Outros quatro estudos a respeito da corrupção, que corroboram com as evidências empíricas apresentadas até agora, merecem atenção. São os trabalhos de Boito Jr (2016), Martuscelli (2016), Moretti (2017) e Cavalcante (2018). Esses trabalhos fogem à temática das organizações, no entanto são importantes, pois mostram as condições do Brasil no contexto político global e, como elas se relacionam com a ideia de corrupção que circula atualmente no país. Assim, embora não falem dirtamente de organizações privadas, estes trabalhos apresentam como a corrupção passou a ser significada desde 2013 até os dias de hoje.
Boito Jr. (2016) analisa o papel da Operação Lava-Jato no que tange o conflito entre as burguesias nacional e internacional. Demonstra que a Operação Lava-Jato foi incentivada pela burguesia externa, que defende os interesses liberais internacionais, e lhe serviu para atacar ao PT e aos setores que se beneficiaram em seu governo: a Petrobrás e as construtoras. Resumindo seu argumento:
É isso que presenciamos no Brasil com a operação Lava-Jato: o imperialismo e a fração da burguesia brasileira a ele integrada utilizam politicamente a corrupção para destruir a hegemonia que a grande burguesia interna brasileira obteve com os governos do PT. (BOITO JUNIOR, 2016, p. 6).
Martuscelli (2016) reúne esses elementos em uma análise do discurso contra a corrupção que acompanhou as últimas crises políticas do país, a saber: 1992, 2005 e 2015-2016. O que o autor argumenta é que apesar de ser do interesse da burguesia internacional, o discurso contra a corrupção é essencialmente uma pauta da classe média nacional, que pode tomar formas progressivas (favoráveis a políticas de bem-estar social) ou regressivas (refratárias a políticas de bem-estar
social), a depender do contexto específico da crise em questão. Todos os discursos são definidos por ele como um tipo de estatismo, na medida em que defendem a existência do Estado enquanto encarnação do interesse público.
O autor determina que em 1992, a pauta da corrupção teve um caráter progressista, por não se configurar como uma crise do capitalismo, e sim um momento de fortalecimento, ou estabelecimento das instituições democráticas, e o bem-estar social, ainda que moderado, que elas oferecem. Na crise de 2005, o discurso toma caráter regressivo. Martuscelli (2016) explica isso pelo descontentamento dos setores associados à burguesia internacional com as reformas realizadas no projeto neo-liberal pelos governos do PT, que beneficiaram as principais camadas da burguesia nacional. Ainda segundo o autor, embora tenha passado de progressista para regressista, o discurso não teve tanta repercussão, em função da grande popularidade do Governo de Luís Inácio Lula da Silva – Lula – que aconteceu entre 2002 e 2010.
Por fim, em relação à crise de 2015-2016, período no qual se dá a Operação Zelotes, o autor encontra um discurso de caráter regressivo, e que desta vez pôde se difundir e ganhar força. De acordo com ele, esse discurso se inicia durante as manifestações massivas de junho de 2013, período durante o qual o discurso contra a corrupção homogeneizou as diversas pautas dos milhões de brasileiros, de interesses políticos diversos, que compareceram nas diversas manifestações. E então, esse discurso foi apropriado pela classe média que apoia os interesses liberais, e recebeu apoio de grande parte da burguesia (com papel de destaque para a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a Operação Lava- Jato) durante o processo de impeachment de Dilma Roussef. O autor conclui:
Na conjuntura da crise do governo Dilma, o discurso contra a corrupção transformou-se no grande álibi utilizado para amenizar a feição profundamente conservadora da política de Estado defendida pelos setores que apoiaram o golpe de Estado. (MARTUSCELLI, 2016, p. 31).
Outro ponto importante é identificado por Moretti (2017). O autor analisa o processo de impeachment de Dilma Roussef, afirmando que nos discursos envolvidos no processo, com protagonismo do discurso contra a corrupção, há a distribuição de papeis e identidades, onde o mercado é definido por produtividade, soluções para a crise, enquanto o Estado é marcado por sinal negativo.
Todas essas evidências mostram que o discurso de combate à corrupção é plástico e flutuante quanto aos seus significados. Enquanto tal, lhe é permitido que seja atribuído significado conforme os interesses em pauta em uma determinada cena. No contexto atual brasileiro, que conta com uma crise política que tem como um dos principais discursos o combate à corrupção, viu-se que o mesmo está associado a um movimento do setor financeiro contra as reformas no projeto neo-liberal promovidas pelo governo PT. Esse movimento se caracteriza por um caráter regressivo, isto é, averso a políticas de bem-estar social (MARTUSCELLI, 2016). Nesse contexto, as organizações se colocam como parte do mercado, instância virtuosa dentro das relações sociais, contexto no qual idealmente funcionam realmente bem a liberdade, a igualdade e o mérito.
Viu-se ainda que o discurso contra a corrupção é um fenômeno ligado à classe média e a seus interesses. Cavalcante (2018) explica por quê. O autor define a classe média como o setor da sociedade que é composto predonimantemente por assalariados que cumprem os trabalhos intelectuais, no mercado e no Estado. Por buscar distinção social, a classe média desvaloriza o trabalho manual. O autor, então, faz a distinção entre as noções de trabalho duro e mérito. A primeira se refere à valorização do trabalho e do esforço, sem que esses se relacionem à ideia de êxito ou eficiência.
A segunda prevê que o êxito é explicado pelo esforço. O endosso da ideia do mérito pela classe média está ligado à legitimação de sua distinção social, adquirida através dos estudos. Através do esquema cognitivo “quem vence na vida se esforçou mais”, se justifica a distinção social. E essa noção, por sua vez, prevê a igualdade de oportunidades. Essa legitimação dominante por sua vez, é importante inclusive para determinar o quanto o trabalho intelectual valerá mais do que o trabalho manual. Por isso, a classe média tem interesse em defender esses ideais, ainda que se beneficie da desigualdade social. Por isso também dentre as pautas dos discursos da classe média constam a educação, instituição que legitima a ideia de igualdade de oportunidades, e o direito, isto é, a confiança na lei.
A questão decisiva, de acordo com Cavalcante (2018), reside no fato de ser a burocracia do Estado o lugar social que endossa o ideal do mérito, com propostas formais de carreira abertas a todos, ao passo que o mercado não se compromete
formalmente com isso. Assim, o autor afirma que o discurso contra a corrupção recentemente empregado pela classe média teve a característica de alterar esse compasso meritocrático do Estado para o mercado. Isso, como vimos, no Brasil, é feito demonizando o Estado e divinizando o mercado (SOUZA, 2009).
Os efeitos disso se encaixam na noção de ideologia da competência descrita por Chauí (2008), onde o advento da organização enquanto instituição social coloca todo indivíduo inserido na sociedade capitalista na condição de competidor em seu trabalho. O autor relaciona essas ideias à noção de empreendedorismo, recente e proeminente signo dos discursos atuais. Segundo Cavalcante (2018), as condições mais flexíveis de trabalho, que atingiram tanto a classe trabalhadora quanto a classe média no Brasil, levam o indivíduo da classe média a, ainda na lógica da competência promovida pelas organizações, se encarar como empreendimento de si. Isso incentiva a predisposição da classe média ainda mais a transferir os valores meritocráticos do Estado, agora visto como corrupto, ao mercado, idôneo.
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