3. A indústria de Software Pós Internet
3.2 A corrida patentária e os custos de transação
3.2.1 A corrida de patentes de software exógena à indústria de software
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econômicos. Como apresentado no capítulo 1, na década de 90 houve um aumento no número de patentes depositadas em geral e num ritmo mais acelerado de patentes de software. Comparando-se as séries de tempo do total de patentes e das patentes de software, observa-se que as patentes de software cresceram exponencialmente neste período, assim como o número total de patentes, mas não com o mesmo parâmetro. O crescimento das patentes de software foi maior (proporcionalmente) que o crescimento do número total de patentes (Tame, 2007).
Como apresentado no Gráfico 3.3 abaixo, utilizando a técnica de classificação de Bessen e Hunt (2004a)84, na década de 80 cerca de 1.000 patentes foram concedidas por ano, o que aumentou para
cerca de 5.000 por ano na década de 90, sendo que a taxa dobrou em 1996. Em 2002, foram concedidas 25 mil patentes. Trata-se de um crescimento muito mais acentuado que o do patenteamento em geral (Bessen e Hunt, 2004b).
Segundo Bessen e Hunt (2004a), entre 1987 e 1996, o número de patentes de software concedidas aumentou 16% ao ano, um aumento bem mais expressivo que o do gasto em P&D e o das taxas de emprego. Os fatores que podem ter contribuído para este crescimento foram: aumento da atividade de P&D em geral, especialmente da parte da P&D que usa software, maior produtividade no desenvolvimento do software, melhor relação custo-benefício da eficiência das patentes, entre outros fatores. Os autores acreditam que grande parte do crescimento aconteceu como resposta ao fortalecimento das patentes para as invenções de software.
84 Na literatura são apresentadas pelo menos três formas de classificar uma patente como patente de software. A mais
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Gráfico 3.3 – Patentes concedidas nos EUA (total e patentes de software) – 1971 a 2006 Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Bessen/Hunt_technique
Nota: A sequência do total de patentes foi plotada no eixo secundário à direita.
Segundo as análises de Bessen e Hunt (2004b) realizadas com dados do USPTO, a maior parte das patentes classificadas como patentes de software pertence a empresas que não são classificadas como empresas de software. Conforme apresentado na Tabela 3.3, apenas 5% das patentes de software são de empresas classificadas na classe SIC 7372 (equivalente à classe 7220 da CNAE 1.0 – Consultoria em Software: Desenvolvimento e Edição de Software Pronto para o Uso e Software sob Encomenda) e apenas 2% nas outras classes da SIC 73 (equivalente ao grupo 72 da CNAE 1.0). Apenas três setores da indústria de manufatura detêm 2/3 de todas as patentes de software (máquinas e equipamentos; material eletrônico e de aparelhos e equipamentos de comunicações e equipamentos de instrumentação médico-hospitalares, instrumentos de precisão e ópticos, equipamentos para automação industrial, cronômetros e relógios). Estes três setores detêm 54% das patentes em geral. As empresas que mais conseguiram patentes em software estão entre as que mais detêm patentes em geral – nove das dez empresas com mais patentes de software em 1995 estão entre as 20 empresas que mais obtiveram patentes em geral (Bessen e Hunt, 2004b).
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Tabela 3.3 – Patentes concedidas para aplicações de software por indústria (1994-1997)
Fonte: Bessen e Hunt (2004a, p.49).
Isto se deve, em parte, à definição ampla de patente de software adotada por Bessen e Hunt, que tende a super-representar patentes que não são de software das empresas de hardware e de outras indústrias produtoras de equipamentos que usam software como produtos ou processos. Isto ocorre segundo Graham e Somaya (2004) devido à técnica de classificação das patentes de uso com o uso das palavras-chave “software” e “programas de computador” no título ou requerimentos das patentes. Esta ressalva não desqualifica a análise destes autores, mas mostra uma característica importante: a corrida patentária ocorre quase toda fora da indústria de software, sendo que no interior da indústria de software é concentrada em grandes players.
Segundo os autores, trata-se de um fenômeno principalmente norte-americano. 70% das patentes de software têm como proprietários empresas com base nos EUA, sendo que este índice é de 51% para as patentes em geral. Além disso, o proprietário típico de uma patente de software é uma empresa relativamente grande e bem estabelecida.
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Usando análise de regressão, Bessen e Hunt (2004a) observaram um efeito de substituição da intensidade do P&D por patentes. Isto de certa forma inverte a lógica teórica de que a solicitação de uma patente é uma decorrência da atividade de P&D. E a patente obtida, por sua vez, representa um incentivo para o inovador continuar realizando inovações, ou seja, o mecanismo de recompensa presente na patente realimentaria a atividade de P&D. Entretanto, os autores observaram um efeito de substituição:
De acordo com a teoria tradicional do incentivo, tornar as patentes mais efetivas deveria aumentar a lucratividade das empresas que realizam invenções de software. Isto, por sua vez, induzir-nas-ia a aumentar seu gasto com P&D. Para testar se isto de fato aconteceu, nós usamos uma técnica empírica bem estabelecida de estimar as elasticidades do fator de substituição. Nós mostramos que a hipótese do incentivo pode ser refeita como a hipótese que P&D e patentes são complementos. Isto significa que aumentos de apropriabilidade do software deveriam resultar maior intensidade de P&D. Entretanto, não foi este o caso. As empresas que aumentaram seu patenteamentode software em relação ao total do patenteamento tenderam a diminuir a intensidade de P&D em relação às outras empresas. Este resultado é robusto a uma variedade de considerações econométricas e de outros tipos. Mas, novamente, este efeito é concentrado em indústrias conhecidas pelo patenteamento estratégico85(Bessen e Hunt, 2004a, p.4-5).
Os mesmos autores apontam que as mudanças na legislação da propriedade intelectual (e desta forma nas condições de apropriabilidade) devem implicar poucas mudanças na estrutura da indústria. Em geral, as empresas utilizam como principais mecanismos de apropriabilidade, o lead-
time, o learning-by-doing e os serviços complementares, utilizando patentes de forma secundária:
Qualquer melhoria na apropriabilidade suportada pelas patentes não deve ter um efeito drástico na estrutura de mercado destas indústrias porque as firmas já possuem apropriabilidade significativa. [...] nós achamos que as patentes de software não devem influenciar as margens de lucro significativamente, sugerindo também que a estrutura
85 As indústrias conhecidas pelo patenteamento estratégico são indústria de computadores (SIC 35 e IBM), eletrônica
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industrial não deve mudar dramaticamente em resposta à disponibilidade de patentes de software (Bessen e Hunt, 2004, p.28).