (+) outra coisa’ as gratificações né’ então não haveria mais o nível para mestrado’ o nível para especializaç/ ganha uma gratificação’ foi o que a professo::ra:: (+) Rita né’’

L4: Ritacy

L2: Ritacy falou /.../

Durante a fala do representante do sindicato (L2), o locutor recebe intervenções de seus interlocutores, não numa forma de tentar assaltar o turno ou de negar algo que está falando, mas de uma maneira a complementar sua fala. A secretária de educação

(L3), por exemplo, fala para explicar como era a tabela, e não para defendê-la, complementando a resposta de L2. No trecho, o mediador faz perguntas sobre o tópico em discussão, de forma a manter a sequência de turnos de L2.

No trecho seguinte, L3 (secretária de educação) é interrompida pelo mediador e tem seus argumentos contrapostos por L4 (professora autônoma).

(24) L3: /.../ ainda é muito pouco’ num é’ porque (+) os professores da rede estadual (+) que na maioria deles (+) trabalha com o ensino médio (+) enfrentam grandes problemas com a base escolar fragilizada desses meninos’ então

L1: [ô, L334, eu lamentei cortar agora porque os outros

L4: [eu gostaria de responde::r

L1: eu só tenho mais 4 minutos’ gostaria de...

L4: [ok (+) L3’ eu sei que os computadores’ a doação dos computadores vem de uma lei (+) o que eu questionei não foi isso’ nem um professor vai ficar insatisfeito por seu aluno receber um computador

L3: [É (+) com certeza

L4: [o que eu estou falando é que esta propaganda surgiu imediatamente agora porque foi a mane:::ira de contra ataca:::r do governo no momento, tendeu’’ E E:: por falar em informação (+) você tem sempre tocado nesse ponto (+) você tocou na informação sobre

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o orçamento (+) o orçamento (+) se o estado quiser (+) ele pode retirar algo de outra parte e colocar na educação (+) se nós temos um problema grave de educação’ então esse orçamento tem que ser revi::sto (+) é preciso haver (+) isso inclusive conforme a própria Constituição

L1: mhm mhm

No momento da interrupção pelo mediador, a secretária (L3) expôs seus argumentos por um grande período de tempo, novamente, cerca de 10 minutos seguidos. Nesse período, o mediador faz perguntas, mas tenta interromper a secretária quatro vezes. Quando L1 (mediador) interrompe L3, a professora autônoma (L4) aproveita para tomar o turno e contrapor os argumentos de L3. Durante a fala de L4, o mediador tenta interrompê-la, emitindo sons guturais e não lexicalizados.

Durante os dois debates, percebe-se uma forte presença de recursos verbais, uma classe de marcadores própria da língua falada, como o “né” e o “não é”. De acordo com Marcuschi, esses recursos formam uma classe de palavras ou expressões altamente estereotipadas, de grande ocorrência e recorrência, que “não contribuem propriamente com informações novas para o desenvolvimento do tópico, mas situam-no no contexto geral, particular ou pessoal da conversação” (Marcuschi, 1998, p. 63). O autor afirma que alguns recursos não são sequer lexicalizados, como “mm”, “anrram”, entre outros, também utilizados pelos outros locutores.

Neste programa, percebe-se a grande predominância das falas da secretária de educação. No entanto, essa predominância não se configura como uma parcialidade na condução do programa pelo mediador. Já perto do fim do debate, ao receber perguntas dos ouvintes, o mediador fala para a secretária: “você é a vidraça, obviamente, é aquela que representa o governo aqui. Tá no papel de vidraça. E haja pedra”. São muitas as acusações feitas ao governo, por isso a maior quantidade de perguntas é para a secretária (L3). No entanto, quando L3 tem a posse do turno, ela sabe como utilizá-lo, falando por longos períodos de tempo se comparado a seus interlocutores.

Os poucos questionamentos direcionados ao sindicato e os longos turnos de fala de L3 (secretária de educação), leva a perceber a dominância da representante do governo durante o debate. A forma polida em que agia contribuía para L3 continuar falando e para conseguir a empatia do ouvinte, diante da grande repercussão negativa do Governo do Estado no desenrolar dessa greve. L1 (mediador), no entanto, tentava interromper quando a secretária falava por muito tempo, mas nem sempre o assalto era eficaz.