CAPÍTULO I OS ESPAÇOS FÍSICOS – PATRIMÓNIO NATURAL E
5. A Cova da Beira – terras regalengas e poder concelhio
O terceiro núcleo de povoamento desta vasta região centra-se na fértil Cova da Beira, onde a vila da Covilhã assumiu a função de centro agregador e ordenador de toda uma vasta extensão, que se estendia de Valhelhas a Penamacor e Sortelha e aos limites das povoações de Manteigas, Monsanto e Idanha-a-Velha, englobando os territórios onde se iriam implantar as vilas de Belmonte, Castelo Novo, S. Vicente da Beira, Sarzedas, Sobreira Formosa, Vila Velha de Ródão e Castelo Branco494. Nunca será demasiado fazer notar que terá sido a partir da Covilhã que a tarefa de reorganização e (re)povoamento de toda esta vasta área geográfica – a actual Beira Interior sul – obteve os resultados almejados por D. Afonso Henriques quando ali iniciou o processo de «territorialização», com a já referida doação dos territórios entre os rios - Tejo, Elgia e Zêzere495
A vila da Covilhã, assim como a grande maioria dos restantes núcleos populacionais da Beira Baixa, tinha uma existência prévia ao movimento de “Reconquista”e reocupação cristã. Porém, a sua origem e fundação prende-se com a lenda e perde-se na memória do tempo. Não se sabe ao certo quando foi fundada, nem quais foram os primeiros homens que ali assentaram as suas vidas, mas que
.
496
a tradição remete para os Romanos497 e os Godos498
494
Sobre a Covilhã veja-se, Maria da Graça Vicente, Covilhã Medieval O Espaço e as Gentes (Séculos
XII – XV), Lisboa, 2012. Nas páginas que se seguem retomaremos parte do texto aí contido.
. Contudo, o seu nascimento histórico está identificado no tempo: a vila da Covilhã teve a sua certidão de nascimento com a atribuição do foral, em Setembro de 1186, outorgado por D. Sancho I, o “rei Povoador” e confirmado em 1217 por D. Afonso II. É certo que não se tratava de uma fundação, como advertiu Alexandre Herculano e se depreende no próprio texto da carta de Foral. Objectivava-se, então, restaurare et populare Coveliana, sendo que o diploma da
495 Doação dos territórios da Egitânea e Monsanto aos freires templários.
496 Alguns achados arqueológicos, bem como as gravuras rupestres nas margens do Zêzere, atestam a
presença humana, nesta região, desde o paleolítico. Cf. João Carlos CANINAS et ali, “Novos Dados sobre a Pré-História Recente da Beira Interior Sul. Megalitismo e Arte Rupestre no Concelho de Oleiros” in Estudos de Castelo Branco. Revista de Cultura. Nova Série, n.º 3, Julho 2004, pp. 97-123.
497 Uma das hipóteses liga-a a Júlio César, por volta do ano 41 a C., donde teria derivado o seu nome -
Cova Júlia. Seria Silia Hermínia, segundo tese de Heitor Pinto. Se a hipótese da sua origem romana está longe de ser comprovada, contudo, os vários achados arqueológicos desse período, sem esquecer a enigmática construção de Centum Cellas, atestam uma forte presença dos homens de Roma em terras da Beira, e da Covilhã.
498
Como para muitas outras terras, a Covilhã tem também uma lenda fundadora que lhe teria dado o nome, e que em simultâneo associa a povoação aos godos: cerca de 700 anos depois de Cristo, o rei Witisa nomeou o conde D. Julião para governador de Sília Hermínia, este apaixonou-se pela bela Florinda, filha de D. Rodrigo, que naquele tempo estava no Norte de África, e ao saber dos amores do conde com sua filha para se vingar abriu as portas da Península ao Islão.
