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A CORTE DE D MANUEL

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LIVRO Q UINTO A CATÁSTROFE

I. A CORTE DE D MANUEL

A conquista da Índia encheu de am bições o ânim o ostentoso do rei D. Manuel. Queria tam bém figurar entre os prim eiros soberanos da Europa, intervir de um m odo conspícuo na política internacional: e para isso resolveu m andar a Rom a um a em baixada, tão faustosa que deslum brasse o m undo. Ao Salom ão papal enviava o im perador de Sabá um tributo de cortesia que era ao m esm o tem po um escudo de pretensões. Menos de quatro séculos andados tinham bastado para que o rei de Portugal, o antigo hum ilde vassalo da Igrej a, se apresentasse hoj e, não aos pés, m as em frente do trono papal, vestindo o m anto roçagante de um im pério constelado pelas coroas do Oriente.

O rei de Portugal queria que se prosseguisse no Concílio de Latrão, na reform a dos abusos da Igrej a, porque « desde o tem po do papa Alexandre VI havia na corte de Rom a m uita soltura de viver e se dava dissim uladam ente licença a todo o género de vício, de m aneira que grandes pecados se reputavam por veniais» , diz Góis. « Am oestar o papa, continua, e pedir-lhe que quisesse pôr ordem e m odo na dissolução de via e costum es e na expedição de breves, bulas e outras coisas que em a corte de Rom a tratavam , do que toda a Cristandade recebia escândalo» , eis aí a causa de um a em baixada anterior e um m otivo tam bém da ostentosa m issão de agora. Queria, porém , m ais el-rei que se lavrasse entre os príncipes cristãos um a liga contra o Turco; queria ainda que o clero português contribuísse com um a coleta para as despesas da Índia; e que o padroado de todas as igrej as do Oriente ficasse à Ordem de Cristo, cuj o m estrado andava com a Coroa portuguesa. Sobretudo, o rei queria m ostrar ao m undo o que valia e o que podia, ostentando a sua riqueza em Rom a, aí onde o seu em baixador tinha de pagar tudo a peso de ouro – salvo os m ártires. Miguel da Silva anunciava a oferta de um a canonização grátis.

A em baixada, confiada a Tristão da Cunha, partiu de Lisboa em j aneiro (1514), e foi recebida em Rom a em m arço. Era um a procissão m agnífica, e o fausto espetaculoso do rei português conseguiu deslum brar essa corte de Leão X onde se reuniam os prim ores da civilização da Europa.

Partiram , prim eiro da porta del Populo, trezentos cavalos guiados à rédea por outros tantos azem éis, vestidos de seda, e os cavalos cobertos por m antos de brocado com franj as de ouro. Seguia logo a turba da criadagem , e após ela os portugueses de Rom a, seculares e eclesiásticos. Depois iam os parentes dos em baixadores, ostentando o luxo desvairado desses tem pos: chapéus de plum as bordados de pérolas e alj ôfar, grossos colares e cadeias de ouro cravej ados de pedras preciosas, arm as tauxiadas com em butidos e lavores, sedas, veludos, rendas, anéis; m ontando cavalos de raça, ornados de fitas e j aezes de preço. Eram m ais de cinquenta os fidalgos; e atrás do brilhante esquadrão via- se, prim eiro, um a com panhia de besteiros de cavalo, depois os oficiais da casa do Papa, com a sua guarda de honra de archeiros suíços e lanceiros gregos, a pé.

A cavalo, os m úsicos da em baixada portuguesa e trom beteiros e charam eleiros do Papa, reunidos, abriam a segunda m etade, m ais singular, do préstito capitaneada pelo estribeiro do rei, Nicolau de Faria, que m ontava um cavalo cuj os arreios eram esm altados de ouro cravej ado de pérolas.