91 institucionalização da vila foi precedido pela doação régia, à Sé de Coimbra, em Maio do mesmo ano, das igrejas construídas e a construir na vila e termo499. A dar crédito a Pedro Alvares Nogueira, um chantre da Sé conimbricense, em tempos do Bispo D. Manuel Salomão (1158-1176), teria legado uma igreja na Covilhã ao Cabido da Sé de Coimbra500. Com a outorga do seu primitivo foral, a Covilhã entrava formalmente nas vilas do Reino. Foi escolhido o modelo atribuído à vila de Ávila e posteriormente transmitido a Évora501. Modelo que, a partir da Covilhã, se espalhou pelo conjunto da região da Beira Baixa, imprimindo uma certa uniformidade jurídica, fiscal e social, à totalidade do território em análise. Após a atribuição do foral, a urbe conhece um progressivo e até rápido desenvolvimento, passando a ser um centro polarizador de toda a vasta região, a sul da Estrela, na fronteira do Alto Tejo, modernamente designado por “Tejo internacional”. Pode dizer-se que o enorme termo então delimitado ocupava uma parte substantiva do antigo território da Sé Visigótica da Egitânia. Termo que, escassos anos após ter sido demarcado e consignado, viria a ser amputado para instituição de novas municipalidades. A criação destes novos concelhos, alguns dos quais por iniciativa das ordens militares, do Templo e do Hospital, alterou a relação de forças em presença, tornando-se uma fonte de futuros conflitos.
Tracemos as principais linhas de força da ocupação do espaço em torno da Covilhã, fruto das potencialidades agrícolas dos ricos solos da Cova da Beira, que são os de maior fertilidade de toda a região em análise. Retomamos o sentido da política de D. Sancho I, a que já aludimos, no âmbito da qual este rei, em 1186, concedeu foral às vilas de Gouveia (Fevereiro), Covilhã (Setembro), em 1187 a Folgozinho e, no ano seguinte, a Valhelhas e, provavelmente, a Manteigas502
499
Cf. AN/TT, Sé de Coimbra, Documentos Régios, m.1, n.º 21; Idem, Livro Preto da Sé de Coimbra, fl. 5v, doc. 6; Publicado in, Miguel Ribeiro VASCONCELOS, Noticia Histórica do Mosteiro da Vacariça, doc. 23; Alfredo PIMENTA, Alguns Documentos para a História da Covilhã, in Subsídios para a
História da Beira Baixa, vol. I, 1950, doc. 1, p. 5; Rui de AZEVEDO, et ali., Documentos de D. Sancho I (1174-1217), Vol. I, Coimbra, 1979, doc. 9, p. 12.
. Em 1199 foi a vez da Guarda. Urgia reorganizar e politizar estes territórios! Urgia povoar e fazer frutificar!
500 “ (…) hũ mestre Domingues chantre desta see deixou huã jgreja em Couilhã (…)”, Livro da Vida dos
Bispos da Sé de Coimbra, (Século XVI), escrito pelo cónego Pedro Álvares Nogueira, publicacção de
António da Rocha Madahil, p. 53.
501
Foral outorgado por D. Sancho I, em Setembro de 1186. Cf. IAN/TT, Gaveta, 15, m. 22, n.º 1; PMH.,
Leges, pp. 456-49; J. P. RIBEIRO, Dissertações Chronologicas, III, p. 177, n.º 569; Rui de AZEVEDO,
et ali. Op. Cit., doc. n.º 12, pp. 16-20.
502 No Foral Manuelino, datado de 4 de Março em Lisboa, faz-se uma referência ao Forall dado ao
92 Urgia atrair e fixar povoadores para uma região que se apresentava pouco atractiva, como vimos referindo. Logo no início do seu reinado, D. Sancho I, querendo
restaurare et populare Coviliana, outorgou-lhe carta de Foral, paradigma de
Ávila/Évora, geralmente concedido nas regiões de fronteira, que se pretendia povoar e organizar, militar e politicamente e que se caracteriza, entre outros factores, pela leveza da sua carga fiscal. A norte do rio Tejo, a Covilhã, foi a primeira povoação a receber este modelo de Foral. A referida leveza fiscal foi acrescida, neste caso, da isenção a todos os seus moradores do pagamento de montado e de portagem em todo o Reino. Os cavaleiros eram equiparados aos infanções de Portugal de outras terras; os clérigos aos cavaleiros e os peões aos cavaleiros vilãos. O documento contemplava ainda a mobilidade e ascensão social, pois, a partir de um certo grau de riqueza, ascendia-se ao grupo dos cavaleiros503. Todo o servo cristão que habitasse na vila, ao fim de um ano tornava-se livre, ele e a sua descendência. Garantia, igualmente, aos escravos, que oravam a Alá, a possibilidade de resgatar a sua liberdade e talvez ficar como colonos504. Garantia-se assim o sucesso da iniciativa e vontade régia na criação de um firme ponto de apoio para ocupar, de facto, estas terras505
A carta de Foral delimitava um território imenso à urbe .
506
, que teria tido o seu primitivo assento na baixa encosta, na ladeira de Mártir-in-Colo507
da Beira, fl. 86v. Sobre este tema veja-se, Foral Manuelino de Manteigas, apresentação de João L. Inês
VAZ, Manteigas, 2.ª ed., facsimilada, 2008.
. Provavelmente só
503 Um casal, uma junta de bois, 40 ovelhas, um jumento e duas camas. 504
Como parecem indiciar os apelidos: «Negro» ou «Crespo».
505 Na senda de Alexandre Herculano é vasta a bibliografia sobre os forais. Entre estes estudos e
interpretações, «por vezes controversas», destacamos: Alexandre HERCULANO, História de Portugal.
Desde o Começo da Monarquia até ao Fim do Reinado de D. Afonso III, tomo VII, 9ª edição, Lisboa,
[s.d.], p. 175 e segs.; Torquato de Sousa SOARES, “Política Administrativa”, in História da Expansão
Portuguesa no Mundo, vol. II, Dir. Damião Peres, Lisboa, 1937, pp. 78-87; Mário Júlio de Almeida
COSTA, “Forais”, in D. H. P., vol. II, Dir. Joel Serrão, pp. 279-281; José MATTOSO, “Forais”, in
Dicionário Ilustrado da História de Portugal, vol. I, Dir. José Hermano Saraiva, [Lisboa], 1986, pp. 265-
266; Maria Ângela da Rocha BEIRANTE, Évora na Idade Média, Lisboa, 1995, António Matos REIS,
Origens dos Municípios Portugueses, 2.ª edição, Lisboa, 2002; Manuela Santos SILVA, “O Foral de
Palmela de 1185”, in Os forais de Palmela. Estudo Crítico, Palmela, 2005; Maria da Graça A. S. VICENTE, op. cit., pp. 73-82; Maria Helena da Cruz COELHO, «O Foral de Penamacor no Contexto da Política Concelhia do Seu Tempo», in Penamacor 800 Anos de História, 2009, pp. 19-32.
506 Sobre os limites e extensão do termo da Covilhã, vide. Humberto Baquero MORENO, “O Foral da
Covilhã de 1186 e a evolução do concelho na Idade Média”, in Revista de Ciências Históricas, Universidade Portucalense, Vol. II, 1987, pp. 149-160; Do foral à Covilhã do século XII, Grupo de professores da Escola Secundária Frei Heitor Pinto, Covilhã, 1988; Maria da Graça VICENTE, op., cit., 2012, pp. 18-23.
507 Vide, Frei Manuel da ESPERANÇA, História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de S.
Francisco na Província de Portugal […], Lisboa, 1656, pp. 421-430; Maria da Graça A. S. VICENTE, op. Cit., p. 28-29.
93 depois da construção do castelo, atribuída a D. Sancho I508, é que a povoação subiu a encosta para ocupar a sua posição altaneira, entre as ribeiras da Carpinteira e Goldra509
Depois de instituída, a vila parece ter conhecido um rápido e progressivo desenvolvimento, por certo potenciado por uma forte comunidade judaica, apoiada pela presença de um delegado do rabi-mor
.