Um elefante recam ado de xairéis preciosos levava, na sua torre, o cofre onde ia o pontifical oferecido por D. Manuel ao Papa; e um paire da Índia, vestindo os seus traj os de seda, ia governando o anim al dócil « tão form oso, sendo m ui feio, que era coisa gentil de ver» . Depois do elefante, num cavalo da Pérsia, m ontado por um caçador de Orm uz, ia deitada na anca um a onça dom esticada. Estes anim ais, dois leopardos em carros, encerrados em gaiolas, e o pontifical m agnífico eram as páreas que, dos seus dom ínios orientais, o rei enviava ao Papa. Morreu noutra viagem o rinoceronte, destinado a representar a África, m as foi depois em palhado para Rom a; não chegando porém lá as quintaladas de cravo, de pim enta, de canela, de gengibre, de m alagueta, carregação da nau que naufragou em Génova.

Depois das páreas, a em baixada form ava um grupo deslum brante de riqueza. Garcia de Resende, o secretário, era seguido pelo rei de arm as de Portugal, com a sua cota vestida, e pelos m aceiros do Papa, que precediam os em baixadores. Tristão da Cunha a cavalo « tão posto e tão poderoso com seu chapéu de pérolas que m atava todos de gentileza» vinha entre o duque de Bari e o governador de Rom a; Diogo Pacheco entre o bispo Alberto Cáspio; e João de Faria entre o bispo de Nápoles e o sábio Guilherm e Budeo, em baixador do rei de França. Depois seguiam os em baixadores de Castela e de Inglaterra, da Polónia, de Veneza e de Milão, de Luca e de Bolonha, cada um com seu bispo ao lado, e m archando em coluna, aos pares.

Havia séculos, desde o antigo Im pério, que a Itália não vira um elefante, e a novidade espantosa, correndo por toda a península, trouxera gente de m uito longe. Havia quem estivesse em Rom a desde m eses esperando o grande dia, e as ondas do povo alastravam o chão ansiosas: « Não sei contar a V. A. por onde vim , que eu não via outra coisa senão gente, sem pre gente» . O dia am anhecera chuvoso, m as aclarou depois, e nas ruas, nos palanques, nos telhados das casas, nos balcões, por toda a parte, o negrum e do povo se estendia a perder de vista.

Boa terça parte da população de Rom a, por trinta m il pessoas, andava nas ruas para ver o desfilar do préstito; e ao rum or, aos vivas, às exclam ações do povo, j untavam -se o estrondo das salvas de artilharia e o cântico m etálico dos sinos de todas as igrej as, repicando e dobrando com furor. Chegada a procissão em frente do castelo de Santo Angelo, o Papa, com os seus cardeais, apareceu na varanda a recebê-la; e o elefante, m olhando a trom ba, com o hissope, num a bacia de água perfum ada, aspergiu por três vezes, prim eiro o Papa, depois o povo. Singular cerim ónia, extravagante sacerdote!

À água abençoada de virtudes m ísticas, Rom a preferia as essências do Oriente; e um elefante de Ceilão valia m uito m ais, para a sua curiosidade naturalista, do que o fúnebre acólito, à entrada da nave obscura do tem plo cristão. A Igrej a triunfante era aclam ada na varanda de Santo Angelo.

É verdade que D. Manuel pedia, ou afetava exigir, que se reform assem os abusos da cleresia, que se m oralizassem os costum es, e intim ava com Gil Vicente:

Feirai o carão que trazeis dourado, Ó presidente do crucificado: Lembrai-vos da vida dos santos pastores Do tempo passado!

Mas se Leão X, o m agnífico Papa, não quis ouvi-lo, é fora de dúvida que o esplendor da em baixada traduzia m ais o am or pagão da vida do que o fervor m ístico da pobreza virtuosa, da caridade hum ilde do cristianism o legendário.

Mas foi m ais feliz o rei na pretensão que tinha de intervir nas pendências internacionais da Europa, propondo a liga contra o Turco e advogando a ideia quim érica da Idade Média, em que se abrasava o m isticism o espanhol[117]. O rei levava nisto, porém , um m otivo interesseiro, porque abater o sultão na Europa era libertar a sua Índia das esquadras dos rum es do Egito. Ninguém j á na Europa tinha ódio ao Turco; e D. Manuel podia ostentar a riqueza oriental, m as não podia im por a sua vontade à Itália, à França, à Alem anha – com o o fez m ais tarde Carlos V, o grande im perador. « Nem se fez o Concílio, nem se reform aram as coisas da Igrej a, nem m enos se pôs em obra a guerra contra os turcos» .

A em baixada ficaria com o um a ópera m agnífica, um a exibição deslum brante da riqueza oriental, um a satisfação estéril da vaidade portuguesa, se o Papa não acedesse às outras pretensões da coroa. Conseguiu-se o padroado pedido para a ordem de Cristo, coisa fácil; obteve-se a coleta das terças dos rendim entos eclesiásticos; e além disso a Cruzada, que o núncio trouxe, e na execução da qual, diz Dam ião de Góis, « por m au resguardo, culpa e dem asiada tirania dos oficiais dela, foi o reino m uito avexado, e sobretudo a gente popular, a quem fazia tom ar por força as bulas, fiadas por certo tem po, no cabo do qual, se não pagavam , lhes vendiam seus m óveis e enxovais publicam ente em pregão, por m uito m enos do que valiam : pela qual desum anidade os m ais dos executores desta Cruzada houveram m au fim » .

Não era, decerto, repetindo em casa o que j á levantava as cóleras e indignações da Europa, que o rei podia obrigar o Papa a reform ar a Igrej a; antes a venda das bulas trazia para Portugal o ferm ento de um protesto, que o espírito da nação não podia, é verdade, fazer levedar.

As questões religiosas, acordadas na Europa, tinham em Portugal um caráter particular. Na Península, a constituição acabada do poder m onárquico –

obra em que o rei D. Manuel trabalhou com afinco[118] – dava às nações um a coesão orgânica bastante para im pedir as revoluções anárquicas da França e da Alem anha, a cuj a som bra m edrava o protestantism o; e essa circunstância favorecia as tendências, evidentem ente católicas, do espírito coletivo. Por outro lado, a questão dos j udeus com plicava os problem as da reform a da religião, dando força à ortodoxia; porque o povo, sendo contra esses hereges[119], de um a espécie diversa, é verdade, encontrava, porém , nisto m ais um m otivo para condenar todo o género de heresia.

A estas causas devem os j untar o ardor m ístico da corte castelhana, que o rei D. Manuel, sem o partilhar, servia, na esperança de vir a herdar esse trono cobiçado, acrescentando m ais a influência que os felizes acontecim entos ultram arinos exerciam no ânim o de todos. Com o seria condenada por Deus a sabedoria de hom ens, a quem a Providência galardoava todos os dias e de um m odo inaudito? O céu abria-se um m ilagre: e a nação por ele favorecida protestaria? Nunca. Entre os pedidos gerais de reform a da Igrej a, form ulados por Gil Vicente nos seus autos, por Dam ião de Góis, o am igo dos humanistas, por todos e pelo próprio rei; entre esses pedidos e o protesto m ístico dos alem ães, há um a distância que nem sem pre se m ede bem . E com o havia de Portugal protestar se, para que as revoluções, quer religiosas quer políticas, rebentem , é indispensável o aguilhão da m iséria; e o reinado de D. Manuel via abrir-se o tesouro do Oriente, que parecia inesgotável?

D. João II tinha acolhido em Portugal os j udeus foragidos de Castela; e D. Manuel protegera-os até o dia em que casou. A expulsão dos j udeus foi o preço por que j ulgou pagar o im pério da Península. Inconsequente e dúbio na sua política, oscilando entre o bom senso e a am bição, obedecendo agora às suas opiniões, logo arrastado pelos clam ores do povo, o rei tornou-se réu das m atanças que no princípio do século m olharam em sangue tantas terras, e m ais do que todas Lisboa em 1506. O ódio aos j udeus era tradicional em toda a Espanha: Portugal não fazia exceção. Já no século XIV as cortes pediam a D. Pedro (1361) que não desse lugar aos j udeus de sua terra de onzenarem , reclam ando que « lhe deem legares aguizados pera sua m orada e esto m edez se estenda nos m ouros» . D. João II acolhera os expulsos de Castela, m as as cortes não cessam de pedir leis de exceção para essa gente que suj a o povo: que não usem vestidos ricos e só traj os por que sej am conhecidos (1482); que não sej am rendeiros das rendas reais, nem tenham ofícios públicos, nem sej am feitores de nenhum as pessoas (1490). O povo, para o qual os assassinos de Cristo eram réprobos, tem ia neles a habilidade e as artes com que, enriquecendo, desgraçavam o trabalhador. Esta velha questão chegava agora a um a crise[120]. Um dia, o rei D. Manuel tom ou a si o papel de Herodes, e com o um sátrapa m andou arrancar aos pais e batizar todos os filhos m enores de catorze anos, « a qual obra não tão som ente foi de grão terror m isturado com m uitas lágrim as, dor e tristeza dos j udeus, m as