510
. Desenvolvimento denunciado pela chegada dos frades da Ordem de S. Francisco, que ali se instalaram, provavelmente em 1235, poucos anos após a sua criação como Ordem, e a sua chegada ao reino511, bem como pela referência a uma gafaria512 e a uma albergaria513 no arrabalde, escassos anos após a institucionalização da vila. A criação de uma feira, em 1260, foi mais um factor de desenvolvimento económico514, expresso num dinamismo económico e demográfico que a presença de cinco tabeliães, de nomeação régia, confirma515, bem como no elevado número de igrejas, tanto na vila como no espaço periurbano. Tudo isto, a par do número crescente de portas e postigos516
508«[…] El Rei Dom Sancho I no ano de 1186 com privilégios grandes para seus povoadores a tornava a
levantar, os quaes lhe derão principio mais abaixo donde agora está, na ladeia de Martim Collo, na quall ainda se vem signaes de fabricas velhas, e juntamente igrejas: humas em pé outras no chão: outras caindo por terra, subindo depois para sítio mais alto […]» Cf. Frei Manuel da ESPERANÇA, op. cit., pp. 421- 430. Recorde-se que D. Sancho I deixaria mencionado no codicilo do seu primeiro testamento uma verba, avultada, para a construção dos muros da Covilhã. Cf. Documentos de D. Sancho I, (1174-1211), Coimbra, 1979, doc. 31, pp. 49-51.
, atesta o seu desenvolvimento. Por isso, é
509
Os castelos perduram ainda como a imagem mais persistente e significativa da paisagem medieval. Sobre a escolha dos locais de implantação e técnicas de construção, bem como sobre a morfologia, fisionomia e sua evolução ao longo de toda Idade Média veja-se, Mário Jorge BARROCA, Do Castelo da
Reconquista ao Castelo Românico (Séc. IX a XII), Lisboa, 1994; Idem, «Aspectos da Evolução da
Arquitectura Militar na Beira Interior», in [Actas] Ias Jornadas do Património da Beira Interior, 1-3-
Outubro 1998, Guarda, 2000, pp, 215-238; João Gouveia MONTEIRO, Os Castelos Portugueses dos
Finais da Idade Média. Presença, Perfil, Conservação, Vigilância e Comando, Lisboa, 1999.
510 A referência à presença de judeus na Covilhã remonta ao tempo da outorga do Foral. Em 1186, no
texto desse diploma ficou consignada a protecção aos mercadores, tanto cristãos como judeus, seguindo- se depois uma menção a um certo judeu da Covilhã, a quem teriam pertencido alguns objectos de prata, referidos num Inventario de contas da Casa do rei D. Dinis. Data também do reinado deste monarca a presença de um dos sete ouvidores do rabi-mor. Cf. Foral da Covilhã, PMH, Leges, pp. 418-420; “Inventários de Contas de D. Dinis, 1278-1282”, in Arquivo Histórico Português, vol. X, Lisboa, 1916, pp. 41-60; Ordenações Afonsinas, Livro II, título, LXXXI, pp. 476-491.
511 Sobre a chegada e instalação dos frades franciscanos na vila da Covilhã veja-se, Frei Manuel da
ESPERANÇA, op. cit., 421- 430; Maria da Graça VICENTE, Op. cit.; Carlos Manuel Dias MADALENO, Convento de S. Francisco. Um Olhar Através dos Tempos, Covilhã, 2009.
512 A primeira referência aos gafos da Covilhã, data de 1207, encontramo-la na demarcação de um chão
em Mártir-in-Colo. AN/TT, Livro de Mestrados, fl. 21, e fl. 35.
513 Albergaria de S. Pedro, referida em 1207, da qual nada mais se conhece. Cf. AN/TT, Livro de
Mestrados, fl. 21, e fl. 35.
514 Feira criada, em Julho de 1260, por D. Afonso III, cujo modelo foi depois paradigma para outras várias
feiras, a realizar pela festa de Santa Maria de Agosto. Sobre a criação de feiras veja-se o clássico estudo de Virgínia RAU, As Feiras Medievais Portuguesas. Subsídios para o seu Estudo, Lisboa, 1982.