ainda de m uito espanto e adm iração dos cristãos» . Ao m esm o tem po, num prazo breve, os j udeus haviam de receber o batism o, ou em barcar em navios que se lhes não davam . Era um choro, um a aflição desoladora, e Lisboa parecia um a Babilónia com as turbas dos cativos eleitos de Jeová. Os m alsins furavam pelas ruas, farej avam pelas casas à busca das crianças: as m ães escondiam os filhos no seio, fugiam clam orosas, caíam desgrenhadas soluçando. Muitas preferiam afogar os inocentes, arrem essando-os do seio ao fundo dos poços ou às águas do rio. E a desolação era tanta que os próprios cristãos davam guarida aos infelizes perseguidos.

Por outro lado, em Lisboa, onde, para em barcar, os j udeus tinham vindo de todo o reino, os Estaus da Ribeira apresentavam o aspeto de um acam pam ento antigo. Albergadas em barracas as fam ílias, vinte m il j udeus esperavam as naus de em barque, contando hora a hora o prazo da redenção. Esse prazo correu, sem virem as naus; por isso foram todos convertidos à força, porque os teim osos ficavam cativos. Este batism o forçado, causa de tantas desgraças posteriores, revela a política dúbia e falsa de um governo que não tinha a coragem purista do castelhano, depois de ter perdido o bom senso e a hum anidade dos tem pos anteriores. Desum anos, os atos eram ao m esm o tem po cobardes, pois o cronista diz com franqueza que se procedia assim com os j udeus por serem párias, sem rei nem terra, não se podendo j á fazer outro tanto aos m ouros, com m edo das represálias dos soberanos m aom etanos.

De tal m odo se originou a crise que teve na era de 1506 o seu prim eiro episódio trágico.

As fom es dos anos precedentes, a peste que lavrara no outono anterior e vitim ava, j á na prim avera, m ais de cem pessoas por dia, enchiam de aflição o povo da capital, que buscava um a causa a tam anhas desgraças. D. Manuel tinha fugido da peste, para Évora. O castigo trem endo, que a cólera divina im punha sem piedade, não podia ter outro m otivo senão a crim inosa proteção concedida aos j udeus. Batizados, m as não convertidos, eram um a viva e im pune blasfém ia; e todos os seus atos religiosos outros tantos sacrilégios. Deus estava, decerto, ofendido; e por isso castigava sem dó. E o pobre povo sofria tam anhas m isérias por causa desses m alditos que insultavam Deus dentro do seu tem plo sagrado, fingindo orar e com ungando! Eram só estas acusações vagas e m ísticas? Não eram . O batism o forçado dos j udeus tornara m ais grave ainda o problem a económ ico da sua existência. « Depois que tiveram nom e de cristãos, diz Dam ião de Góis, puderam tratar em m uitas coisas que pelo direito canónico expressam ente lhes eram defesas – das quais um a era não arrendarem os bens das igrej as nem nenhum as novidades, do que se seguia não haver naquele tem po tantas vezes carestia de m antim entos com o houve depois de eles com eçarem a tratar nisso, fazendo alevantar o preço das novidades da terra» .

lágrim as, pedindo a cessação do flagelo; e todas as noites, em S. Dom ingos, se faziam preces públicas. Houvera um m ilagre, a 19, dom ingo de Pascoela: a custódia ao lado do Senhor aparecera ilum inada; m as um herege ousou rir, dizendo que um pau seco não podia fazer m ilagres. Isto fez transbordar a ira de todos, e o tum ulto com eçou fulm inante. O ím pio foi tirado pelos cabelos, de rastos, para fora da igrej a, e logo ali m orto e lançado a um a fogueira.

Os m ercadores dos arcos do Rossio, desde a Betesga até S. Dom ingos, fecharam as loj as – onde vendiam as cassas de Holanda, os panos de linho cadequim da Índia, rendas, tranças, franj as e passam anarias – vindo em pessoa, com os seus escravos pretos e m ouros, engrossar o tropel. A m ultidão corria por debaixo dessa arcada, que lim itava por Oriente o Rossio, abrangendo o Hospital e o dorm itório do convento de S. Dom ingos, am ontoando-se às portas da igrej a, onde o burburinho era grande, e um frade, de crucifixo em punho, pregava, exaltando o furor religioso da turba.

As m ulheres agitavam -se coléricas pronunciando ditos obscenos, palavras descom postas, à m istura com as expressões de refinada devoção e de um fervente beatério. Incitavam os hom ens à m atança; e, do púlpito, o frade, oráculo do céu, definia com palavras os sentim entos da m ultidão. Os j udeus eram a causa da fom e, eram a causa da peste! De cruz alçada, saindo da igrej a, os frades vinham clam ando « heresia! Heresia!» concitando o povo à m atança.

Já houvera sangue, j á crepitava o lum e; e a cor rubra e os prim eiros ais dos m oribundos exacerbavam , com o a um touro, a fúria da plebe, açulada pelos serm ões dos frades energúm enos. Desencadeou-se a tem pestade, rebentando num a hora a cólera reunida em m uitos séculos. Cresceram as fogueiras no Rossio e na Ribeira; e os bandos iam caçar pela cidade os j udeus escondidos, invadindo as casas. Traziam -nos às m anadas de quinze ou vinte, am arrados, feridos, cuspidos, sem im ortos; e lançavam -nos, aos m ontes, nas fogueiras. As cham as crepitavam , e os gritos dos m oribundos conseguiam ouvir- se por entre o vozear da plebe. Os sinos dobravam a rebate, cham ando os fiéis à m atança. Viam -se os hom ens despirem -se, para m ostrar que, não sendo circunscisados, não podiam ser j udeus; porque o furor da plebe j á a arrastava a queim ar tudo, num a fogueira que purificasse os ares pestilentos. Além disso, as vinganças pessoais e o roubo soltavam -se à vontade no m eio da desordem . Queim avam -se os infelizes porque os tinham assassinado, e assassinavam -se porque se não deixavam roubar. Ao saque de Lisboa tinham corrido as tripulações dos navios do Tej o: eram m ais de quinhentos m arinheiros flam engos e outros; e na faina do roubo e da m atança andavam gentes de todas as nações e cores, invadindo as casas, violando as m ulheres e incendiando. No prim eiro dia, dom ingo, não faltou gente; m atou-se m eio m ilhar. Na segunda-feira eram j á m il e quinhentos os que andavam na faina da m atança. As j ustiças tinham fugido, o povo escondera-se, os j udeus aferrolhavam as portas, e enquanto os escravos

acarreavam lenha para as fogueiras, os bandidos assaltavam as casas com vaivéns e escadas. Arrancavam as crianças do colo das m ães desesperadas, e, tom ando-as pelos pés, esm agavam -lhes os crânios tenros contra os m uros. As casas escorriam sangue, que se precipitava pelas escadas, vindo reunir-se em poças nas ruas. Havia um cheiro nauseabundo de carne queim ada, risadas ferozes no rosto dos pretos, e olhares terríveis na face m acilenta dos frades, que pregavam às esquinas das ruas. Os desgraçados corriam às igrej as perseguidos, roj avam -se nos altares abraçados aos santos e às relíquias, e dali eram levados à fogueira arrastados pelos sicários. Na segunda-feira m ataram -se m ais de m il. Na terça acalm ou a fúria « porque j á não achavam quem m atar» . Três dias e duas noites durou a orgia; e no fim contavam -se m ais de trezentas pessoas queim adas, m ais de duas m il m ortas, e não se sabe quantas m ulheres, chorando com am argura a sua viuvez, a sua orfandade, a sua m iséria, a sua desonra.

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