515
Na Covilhã e termo oficiavam 5 tabeliães, que pagavam uma renda anual ao rei de 150 libras, de acordo com documento lavrado na Covilhã a 6 de Setembro de 1280. Cf. IAN/TT, Gaveta XI, mç. 2, n.º 38.
516 Sobre as várias portas e postigos que rompiam a muralha veja-se. Maria da Graça A. S. VICENTE, op.
94 natural que rapidamente a povoação tenha galgado a muralha, deixando os espaços intra-muros, desguarnecidos de gentes517. Neste movimento era objectivo de muitos fugirem dos espaços acanhados dentro de muros e, porventura, a um mais apertado controlo fiscal e tributário concelhio e régio518. Em consequência, em breve, no imenso termo da Covilhã, apesar de amputado pela criação de novos municípios, se espalharam dezenas de agregados populacionais. Por outro lado, poderes diversos se iam instalando, mercê de sucessivas doações. Tal acontecia, por exemplo, em 1207, quando Pedro Guterres, alcaide da Covilhã, fez doação, à Ordem do Templo, de um chão em Mártir- in-Colo, a confrontar com vários proprietários, casas e estruturas urbanas519. Também Paio Rotura, que tinha uma sua herdade na ribeira de Vide, termo de Covilhã520, dela fez doação, no mesmo ano, aos cavaleiros do Templo, juntamente com sua mulher D. Marina Gonsalves521. Nesse local, junto à nascente da Vide, e na mesma data (Agosto de 1207), doou Pedro Guterres a sua herdade, também à milícia do Templo522
Na derradeira década do século XIII, reconhecia D. Dinis o peso e importância dos vários núcleos de povoamento que se vinham afirmando
.
523
517
Por isso, D. Fernando, consciente da necessidade de o intra-muros estar bem defeso, em Fevereiro de 1375, concede aos moradores da cerca carta de privilégios, entre os quais se contavam o exclusivo dos
ofícios honrados, isenções tributárias como a aposentadoria, o pagamento de talhas, e fintas, bem como
ter prioridade no recrutar de mancebos, obreiros e serviçais. Cf. AN/TT, Chancelaria de D. Fernando I, Liv. 1, fl. 167, 167v.
. E séculos depois, Frei António Brandão, ao lembrar e enaltecer o segundo monarca de Portugal, aponta, entre as coisas notáveis do seu reinado, a «fundação de villa de Covilham», acrescentando que a vila crescera notavelmente, sendo na época uma das boas povoações do reino e, «[…] mais notavel que todas pelo grande termo que tem, em que se incluem mais de
518 Elemento definidor de cidade de acordo com as partidas de Afonso X, as muralhas eram na sugestiva
escrita de Amélia Andrade, «um anel de pedra», anel protector que se podia tornar ou fazer-se sentir como um elemento inibidor do crescimento. Amélia Aguiar ANDRADE, Horizontes Medievais, Lisboa, 2003, p.14.
É muito extensa a bibliografia sobre os espaços urbanos medievais. Por todos veja-se Jacques Le GOFF, “L’apogée de la France urbaine medieval. 1150-1330”, in La ville au Moyen Age, Paris, 1998.
519 Propriedade delimitada pela via que vai para Santo Estêvão, seguindo até onde foi a casa de Fernando
Galego daí seguia, dividindo-se pelo caminho que vai de Santo Estêvão aos gafos e depois pelo caminho que vai de Santo Estêvão até á albergaria de São Pedro onde confrontava com Garcia (…). Cf. AN/TT,
Livro Mestrados, fl. 35; BN, Reservados, Códice 736, fl. 202.
520 Não conseguimos identificar com segurança esta ribeira. De facto existe uma ribeira de Vide, junto a
Trancoso e, por outro lado, na vertente norte da Estrela, perto das povoações de Alvoco e Loriga, existe uma povoação – Vide. Porém, a herdade doada na Vide por Pedro Guterres refere nas suas delimitações os montes que vão até à vila de Castelo Novo.
521 Propriedade que confrontava com a ribeira e com uma propriedade de Pedro Moço. Cf. AN/TT, Livro
de Mestrados, fl. 21v; BN, Reservados, Códice 736, fl. 203v.
522 Cf. AN/TT, Livro de Mestrados, fl. 21; BN, Reservados, Códice 736, fl. 202.
523 […] Sabedes uos que no uosso termho a muytas aldeyas e a y muytas que son gran peça alongadas
[…], referia D. Dinis pela sua carta dirigida ao Concelho da Covilhã, datada de Lisboa a 3 de Junho de 1291. Cf. AMC, Pergaminhos, n.º 35
95
trezentos lugares […]»524
A norte da Covilhã, na margem esquerda do rio Zêzere, numa zona fértil, irrigada por vários cursos de água
. Mas quando se fundaram? Quem foram os seus primeiros
moradores? Como se organizaram? E como se desenvolveram num meio tantas vezes adverso? As respostas não são fáceis. Na sua maioria eram pequenos povoados de camponeses, sem estruturas administrativas e judiciais próprias, que não deixaram documentadas nem a sua existência, nem os seus esforços na conquista por um pedaço de terra arável. Tentemos algumas respostas.
525
, surge a vila de Belmonte (1199). Porém, o primeiro registo documental, nesta área, pertence à povoação de Centum Cella, povoação que terá beneficiado do seu assento à beira da via romana de Emérita Augusta para Viseu526. Aparece na documentação no ano de 1194, data em que D. Pedro Soares, Bispo da Sé de Coimbra, querendo restaurar e povoar a sua herdade, que lhe fora doada por D. Sancho I, juntamente com a rainha e seus filhos, lhe outorga carta de Foral, seguindo o modelo da Covilhã527. A herdade de Centum Cella parece ter sido uma das primeiras parcelas retiradas do vasto termo covilhanense528. Entre as testemunhas que confirmaram o foral, estavam as autoridades civis e religiosas da Covilhã,529 na pessoa do seu representante, o então arcediago – Johannes. Ao instituir o novo concelho, foi- lhe igualmente delimitado o seu termo530. Todavia, a povoação em breve seria suplantada por Belmonte, erguida em local cimeiro, permitindo assim uma melhor vigilância do espaço em redor. Também Belmonte recebeu foral modelo de Covilhã531, que lhe delimitava e atribuía o termo, anteriormente pertencente a Centum Cellas532
524
Frei António BRANDÃO, Monarquia Lusitana, Vol. IV, Lisboa, 1974, p. 4.
.
525 Entre os vários cursos de água refiram-se as ribeiras de Gaia, ribeira de Maçainhas e ribeira de Inguias,
todos afluentes da ribeira de Caria. Cf. Instituto Geográfico e Cadastral, Carta de Portugal, 1:200 000,
Beiras, Série M 585, fl. 4.
526
Na delimitação do seu termo, há referência à viam ueteram que uenit de monte santo (…), Cf. PMH.,
Leges, pp. 487-488.
527 Damus et concedimus forum Couelliane atque consuetudine (…). Cf. PMH., Leges, pp. 487- 488; Rui
de AZEVEDO, Documentos de D. Sancho I (1174-1217), vol. I, doc. n.º 230, pp. 338-339. .
528
Segundo J. M. Vargas, a herdade de Centum Cellas teria sido doada à Sé de Coimbra entre 1185-1194, por D. Sancho I, sendo assim pertença do Senhorio da Sé conimbricense desde essa data. Vide, José Manuel VARGAS, Forais de Belmonte 1199 e 1510, Belmonte, 2001.
529 «Omne couelliane concilium test». Cf., Foral de Centucelas. 530
«Damus ei termino per texeiras, sicut cadet in ozezar, et deinde ad portum de monte sancto, et deinde
per viam ueteram que uenit de monte santo, et deinde sicut transita ad lauacolos, et deinde per cabeça de castradinos, et deinde a riuulo de nozer, deinde sicut diuidet cum sarguarzal.».